quinta-feira, 14 de maio de 2026

Da política monetária

A fazer fé na imprensa financeira, a queda anunciada do desprezível Starmer está a agitar os “mercados”, “assustados” com a possibilidade de uma ligeira viragem à esquerda, contribuindo para a subida da taxa de juro dos títulos de dívida pública no mercado secundário, alcançando o valor mais elevado dos últimos anos. Cheira a golpismo monetário, uma vez mais, lembrando o que Paulo Coimbra aqui escreveu noutro contexto político britânico.

Convém assim relembrar que a chantagem dos mercados só é eficaz se o Banco de Inglaterra primar pela inação, que é nesta matéria uma forma de ação. Num país endividado na sua própria moeda, como é o caso do Reino Unido, o Banco Central tem instrumentos para controlar as taxas de juro em todas as maturidades. A independência dos bancos centrais é uma fraude, para a qual os trabalhistas contribuíram, não há neutralidade numa área onde inevitavelmente se cruzam poder político e confiança social.

Portugal está preparado para a nova era de choques de preços?

Nos últimos meses, a guerra no Médio Oriente reacendeu o debate sobre a inflação. Os mercados energéticos reagiram de imediato, os preços do petróleo têm registado enormes oscilações e as economias europeias já registam alguma pressão sobre os preços. É a segunda vez em poucos anos que isso acontece: desde a pandemia e, sobretudo, o início da guerra na Ucrânia em 2022, os choques de preços multiplicaram-se e a inflação tornou-se um dos temas centrais na vida da maioria das pessoas.

A guerra voltou a tornar visíveis as ramificações da economia mundial e a forma como as perturbações numa região se transmitem de forma rápida ao longo das cadeias de produção. O aumento do preço do petróleo torna a gasolina e o gasóleo mais caros e acaba por afetar todos os produtos que dependem do transporte - desde alimentos a produtos industriais -, pressionando especialmente setores como a agricultura, altamente dependentes de combustível para os tratores. É por isso que, historicamente, picos do preço do petróleo costumam estar associados a subidas dos custos dos alimentos.

 
Fonte: FRED

Além disso, há impactos menos visíveis que vão muito para lá do mercado energético. As disrupções não afetam apenas a produção de combustíveis fósseis, mas também de uma série de produtos derivados a partir destes. Os constrangimentos na produção de plásticos, derivados do petróleo, podem aumentar os custos dos produtos embalados no supermercado. Já o gás natural é uma matéria-prima essencial na produção de fertilizantes como a amónia e a ureia, o que significa que tem impacto nos custos de produção dos alimentos. Mais: o gás natural está frequentemente associado à extração de hélio, um recurso crítico para o fabrico de semicondutores e para equipamentos médicos como as máquinas de ressonância magnética. A disrupção da produção de combustíveis fósseis provoca um efeito dominó ao longo das cadeias de valor e afeta não apenas os preços que pagamos pela energia, mas também pelos alimentos, produtos embalados ou aparelhos eletrónicos.

 
Matérias-primas críticas que passam no Estreito de Ormuz. Fonte: Center on Global Energy Policy

Quatro anos depois do surto inflacionista que se seguiu à pandemia, a economia mundial confronta-se com um novo choque energético e de cadeias de abastecimento de grandes dimensões. Depois de várias décadas em que a inflação se manteve estável e baixa nas economias ocidentais, a sucessão deste tipo de choques nos últimos anos sugere que a economia mundial está a entrar numa era em que a instabilidade se torna a norma. Nesse contexto, é importante perceber o que mudou, que consequências é que essas mudanças implicam e qual a posição da economia portuguesa.

Porque é que já não nos lembrávamos da inflação?

Durante quase quarenta anos, a inflação deixou de ser um problema nas economias ocidentais. Depois do pico registado na década de 1970, com dois choques petrolíferos (1973 e 1979) que fizeram disparar os preços, a inflação foi contida e os países europeus entraram num longo período de relativa estabilidade a que os economistas dão o nome de "Grande Moderação", a ponto de muitos terem começado a assumir que o problema estava essencialmente resolvido.

 

Que fatores é que estiveram na origem da Grande Moderação? A resposta mais comum nos manuais de Economia atribui o mérito à política monetária. Desde a década de 1980, os bancos centrais tornaram-se independentes do poder político, adotaram um mandato principal - assegurar a estabilidade de preços - e definiram metas explícitas para a taxa de inflação. A interpretação convencional diz-nos que a chave para o sucesso dos bancos centrais esteve na credibilidade deste compromisso. Se trabalhadores e empresas acreditam que a inflação se manterá estável, as negociações salariais e as decisões de preços acabam por incorporar essa expectativa e evitam-se pressões de ambos os lados.

O momento fundador desta narrativa foi o choque de Volcker, como ficou conhecida a subida agressiva das taxas de juro pelo então presidente da Reserva Federal norte-americana (Paul Volcker) no início dos anos 1980. Com uma inflação que atingia dois dígitos, Volcker aumentou as taxas de juro para níveis sem precedentes, o investimento caiu, o desempregou disparou e a economia americana entrou em recessão, tendo a inflação acabado por ceder. A principal ilação retirada foi a de que a credibilidade dos bancos centrais - por outras palavras, a disposição para impor custos reais à economia em nome da estabilidade de preços - era a chave para manter a inflação sob controlo. No entanto, alguns estudos empíricos (aqui, aqui ou aqui) têm colocado em causa esta perspetiva. A relação entre independência dos bancos centrais e estabilidade de preços não é robusta: quando se alarga o conjunto de países analisados ou se ajusta a metodologia, a correlação entre as duas variáveis enfraquece ou desaparece.

Isso obriga-nos a olhar para outros fatores. Durante o mesmo período em que os bancos centrais ganhavam independência, a economia mundial passou por um conjunto de transformações estruturais que reduziram drasticamente os custos de produção das empresas. A globalização significou acesso a matérias-primas e mão-de-obra a preços mais baixos. A China integrou-se na economia global, tornando-se a fábrica do mundo e inundando os mercados ocidentais com produtos baratos. Ao mesmo tempo, a queda das taxas de sindicalização, o enfraquecimento da negociação coletiva e a precarização do trabalho reduziram o poder negocial dos trabalhadores e comprimiram os salários. A Grande Moderação foi em grande medida o produto de condições estruturais que parecem estar agora a inverter-se.

A pandemia e a guerra na Ucrânia representaram uma reversão das condições que tinham mantido a inflação baixa durante décadas. Uma economia dependente de cadeias de abastecimento a funcionar em fluxo contínuo foi confrontada com ruturas e estrangulamentos que provocaram escassez e fizeram disparar os custos de produção. A evidência empírica aponta nesta direção, tanto nos EUA como na Zona Euro: os constrangimentos da oferta, e em particular o choque energético provocado pela guerra na Ucrânia, explicam boa parte da subida dos preços registada em 2022 e 2023, enquanto o papel da procura e dos salários foi pouco significativo.

