quinta-feira, 9 de julho de 2026

Quanto custam as ondas de calor?

O verão do ano passado ficou nos registos do Instituto Português do Mar e da Atmosfera como o mais quente desde 1931. Portugal registou três ondas de calor com temperaturas pelo menos 5 °C acima da média para a época, uma onda que durou 20 dias consecutivos entre o final de julho e meados de agosto e um recorde absoluto de 46,6°C em Mora, no distrito de Évora.

O cenário mantém-se este ano: o país atravessou cinco ondas de calor entre janeiro e junho, num total de 59 dias, e a última semana voltou a ser marcada por temperaturas em torno dos 40°C. Na Europa, a atual onda de calor é a pior de que há registo. Foi batido o recorde de temperatura na Alemanha, Polónia, Eslováquia, Chéquia e Hungria e o calor anormalmente elevado também atingiu França, Bélgica e Países Baixos, onde a temperatura está associada a um excesso de mortalidade significativo.

Para lá dos impactos óbvios que as ondas de calor mais frequentes e intensas têm no dia-a-dia da maioria das pessoas, desde as casas com fraco isolamento térmico aos locais de trabalho mais expostos à temperatura ou às deslocações em transportes sem climatização, é importante olhar para as consequências económicas do aquecimento global e perceber por que razão a maioria dos economistas os tem subestimado.

O que entra na fatura das ondas de calor?

O impacto mais direto do calor extremo prende-se com o trabalho. Os períodos de temperaturas anormalmente elevadas afetam a capacidade de trabalhar nos setores mais expostos, como a agricultura, a construção e algumas atividades industriais. De acordo com um relatório da Organização Internacional do Trabalho, em 2030, estima-se que mais de 2% das horas trabalhadas sejam perdidas devido ao calor extremo, com impacto negativo na produtividade, quer porque as condições tornam o trabalho impossível, quer porque obrigam a um ritmo mais lento.

Este custo não se distribui de forma igual e atinge sobretudo os trabalhadores da agricultura e da construção (com elevada exposição ao calor e condições de trabalho mais precárias), ao passo que a quebra de produtividade em escritórios climatizados é comparativamente menor. A mesma onda de calor tem, assim, um preço muito diferente consoante o lugar que se ocupa no mundo do trabalho.

A crescente procura por ar condicionado e sistemas de arrefecimento leva-nos ao segundo impacto: o dos preços da eletricidade. Além de aumentar a procura de energia, o aumento das temperaturas também reduz a oferta, já que várias centrais de produção são forçadas a reduzir a atividade por não conseguirem garantir a refrigeração. Maior procura e constrangimentos do lado da oferta levam a aumentos de preços da eletricidade, como já se tem verificado em vários países europeus.

Para a economia como um todo, a partir de certo limiar de temperatura, os prejuízos aumentam de forma não linear. Por um lado, o calor intenso reduz a produtividade dos trabalhadores e obriga a abrandar ou interromper a atividade em alguns setores. Por outro, a maior necessidade de arrefecimento faz subir o consumo de energia, encarecendo os custos das empresas. Resultado: projeta-se que a crescente intensidade das ondas de calor provoque perdas de centenas de milhares de milhões de euros nas principais economias europeias.

Além disso, o impacto nos preços não se resume à energia. Um estudo publicado por economistas do Banco Central Europeu concluiu que a onda de calor que atingiu a Europa em 2022 levou a um aumento dos preços dos bens alimentares entre 0,43 e 0,93 pontos percentuais. Na verdade, há cada vez mais sinais de que as alterações climáticas e os eventos meteorológicos extremos - nos quais se incluem as ondas de calor - têm impacto significativo nos preços dos alimentos.

