quarta-feira, 6 de junho de 2007

Falta-nos tudo

«Político dinamarquês diz que Portugal ainda não está preparado para a implementação da flexigurança». Pois não. Falta-nos tudo: sindicatos fortes, políticas de formação generalizadas, uma burguesia mais responsável e menos rentista, mecanismos de redistribuição robustos, uma força de trabalho mais qualificada, uma sociedade mais igualitária onde a cooperação e a confiança estejam menos corroídas. Enfim, uma variedade de capitalismo com um Estado Social mais decente.

Crítica preventiva

Numa altura em que se acumulam os sinais de alguma recuperação da actividade económica, embora ainda sem quebras nas taxas de desemprego, o BCE irá provavelmente, como bem afirmou o Pedro Nuno Santos, fazer «o papel de carrasco de muitas economias nacionais». Qual é a racionalidade da subida das taxas de juro num contexto de inflação residual e de elevado endividamento? Mais uma vez, julgamos que a decisão do BCE tem de ser entendida à luz de um mandato que lhe atribuiu a missão exclusiva de velar pela estabilidade estrita dos preços, relegando o crescimento e o emprego para um lugar subordinado.

Adicionalmente, não será de rejeitar o contributo de um corpo de dirigentes e funcionários formados num quadro teórico impecavelmente ortodoxo, segundo o qual os problemas de desemprego à escala europeia se devem não a uma insuficiência da procura agregada resultado de políticas económicas contraccionistas, mas à famosa, ainda que não corroborada por estudos empíricos sérios, «rigidez» do mercado de trabalho europeu.

Como a teoria económica, mesmo quando errada, pode contribuir para instituir a realidade que descreve, aqui temos a manutenção de níveis de desemprego elevados a servir como mecanismo disciplinar que facilita as reformas neoliberais no «mercado de trabalho» preconizadas pelo BCE e pelos governos. Perante isto, o poder político democrático, pela voz do Ministro das Finanças, limita-se a lamentar a prisão que ele próprio criou: «É de facto um aspecto negativo que está para além do poder de intervenção do Governo». Há poucas coisas que corroam mais os fundamentos da democracia do que esta impotência consentida.

Para acabar de vez com as ilusões

É um lugar-comum dizer que o Bloco de Esquerda (BE) é favorecido pela comunicação social. Nos primeiros anos de vida, o BE mereceu, de facto, um tratamento simpático e desproporcional à sua dimensão (em grande parte por mérito próprio), mas esse estado de graça terminou assim que começou a ganhar massa crítica (capaz de fazer mossa ao centro cinzentão PS/PSD). Para acabar de vez com as ilusões, veja-se isto e mais isto.

terça-feira, 5 de junho de 2007

A esquerda gramsciana

«O que temos pela nossa frente já não é um país com a memória das conquistas do período pós revolucionário. O que temos pela frente é um consenso neo-liberal que se torna, a cada dia que passa, cada vez mais hegemónico e que começa a ser interiorizado com amargura até pelas suas principais vítimas (. . .) Se há à esquerda quem se presta ao papel de carrasco das conquistas sociais dos século XX, teremos de ser nós a ganhar o espaço político que o PS deixou vazio». Daniel Oliveira, na sua intervenção no congresso do Bloco de Esquerda.

Combinar o pessimismo da inteligência com o optimismo da vontade é a essência da intervenção política. Como afirmou António Gramsci, uma das mais interessantes figuras do pensamento marxista do século XX. Foi precisamente Gramsci, também um dos mais denodados adversários do determinismo economicista, que defendeu a ideia de que «não é a estrutura económica que determina directamente a acção política, mas a interpretação que dela se faz».

A partir daqui, Gramsci desenvolveu e aplicou todo um leque de conceitos (hegemonia, consenso, intelectual orgânico, senso comum, bloco social) que apontam para a importância decisiva da luta das ideias e da construção de um novo senso comum ético-político capaz de confrontar globalmente as representações dominantes. Passo determinante na necessária construção de um amplo bloco contra-hegemónico que quebre o consenso neoliberal e a sua aceitação passiva pelos grupos sociais que hoje são subalternos. Tarefa exigente, mas mais do que nunca necessária.

Um Serviço Nacional de Saúde virtual?

«A instalação, crescimento e sobrevivência de um forte sector privado no domínio da saúde só é possível à custa da ‘sangria’ do SNS em recursos humanos, sobretudo os mais diferenciados, do seu financiamento público através de contratos e convenções e da indução da sua procura pelas ineficiências quantitativas e qualitativas da oferta pública, relacionadas com dificuldades de funcionamento do SNS (. . .) Desequilibrando a seu favor a prestação e a gestão, os grandes grupos privados asseguram para si o controlo e a direcção das actividades e dos serviços de saúde. A saúde constituirá, então, um vasto e lucrativo mercado, obedecendo às regras ditadas pelos interesses dos grupos financeiros (. . .) Um SNS para pobres será, sempre, um pobre SNS». (Esquerda.net)

De facto, uma das tendências mais preocupantes para o futuro do SNS, é o reforço, com o apoio claro do Estado, da presença do sector privado nesta área. O interesse dos grupos privados rentistas por este sector é evidente. Afinal de contas, como afirmou uma responsável pelo «negócio da saúde» (não vos soa estranha a junção destas duas palavras?) do grupo BES, «melhor do que o negócio da saúde só a indústria de armamento». Ganhando «músculo» nesta área os grupos privados estarão em condições de responder melhor à procura, de fazerem pressão junto do poder político e de assim corroerem as bases em que assenta qualquer serviço público decente: a sua utilização pela esmagadora maioria dos grupos sociais. Afinal de contas foi o ultraliberal Milton Friedman que afirmou que «programas para pobres são pobres programas». Simples questão de poder e de dinâmicas de reivindicação política.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

A ecologia e a esquerda

Foi com grande satisfação que vi o bloco erguer a ecologia como a principal bandeira da sua convenção. A forma como lidamos com o planeta tem sido sempre um dos grandes tabus da esquerda portuguesa. O assunto é desvalorizado sistematicamente e raramente convocado para os grandes debates nesta comunidade política. A título de exemplo, veja-se as vezes em que neste blog se escreveu sobre o assunto... Não é isto que se passa em grande parte da Europa e tendo a explicar esta nossa originalidade com o hiato temporal que habitualmente nos separa em quase tudo do resto da Europa.