Uma nova era de choques

Há motivos para crer que os choques inflacionistas não são eventos isolados, uma vez que as condições que os tornavam pouco frequentes estão a mudar. Há duas forças em particular que apontam para um futuro em que perturbações da oferta e choques de preços se tornam uma característica estrutural das economias: o crescimento de tensões geopolíticas e a intensificação das alterações climáticas.

Em termos geopolíticos, os últimos anos têm sido marcados por uma fragmentação da ordem económica internacional que emergiu após a Segunda Guerra Mundial. A crescente rivalidade entre os EUA e a China tem levado os primeiros a apostar numa guerra comercial como forma de travar (ou pelo menos conter) o seu declínio económico, revertendo décadas de integração. Os conflitos em regiões que concentram parte importante das reservas de matérias-primas essenciais, do Médio Oriente à Gronelândia, têm de ser entendidos neste contexto. A concentração geográfica de recursos como o petróleo, o gás, os semicondutores ou os minerais essenciais para a transição energética permite aos países usá-los como arma de pressão. Neste cenário, a volatilidade dos mercados de energia e de matérias-primas parece ter vindo para ficar.

O início de 2026 é um bom exemplo. A guerra no Médio Oriente interrompeu o fornecimento de gás natural proveniente do Golfo Pérsico, afetando a produção de fertilizantes como a ureia e a amónia, essenciais para a agricultura. Com 30% da produção mundial de ureia temporariamente fora do mercado, os preços dos fertilizantes dispararam cerca de 40% em poucos meses. Em países como a Tailândia, as Filipinas e o Bangladesh, agricultores que estão a entrar em época de sementeira enfrentam custos de produção que tornam o cultivo economicamente inviável e muitos estão a abdicar de produzir ou a reduzir a área cultivada, o que terá impacto na oferta de alimentos como o arroz.

Se olharmos para os indicadores sobre as cadeias de abastecimento, encontramos um padrão semelhante ao que se verificou após o início da guerra na Ucrânia. O índice da Reserva Federal de Nova Iorque que mede a pressão sobre as cadeias de abastecimento globais registou em abril o valor mais elevado desde julho de 2022, ao passo que o índice do Banco Mundial que acompanha o transporte de contentores se aproximou dos valores da pandemia, com as transportadoras a começar a repercutir os custos de energia e a incerteza nas tarifas que cobram às empresas.

 
Fonte do gráfico: Bloomberg, com base em dados da New York Fed

Além disso, as alterações climáticas estão a tornar-se uma fonte recorrente de subidas de preços dos alimentos. As culturas agrícolas são muito sensíveis às condições meteorológicas e fenómenos como ondas de calor mais prolongadas, períodos de seca severa ou chuvas intensas fora de época põem em risco a produção. Nos últimos anos, os preços do azeite dispararam em consequência de secas prolongadas em Espanha, Itália e Portugal. O cacau atingiu máximos históricos depois de ondas de calor devastarem as colheitas na Costa do Marfim e no Gana, os dois maiores produtores mundiais. Um estudo de investigadores do Banco Central Europeu concluiu que, em 2022, as temperaturas-recorde do verão europeu aumentaram a inflação dos alimentos entre 0,43 e 0,93 pontos percentuais e que este impacto tenderá a agravar-se nas próximas décadas com o aquecimento projetado para o continente.

Há ainda um fator de amplificação adicional. Quando os custos de produção sobem, as empresas aumentam os preços que cobram em simultâneo, o que significa que nenhuma corre o risco de perder clientes para a concorrência. A crescente concentração dos mercados num pequeno conjunto de grandes empresas facilita a coordenação implícita dos aumentos de preços em contextos em que há constrangimentos da oferta, o que ajuda a explicar porque é que os lucros extraordinários se verificam sobretudo em setores que funcionam como oligopólios: energia, produção agro-industrial, grande distribuição, etc.

Uma economia organizada em torno de fluxos contínuos de produtos entre países é vulnerável a choques que ocorram em qualquer ponto da cadeia. A experiência dos últimos anos é ilustrativa: desde o levantamento desigual dos confinamentos após a pandemia, que atrasaram a produção de componentes necessários para responder à procura, à escalada de conflitos militares, que interditam rotas marítimas e impedem o transporte, passando por cheias e secas severas que afetam a produção agrícola, os efeitos em cascata têm-se feito sentir um pouco por todo o mundo. Numa era de maior instabilidade geopolítica e de intensificação das alterações climáticas, estas cadeias tornam-se mais frágeis e os preços que pagamos no supermercado refletem-no.

Quão exposto está Portugal?

A economia portuguesa reúne várias características que a tornam particularmente exposta a uma era de choques de preços recorrentes. A primeira é a mais evidente: Portugal é um importador líquido de energia e, embora tenha feito progressos na expansão das energias renováveis (que representam cerca de 80% da produção elétrica), a dependência de petróleo importado continua a ser elevada nos transportes e em vários setores industriais. Quando os preços do petróleo disparam, Portugal paga mais pela energia que importa e vê a sua balança comercial deteriorar-se.

No setor elétrico, o país beneficia de uma posição relativamente favorável. À semelhança de Espanha, Portugal é dos países europeus menos exposto ao impacto dos preços do gás na eletricidade. O peso crescente das renováveis funciona como um amortecedor em períodos de volatilidade dos combustíveis fósseis, e o mecanismo ibérico de desacoplamento entre o preço do gás e o preço da eletricidade, aplicado durante o choque de 2022, contribuiu para reduzir as faturas em Portugal e Espanha face ao resto da Europa. Ainda assim, isso não cobre os transportes, onde a gasolina e o gasóleo representam ainda quase toda a energia consumida, nem protege os setores industriais que dependem diretamente dos combustíveis.

A segunda vulnerabilidade tem a ver com a agricultura. Portugal encontra-se dependente da importação dos fertilizantes usados na produção agrícola (produzidos a partir de gás natural). Quando os preços do gás sobem, como aconteceu em 2022 e como está a acontecer novamente, os custos de produção agrícola aumentam e o impacto repercute-se nos preços dos alimentos. E isso liga-se com a terceira vulnerabilidade: as alterações climáticas. Enquanto parte do sul da Europa, Portugal é um dos países europeus mais expostos às consequências do aquecimento global, que se traduzem num aumento da frequência e intensidade das secas, ondas de calor, incêndios e precipitação intensa.

Algumas associações de produtores têm alertado para os impactos que as tempestades que atingiram o país no início deste ano tiveram na produção agrícola, devido ao excesso de precipitação e humidade, à perda de área cultivada e aos danos nas infraestruturas, que implicam riscos de quebras na produção de bens como os cereais ou os citrinos. Com o bloqueio do estreito de Ormuz que se seguiu, a subida dos custos com fertilizantes também tem sido referida como um problema para a atividade agrícola.

