Imaginemos que não há tempo histórico, incerteza e que o futuro é uma continuação estatística do passado; imaginemos que não vivemos numa economia monetária de produção, a que começa com D e acaba com D’ e que assim molda os comportamentos, incluindo súbitas preferências por liquidez, a mesma economia que coloca a mercadoria a dar saltos mortais; imaginemos que os mercados, com mais ou menos fricção, se equilibram, numa lógica mecânica mais ou menos pendular, apesar da retórica “dinâmica”; imaginemos que estes mercados são povoados por agente “representativo” omnisciente e omnipotente e imortal (é a este tipo de exercício que chamam microfundações).
Imaginemos ainda que tudo isto é matematizado para dar uma aparência científica à maior banalidade; finalmente, imaginemos que se tem um martelo, a taxa de juro, tão natural como a sua sede, e que tudo é prego para bancos centrais independentes e para outras soluções institucionais regressivas.
Os bancos centrais financiam maciçamente esta teologia de mercado como forma de ocultar o facto ululante: na prática, a sua teoria é outra, tem de ser outra, requerendo resgates do intrinsecamente instável capitalismo financeirizado. Os custos sociais são pagos por outros.
Enfim, a teologia medieval é mais realista e mais plural do que este tipo de retrocesso intelectual e de política económica que mereceu mais um “Nobel” (não o é). O chamado Nobel da Economia é atribuído pelo Banco Central da Suécia desde 1969 e, com as exceções conhecidas, tem sido usado para impor um programa político-ideológico, como se indica numa excelente história das ideias.
E, numa das mais enganadoras designações da história do pensamento económico, estes continuadores de Chicago, do monetarismo às expetativas racionais, com umas fricções adicionadas para tornar os ajustamentos mais lentos, apodam-se de novos keynesianos, quando são totalmente antikeynesianos, do método às prescrições de política. Tudo em Keynes começa na incerteza, radicalmente diferente de risco, e acaba na moeda que nunca, mas nunca, é neutra, sem esquecer a socialização do investimento e a eutanásia do rentista.
Felizmente, há alternativas monetárias modernas e outras numa ciência social apesar de tudo plural, com alguma capacidade explicativa e prescritiva.






















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