 
Fonte: BCE

Nos últimos anos, este tipo de fenómenos esteve associado ao aumento dos preços de diversos produtos. A seca no sul da Europa fez disparar o preço do azeite; as colheitas afetadas pelo calor no Brasil e na África Ocidental empurraram para cima o custo do café e do cacau. São produtos cujo preço passou a incorporar, de forma cada vez mais visível, a instabilidade do clima nas regiões que os produzem. Como o peso dos bens alimentares no orçamento das famílias é tanto maior quanto menor é o rendimento, este é um dos canais pelos quais o custo do aquecimento recai desproporcionalmente sobre quem ganha menos.

Nada de novo debaixo do sol?

As ondas de calor são a face mais visível de um fenómeno mais vasto. O aquecimento global traduz-se também em secas mais prolongadas, chuvas mais intensas e cheias mais frequentes que afetam a economia. Apesar dos custos até aqui descritos serem facilmente observáveis, a verdade é que têm sido frequentemente negligenciados na análise económica. Durante décadas, a avaliação económica das alterações climáticas foi dominada por modelos que procuram quantificar o custo do aquecimento global em termos de perdas de PIB. O mais influente foi desenvolvido pelo economista William Nordhaus, que recebeu o equivalente ao Nobel da Economia em 2018. Nordhaus foi o primeiro economista a tentar quantificar o custo do aquecimento global, tendo construído o modelo DICE (Dynamic Integrated Climate-Economy model), que se tornou a referência dos manuais que ensinam economia do clima.

 
Esquema ilustrativo da lógica do modelo DICE. Fonte: Nordhaus (2018)

Neste modelo, o efeito de um clima mais quente é medido como uma perda percentual de PIB e segue-se a lógica das análises custo-benefício, com o objetivo de encontrar o nível ótimo de redução de emissões: aquele em que o custo de reduzir emissões, medido como o crescimento de que se abdica para conter as emissões de carbono, iguala o benefício de evitar danos futuros. Nordhaus concluiu que o ponto de adaptação ótima seria um aquecimento de cerca de 3°C. De acordo com o modelo, os danos associados a este aumento da temperatura média do planeta seriam geríveis e uma redução gradual das emissões seria o suficiente para os conter.

Neste contexto, as emissões são tratadas como uma externalidade negativa, um custo que quem polui impõe a terceiros sem o pagar, e a solução que daí decorre é conhecida: um preço para o carbono que corrija a falha de mercado. Foi este raciocínio que valeu a Nordhaus o reconhecimento da disciplina e um lugar central na forma como o IPCC e os governos passaram a pensar o problema. No entanto, as suas conclusões assentam em pressupostos que não resistem a um escrutínio sério.

Primeiro, Nordhaus excluiu 87% da economia americana de qualquer impacto climático, com o argumento de que essas atividades decorrem em "ambientes cuidadosamente controlados". Por outras palavras, tudo o que acontece dentro de portas estaria a salvo. A lista do que ficou de fora inclui a indústria transformadora, a construção, os transportes, o comércio, a banca, os seguros e os serviços públicos. A ideia de que a indústria e os serviços estão a salvo por decorrerem em ambientes climatizados ignora que dependem por inteiro de cadeias de abastecimento, de energia e de matérias-primas que não decorrem dentro de portas.

Não faltam exemplos recentes que mostram como este pressuposto é irrealista. Em 2023, a Autoeuropa foi obrigada a parar a produção durante semanas apesar da fábrica de Palmela se encontrar intacta, visto que um fornecedor esloveno essencial ao fabrico dos motores tinha sido devastado pelas cheias que atingiram a Eslovénia nesse verão. Já este ano, a depressão Kristin que atingiu o país afetou a maioria das empresas na região centro do país. Além das indústrias de moldes, vidro, cerâmica e plásticos, duas fábricas de peças para automóveis ficaram completamente destruídas, ao ponto de ameaçarem parar uma linha da Porsche na Alemanha. Ou seja, não só os eventos meteorológicos extremos afetam a maioria das atividades económicas, quer estas ocorram dentro ou fora de portas, como podem afetar indústrias em locais que não foram atingidos por estes, devido às ramificações das cadeias de produção.