O que fazer quando os choques se tornam a norma?

Desde a ascensão da independência dos bancos centrais, a resposta a um pico de inflação foi sempre a mesma: subir as taxas de juro, travar a procura e esperar que as pressões sobre os preços cedessem. Esta estratégia foi desenhada para um tipo específico de inflação, que resulta de uma economia sobreaquecida, com um excesso de procura que se deveria a políticas expansionistas ou ao crescimento demasiado acelerado dos salários. No entanto, quando a inflação resulta de choques da oferta como os que se têm multiplicado nos últimos anos, subir a política monetária não tem nenhum efeito óbvio. Subir as taxas de juro não ajuda a reabrir uma rota marítima ou a recuperar colheitas destruídas por cheias ou secas.

Os economistas Daniela Gabor e Benjamin Braun distinguem três caminhos possíveis para os governos face aos atuais choques energéticos. O primeiro é o que chamam "terapia de choque do carbono": deixar que os preços elevados dos combustíveis fósseis façam o seu trabalho, eliminando as atividades dependentes de energia barata e forçando uma reconversão acelerada. O segundo é o caminho do "derisking": usar os instrumentos do Estado e o dinheiro público para reduzir riscos para o setor privado, através de subsídios, garantias e incentivos fiscais, na esperança de atrair investimento privado para a transição verde. O terceiro, mais transformador, é o que designam como "Estado verde forte": investimento público direto, planeamento, direcionamento do crédito para atividades estratégicas e controlos de preços quando necessário.

A Alemanha é dada como exemplo dos custos da terapia de choque do carbono. Depois da invasão russa da Ucrânia em 2022, a Alemanha aplicou uma medida de regulação dos preços do gás para as famílias e as pequenas empresas, mas não interveio para proteger a indústria intensiva em energia, com o argumento de que os preços altos disciplinariam as empresas a promover a transição para fontes de energia limpas ou a fechar portas. O resultado foi sobretudo o segundo: a economia alemã entrou em estagnação e, no final de 2024, a produção industrial intensiva em energia estava ainda 20% abaixo dos níveis anteriores à guerra.

Os países da periferia do sul da União Europeia - Portugal, Espanha, Itália e Grécia - foram menos atingidos pelo choque energético de 2022 em termos de impacto sobre o PIB, precisamente porque têm menos indústria intensiva em energia. Isso ajuda a explicar o melhor desempenho relativo destas economias nos últimos anos, que culminou com a distinção de Portugal como a “economia do ano” para a revista britânica The Economist. No entanto, trata-se do reflexo de uma base industrial mais fraca, com menor capacidade tecnológica nos setores que vão ser decisivos para a transição verde.

Na verdade, as economias do sul europeu não estão numa posição estruturalmente vantajosa: além da baixa capacidade tecnológica em tecnologias verdes, exibem níveis reduzidos de apoios públicos à transição e atraso na adoção de renováveis fora do setor elétrico. Com uma política industrial europeia assente em regras de auxílios de Estado que favorecem os países menos endividados (leia-se, a Alemanha, que sozinha alocou mais de 90 mil milhões de euros em apoios estatais verdes entre 2021 e 2023), os países da periferia terão tendência a perder a corrida.

A resposta à nova era de choques de preços enfrenta vários desafios. Como reduzir a dependência de combustíveis fósseis ou fertilizantes importados? Como acelerar a eletrificação dos transportes sem assentar apenas em incentivos à compra de carros elétricos por classes médias/altas? Como evitar a transferência de rendimento para o topo que ocorre com os lucros extraordinários e a distribuição de dividendos das grandes empresas em contextos de crise?

Sem planeamento público, deixar que o mercado aplique a “terapia de choque do carbono” resulta em destruição de capacidade produtiva e desindustrialização. A transição energética requer a construção de um Estado verde com capacidade real de intervenção, desde o investimento direto através de empresas públicas à constituição de reservas de matérias-primas críticas. Há exemplos que mostram que é possível fazê-lo a uma escala nacional comparável com a nossa. Na Suíça, o Estado definiu regras para um conjunto de empresas privadas que tem de manter stocks de bens essenciais (alimentos, fertilizantes, medicamentos e combustíveis) equivalentes a dois a quatro meses de consumo. A Finlândia mantém reservas de cereais para cobrir as necessidades alimentares durante nove meses e a Polónia mobilizou recentemente as suas reservas de manteiga durante a crise. Este tipo de reservas permite estabilizar a oferta e os preços dos produtos e proteger a soberania alimentar dos países.

No curto prazo, a experiência dos últimos anos mostra que há instrumentos que funcionam, como desacoplar o preço da eletricidade do gás quando este dispara, regular temporariamente preços e/ou margens em bens essenciais e tributar os lucros extraordinários para redistribuir os custos da crise (mais desenvolvidos aqui). A médio prazo, o caminho passa por reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados, o que implica investimento público para expandir a capacidade de produção de renováveis, constituir reservas de matérias-primas essenciais e orientar a eletrificação dos transportes e da economia. O custo do investimento necessário para a transição energética é inferior ao custo económico de uma crise energética como a de 2022. O preço mais elevado é o da inação.

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quarta-feira, 13 de maio de 2026

Um jornal para respostas coletivas


Perante o aprofundamento da crise climática, as companhias de seguros privadas procuram que os Estados lhes criem condições para lucrar com as catástrofes (...) Acontece que o Estado democrático não foi criado para ser um mediador de seguros privados. E as populações, desde logo as mais afetadas pelas catástrofes climáticas (mas não só), sabem bem que a solidariedade, ou o direito a ter proteção social e a viver em segurança, não se confundem com garantir bons negócios aos privados.Na noite da apresentação do PTRR, as televisões logo se encheram de comentadores que explicaram aos cidadãos que o governo está a pedir-lhes que, contratando um seguro, façam poupanças «em tempos em que tudo está bem» para que possam estar protegidos «quando as coisas correrem mal». 

Nenhuma consideração das obrigações do Estado na prevenção e mitigação das alterações climáticas; nenhuma exigência de políticas públicas que protejam o bem público, não o interesse privado. E, sobretudo, uma total incompreensão de como, para a grande maioria da população, a ideia de que será agora preciso acrescentar novas poupanças às poupanças que já há muito não se conseguia fazer é algo, não só impossível, como ofensivo. Na verdade, o problema não é individual — e a resposta democrática terá de ser coletiva.

Sandra Monteiro, Um Estado mediador de seguros?, Le monde diplomatique - edição portuguesa, maio de 2026.