Quero acreditar que esta aposta do Bloco constitui efectivamente uma mudança de postura e um marco importante para que a esquerda radical comece finalmente a dar mais importância às questões ecológicas. Porém, não consigo esconder o receio de que esta seja apenas uma bandeira para encher o olho, à semelhança do que fez o PCP nos anos 90 com a criação do ridículo partido «Os Verdes» que resultou na desonesta coligação CDU.

France is back

«Sócrates regozijou-se hoje com o regresso de França à liderança da Europa». Foi simples, bastou que os franceses elegessem Sarkozy para Presidente.

A propósito da visita de Sarzkozy, vale a pena recordar

«Ainda bem que os socialistas franceses não são como ele [Sócrates], senão teria dificuldade em posicionar-me». Sarkozy, ainda enquanto candidato a Presidente de França.

Se não fosse um Blog de direita...



... a Convenção do Bloco passava despercebida.

É incrível a dualidade de critérios na cobertura mediática entre o Congresso do PP e do Bloco. Aguardarei pacientemente um estudo de Audiometria sobre o assunto. Embora menos escandalosa que a dos privados, a cobertura daquilo a que se chama, com manifesto exagero, o serviço público de televisão é, pura e simplesmente, uma violação da lei, que obriga a critérios mínimos de tratamento imparcial. Mesmo entre partidos que roubam votos ao Governo e partidos que roubam votos ao PSD.

Resta-nos o 31 da Armada, que foi creditado como imprensa pela organização da convenção. São dezenas e dezenas de postes sobre a convenção: provocatórios, insultuosos, distorcidos, reaccionários, arqui-reaccionários, engraçados, desportivistas, e até interessantes. É uma desgraça mas é melhor do que o silenciamento. Tristes dias estes em que os activistas de esquerda têm de aturar o Rodrigo de Moita de Deus...

Outros grandes álbuns com 40 aninhos


The Velvet Underground and Nico (1967). Marie, os anos sessenta não são só os «The Beatles».

De potência marítima a estado costeiro


O Público de hoje noticia uma quebra da produção pesqueira nacional de 37 % nos últimos vinte anos. Um conjunto de motivos para esta evolução é apresentado: esgotamento dos stocks, imposição de quotas de produção, novas zonas económicas exclusivas a serem demarcadas com restrições ao movimento de frotas estrangeiras. Todos estes motivos são reais e pertinentes. No entanto, ficam curtos quando comparamos Portugal com Espanha, um país que enfrenta o mesmo tipo de restrições, mas que detém uma poderosa indústria pesqueira (concentrada na Galiza).

O que o artigo do Público esquece é a responsabilidade das políticas públicas nacionais neste longo declínio. No notável livro «Economia e Política das Pescas», Álvaro Garrido explica-nos como temos que recuar ao salazarismo para encontrar a explicação para a actual crise, recorrendo ao exemplo da pesca do bacalhau (ex-libris das pescas nacionais). A promoção e protecção salazarista do sector bacalhoeiro, durante o pós segunda guerra mundial, teve sempre como contrapartida a regulação dos preços do bacalhau no mercado nacional. Uma imposição que a oligarquia das pescas nunca aceitou e que conseguiu eliminar no final dos anos sessenta. Contudo, a liberalização deste mercado colocou, de um momento para o outro, a nossa frota (tecnologicamente atrasada) em competição com os modernos arrastões de outros países. Começa então o lento fim das nossas pescas longínquas.

Com a entrada na U.E. o sector viveu um novo choque. Com o argumento de uma pretensa modernização do sector, verificaram-se mais de mil projectos de imobilização definitiva de embarcações de pesca. O resultado foi, pois, a abrupta redução da nossa capacidade produtiva. Portugal passou assim de potência marítima, internacionalmente reconhecido, a Estado costeiro, com uma enorme (e em crescimento) zona económica exclusiva que pouco nos serve.

Complacentes com o desemprego

«Os membros do conselho do Banco Central Europeu (BCE) Axel Weber e Miguel Fernandez Ordonez referiram que o banco não pode ser complacente com a inflação, mesmo depois desta ter ficado abaixo dos 2% em Maio, pelo nono mês consecutivo.»

As fronteiras ainda contam

«Os indicadores económicos mais recentes não deixam margem para dúvidas a Galiza atravessa o período mais próspero da sua história e promete, até, superar todos os índices de crescimento de Espanha. A produtividade dispara, impulsionada pelos sectores da indústria e serviços».

Aumenta o contraste entre os dois lados da fronteira a norte. Assim, a «remuneração média na Região Norte é de 636 euros e na Galiza de 1240 euros». No Jornal de Notícias de hoje.

O peixe e a cana

Como afirmou a jornalista Barbara Ehrenreich, no livro Salário de Pobreza, um notável ensaio/reportagem sobre os trabalhadores pobres nos EUA, «uma estranha propriedade óptica da nossa sociedade altamente polarizada e desigual torna os pobres quase invisíveis aos seus superiores económicos».

Alfredo Bruto da Costa é um dos investigadores que mais tem mais feito para tornar visível o fenómeno da pobreza em Portugal. Ontem deu uma notável entrevista na RTP2 (reproduzida hoje no jornal Público). Cinco ideias centrais: (1) a necessidade de perceber melhor a extensão da pobreza entre os que têm emprego (40% dos pobres); (2) a recusa da ideia de que é preciso crescer primeiro para distribuir depois: «ouço-a há 40 anos e estou à espera do dia em que já crescemos o suficiente para distribuir»; (3) a defesa da ideia de que a questão central é escolhermos, «das várias maneiras de crescer», «a que assegura o crescimento com maior distribuição»; (4) a defesa de mecanismos mais robustos de distribuição, nomeadamente através da taxação dos rendimentos do capital que são captados pelas famílias mais ricas; (5) finalmente, a defesa de que é preciso superar a dicotomia «entre dar o peixe ou dar a cana para pescar»: «não vale a pena dar uma cana a alguém que está com tanta fome que não pode sequer levantar-se para chegar ao rio para pescar». Sensibilidade e bom senso.

Quem diria que foi há 40 anos?



Talvez o melhor álbum de todos os tempos...