Depois, para estimar o efeito do aquecimento sobre o PIB, Nordhaus e os economistas que o seguiram observaram como varia hoje o rendimento entre regiões com temperaturas diferentes e assumiram que essa relação no espaço se aplica igualmente ao longo do tempo. Só que a causa da variação no espaço nada tem a ver com a causa da variação no tempo. As diferenças atuais de riqueza entre regiões com temperaturas mais altas e mais baixas dizem-nos muito pouco sobre o que acontece quando se retém na atmosfera energia suficiente para aquecer o planeta inteiro.

Além disso, Nordhaus optou por descrever a relação entre temperatura e os danos provocados através de uma função que não admite descontinuidades ou pontos onde a relação se quebra. No entanto, a investigação sobre alterações climáticas aponta para a existência de pontos de inflexão: limiares a partir dos quais o sistema muda de estado de forma abrupta e por vezes irreversível, como o degelo do Ártico ou o colapso da floresta da Amazónia. Os modelos subestimam os riscos porque assumem que os ecossistemas são substituíveis e porque não captam os efeitos irreversíveis associados aos pontos de inflexão. Se a floresta da Amazónia ou os recifes de coral desaparecerem, não existe nenhuma tecnologia que permita substituir os serviços que estes ecossistemas prestam (desde a regulação hídrica à proteção costeira). Modelos que assumem o contrário produzem projeções de danos que dificilmente se podem considerar realistas.

Voltando às previsões do modelo: Nordhaus concluiu que o ponto de adaptação ótima seria um aquecimento de cerca de 3°C, que, segundo o modelo, produziria danos geríveis com uma redução gradual das emissões. O problema é que, de acordo com o amplo consenso científico existente, este nível de aquecimento do planeta estaria associado a ondas de calor sem precedentes nos trópicos, à inundação de cidades costeiras e a riscos sérios para a produção de alimentos.

Se o modelo subestima os danos, também subestima a dimensão da resposta necessária para os evitar. Ao tratar o aquecimento global como uma falha de mercado, a implicação que se retira é que basta definir um preço para as emissões de carbono e deixar que o mercado se ajuste. No entanto, apesar dos mercados de carbono terem sido adotados por boa parte dos países nas últimas décadas, o preço continua a ser, em geral, demasiado baixo para desincentivar as emissões e cumprir as metas do Acordo de Paris.

 
Fonte do gráfico: Bloomberg

A dependência dos combustíveis fósseis não se explica apenas pelos preços, mas sobretudo pela forma como estão organizados os sistemas de energia, de transporte, de produção industrial e de alimentação. Um sinal de preço pode produzir alterações marginais nesses sistemas, mas não é suficiente para promover as transformações necessárias. Confiar apenas no mecanismo do preço tende a produzir aquilo a que os economistas Daniela Gabor e Benjamin Braun chamam terapia de choque do carbono: deixar que a energia cara elimine as atividades que dela dependem, com o custo de destruir capacidade produtiva e emprego sem uma transição socialmente justa.

O que fazer numa economia sobreaquecida?

Durante quase quarenta anos, entre a década de 1980 e a pandemia da COVID-19 em 2020, as economias ocidentais viveram um período de inflação baixa e estável a que os economistas deram o nome de Grande Moderação. Essa estabilidade assentou num conjunto de condições estruturais que hoje parecem estar a reverter-se, entre as quais a dimensão ambiental: os fenómenos meteorológicos extremos eram suficientemente raros para não perturbarem de forma sistemática a produção agrícola e industrial e, com isso, os preços dos produtos.