Cruz


Aquando da pandemia, pensou-se que o sórdido negócio dos covidários turísticos, também conhecidos por cruzeiros, levaria um rombo eventualmente fatal. Tratou-se de uma ilusão, de várias: as coisas não tendem a melhorar espontaneamente depois da catástrofe, pelo contrário. 

No capitalismo, esta festa continuou e cada dia mais intensa, incluindo iates cada dia maiores para milionários cada dia com mais milhões, e continuará até haver sujeito político que a trave. 

Entretanto, os custos sociais são pagos pela comunidade e dentro dela pelos mais pobres, claro: dos efeitos da poluição intensa até à super-exploração laboral, passando pela difusão de vírus, como se vê uma vez mais, agora com o hantavírus. Diz que não é tão contagioso. Era o que mais nos faltava.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Tempos reais


Como se não fosse nada, o editorial do Financial Times de ontem diz que a China tem reservas contracícilicas de bens essenciais e controlos de preços, o que ajuda a absorver os choques num contexto em que a República Popular é melhor vista pela maioria do mundo do que os EUA. 

Só falta dizerem que a propriedade pública de grande parte da banca ajuda a China a dirigir o crédito para os setores em que a política industrial aposta ou que os controlos de capitais são barreiras às crises financeiras...

Haja número



segunda-feira, 11 de maio de 2026

As coisas


Confesso que estou mortinho por conhecer os “novos rostos” que Daniel Oliveira vai tirar da cartola para a sua nova coisa político-partidária, essa sim, finalmente libertadora e realizadora. 

E mal posso esperar por ouvir os novos discursos dos novos rostos sobre a corrida armamentista e o quadro de regras austeritárias cada dia mais condicionadoras da UE, bem como o futuro do nosso Estado social neste desgraçado contexto, sem esquecer a luta laboral e outros assuntos menores conexos, tipo paz e solidariedade anti-imperialista. 

Bom, e nem falo de piquetes de greve e de outras formas de organização dos subalternos, indignos da esquerda brâmane, mas dignos dos que militantemente não desistem e que por isso são particularmente atacados pelas Impresas desta vida tão intensamente capitalista. Sim, estou a falar dos comunistas.

Tenho, entretanto, um conselho para os aspirantes a Tsipras: cuidado, se a história for destino, quando perderem, e obviamente perderão, serão mediaticamente trucidados pelo mesmo que vos aconselhou politicamente e promoveu mediaticamente.

Vira-latismo


A única virtude política alguma vez revelada por Seguro foi não se chamar André Ventura na segunda volta das eleições presidenciais. Por isso, e ao contrário de Rodrigo Sousa e Castro, não fiquei espantado com o seu discurso vira-latista num dos areópagos europeístas, o Instituto Europeu de Florença:  

“Em vez de minorias de bloqueio, precisamos de maiorias com ambição, lideranças que pensem em Europa para além dos egoísmos imediatos dos Estados-membros que representam.” 

Foi com discursos destes que o país se transformou numa semicolónia e agora querem acabar de transformá-lo numa colónia, totalmente controlada pelo egoísmo austeritário e belicista da Comissão Europeia e das grandes potências. E pensar que o Presidente tem por dever defender a independência nacional, base da solidariedade.

domingo, 10 de maio de 2026

Haja história

Do estudo do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social: “Os 80 anos da vitória na Guerra Mundial Antifascista – Quem salvou a humanidade: uma história restauracionista”.

Haja memória


O culto euro-liberal da desmemória numa imagem: em Berlim, quando se assinalou mais um aniversário da derrota do nazifascismo, os símbolos soviéticos estão proibidos. 

A base material deste culto é a pulsão de morte armamentista em curso na Alemanha, com a cumplicidade dos restos da social-democracia. O processo fascização está a passar por aqui. 

Pela minha parte, recordo sempre a formulação imorredoura de Ernest Hemingway: “Todo o ser humano que ama a liberdade deve ao Exército Vermelho mais do que conseguirá pagar numa vida”.

sábado, 9 de maio de 2026

Aqui estamos


«Se a História serve para alguma coisa é para nos tornar conscientes de que nenhum avanço social se conseguiu sem luta»: li no Twitter esta sábia formulação de um historiador chamado Josep Fontana, infelizmente por traduzir. 

Tenho Josep Fontana «catalogado» como o Eric Hobsbawm catalão, até dada as suas duas histórias do século XX, a última das quais publicada em 2017, um ano antes do seu falecimento, destilação de décadas de investigação e reflexão, onde a história política não passa sem a história económica e social. 

Não por acaso, termino assim o último artigo no AbrilAbril:

Num gesto de que Eric Hobsbawm foi o pioneiro, logo em 1990, e que se tornou um marcador da visão crítica do «breve século XX», o historiador Josep Fontana, no livro El siglo de la revolución: Una historia del mundo desde 1914 (2017, Editorial Crítica), cita Karl Kraus traduzido diretamente do alemão, num texto de 1920, aparentemente de homenagem a Rosa Luxemburgo, assassinada um ano antes: 

«Que Deus preserve o comunismo para sempre, para que esta ralé — os capitalistas — não se torne ainda mais desavergonhada (...) e para que, pelo menos, tenha pesadelos ao irem dormir.» 

Fontana defende que, desde os finais dos anos 1970, «a ralé pode dormir tranquila, sem medo da revolução, decidida a recuperar tudo o que havia cedido»: «o resultado foi este mundo em que vivemos hoje, onde a desigualdade cresce desenfreadamente, com a estagnação económica como dano colateral». 

Mas a história está cheia de contradições e de lutas que necessariamente irrompem: «o apogeu da desigualdade significa necessariamente o começo do fim do sistema que a engendrou», defendeu. A escolha luxemburguista continua diante de nós: «socialismo ou barbárie». A ideologia dominante faz gala de ofuscar esta escolha, mas aqui estamos.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Pedras



Na senda Lisboa “chic”, uma equipa de trabalhadores do município inscreveu o nome de uma empresa (privada), segmento luxo, no passeio (público) da Avenida da Liberdade. Há buracos por essa cidade fora? Pois que haja. Mas a partir de hoje há um “je ne sais quoi” na calçada…

O JNcQuoi é “um espaço de indulgência único” detido pela Amorim Luxury, ou seja, pela herdeira mais rica do país, Paula Amorim, e pelo seu marido, o mesmo que disse: “não podemos ter pessoas de classe média ou média baixa a morar em prédios classificados”. Está mesmo tudo ligado no porno-riquismo, no consumo conspícuo na era das desigualdades pornográficas. 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Carlos Brito


Faleceu um resistente antifascista e construtor da democracia. Faleceu Carlos Brito. Em jeito de singela homenagem, deixo por aqui uma nota de leitura que escrevi em 2021:

Fôlegos

Já não sei quem disse que pode haver nas derrotas uma dignidade que escapa às vitórias, às grandes e às pequenas. Quem tem essa dignidade sabe que nada está garantido, mesmo quando se ganha politicamente alguma coisa ou quando não se perde tudo. Lembro-me disto ao reler o livro de Carlos Brito, Álvaro Cunhal - Sete Fôlegos do Combatente

Não tenho por hábito reler livros. Este é um livro de memórias políticas que já li e reli desde o seu lançamento, em 2010. Conheço, por exemplo, poucas clarificações tão cabais do posicionamento comunista durante o PREC, um dos sete fôlegos de Álvaro Cunhal. Um posicionamento que de resto parece indicar um padrão: a história escrita por supostos vencedores pode ser pura ideologia, enquanto ofuscação, incluindo quando se trabalha com palavras como “totalitarismo”. 