O elogio à greve de um democrata de direita

Um dos melhores intelectuais da direita portuguesa, Pacheco Pereira, voltou a publicar um artigo brilhante no Público que se pode encontrar no Abrupto. É sobre a greve geral. Deixo aqui algumas passagens que não devem dispensar a leitura integral do artigo:

«A maioria que escreve sobre as greves, esta ou outras, tem como atitude típica o desdém. Desdenhar que se use essa forma "arcaica", "antiquada", "comunista" de fazer greve, como se os sindicatos e o direito à greve não fossem uma das características centrais do funcionamento de uma sociedade democrática, um dos instrumentos de defesa de interesses dos trabalhadores. Sim, porque as greves não se fazem em nome do interesse geral, nem do "interesse nacional", não se fazem em nome de nenhuma dessas grandes palavras com que se pretende matar a conflitualidade social e que tão grande circulação têm na vida política portuguesa que adora o consenso e abomina o conflito».

«A saúde da democracia inclui sindicatos fortes, trabalhadores sem medo de fazerem greve dentro da lei, como instrumento dos equilíbrios sociais necessários. Até porque, para muitos trabalhadores, é mesmo um dos poucos instrumentos que têm para se defenderem da indiferença social que os yuppies modernaços que estão à frente do PS revelam».

«Um dos aspectos desse desdém é uma espécie de proclamação universal do egoísmo dos outros, a quem se retira dignidade da intencionalidade dos seus gestos. Não lhes passa pela cabeça esta evidência tão simples: a greve é um dos raros momentos de protesto cívico, seja ela feita por comunistas, socialistas, sociais-democratas, ou gente que está sempre do contra e que custa alguma coisa a quem o faz. Não abundam casos na nossa vida cívica, tão egoísta e escassa, em que voluntariamente milhares de pessoas, os grevistas são pessoas, convém lembrar, prescindiram de um dia de salário para manifestarem uma posição, uma inquietação, qualquer coisa».

domingo, 3 de junho de 2007

E já agora evitem também dizer mal do Governo

O Presidente da República, Cavaco Silva, pediu hoje à comunicação social para não passar uma imagem negativa da agricultura portuguesa, realçando a modernização em curso no sector.

Economistas de Combate (III) - Ha-Joon Chang

Ha-Joon Chang (n.1963) é um economista de combate de origem sul-coreana que é hoje professor na Universidade de Cambridge. É um dos mais relevantes economistas políticos do desenvolvimento da actualidade. Na sua já vasta obra tem procurado mostrar através de rigorosas análises históricas que as chaves para o desenvolvimento económico dos países não estão no célebre, mas fracassado, «Consenso de Washington». Este «Consenso de Washington» feito de desregulamentação, de definição estrita de direitos propriedade privados sobre tudo, de liberalização de todos os fluxos de capitais e de mercadorias resultou, sempre que foi aplicado em toda a sua extensão, em catástrofe económica e social.

Chang foi um dos economistas que contribuiu para desfazer o mito de que «o milagre asiático» teria assentado nas políticas neoliberais que o consenso teria apenas sistematizado. Através de uma análise histórica e institucional detalhada, focada no caso da Coreia do Sul, mostrou que o seu «modelo» assentou num importante envolvimento do Estado na afectação de recursos, o que na literatura aparece associado à noção de «Estado desenvolvimentista». O governo favoreceu deliberadamente o desenvolvimento de grandes conglomerados industriais (conhecidos na Coreia por chaebol e que acabaram por dominar os mercados interno e de exportação)através de uma política industrial vigorosa cujo objectivo básico era modificar a matriz dos preços e dos incentivos que as empresas enfrentavam na direcção preferida pelo governo que para eles canalizava os elevados investimentos públicos realizados em investigação tecnológica aplicada. A aposta central era a inserção estratégica destes grupos na economia mundial o que se traduziu na implementação selectiva de controlos sobre determinadas importações para proteger sectores industriais emergentes (proteccionismo selectivo). Esta inserção na economia mundial não envolveu durante muito tempo o sistema financeiro que estava submetido a um apertado controlo por parte do governo, sobretudo no que dizia respeito às operações financeiras com o exterior e que era alicerçado numa participação activa do Estado na concessão de crédito através de bancos públicos. Este foi o modelo que esteve e ainda está na base do «milagre asiático». Violou e ainda hoje viola quase todas as prescrições neoliberais.

Num dos seus livros mais recentes e mais celebrados, Kicking Away the Ladder (Derrubando as Escadas do Desenvolvimento), Chang alargou a sua análise e defendeu convincentemente que «quando os países desenvolvidos, como a Grã-Bretanha e os EUA, ainda estavam em desenvolvimento, não implementaram nenhuma das políticas de livre comércio que agora preconizam. O seu avanço tecnológico foi garantido por políticas protecionistas». Ha-Joon Chang é assim um crítico impiedoso da hipócrita ideia de que existe uma trajectória única de desenvolvimento assente num conjunto de instituições prescritas pelas instituições internacionais como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional ou a Organização Mundial do Comércio. Controladas pelos países mais ricos, estas organizações pretendem impor aos países menos desenvolvidos soluções que os seus governos fazem bem em evitar. Soluções que reduzem a sua margem de manobra para forjar políticas públicas de desenvolvimento.

Transacções desesperadas

Uma notícia publicada ontem no DN chama a atenção para o tráfico internacional de órgãos humanos: «esse tráfico corre de sul para norte do globo, de asiáticos e negros para brancos, de mulheres e crianças para homens e de pobres para ricos». Ou seja, como sempre há grupos que são sistematicamente o objecto enquanto que outros são sempre o sujeito que controla a transacção.

Esta questão da compra e venda de órgãos interpela os nossos melhores instintos e razões morais. Bloquear tal transacção comercial representa a afirmação de que existem certas coisas que não devemos poder comprar e vender numa sociedade decente. Questão de princípio, mas também questão de protecção daqueles que em circunstâncias desesperadas, quase sempre causadas pela pobreza mais extrema e por todas as formas de discriminação, podem ser tentados a dar um passo em frente na submissão da sua humanidade básica à mercantilização da vida. Como mostra o DN, muitos fazem-no apesar de todas as proibições.

A natureza voluntária das transacções em qualquer «mercado» não pode ser um pressuposto da análise, como acontece entre os liberais. É preciso ter atenção ao contexto em que os agentes transaccionam e ao seu grau diferenciado de autonomia e de poder. É por isso que não basta proibir certas transacções. É preciso criar condições para que ninguém tenha de realizar «escolhas» trágicas. Como vender um órgão para poder colocar comida em cima da mesa.