No entanto, as alterações climáticas colocam em causa as condições estruturais que estiveram na base da Grande Moderação. Numa era em que ondas de calor, secas e cheias se tornam mais frequentes, a economia passa a enfrentar constrangimentos persistentes do lado da oferta e deixa de se poder contar com a disponibilidade permanente de recursos. O economista Jo Michell, que se tem debruçado sobre a macroeconomia no fim da “era da abundância”, defende que estas mudanças obrigam a repensar de raiz a política macroeconómica para aprender a lidar com maior instabilidade da oferta.

Gerir a procura através da política monetária dos bancos centrais, que descem ou sobem as taxas de juro consoante pretendem estimular ou arrefecer a economia, tem muito pouca utilidade neste cenário. A subida dos juros não repõe as colheitas perdidas ou as fábricas e infraestruturas destruídas por eventos meteorológicos extremos. Uma seca que destrói um terreno agrícola faz subir o preço dos alimentos independentemente do que acontece à taxa de juro.

Se os choques climáticos vieram para ficar, é necessário planear a economia para lidar com estes de forma socialmente justa. A curto prazo, há instrumentos disponíveis para limitar o impacto distributivo dos choques de preços climáticos: constituir reservas estratégicas de matérias-primas alimentares para evitar oscilações da oferta, além de regular preços e/ou margens em bens essenciais. A médio prazo, o caminho passa pela redução das vulnerabilidades estruturais através de investimento público em adaptação: reabilitação energética de edifícios, eletrificação dos transportes ou melhoria da eficiência na irrigação dos terrenos. Embora nenhuma medida isolada seja suficiente para resolver o problema do aquecimento global, a combinação destas ajuda a mitigar os seus efeitos e a distribuir os custos.

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domingo, 14 de junho de 2026

Amanhã, videoconferência Práxis sobre Democracia no Trabalho

«Em fevereiro, foi apresentado em Espanha o Relatório sobre Democracia no Trabalho, produzido por uma comissão internacional de doze peritos convidados pela ministra do Trabalho, Yolanda Díaz. O ponto de partida é o exame das formas de aplicar, na economia e nas empresas, o artigo 129.2 da Constituição espanhola que estabelece que "os poderes públicos promoverão eficazmente as diversas formas de participação na empresa e fomentarão, mediante uma legislação adequada, as sociedades cooperativas. Também estabelecerão os meios que facilitem o acesso dos trabalhadores à propriedade dos meios de produção".
O relatório faz o diagnóstico da realidade espanhola e das experiências europeias quanto à democracia no trabalho. Analisa os estudos existentes que confirmam o impacto positivo da participação dos trabalhadores na inovação, na produtividade, no emprego a na proteção ambiental».

Em mais uma videoconferência promovida pela Práxis, a oportunidade de comparar a nossa realidade laboral com a realidade espanhola, no âmbito da discussão aberta pelo relatório solicitado pela ministra Yolanda Díaz, com a participação de Bruno Estrada (economista e presidente presidente da PxDE - Plataforma por la Democracia Económica) e Isabel Gemma Fajardo-García (professora de Direito da Universidade de Valência e da Comissão de Peritos do Relatório sobre Democracia no Trabalho). A apresentação do tema estará a cargo de Ulisses Garrido (Práxis) e a moderação do debate a cargo de Luís Simões (jornalista e presidente do Sindicato de Jornalistas). A sessão é aberta a todos os interessados, mediante inscrição prévia aqui.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Sábado, na Feira do Livro de Lisboa


Apresentação do nº 9 da revista Manifesto, por João Costa e Elisabete Paiva, com moderação de Sara Goulart, a partir das 17h00 na Praça Azul. Este número da revista, que nos próximos dias estará disponível em papelarias, quiosques e livrarias, pode também ser já encomendado, aqui.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Quinta-feira: webinar Causa Pública sobre a Prestação Social Única