Esta palavra só serve para ofuscar o fascismo e apoucar o antifascismo, ao colocar os comunistas num caldo pouco recomendável em termos da verdade histórica. Aposto que futuros historiadores, com ainda maior distância, irão corroborar mais aspectos da versão comunista da nossa história recente do que de outras versões políticas, dado o trabalho que já foi feito até ao 25 de Novembro e depois. 

A revelação da surpresa que Álvaro Cunhal teve pelos resultados do trabalho constituinte, fazendo de 1976 um marco unitário com novo fôlego estratégico, num momento de refluxo, é um dos vários momentos que nos dá a ver a acção política como um exercício de filosofia da conjuntura com impactos na estrutura, mesmo quando a correlação de forças já mudou dramaticamente. Tinha ficado uma cristalização institucional de outra correlação e de convergências político-ideológicas típicas dos anos setenta, a Constituição da República Portuguesa, e era necessário fazer dela uma trincheira para enfrentar o que aí vinha. Somos filhos dessa visão na esquerda, incluindo as várias propostas de convergências consequentes feitas ao PS, quer reconheçamos tal facto, quer não. Fez-se o que melhor que se pôde. 

O Álvaro Cunhal que emerge da pena clara de Carlos Brito, sem acinte, nem ajustes de contas, é engrandecido, incluindo pela revelação elevada da política como trabalho de e para humanos falíveis, com os quais se concorda e com os quais se discorda, por vezes dolorosamente, como na parte final do percurso. E pode chamar-se hegemonia também à capacidade de reintegrar os perdedores. 

Há no livro uma destreza analítica que também é a do intelectual tarimbado por décadas de política. Nunca conheci melhor combinação, independentemente das convergências e das divergências, com as quais de facto se aprende sempre. Nestas últimas, está a mais recente demonstração de preocupação da associação política Renovação Comunista com o PCP, que não é nada fácil de compatibilizar com o apoio dado anteriormente ao PS, bem como com a participação noutros projectos partidários. Diria que a preocupação consequente pressupõe um apoio que é muito diferente deste tipo de manifestações públicas. 

No fim deste texto, fica o que mais me importa: Cunhal e Brito são dois dos muitos que têm um lugar nas melhores páginas da nossa História Política comum, assim com h e p grandes. Devemos tanto a esse H e P que tantos escreveram nas mais difíceis circunstâncias. Haja combate pela memória, até porque História haverá certamente. Sabemos bem que não terminou.

Da defesa ao ataque


Neste contexto, pode ser útil ler a desmontagem do embuste neoliberal da literacia financeira, feita por João Oliveira, prolongando argumentos mais detalhados de Ana Cordeiro Santos e Vânia Costa, estes dois minutos de Maria Clara Murteira sobre segurança social, bem como o texto sobre o investimento que precede a poupança escrito com João Rodrigues.

A ideologia dominante faz gala...


No Twitter, um anónimo designou-a por «espetáculo insano protagonizado por sociopatas ricos e alienados». Nela houve espaço para a atriz-milionária Sarah Paulson enfrentar os poderosos. Fê-lo num vestido de tule cinza da coleção Outono/Inverno 2026, reveladoramente chamada The One Percent, da Matières Fécales, previamente apresentada nas passerelles de Paris, complementando o vestido com uma nota de um dólar transformada em mascarilha, metáfora da cegueira do dinheiro. 

Este foi um dos momentos marcantes da Met Gala, que anualmente se realiza no icónico Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque e cuja entrada custa cem mil dólares por pessoa (trezentos e cinquenta mil dólares por mesa). Trata-se da expressão máxima do consumo conspícuo na era das desigualdades pornográficas, o que já apodei de porno-riquismo (Le Monde Diplomatique – edição portuguesa, março de 2018). 

Já não é a primeira vez que alguém se coloca naquela gala em preparos pretensamente críticos, mas tão funcionais que se não existissem tinham de ser inventados pelo sistema. A cada vez mais integrada Alexandria Ocasio-Cortez já ali se pavoneou, em plena pandemia, de vestido branco, com uma garrida inscrição a vermelho: «tax the rich» (taxar os ricos). 

O sistema não absorve todas as críticas, ao contrário do que pareceu afiançar uma certa «teoria crítica», de resto sob suspeita, cada dia mais fundada, de não ter passado de uma racionalização bem financiada da impotência coletiva. Adora, isso sim, todos os seus simulacros performativos, tão fáceis de mercadorizar. O poder do capital requer exibição para ser material; a componente mediática de ofensiva ideológica destina-se a alimentar aspirações e sonhos impossíveis, a criar desejos inúteis e fúteis, já o sabemos há muito. Uma certa dissensão performativa ajuda ao espetáculo, dando-lhe um certo drama, uma ilusão de acomodação plural. 

Patrocinada pelo bilionário Jeff Bezos e pela esposa, que terão comprado por dez milhões de dólares o direito de serem seus presidentes honorários este ano, a gala é todo um documento cultural despudorado da civilização-barbárie capitalista, sinal poderoso da validade da fórmula de Warren Buffet: «tem havido uma luta de classes e a minha classe venceu». 

Esta declaração realista foi feita precisamente a propósito da substancial redução da progressividade fiscal nos EUA. De facto, no período de maior crescimento da produtividade da história do país, a seguir à Segunda Guerra Mundial, a taxa marginal do imposto, que incidia sobre o último escalão do rendimento, chegou a um máximo de 91%, em 1960, até descer, meio século mais tarde, para os 35%, como bem assinalou o economista social-democrata Robert Reich.

O resto do artigo pode ser lido no AbrilAbril

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Desgovernado


O assessor de imprensa terá dito: Senhor Governador, pode regressar ao Twitter, passado um interregno de duas semanas, a memória é curta. Nós dizemos: tenha vergonha, nós temos memória.

