A receita alemã não acabou de ser escrita, sugestão do Financial Times de ontem. Consegue-se aí dar conta, numa reportagem sobre o próximo estado alemão a cair para a AfD, de uma reveladora história, onde o pessoal e o político se intersetam, como sempre.
Martina Mielke começou a trabalhar aos 18 anos no estaleiro de Rostoque e conduzia gruas. É a maior cidade do Estado alemão de Meclemburgo-Pomerânia Ocidental, na altura parte da RDA. Guarda boas memórias das festas bem regadas, aquando da inauguração dos barcos, com tripulações soviéticas, o principal cliente. Foi despedida por carta na triste época da restauração capitalista, sofrendo a maior humilhação da sua vida.
Aproveito para lembrar, combate pela memória-história abrangente, que na RDA a feminização da força de trabalho era das mais elevadas do mundo, suportada também por uma rede densa e universal de creches gratuitas, ao contrário da RFA, onde as mulheres eram incentivadas a ficar em casa. As mulheres da RDA, mais autónomas, incluindo economicamente, tendiam a exibir uma maior satisfação sexual, fruto de uma maior liberdade de escolha, segundo estudos comparativos divulgados num excelente livro de história feminista, numa perspetiva socialista.
Hoje, num contexto de contas de energia cada dia mais exorbitantes e de nostalgia fundada, diz-se na reportagem que a proposta da extrema-direita de reatar laços com a Rússia explica uma grande parte da sua popularidade aí. Só o partido BSW tem, pela esquerda, uma proposta desse tipo, consequência da sua preocupação em acabar com a guerra, rejeitando o militarismo, mas é diabolizado à esquerda, extremo-centro e direitas; imagino que não tenha acesso aos mesmo recursos, incluindo mediáticos, que a AfD.
A extrema-direita diz o que for preciso, o mais importante é ganhar e servir as frações mais reacionárias do capital, não haja ilusões, é assim desde 1922. Mas a esquerda tem a obrigação de fazer mais e melhor. A esquerda alemã parece ser uma tragédia sem fim, a começar pelo SPD, agora de novo fiel ao espírito de 1914, a continuar pelos verdes com bombas e a acabar no Die Linke, que se parece demasiado com a esquerda brâmane.
Enfim, lembro-me sempre, quando escrevo sobre estes assuntos, do historiador Eric Hobsbawm, em 1990, num artigo extraordinário, a dizer que ainda iriamos ter saudade do mundo que estava nessa altura a acabar, antevendo a desgraça que seria o fim do medo burguês, a começar para a social-democracia. Quem estuda história a tempo inteiro, com uma grelha daquelas, acaba a prever melhor. Na sua autobiografia, publicada em 2002, escreveu:
“Dez anos depois do fim da União Soviética, é possível que o medo tenha voltado (...) No entanto, graças ao enfraquecimento da social-democracia e à desintegração do comunismo, o perigo vem dos inimigos da razão; fundamentalistas religiosos e etnotribais e xenófobos, entre eles os herdeiros do fascismo (...) O mundo ainda se arrependerá de, perante a alternativa formulada por Rosa Luxemburgo, o socialismo ou a barbárie, ter escolhido contra o socialismo”.
É claro que saudades só do futuro, até porque 1989-1991 já não é o que era, graças à China. E no entanto...


1 comentário:
A esquerda alemã é de facto essa "tragédia sem fim", mas o BSW é parte dessa tragédia. Não ignorando as posições justas sobre o genocídio em Gaza e a crítica da NATO e do militarismo da UE - que não são pouca coisa e seriam o mínimo de decência que se esperaria do degenerado Die Linke -, o BSW segue uma linha oportunista de apropriação de discurso da extrema-direta, aparentemente já nem sequer com o propósito de a combater, mas antes de a colocar no poder. E isso é imperdoável.
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