Nota: Sobre a ideia de «transacções desesperadas» veja-se uma obra maior da filosofia política, As Esferas da Justiça (1983) de Michael Walzer, publicada entre nós numa excelente edição da Presença (1999). Para quem não acredita que «o mercado» é o alfa e ómega da organização da vida em sociedade.

Leituras de fim-de-semana: uma ciência fechada

«Os homens de acção que se julgam perfeitamente livres das influências doutrinárias são habitualmente escravos de um ou outro economista. Os visionários influentes, que ouvem vozes nos céu, destilam utopias que nasceram alguns anos antes no cérebro de um qualquer escrevinhador universitário».

John Maynard Keynes, escreveu sobre a influência dos economistas como intelectuais públicos em 1936. Provavelmente com algum exagero. Mas só algum. A verdade é que a ciência económica tem uma invulgar capacidade para influenciar o debate público. Talvez por isso seja a ciência social mais vigiada, mais disciplinada e com menos pluralidade interna.

Habituados a celebrar a concorrência em todas as áreas, os economistas académicos procuram manter por todos os meios, sobretudo «extra-científicos», o domínio de uma determinada perspectiva teórica na academia. Perspectiva essa que tem um evidente enviesamento mercantil e neoliberal. Vejam sobre isto este brilhante artigo/reportagem que retrata o que se passa nos EUA. Poder-se-iam dizer muitas coisas semelhantes sobre o panorama em Portugal.

sábado, 2 de junho de 2007

Private Equity (III) ou a Economia da Roleta Russa

O «boom» deste tipo de fundos está ser acompanhado por crescentes riscos, aqui já referidos. Estes fundos são recorrentemente financiados através do crédito, o que no actual contexto de forte liquidez dos mercados e taxas de juro historicamente baixas não coloca problema de maior. Se o cenário se alterar, dificilmente se conseguirá gerir o actual nível de endividamento.


Mais grave é a actual tendência dos bancos em se envolverem neste tipo de instrumento. Se o seu papel tradicional é o aconselhamento e o financiamento destas operações, os lucros são de tal forma atraentes que os bancos não resistem em participar nestas operações, marginalizando muitas vezes os próprios actores primários. Se o lucro é grande, os riscos também o são. E já sabemos que quando o sector financeiro entra em crise, estamos todos em maus lençóis.

Private Equity (II) ou a Miopia do Mercado

Este lucrativo mecanismo não é novo, mas realça algumas as insuficiências do mercado como mecanismo de coordenação da economia. Supõe-se que a Bolsa de Valores fornece uma avaliação permanente do valor de cada empresa listada, da sua gestão e das suas perspectivas futuras. Se há oportunidades por explorar, como é que o mercado bolsista se deixa ultrapassar por estes fundos de Private Equity que de forma deliberada retiram estas empresas do escrutínio, supostamente eficiente e racional, dos mercados financeiros?

Num contexto em que mercados financeiros são tidos como arquétipos da própria ideia de mercado, levantam-se assim algumas questões teóricas.

Private Equity (I)


Há duas semanas a fusão, de 1998, entre a alemã Daimler e a norte-americana Chrysler foi desfeita pela primeira, devido aos crónicos prejuízos da segunda. A Daimler vendeu então os seus activos a um fundo de «private equity» (não arranjo tradução satisfatória), Cerebus de seu nome. Estes fundos de capital privados definem-se pela especificidade do tipo de investimento dado ao seu capital. Empresas com capital disperso em Bolsa, normalmente em dificuldades, são compradas e tornadas «privadas»: a gestão é totalmente assumida pelo fundo, deixando estas empresas de estar sobre o escrutínio dos mercados bolsistas. O objectivo neste tipo acções é claro. Depois da tomada da empresa, cortam-se rapidamente os custos (leia-se cortes salariais e despedimentos) e, mais cedo do que tarde, revende-se a empresa no mercado bolsista, tornando-a novamente «pública». Más notícias portanto para os trabalhadores da Chrysler.

Para um caso mais próximo, encontrei este exemplo, retirado de uma entrevista por uma responsável de um destes fundos dada ao Expresso: «A venda à Quercus Equity espanhola da Alfasom portuguesa (aluguer de equipamento audiovisual) por parte da Explorer Investments (um fundo português), que gerou um retorno 4,3 vezes superior ao investimento em apenas 20 meses».

O liberalismo como engenharia social

Um dos elementos fundamentais da retórica liberal no campo dos assuntos socioeconómicos é a acusação de que a esquerda socialista pretende permanentemente impor soluções de «engenharia social», ou seja, que pretende afastar as regras do jogo económico de um conjunto de instituições supostamente «naturais» - mercado e propriedade privada.

Na realidade, se há discurso que implica robustos processos de engenharia social, no campo ideológico, dos valores e das regras sociais, é o liberalismo. Construir mercados e impor regras que privilegiem os interesses dos proprietários de certos activos dá uma trabalheira monumental. Sobretudo ao Estado. Karl Polanyi, na Grande Transformação, um dos livros-chave da economia como teoria social, já havia notado isto: «O caminho para o mercado livre estava aberto e mantinha-se aberto através do incremento de um intervencionismo contínuo, controlado e organizado de forma centralizada. Tornar a ‘liberdade simples e natural’ de Adam Smith compatível com as necessidades de uma sociedade humana era tarefa assaz complicada (...) Assim como, contrariando as expectativas, a invenção da maquinaria que economizaria trabalho não diminuíra mas, na verdade, aumentara a utilização do trabalho humano, a introdução dos mercados livres, longe de abolir a necessidade de controlo, regulamentação e intervenção, incrementou enormemente o seu alcance».

A promoção do autoritarismo patronal

John Commons, um dos principais economistas a reflectir sobre a relação entre as normas legais e o padrão das relações económicas, afirmou que em capitalismo as coisas nunca estão definitivamente resolvidas no campo das relações laborais. De facto, a dinâmica das lutas sociais, da concertação, das decisões dos governos e dos tribunais vão definindo o quadro em que se decide o grau de assimetria entre patrões e trabalhadores. Serve isto para dizer que os sindicatos têm fundadas razões para contestar as gravosas normas do Código do Trabalho (que este governo devia ter revogado) que colocam entraves ao direito à greve em nome de uma concepção dos serviços mínimos feita à medida do interesse dos patrões. Ao criar «margem para as empresas sancionarem disciplinarmente os trabalhadores que não cumpram os serviços mínimos», o CT envia um péssimo sinal que só vai servir para aumentar o já enorme poder dos patrões. Como sempre com a mão visível do Estado a ajudar.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Reencaminhamento


Cabral, eu não conseguiria ser mais eloquente na resposta.