Haja cultura proletária


Quando Portugal entrou na CEE, despertou-se uma vontade súbita de ascender socialmente. O brilho das novidades vindas do estrangeiro cosmopolita impunha-se, então, como um estímulo a uma nova forma de vida, inspirada pelo consumo e pelo crédito. A partir daí, espaços de sociabilidade foram perdendo relevância. Muito lentamente, as coletividades entraram num período de declínio, que já na transição do século refletir-se-ia até na dificuldade em formar listas para as suas direções. 

Quando comecei a frequentar os cafés da minha cidade com amigos e conhecidos, questionava-me, com frequência, sobre o motivo que levava um determinado grupo de pessoas a manter-se fiel a esses espaços e uma outra casta a preferir uma sociabilização mais restrita, doméstica, discreta. O movimento de ascensão de classe da minha família permitia-me experienciar as duas vivências.

O resto do artigo de Jorge C. pode ser lido no AbrilAbril. Gosto particularmente da forma honesta como nos seus artigos a primeira pessoa do singular se liberta numa certa e determinada primeira pessoa do plural. Somos de facto um conjunto de relações sociais, produtos e produtores de cultura. Haja cultura proletária. 

terça-feira, 5 de maio de 2026

Das nossas relações


5 maio – parabéns, Karl Marx: “[A] essência humana não é uma abstração inerente a cada indivíduo. Na sua realidade ela é o conjunto das relações sociais”.

Haja visão


Foi no terreno, contactando com comunidades devastadas pela violência, que Traoré terá consolidado a sua visão política, assente num diagnóstico simples: a independência política, conquistada em 1960, nunca foi acompanhada de uma verdadeira independência económica. 

Tenho comprado a Visão com alguma regularidade, depois ter contribuído para o projeto de controlo da publicação pelos próprios trabalhadores, uma luta meritória em curso. Esta semana fi-lo sobretudo por causa de uma excelente reportagem, da autoria de José Rodrigues, sobre o Burkina Faso e sobre o corajoso Ibrahim Traoré, discípulo do imortal Thomas Sankara. 

O jornalista foi lá e apreciou a reconstrução de uma nação digna nas mais duras, mas também esperançosas, circunstâncias, incluindo graças à conquista do controlo público de setores estratégicos. Ir e ver acaba por ser um antídoto em relação às campanhas imperialistas contra Traoré a que uma certa esquerda eurocentrada é absolutamente vulnerável. O jornalismo deve ser mesmo a primeira versão da história.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

A paz, o pão...


Acabei de almoçar no refeitório da liga dos combatentes, onde se come bem e barato, no magnífico claustro do Colégio da Graça, em Coimbra. 

Estavam lá três camaradas no sentido mais profundo do termo – e “um camarada é alguém com quem contas, com quem partilhas uma ideologia, um compromisso com princípios e objetivos para lá do que é momentâneo, numa luta que todos sabem ser longa” (Jodi Dean) – a acabar de montar uma exposição sobre os cinquenta anos da Constituição. 

Deixo aqui um dos painéis, confirmando que a luta pela paz não pode ser desligada do resto, do combate pelos direitos laborais, parte do Estado social e da democracia. Os mecanismos são brutalmente claros e o sindicalismo de classe conhece-os e dá a conhecê-los como poucos neste país. Também é por isto que os dominantes e os seus servos intelectuais mediáticos o odeiam.

domingo, 3 de maio de 2026

Guerras de classe


Em 1899, Thorstein Veblen publicou A teoria da classe do lazer – Um estudo económico das instituições (Actual, 2018). Trata-se de um estudo tão arguto quanto ácido sobre os hábitos da classe possidente norte-americana, da forma como as brutalmente desiguais instituições do capitalismo do seu tempo davam livre curso aos instintos predadores, sob a forma da especulação financeira, da corrosão de instituições não-mercantis ou de um ocioso consumo ostentatório; conspícuo, chamou-lhe. 

Três anos mais tarde, em 1902, John Hobson, escreveu Imperialism: a study (por traduzir), argumentando que o imperialismo, predação internacional ao serviço de interesses financeiros, não podia ser compreendido sem atender à forma como a desigual distribuição do rendimento e da riqueza nas principais potências capitalistas dava origem a um persistente subconsumo popular interno que tinha de ser de alguma forma compensado externamente. 

Encarnado internacionalmente por Bernard Arnault, um dos dez homens mais ricos do mundo, e nacionalmente por Paula Amorim, a herdeira mais rica do país, é fácil de ver que o porno-riquismo, o negócio do consumo conspícuo na nova era das desigualdades pornográficas, é indissociável das guerras de classe multiescalares em curso contra os povos e contra a natureza. O resto é só hipocrisia e ganância. 

Num sistema capitalista estruturalmente violento, a paz torna-se crescentemente um luxo para os povos. Por isso, a luta séria e intransigente, de recorte anti-imperialista, pela paz vai à raiz dos problemas. Sim, é radical lutar pela paz.

sábado, 2 de maio de 2026

Houve tudo


Vamos afirmar a nossa indignação e protesto, a exigência de uma vida melhor, da derrota do pacote laboral, vamos afirmar a poderosa força dos trabalhadores. Todos juntos vamos realizar uma grande greve geral no próximo dia 3 de Junho. E aqui, hoje, perante milhares de trabalhadores, a CGTP-Intersindical Nacional apela, mais uma vez, aos trabalhadores para a luta. Apela à convergência de todas as estruturas dos trabalhadores. Vamos construir dia a dia essa grande jornada de unidade, força e dignidade dos trabalhadores, pelos direitos, pelos salários, por um país mais justo e desenvolvido. 

Excerto da intervenção de Tiago Oliveira no Primeiro de Maio da CGTP. Fomos muitos, muitos mil para continuar abril em maio – e abril perde-se ou ganha-se em maio –, subindo a Almirante Reis, do Martim Moniz à Alameda, em Lisboa, fiéis a uma tradição de luta, de unidade, a partir da força do trabalho. Sem ela, como o Primeiro de Maio de 1974 tão bem ilustrou, não teria havido revolução democrática. Sem ela, já tínhamos o pacote laboral em vigor, parte de um plano de classe tão inclinado. 

Sim, foram muitos os jovens a participar, mas também havia velhos, com o corpo de quem trabalhou e lutou arduamente uma vida inteira, a solidariedade de classe real impede clivagens geracionais tão artificiais como o liberalismo que as promove. 

Quase no fim da manifestação lá estava ela, numa cadeira de rodas, na berma do passeio, tão frágil quanto digna, tão vulnerável quanto determinada, não desistiu. Fiquei com os olhos marejados uma vez mais, não a conhecia, mas gostaria de a ter conhecido. 