Dia 11 de junho, a partir das 18h00, com a participação de Carlos Farinha Rodrigues (economista, professor no ISEG/UL e investigador nas áreas da distribuição do rendimento e do combate à pobreza), Fernanda Rodrigues (Assistente Social, doutorada em Serviço Social, Politicas Sociais e Movimentos Sociais, investigadora nas áreas da pobreza e politicas sociais) e Paulo Pedroso (sociólogo, professor no ISCTE e presidente da Causa Pública). Inscrições aqui.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Debater, debater, debater sempre


Defendo que tal forma de economia política só pode ser nas nossas presentes circunstâncias históricas uma economia mista, centrada num Estado social robustecido, em linha com o que continua plasmado, apesar de todas as regressões, em constituições de recorte antifascista, como a portuguesa. Essa é a base material das liberdades democráticas, incluindo nos decisivos locais de trabalho, onde estão os principais freios e contrapesos ao poder do capital, sob a forma da organização de classe. Sem considerar os efeitos políticos do poder agigantado do capital, os fascismos, os velhos e os novos, tornam-se politicamente impensáveis.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

terça-feira, 2 de junho de 2026

Amanhã é dia

Ilustração de Tiago Guerreiro roubada no instagram da CGTP

São horas de lanchar e não há qualquer referência noticiosa em lugar visível no site do Público à Greve Geral de amanhã. É como se não existisse, parte da tentativa editorial para invisibilizar o maior movimento social deste país. 

A cada vez menor autonomia dos jornalistas face a patrões com agendas de classe ajuda na aposta de diminuir o impacto da greve, transformando a sua preparação numa não-notícia. 

Aposto que greve terá impacto, dada a organização empenhada do movimento sindical. A luta é mesmo a única coisa que se pode prever face ao esforço para intensificar a exploração. Amanhã, haverá justa luta sindical de norte a sul do país e haverá quem a transmita em direto e tudo. 

E, sim, farei greve e, sim, haverá piquete de greve na minha universidade. 

Manifesto nº 9 em breve nas bancas

«“Não viveremos no medo que nos querem impor”. Assim começa, em título, o artigo que o ex-ministro da Educação, João Costa, e o ator da companhia de teatro A Barraca, Adérito Lopes, publicaram no Expresso há quase um ano. Nas motivações para a escrita – e entre outros episódios assinalados no texto, sintomáticos do discurso de ódio, insulto e atos de violência por parte de membros, movimentos e forças políticas da extrema-direita – a bárbara agressão a Adérito Lopes por um neonazi, mesmo à porta de A Barraca, no preciso dia em que se assinalavam 30 anos do assassinato de Alcindo Monteiro.
É num apelo à tomada de consciência coletiva e à mobilização, perante as ameaças e os desafios políticos que a ofensiva da extrema-direita hoje nos coloca, a que se soma a erosão neoliberal dos fundamentos e das conquistas sociais que concretizam direitos e promovem a igualdade e a justiça social, que João Costa e Adérito Lopes sublinham a importância do papel das artes e da cultura. Desde logo, “porque a cultura assusta quem não quer a democracia”, assinalam, convocando todos, “em cada fábrica, escola ou espaço artístico, (…) em cada bairro, em cada café”, a “celebrar a democracia e a diversidade”.
»

Do editorial do nº 9 da revista Manifesto, que estará em breve disponível nas livrarias, quiosques e na loja online da Fórum Manifesto. No próximo dia 13 de junho, sábado, a revista será apresentada por Elisabete Paiva e João Costa, com moderação de Sara Goulart, na Feira do Livro de Lisboa (Praça Azul - Livraria Tigre de Papel), a partir das 17h00. Apareçam.