Economia Solidária para Lisboa

Como bem assinala o João na posta abaixo, a economia solidária distingue-se pela democracia na gestão e pela distribuição dos activos pelos trabalhadores. Se bem que normalmente tais projectos estejam inseridos no chamado «terceiro sector» (nem privado, nem estatal), é importante não confundir a economia solidária com as famosas IPSS (Instituições Particulares de Solidariedade de Solidariedade Social), aqui já abordadas.

Isto a propósito da recente proposta apresentada pelo PCP na Assembleia da República de extinção da Fundação D. Pedro IV (uma IPSS), face às irregularidades da sua gestão de um bairro social (Amendoeiras) e de várias creches. Uma proposta que se limita a seguir a recomendação já feita pela Inspecção da Segurança Social. Em tempo de pré(?)-campanha eleitoral para a CML, gostava de saber qual a posição dos restantes partidos e candidatos face a esta (urgente) proposta.

O PCP propõe a reintegração dos activos cedidos a esta Fundação no património municipal. Mas, já que estamos perante um caso onde os moradores e pais se organizaram na contestação a esta fundação, não podíamos ser um pouco mais ousados à esquerda e pensar num novo modelo de gestão destes activos que passe pela participação directa e democrática dos seus beneficiários? Um projecto de economia solidária deste tipo não seria uma novidade nesta cidade.

Adenda: A candidata Helena Roseta também já se manifestou publicamente pela extinção da fundação. Acredito que haja mais candidatos com a mesma posição, mas o google não me ajudou a descobri-los.

Economia Solidária (II)

A economia solidária vem assim tornar de novo visíveis questões que os neoliberais gostariam de eliminar da agenda académica e política: os direitos de propriedade e a democracia nos locais de trabalho, a autonomia individual e a subordinação implícita nas relações de poder em contexto capitalista, as motivações individuais e a «corrosão do carácter» estimulada pelo mercado capitalista, os resultados catastróficos do neoliberalismo e a resistência organizada das classes populares, ou, ousadia das ousadias, a possibilidade de uma economia socialista plural e as virtudes da tradição cooperativa e associativista depois do fracasso do socialismo de planeamento central.

A economia solidária é hoje a expressão teórica e prática dos esforços, muitas vezes bem sucedidos, outras vezes nem tanto, empreendidos pelas classes populares para, em contextos de crise económica e de exclusão social profundas, organizarem cooperativas, associações locais, empresas democráticas. Indaga das condições que podem viabilizar a acção colectiva auto-organizada na produção, na distribuição e no consumo. Acção necessariamente frágil e precária porque muitas vezes ilha de cooperação num oceano de concorrência e de comando. Acção frágil também pelo conhecido problema da discriminação sistemática no acesso ao crédito. Acção que economistas como Singer ajudam a nutrir.

Economia Solidária (I)

Anteontem, o economista de combate brasileiro Paul Singer, a que já aludimos aqui, deu no ISCTE uma extraordinária conferência sobre economia solidária no Brasil.

Começando por definir a economia solidária como «a intervenção organizada das classes trabalhadoras na economia para a sua democratização», Paul Singer deu uma aula de história económica e social sobre as experiências de autogestão no Brasil nos anos oitenta e noventa. Período em que se dá a imposição do modelo neoliberal que gera o desemprego e acentua a pauperização e em que ao mesmo tempo surgem poderosos movimentos sociais que estão na base da formação e crescimento do Partido dos Trabalhadores.

É neste contexto que começam a proliferar experiências de cooperativismo em que os trabalhadores de empresas falidas se apropriam dos activos dessas empresas e procuram recuperá-las. Isto, juntamente com os esforços de auto-organização popular para criar condições mínimas nas comunidades mais pobres e excluídas, gera um movimento que tem hoje expressões muito interessantes e que foram brilhantemente descritas e analisadas por Singer, actualmente secretário nacional da economia solidária no governo Lula.

Ainda sobre o outdoor da JS

São José Almeida, no Público de 26 de Maio, disse o seguinte: «a JS assinalou o dia mundial contra a homofobia com um cartaz, colocado na Praça do Marquês de Pombal, em Lisboa, onde se lê a frase: "Somos iguais a ti." Na imagem uma jovem beija a outra na cara. Porquê na cara? Porquê ampliar um preconceito, cedendo ao pudor bacoco? Já agora, a estética do cartaz tem alguma coisa a ver com homossexualidade?»

É extraordinário. A JS foi a única organização política a assinalar a data. Não só foram afixados outdoors em Lisboa e Porto, como marcou a data com uma intervenção na Assembleia da República. É a única organização política que, neste momento, tem o combate contra a homofobia no topo da sua agenda. E o melhor que tem para ouvir é isto?

São José Almeida coloca questões. Respondo com questões: Porque não na cara? Qual era o sítio mais indicado? Aquele beijo parece-lhe um beijo entre amigas? Ampliar o preconceito, com um cartaz a assinalar o dia 17 de Maio? Já agora, o que é a estética homossexual?

Estas não foram as únicas críticas feitas ao cartaz. Houve quem dissesse que a JS foi pelo caminho mais fácil ao ter escolhido duas mulheres em vez de dois homens; houve quem dissesse que o cartaz foi feito para heterossexuais; houve quem dissesse que a JS deveria ter optado por duas mulheres de meia idade e não jovens e bonitas como as que estão no cartaz; houve quem dissesse que a imagem era sexual e que a JS deveria ter apostado numa imagem que transmitisse afectividade e não desejo sexual. Bem, como vêem, houve críticas e sugestões para todos os gostos.

É verdade que o cartaz era dirigido preferencialmente para heterossexuais e dentro destes para os homofóbicos. É verdade que é mais fácil duas mulheres mas prometemos que da próxima serão dois homens (somos pela paridade). Agora, optar por duas mulheres de meia idade e não duas jovens e bonitas? Porquê? As lésbicas não podem ser jovens e bonitas? O cartaz é de cariz sexual? E qual é o problema? Havia de ser sobre amizade, não? Claro que é sexual. É a orientação sexual que está na origem da homofobia, não é a amizade entre duas mulheres/homens.

Repito, a JS tem sido a única organização política que tem o combate contra a homofobia e a defesa do casamento entre pessoas do mesmo sexo no topo da sua agenda. Não é na sua agenda, é no topo da sua agenda. E sobre este combate não recebemos lições de ninguém.