A cadeia do tempo não se quebrará, porque também houve alegria, camaradagem, amizade, comes e bebes, combatividade, houve tudo o que importa, é aqui que está o futuro, afinal de contas, porque é aqui que se defende a paz, os direitos de quem trabalha e a democracia que não fica à porta dos locais onde se cria tudo o que valor, igualização cidadã sem fim. A luta continua, cientificamente é aliás a única coisa que podemos prever.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Até amanhã


A origem do 1º de Maio remonta a 1886, numa luta pelas 8 horas de trabalho. Em 1962, os trabalhadores rurais do Alentejo conquistaram esse direito pela luta árdua. Deixaram de ser os bichos da noite. 140 e 64 anos depois, chegámos ao 1º de Maio de 2026. Com avanços tecnológicos extraordinários, querem mesmo aumentar a jornada de trabalho diário, e convencer-nos que trabalhar 10h e 12h num dia é futuro e progresso. Banco de horas é passado e atraso, é nostalgia de exploração desenfreada. Não vamos deixar.
 

Marcas


O imortal Aquilino Ribeiro terá dito, cito de memória: “o problema de Portugal não é aplicar-se o provérbio ‘em terra de cegos quem tem um olho e rei’, mas sim quem tem dois olhos furar um olho para poder ser rei”. Ou para poder ser um boneco televisivo. 

Não tenho televisão desde 2022 e desde aí que praticamente não perco tempo com comentário político televisionado, mas o algoritmo quer que saibamos o que Francisco Mendes da Silva anda a dizer: “Na esquerda, o BE e o PCP são marcas que estão mortas, o Livre não vai dar muito mais do que aquilo. É preciso uma novidade rápida”. 

Tenho duas coisas ou três coisas para dizer. A marca do apoio ao genocídio sionista não sai, Mendes da Silva. E vergonha, economizadora do dislate político na época da mercadorização total, onde tudo é marca, manifestamente não há. 

Reparai como vivemos um momento de vivo confronto de classes, com capacidade de organização, resistência e resposta dos trabalhadores contra o pacote laboral. É também (e muito) nesta esfera que se afere da vitalidade (e validade ou reconhecimento) da esquerda e dos seus valores, com o trabalho no centro. É exatamente neste momento que Mendes da Silva diz ser necessária “uma nova esquerda”. 

Percebe-se: a esquerda que temos, sobressaindo aqui os que, por exemplo, organizarão de novo os piquetes de greve e lá estarão em maior número, não permitirá que o pacote laboral de patrões e Mendes da Silva vá por diante. Apoio ao genocídio, belicismo, exploração dos trabalhadores, isto está mesmo tudo ligado. 

E se, por absurdo da história, a tradição comunista morresse em Portugal, seria preciso que se juntasse gente boa e subalterna para ressuscitar este iluminismo radical, tão indispensável em tempos que seriam ainda mais brutos e escuros.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Debater, debater, debater sempre


Hoje de manhã, entre as 10h e as 12h, tive a oportunidade de participar num debate sobre o pacote laboral na Antena 1, expondo meia dúzia de ideias. 

Em primeiro lugar, denunciei a manipulação ideológica liberal, a que consiste em dizer que é flexível, termo com conotação positiva, um arranjo que confere mais direitos aos patrões e logo menos aos trabalhadores e que é rígido um arranjo que confere mais direitos aos trabalhadores e logo mais deveres aos patrões. Ninguém é neutro, mas podemos e devemos ser objetivos. Tudo começa pelo enquadramento. 

Em segundo lugar, a lógica global do pacote laboral é socialmente regressiva; se for aprovado, terá impactos negativos na economia portuguesa: economia de ainda menor pressão salarial, mercado interno mais comprimido, menores incentivos ao investimento modernizador. 

Em terceiro lugar, ao enfraquecer os sindicatos, a negociação coletiva, fomentando a precariedade, a imposição patronal, por exemplo com o banco de horas, o pacote laboral acentua desequilíbrios estruturais que vêm do passado, das contrarreformas de 2003 e da troika, responsáveis por este padrão: no último quatro de século a produtividade do trabalho cresceu 21% e os salários reais 15%, ou seja, ocorreu uma transferência do trabalho para o capital. 

Em quarto lugar, os patrões não são todos iguais: esta proposta é recortada para os mais retrógrados, concentrados em setores estruturalmente menos produtivos, como o turismo, desejando uma força de trabalho barata e descartável. 

Em quinto lugar, o pacote laboral entroniza estes setores e nenhum empresário de setores avançados o pediu. 

Em sexto lugar, porque factos e valores estão sempre entrelaçados, apelei à participação de todos os trabalhadores na jornada do Primeiro de Maio. Esta jornada será a continuação da luta persistente dos trabalhadores contra o pacote laboral. Tem raízes históricas e sementes de presente e futuro. Lá estarei, lá estaremos.

Adenda. Quem quiser conhecer a lista das malfeitorias deste pacote, pode ler com proveito este documento da CGTP, por exemplo.

Cidade, cidadania


Anozero’26
[bienal de Coimbra]: Désirée Pedro, José Reis e Nuno Grande são os convidados para a apresentação do livro «A Beleza de Um Corpo Nu: Ensaio sobre as cidades», de José António Bandeirinha, que terá lugar no dia 30 de abril, quinta-feira, às 18h00, no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, em Coimbra. A participação é livre. Inicialmente anunciada para o dia 29 de abril, a sessão foi reagendada para esta nova data. Editado pela Tinta-da-china, o livro propõe uma reflexão crítica sobre o conceito de cidade na contemporaneidade. Partindo da ideia de que nunca se falou tanto de cidade como hoje — e, simultaneamente, talvez nunca estivéssemos tão distantes de a compreender —, a obra revisita os fundamentos ontológicos do urbano.


terça-feira, 28 de abril de 2026

Desgovernar


Os especuladores podem não causar dano quando são apenas bolhas numa corrente empresarial incessante. Mas as coisas tornam-se preocupantes quando a empresa se converte numa série de bolhas no turbilhão especulativo. Quando o desenvolvimento do capital dum país passar a ser um subproduto das actividades de um casino, a obra sairá provavelmente torta.

John M. Keynes, Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, 1936. 

Os investimentos especulativos ilegais de Álvaro Santos Pereira são um problema político. A incensada e fictícia independência dos bancos centrais não passa de real dependência do capital, como temos insistido. 

Ao comprar ações da Galp e da Jerónimo Martins, o Governador sabe que estes mastodontes empresariais estão sempre em condições de lucrar com a atual instabilidade, à custa do povo português. A privatização da Galp foi ruinosa. 

Como afirma voluptama: “Ter sido o BCE e não as nossas instituições a fiscalizar isto. Mostra bem o nível de subserviência enquanto país. Ir para presidente do BdP e achar que pode continuar a especular como se nada fosse. Mostra o nível de falta ética.” 

E mais: “Se um país considera normal que um PM receba avenças de privados enquanto governa, e que seu governo aprove medidas que favorecem aqueles que as pagam, como poderia o Governado do BdP achar errado comprar ações enquanto ocupa o cargo?”