Lista de Artigos:

AMARÍLIS FELIZES, Perguntas sobre arte e trabalho | BERNARDO GOUVEIA, Reflexão à esquerda – Modo de usar | CAPICUA E AFONSO BRANCO, A cantiga (ainda) é uma arma (conversa conduzida por Manuel Halpern) | DANIEL MELO, O associativismo em perspectiva (notas exploratórias) | DIMA MOHAMMED, Quando retirar apoio não é censura: cancelamento, boicote e responsabilização | DINA MAGALHÃES, “Sirat” | DIOGO DUARTE SILVA, A ordem internacional no limbo | DORI NIGRO, MELISSA RODRIGUES E RAQUEL LIMA, Manual Antirracista para as Artes e a Educação – Um sonho sankofa para o futuro | ELISABETE PAIVA, Uma revolução por cumprir | GERMINAL, A Revolução não será analógica | GUILHERME SEMEDO, Expor as estruturas do poder e da acumulação | HENRIQUE SOUSA e PAULO AREOSA FEIO, Novos caminhos à esquerda: hipóteses para um debate necessário | JOÃO COSTA, Uma certa urgência da arte perto das crianças e dos jovens | JOSÉ SOEIRO, Mais que um pacote laboral, um regime económico em disputa: breve roteiro para uma luta prolongada | JÚLIA BARATA, Ilustrações | MADALENA MOTA, Leopardos e hienas; as elites e o sal da terra | MANUEL PUREZA, A cultura é uma árvore, e todas, todos e todes devíamos sabê-lo | MARCO MARTINS, A arte de criar (em) comunidade (entrevista por Manuel Halpern) | MARIA VLACHOU, Confiança radical | NUNO RAMOS DE ALMEIDA, Vida Justa, a força dos bairros | PAULO PIRES DO VALE, Lucidez revolucionária – A Constituição de uma democracia cultural, 50 anos depois | PEDRO JOSÉ-MARCELLINO, “O Riso e a Faca”: Ensaio neocolonial sobre tempos, olhares e desconfortos | PEDRO RODRIGUES, O boicote e o cancelamento são mesmo uma arma? | RUY FILHO, Contra o medo, o afeto: voltar a sentir um país | VIRIATO SOROMENHO MARQUES, O império contra-ataca: o incerto parto do mundo multipolar.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Dia da criança


Aproveito este dia para lembrar que o pacote laboral também prejudica as crianças. Quem trabalha poderá ter horários de trabalho mais instáveis, com vínculos mais precários, com menor capacidade reivindicativa; pais e mães com menos condições para o cuidado que as crianças merecem. Faltam dois dias para a Greve Geral.

sábado, 30 de maio de 2026

Defesa e ataque


Este governo de classe defende os ricos e ataca os pobres e vulneráveis (de órfãos a viúvas), contribuindo para a corrosão dos sentimentos morais que acompanha o aumento das desigualdades. 

Pretendeu, como é óbvio, criar uma manobra de distração em relação à Greve Geral. Nas mãos desta gente, a palavra simplificação é sempre sinónimo de cortes nas prestações sociais. A lista das treze prestações diz tudo sobre a corrupção moral deste governo.

E razão tem Bruno Simão: “Se vão fazer um trabalho é porque há um trabalho que precisa de ser feito. Se há um trabalho que precisa de ser feito, criem esse posto de trabalho, façam um contrato e paguem um salário a quem necessitam que faça esse trabalho e já não têm de pagar a prestação social”.

Faltam quatro dias para a Greve Geral.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

De todos


O que têm em comum o Sindicato dos Trabalhadores dos Transportes, o Sindicato Democrático dos Enfermeiros de Portugal, o Sindicato Nacional Democrático da Ferrovia ou o Sindicato dos Trabalhadores do Sector de Serviços? Segundo o AbrilAbril, são alguns dos sindicatos afiliados à UGT que se juntam à Greve Geral de 3 de junho, não acompanhando a incompreensível demissão desta central sindical. 

O que têm em comum o Sindicato dos Maquinistas, o Sindicato dos Jornalistas, o Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil, o Sindicato Independente de Todos os Enfermeiros Unidos, a Associação Sindical dos Profissionais da Polícia, o Sindicato Independente do Serviço Comercial, o Sindicato Nacional de Profissionais de Seguros e Afins ou o Sindicato dos Trabalhadores das Empresas do Grupo CGD? Segunda a mesma notícia, são alguns dos sindicatos não afiliados a qualquer central sindical que se juntam à CGTP. 