Os falsos liberais da blogosfera



O recente debate na blogosfera em torno do outdoor da JS, comemorativo do Dia Mundial da Luta contra a Homofobia, é mais um exemplo do falso liberalismo da direita blogosférica. A direita presente em blogs como: «O Insurgente», «31 de Armada» ou «O Blasfémias» consegue mesmo ser mais autoritária e conservadora do que a direita partidária portuguesa. São vários os debates que o têm demonstrado. A IVG, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o divórcio a pedido de um dos cônjuges, ou mesmo o debate sobre o salazarismo, constituem exemplos paradigmáticos do ultra-conservadorismo e também do autoritarismo destes falsos liberais. Desenganem-se aqueles que achavam que os liberais portugueses só existiam na blogosfera. Pelo menos, não nestes blogs.

O mais recente debate sobre o cartaz da JS é bem elucidativo disto. Usando a mesma técnica que o «Insurgente» já tinha usado a propósito da apologia encapotada do salazarismo, este blog e mais uma vez o "Insurgente" disfarçam a sua homofobia criticando, vejam bem, o direito à liberdade de expressão de uma organização política. (este debate continuou nas caixas de comentários, em mais dois posts no Insurgente e tem contado com o combate inteligente e certeiro do Pedro Alves do Boina Frígia, nomeadamente através deste post e deste.)

Bem sei que dirão que não estavam a atacar o direito à liberdade de expressão da JS, mas antes o facto deste ser exercido através de financiamento público. Ignoram que só parcialmente o financiamento dos partidos é público, mas para o caso este facto é irrelevante. Não percebem, ou melhor, não querem perceber que o exercício da actividade política numa democracia por parte de partidos políticos exige que estes recebam financiamento público. A alternativa ao financiamento público é o financiamento privado. Mas não foi por acaso que o financiamento privado por parte de empresas foi proibido. Foi para garantir uma maior independência dos partidos políticos face a interesses particulares.

Já o financiamento público é feito de acordo com os resultados eleitorais e, portanto, de acordo com a representatividade que os partidos políticos têm na sociedade portuguesa. O financiamento público garante os meios necessários para o exercício da actividade política, contribuiu para a independência dos partidos políticos e o facto de ser público e dependente dos resultados eleitorais garante que estes sejam financiados de acordo com a vontade do povo português.

Felizmente que em Portugal vivemos numa democracia onde, no respeito pela Constituição, são garantidos meios para que os partidos políticos possam defender livremente os seus programas e lutar pelos valores em que acreditam. Portanto, aqueles posts ou foram motivados pela homofobia envergonhada dos seus autores ou pela recusa do direito à liberdade de expressão ou mesmo pela recusa do próprio sistema democrático.

quinta-feira, 31 de maio de 2007

Os discursos de Sócrates

«Ninguém será penalizado pelo exercício do direito de liberdade de expressão, mesmo que seja utilizado no limite da boa educação», disse hoje José Sócrates no Parlamento. A primeira vez que ouvi o primeiro ministro defender esta posição, fiquei mais tranquila. Porém, dadas as contradições entre este discurso e as afirmações de vários responsáveis do seu partido, e admitindo que não gosta de ser desautorizado, começo a desconfiar que Sócrates tem um discurso para fora do partido e outro para dentro.

Como é que um socialista pode defender a delação?

«Um professor, pelas responsabilidades que tem, não pode insultar cidadãos. Como é que pode ensinar alunos?» pergunta Renato Sampaio, presidente da distrital do PS/Porto, intervindo em defesa do processo disciplinar instaurado contra o funcionário da Direcção Regional de Educação do Norte.

Berlusconi não esquece os amigos

Silvio Berlusconi ofereceu um emprego ao amigo Tony Blair para quando este deixar o Governo britânico, no dia 27 de Junho: o cargo de reitor na Universidade Internacional, que este está a criar em Florença.

Aposto que é fura-greves

Um técnico da companhia de electricidade Mercury Energy cortou a luz a uma utente que dependia de um ventilador para sobreviver porque esta não pagara a conta. A família desta professora de 44 anos alertou o funcionário para o facto, mas este respondeu que estava apenas a fazer o seu trabalho e abandonou a casa depois de cortar a luz, noticia o DN de hoje, citando a BBC. Devia estar a acumular pontos para receber o prémio de produtividade ao fim do mês.

Sindicatos

Uma coisa temos clara: a defesa do Estado Social, a luta pela «rigidez no mercado de trabalho», que tem indubitáveis vantagens socioeconómicas, ou o combate às desigualdades, que têm nos sindicatos o seu principal esteio, são das melhores expressões de qualquer coisa que se assemelhe ao bem comum. Em Portugal as nossas precárias expressões desse bem comum estão a ser, mais do que nunca, corroídas. Aliás, não é por acaso que as sociedades com uma variedade de capitalismo mais decente são aquelas que têm taxas de sindicalização mais elevadas (países escandinavos). Todos os liberais sabem isto. Caso contrário não fariam dos sindicatos o seu principal alvo. Nos próximos tempos voltaremos a estes temas.

Tempos sombrios

Num contexto de desemprego elevado, de generalização da precariedade e de proliferação de relações laborais atípicas que aumentam os laços de dependência, fazer greve tem custos demasiado elevados para demasiados trabalhadores. O poder nas relações económicas é isso: a capacidade que A tem de fazer com que B faça o que A deseja porque A tem a capacidade de impor custos sobre B se isso não acontecer. Em Portugal, os patrões têm hoje demasiado poder. A ameaça de despedimento é obviamente a principal arma. Em tempos de crise essa ameaça é demasiado credível.

Por isso, é natural que a greve ocorra sobretudo onde os trabalhadores conquistaram uma maior capacidade, através da sua acção colectiva, de diminuir esses custos. Por isso é natural que a greve geral de ontem tenha sido mais elevada na função pública, nas empresas públicas e em algumas grandes empresas do sector privado onde os trabalhadores estão mais organizados e resistem melhor à fragmentação das solidariedades de classe. Também é claro que a mobilização nestes sectores, pelas exigências que coloca na agenda política, tem impactos positivos sobre todos.