Projeto inacabado


Curiosamente, 14 de março, mas de 1883, é também a data da morte de outro defensor do projeto inacabado do Iluminismo, Karl Marx. Embora partilhasse o compromisso de Habermas com a liberdade universal, a conceção de Marx da relação entre liberdade e história não se baseava num ideal transcendental fixo, mas antes no que alguns autores descrevem como uma forma de ética objetiva. 

André Saramago, Habermas e o Projeto Inacabado do Iluminismo, AbrilAbril, 27 de abril de 2026. 

O Público, onde pontifica toda a sorte de trampa na opinião, rejeitou a publicação deste artigo limpo e luminoso, escrito por um intelectual escrupuloso, com cuja obra tenho aprendido

É por estas e por muitas outras que deixei de comprar ou assinar um jornal que encarna a decadência do euro-liberalismo, cúmplice do sistema imperialista cada dia mais violento, cada vez mais incapaz de acomodar vozes genuinamente críticas. 

Felizmente, existe sempre alternativa em abril.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Imagem, palavras


Carlos Guedes sabe que uma imagem não substitui palavras, mas pode fortalece-las. 

Os liberais até dizer chega da IL podem descer as ruas que quiserem, com a meia dúzia de gatos pingados que conseguirem arrebanhar, mas jamais esta extrema-direita fará parte dos desfiles do 25 de abril, de uma revolução democrática e nacional que é a antítese do seu programa de sociedade. 

O Chega tem outro lugar na divisão de trabalho destas duas expressões político-partidárias das frações mais reacionárias do capital. Ambos mobilizam pouca gente. Não precisam. O seu poder reside nos salões e escritórios da classe dominante, nos estúdios do capitalismo televisivo, nos stink-tanks pagos por milionários

Temos de pensar como se os seus quadros políticos fossem todos pagos pelo grandes grupos económicos, pelo patrão mais medíocre, pelo rentista mais insalubre, todos com mais direitos e menos deveres. O “como se” tem realismo e poder preditivo, dada a natureza da sua política velha, de décadas de hegemonia neoliberal, contribuindo objetivamente e subjetivamente para a subordinação do poder político ao pior e mais violento poder económico. 

Chama-se fascismo a este processo a partir de certa altura e daí a necessidade de uma economia mista de recorte antifascista, que dê densidade material ao preceito constitucional da subordinação do poder económico ao poder político democrático, exigindo, por exemplo, que se revertam privatizações ruinosas para a democracia. 

Adenda. João Ferreira (o outro) faz a analogia que se impõe: “Com a aproximação do 1º de Maio, para completar a hipocrisia, já só falta ver a CIP, acompanhada dos ministros, a afirmar que o dia do trabalhador “é de todos” e a infiltrar-se na manifestação organizada pela CGTP para dar vivas - isto é malta que não grita - ao pacote laboral”.

domingo, 26 de abril de 2026

Sempre, nunca mais


Fomos muitos, muitos, mil para continuar Abril em Coimbra, com muitos estudantes, uma imensa alegria até a uma Praça de 8 de Maio que transbordou. Lá estava ele na Praça da República, Hermínio Martins, resistente antifascista, com um livro de quase mil páginas – palavra dada, palavra honrada. Fiquei emocionado com o presente: Cadeia de Caxias – a repressão fascista e a luta pela liberdade

O primeiro terço do livro é história e testemunho inesquecíveis. O resto é uma lista dos heróis e das heroínas, mais de dez mil, que estiveram naquela prisão pelas suas convicções, pelo povo deste país. Abro na página que por acaso encabeça com José Pedro Soares, coordenador da União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP), que edita o livro: barbaramente torturado, este tipógrafo comunista esteve dois anos, nove meses e vinte sete dias preso. 


Tive o prazer de o ouvir e o privilégio de o conhecer pessoalmente há duas semanas. Participou num painel de antigos deputados constituintes, com Helena Roseta e António Campos, no quadro de uma excelente conferência sobre os cinquenta anos da Constituição da República Portuguesa. Falando do fascismo que existiu entre nós e do processo revolucionário que acabou com ele, Roseta teve a honra de pedir um aplauso para este resistente antifascista, que fez um discurso tão convergente em torno da Constituição quanto emocionante, de vida vivida, pensada, sentida. 

Haja memória, haja história: 25 de abril sempre, fascismo nunca mais.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Dia 29, jantar comemorativo do 25 de Abril, no Porto


«Num tempo em que os debates sobre direitos, condições de vida e participação democrática voltam a exigir presença ativa e compromisso coletivo, um grupo de pessoas do Porto, representando a esquerda da cidade, volta a juntar‑se para organizar um jantar‑convívio plural.
Queremos que este encontro seja espaço de memória viva, de celebração e de conversa franca sobre o que nos convoca, com uma atenção mais fina para pilares que moldaram Abril e que devem continuar a moldar o país: a luta pelos direitos laborais, agora sob ataque alarmante numa conjuntura já difícil, e a defesa da Constituição, que cumpriu 50 anos a 2 de Abril e consagrou, pela primeira vez, as liberdades e os direitos políticos, sociais, económicos e laborais que o fascismo negou às portuguesas e aos portugueses.
(...) Que este encontro seja um manifesto de luta pela democracia, de afirmação dos valores de Abril e de recusa de qualquer retrocesso. Celebrar, conversar e estar juntos continua a ser uma forma de resistência imprescindível
».

Do convite à participação no jantar comemorativo do 52º aniversário do 25 de Abril, no Porto, promovido pela Associação de Moradores da Bouça (Rua dos Burgães, 345) e que terá lugar no próximo dia 29, a partir das 19h30. A inscrição, até ao dia 26 de abril, pode ser feita aqui.

Robert Skidelsky


O contrato original com a MacMillan, de 1970, dizia que seria uma biografia de Keynes a ser entregue no final de 1972, com 150 000 palavras. O primeiro volume saiu em 1983, o segundo em 1992 e o terceiro em 2000. Tenho a biografia na edição em paperback e tem mil páginas. Ele explica-se na introdução, incluindo com problemas de acesso aos arquivos. Trabalhou na secretária de Keynes. 

Se mais não houvesse e houve, este trabalho de amor chegaria para o colocar no panteão da história e da economia, tanto mais que colocou certeiramente a ideia de incerteza radical, onde o futuro não é uma sombra estatística do passado, no centro da vida e obra de Keynes. 

Houve mais, de facto, incluindo um livro notável de macroeconomia monetária, onde a moeda só é neutra nas ficções convencionais; estamos sempre numa economia monetária de produção, onde o investimento precede a poupança. 

Robert Skidelsky faleceu no passado dia 15 de abril. Este blogue curva-se perante a sua memória.