Haja unidade contra o pacote laboral. Faltam 5 dias para a Greve Geral.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Conceitos

Ilustração de Marta Nunes roubada na página da CGTP no instagram

Recebi por correio eletrónico o longo ensaio sobre totalitarismo do historiador Rui Bebiano (Público, 24 de maio). Por coincidência, foi publicado um dia depois de uma brevíssima nota crítica sobre o mesmo tema.

Arrisco um resumo do ensaio: é relativamente consensual entre os historiadores sérios que o conceito é imprestável, mas usa-o por razões político-ideológicas, até porque existem hoje “nacional-populistas” potencialmente totalitários, o que quer que isso seja. 

O conceito de nacional-populismo, sobretudo nas mãos de euro-liberais, é tão inútil quanto o de totalitarismo, já que nacionalismos e populismos há mesmo muitos e de sinais absolutamente contrários ao longo da história sempre presente: do nacionalismo imperialista ao anti-imperialista, do populismo triádico ao diádico

E isto sem esquecer o que disse o insuspeito Francis Fukuyama: “populismo é o termo que as elites usam para as políticas de que não gostam, mas que a gente comum apoia”. Todo o cuidado é pouco.

Bebiano está naturalmente preocupado com o pensamento único. Infelizmente, jamais menciona e desafia o seu grande centro produtor em grande parte do continente europeu: o eixo Bruxelas-Frankfurt, o da moeda única, do mercado único, da política neoliberal tendencialmente única, incluindo agora de forma mais clara o belicismo antissocial, do fascismo assim promovido. 

O melhor antifascismo, entretanto, está ligado aos valores do trabalho com direitos na escala nacional, cuidando das ligações internacionais que os reforcem, combatendo o despotismo patronal, trampolim para os outros despotismos de classe. Sem classes e suas alianças, nada feito.

Faltam seis dias para a Greve Geral.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Cá fora


O pasquim de extrema-direita, financiado pelos mesmos milionários que bancam o menos liberdade, coorganizou uma conferência patronal em Braga, resposta possível à greve. Chamou-lhe o grande debate, o topete. O mais importante aconteceu à entrada, cá fora, com Montenegro a ser recebido pelo justo protesto sindical. 

Realmente, quem quer saber o que se passou lá dentro, quem quer saber o que disse Carlos Moreira da Silva? É um dos tais milionários-financiadores de lixo ideológico e que também lidera a Business Roundtable Portugal, o vira-latismo começa logo no nome. E, claro, foi um keynote... 

Tal como não há circo sem palhaços, nestes espetáculos do capital não pode faltar um ou outro economista académico neoliberal, pura racionalização ideológica dos interesses em presença. Realmente, quem quer saber o que disse Luís Aguiar-Conraria

Sabemos bem o que pensam. Temos de conhecer o inimigo. Enfim, juntem o banqueiro e o consultor de serviço, gestores de multinacionais e um ou outro industrial nacional. Tudo absolutamente previsível na esfera do capital financeiro, incluindo o queixume com um Estado que os serve e de que se servem cada vez mais e o deslumbre do Governo com a inteligência artificial, a que pode bem colocar em causa a real. 

Faltam sete dias para a Greve Geral.

terça-feira, 26 de maio de 2026

Foto de economia política


Legenda da foto: o patrão dos patrões e os seus três colaboradores políticos de extrema-direita. Ficam só a faltar os colaboradores do governo. Toda uma sórdida forma de economia política, feita de inflação de direitos patronais e de correspondente deflação de direitos laborais. Têm de ser derrotados. Faltam oito dias para a Greve Geral.

Vibecession: a crise do custo de vida é só uma sensação?