Dito isto, parece que até aí a greve também não atingiu a adesão de outras greves. A conclusão parece-me tão clara quanto dura: «foi a mais fraca greve geral até hoje organizada em Portugal». Embora haja lutas em que o mérito está todo em nelas participar, mesmo que se perca, é preciso dizer agora que a greve geral parece não ter cumprido os seus objectivos de mobilização. Apurar as razões para este facto deve ocupar seriamente o movimento sindical nos próximos tempos. Pesada agenda. Esperemos apenas que dessa agenda estejam afastadas tentações de impor linhas sectárias na estratégia do movimento sindical.

Motivos de denúncia pública das práticas de gestão privada

Um estudo recente da CMVM veio dar conta da existência de remunerações desproporcionadamente elevadas auferidas por administradores de empresas cotadas na Bolsa de Valores de Lisboa. Note-se que o que está em causa não é simplesmente o facto de os executivos serem bem pagos em Portugal. Estamos antes a falar de membros de conselhos de administração que recebem remunerações astronómicas (e.g., 3 milhões de euros/ano no BCP) sem se perceber porquê. Em particular, não se compreende que empresas com desempenhos relativamente modestos paguem significativamente mais (2, 3 ou 4 vezes) aos seus administradores do que outras empresas dos mesmos sectores de actividade.

A dificuldade em encontrar uma qualquer desculpa aceitável para estas práticas é o motivo pelo qual o tema tem sido objecto de discussão, mesmo por parte dos colunistas mais insuspeitos (ver dois exemplos, aqui e aqui).

Na verdade, a questão das remunerações desproporcionadas dos executivos em Portugal merecia um debate público mais vasto, tanto mais que nele convergem vários interesses e posições que surgem em pólos opostos noutros contextos, por exemplo:

● os trabalhadores dessas empresas, a quem é dito que têm de trabalhar mais por menos (ou seja, o produto do trabalho colectivo está a ser apropriado por apenas uma das partes da organização);

● os pequenos accionistas, que têm tipicamente pouca influência na definição das regalias dos administradores e que estão assim, como diz o Robin Joe Berardo Hood, «a pagar as viagens em avião privado» dos Jardins Gonçalves;

● os consumidores, que têm motivos para desconfiar que uma empresa que paga recompensas desproporcionadas aos administradores está a abusar de uma posição dominante, quando poderia fazer reflectir em maior medida os seus ganhos de produtividade nas condições de consumo;

● os defensores da concorrência, que não podem ver neste tipo de situações outra coisa que não seja um sinal de ausência de pressão concorrencial (e, logo, uma potencial arena de intervenção das autoridades de concorrência);

● os economistas morais, que sustentam que a lógica de mercado não é nem nunca foi base legítima de justificação para as condições de troca e que qualquer sistema económico se define pelo que é (e pelo que não é) socialmente aceitável;

● os defensores da justiça social e/ou da igualdade de oportunidades, que vêem nesta situação um sinal de que a sociedade está a ser incapaz de promover tais valores.

Num post anterior o João alertou para o direito e a importância da sociedade escrutinar o que se passa no sector privado. Seria, de facto, um bom exercício de cidadania generalizarmos esta prática em Portugal - não partindo do princípio de que as práticas de gestão de empresas privadas não são passíveis de discussão pública.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Furei a greve conscientemente



Fica aqui não mais que a minha cena preferida de um filme. Neste caso do filme "Querido Diário", de um dos meus realizadores favoritos, Nanni Moretti. A música é de Keith Jarret, Concerto de Colónia. Até amanhã.

Greve Geral

Elogio da Dialéctica

A injustiça avança hoje a passo firme
Os tiranos fazem planos para dez mil anos
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração;
isto é apenas o meu começo

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos

Quem ainda está vivo não diga: nunca
O que é seguro não é seguro
As coisas não continuarão a ser como são
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca
De quem depende que a opressão prossiga? De nós
De quem depende que ela acabe? Também de nós
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha
E nunca será: ainda hoje
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.

Bertolt Brecht

Afinal a JSD queria ofender o camelo


O líder da JSD, Pedro Rodrigues, disse em entrevista ao DN que a sua organização não pretendeu ofender Mário Lino com o cartaz reproduzido em baixo. «Rejeito totalmente a ideia de a JSD estar de forma directa ou indirecta a ofender Mário Lino com o camelo». Ah não? É que parecia mesmo. Aquela seta do Ministério das Obras Públicas que, por caso, aponta para um camelo que, por acaso, é cor-de-rosa resultou afinal de uma infeliz coincidência. Resta então uma de duas alternativas: ou a JSD pretendeu ofender o camelo ou então gosta de tratar como camelos os leitores daquele jornal.

Isto começa bem...


terça-feira, 29 de maio de 2007

Eu cá prefiro os grevistas

Meus amigos, vale mesmo a pena perder tempo (que é como quem diz 15 segundos) com este poste sobre a greve geral. Nele, o autor tem o mérito de conseguir reunir de forma inocente e singela um conjunto de lugares-comuns da direita ignorante (sim, porque nem toda a direita fala assim) sobre o exercício da greve. A determinada altura refere JCD que «hoje em dia [...] já quase ninguém faz greve no sector privado», apenas meia dúzia de trabalhadores-piratas das empresas dos transportes e funcionários públicos.

Isto até nem está longe da verdade e a razão é simples: neste País, onde a democracia ainda é imberbe, há muitos patrões e chefes como o JCD que confundem o exercício da greve com preguiça e comunismo e que escrevem a expressão «direito inalienável» [à greve] em itálico. Pois, fique este senhor a saber se eu estivesse a seleccionar um trabalhador entre dois empregados de uma empresa dirigida por um qualquer JCD, não hesitaria em escolher o grevista: seria com certeza corajoso (sem receio de enfrentar um chefe autoritário e ignorante), abnegado (perder um dia de salário e enfrentar a desconfiança do chefe), empenhado (nas suas ideias, certas ou erradas), franco (aderir a uma greve é feito à vista de todos) e teria de ser mesmo muito bom e diligente para não ter sido ainda despedido.

PS: Gostei também da foto do Carvalho da Silva em jeito de feio, porco e mau, mesmo a pedir um tiro na cabeça.

Bloquear a concorrência fiscal

João Miranda considera que a harmonização fiscal à escala da União Europeia, no que diz respeito à taxação sobre os rendimentos do capital, consistiria em alinhar os regimes fiscais pelo padrão mais exigente. Isto não é necessariamente assim. Harmonização fiscal pode significar apenas um acordo em que se fixam níveis mínimos abaixo dos quais nenhum Estado poderia passar. Bloquear-se-ia assim, parcialmente, um dos instrumentos de política que em contexto de integração económica europeia perversamente foram deixados nas mãos dos Estados nacionais e limitar-se-ia a erosão da base fiscal que afecta todos e que impõe na prática opções neoliberais que conduzem à estagnação. E sabe-se que a convergência entre diferentes espaços exige políticas públicas robustas e diversificadas de investimento e a realização de transferências para as regiões mais pobres.

Políticas que na União Europeia precisam de ser mais promovidas (através do aumento do orçamento comunitário). Isto tem de ser financiado. Porque na ausência destas políticas, o mais provável é que, num contexto em se privilegiam apenas as forças de mercado, tenhamos mais polarização social e espacial. Felizmente, esta intuição está inscrita na União Europeia através do instrumento dos fundos estruturais. É só aprofundá-la. Todos ganhamos.

Do outro lado do Atlântico



Dada a pobreza de meios da nossa comunicação social, a informação internacional de que dispomos está hoje, com notáveis excepções, completamente dependente dos critérios das grandes agências de notícias, como a Reuters ou a AFP. Sabemos por isso pouco de realidades que nos interessam, mas escapam ao seu critério editorial.

O Brasil é um bom exemplo. Soubemos tudo sobre a visita papal, mas dificilmente sabemos do actual clima de forte contestação estudantil. Vários decretos do governador do Estado de São Paulo, José Serra (PSDB, centro-direita), puseram em causa a autonomia financeira das universidades públicas. O risco de este ser o primeiro passo para o estrangulamento financeiro e privatização do ensino superior foi bem identificado pelas organizações estudantis. Começou pois um enorme movimento de ocupação (pacífica) das universidades, iniciado na USP (Universidade de São Paulo) e que se estendeu à Unesp (Universidade Estadual de São Paulo) e Unicamp (Universidade de Campinas).

Para saber mais, vale a pena ler o blogue do sociólogo português Elísio Estanque, a viver os acontecimentos in loco. Deixo também a ligação para o blogue dos estudantes paulistas.

Um sopro de democracia nos locais de trabalho


Esta é a feliz expressão escolhida por Manuel Carvalho da Silva para descrever a natureza da Greve Geral que foi convocada pela CGTP para amanhã. Vejam aqui e aqui as boas razões económicas, sociais, políticas e morais invocadas pela central sindical.

A perversa concorrência fiscal

«Existe uma característica dominante na generalidade dos países da OCDE, de acordo com estudos recentemente divulgados: as nações, em busca da captação de investimentos reduziram, nos últimos dez anos, de forma drástica, as taxas - incluindo a derrama - sobre os lucros». No DN de hoje.

Portugal encontra-se na vanguarda deste processo uma vez que «está entre as nove nações da OCDE com a mais baixa taxa de IRC». Com os belíssimos resultados que todos conhecemos. É o que acontece quando, num contexto de liberdade irrestrita de circulação de capitais, se evita a harmonização fiscal. É por estas e por outras que quem defende a justiça fiscal não pode deixar de ser europeísta.

Greve Geral

Sobre a economia política da greve Daniel Oliveira diz o essencial: «As empresas têm formas de pressionar os governos quando qualquer política prejudica os seus legítimos interesses. Usam o seu poder económico e político, imensamente superior ao do comum dos cidadãos. Os trabalhadores, que mais não têm que o poder do seu voto, têm, para reforçar o seu poder negocial junto do empregador ou para defender os seus não menos legítimos interesses junto do poder político, um outro instrumento: a greve. Legal em muitos países europeus há mais de um século, é a forma institucionalizada dos trabalhadores fazerem sentir ao poder político e ao poder económico o seu próprio poder: o de não produzirem».

A Greve Geral é uma das formas de acção colectiva que pode sinalizar a capacidade de uma parte das classes trabalhadoras de intervir como sujeito político organizado, exprimindo a necessidade socioeconómica, política e moral de se reverter a orientação das políticas públicas que afectam o conjunto do país. A Greve Geral é um instrumento de luta política, ou seja, de intervenção nas questões que fazem a comunidade. E pode, se bem sucedida, ajudar a alterar correlações de forças e assim contribuir para instituir novas regras do jogo que bloqueiem certas liberdades dos grupos que controlam os activos da economia e assim aumentem as liberdades dos que para viver não podem deixar de se levantar todas os dias da semana à mesma hora de sempre.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Rufus Wainwright - Going to a town


Novo albúm deste cantautor. Vale a pena estar atento à letra.

Vitória dos trabalhadores europeus! (II)



O Hugo Mendes responde a este meu post, mostrando preocupação com o que aconteceu com os trabalhadores letões. Não sou indiferente à sua sorte, mas continuo a afirmar que sim, foi uma vitória dos trabalhadores europeus, letões incluídos.

Posso não me ter explicado bem, mas o que sucedeu foi simplesmente a exigência dos sindicatos suecos de abranger os trabalhadores letões (a trabalhar na Suécia) nos seus acordos colectivos de trabalho. Parece-me, por isso, chocante que se defenda que os trabalhadores letões podiam ganhar menos do que os seus congéneres suecos, com quem trabalhavam lado a lado, só por serem... letões!

O Hugo diz ser um defensor do modelo sueco e eu sinceramente acredito. Contudo, penso que se esquece como foi este modelo construído, além de aderir acriticamente ao modelo neoclássico do mercado de trabalho, já bem criticados neste blogue. Foi através da luta social nacional e internacional(ista), muitas vezes trágica, e não por aceitarem "provisoriamente salários bem mais baixos do que os seus congéneres", que os trabalhadores s alcançaram o actual modelo social europeu. Beneficiamos hoje das lutas e conquistas que os trabalhadores tiveram fora das nossas fronteiras e fora do nosso tempo. Não é por acaso que o dia do trabalhador é comemorado em memória dos que morreram (nos E.U.A.) pelas actuais oito horas de trabalho.


É engraçado que o Hugo invoque o hipotético caso de se tratarem de trabalhadores portugueses em vez de letões. Curiosamente, trabalhadores portugueses viveram exactamente a mesma situação em França na France Telecom, onde trabalhavam para uma empresa portuguesa (Visabeira) com contratos de trabalho portugueses. Aplicando o desonesto, mas ubíquo, exercício do insider/outsider, deveria considerar os emigrantes em França com contratos franceses como os privilegiados insiders, frente aos outsiders trabalhadores da Visabeira, certo? Dividir para reinar sempre foi uma boa estratégia.