Em Janeiro de 2021, enquanto as medidas de confinamento voltavam a apertar, a The Economist anunciava o fim de uma era de pessimismo económico. Tal como na década de 1920, quando a gripe espanhola deu lugar à era do consumo de massas, a pandemia poderia desencadear um ciclo de inovação e melhoria dos níveis de vida, de acordo com a revista. Os avanços da inteligência artificial, o investimento privado em tecnologia e software e a rapidez com que o mundo adotou o teletrabalho e o comércio eletrónico eram vistos como sinais de que a crise podia funcionar como motor de progresso e fonte de otimismo generalizado: uma espécie de novos “loucos anos vinte”.

Ultrapassada metade da década, é justo dizer que o cenário é bastante diferente. O índice de sentimento dos consumidores dos EUA caiu a pique a partir de 2022 e atingiu o valor mais baixo de sempre desde que o inquérito começou a ser realizado, primeiro em Junho de 2022, no pico da inflação, e novamente em 2026, após o início da guerra no Médio Oriente. O mais surpreendente é que este pessimismo reverte uma tendência de décadas em que a confiança dos consumidores acompanhava de forma previsível os principais indicadores económicos, como o desemprego, a inflação ou o valor das ações nos mercados financeiros. Desde a pandemia, essa relação deixou de se verificar e a generalidade das pessoas passou a estar mais pessimista do que os indicadores convencionais sugeririam.

 

Em 2022, a economista Kyla Scanlon cunhou o termo vibecession, numa combinação dos termos “vibes” (sensações) e “recession” (recessão), para descrever este aparente paradoxo: uma situação em que os indicadores apontam para um bom desempenho da economia, mas a perceção das pessoas é a de uma crise. O conceito ganhou tração e entrou no debate público no contexto das eleições norte-americanas de 2024. No New York Times, o economista Paul Krugman, vencedor do Nobel da disciplina, garantia que “todas as boas notícias económicas validam [o governo de] Biden”. Na The Economist, chegou a ler-se que os eleitores estavam a demonstrar um “pessimismo irracional”.

Uma das explicações avançadas, tanto nos EUA como na Europa, foi um fenómeno a que os economistas dão o nome de “ilusão monetária”: a tendência que as pessoas têm para avaliar o rendimento em termos nominais (o salário que aparece no recibo de vencimento) em vez de reais (o que esse número consegue efetivamente comprar, tendo em conta a evolução dos preços). A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, tocou neste ponto numa entrevista ao Financial Times, argumentando que os dados indicavam uma recuperação do poder de compra, mas que muitas pessoas não a reconhecia. O pessimismo seria, por isso, resultado de uma perceção errada. No entanto, há motivos para pensar que o problema está nos impactos desiguais da inflação, que são negligenciados pelos indicadores normalmente utilizados.

O problema é a perceção ou a distribuição?

Nos primeiros anos após a pandemia, a recuperação da economia teve características particulares. Com a reabertura da maioria das atividades a acelerar a procura das empresas por trabalhadores, o desemprego diminuiu de forma acentuada e muitos setores começaram a falar em escassez de mão-de-obra. Isso deu origem ao que o economista Arindrajit Dube classificou como a “compressão inesperada”: a redução do desemprego reduziu o poder dos empregadores e forçou-os a pagar salários mais altos nos setores onde estes eram mais baixos à partida, reduzindo a diferença entre o fundo e o topo da distribuição.

A trajetória de recuperação salarial foi mais intensa entre os escalões de rendimento mais baixo, o que contribuiu para a ideia de que a maioria das pessoas deveria estar satisfeita com o desempenho da economia. Contudo, as pistas para compreender o descontentamento começam a surgir quando se parte para uma análise mais detalhada.

O economista Servaas Storm e o cientista político Thomas Ferguson publicaram um par de artigos (aqui e aqui) em que procuram explicar o desempenho da economia norte-americana até 2024, com base numa análise exaustiva dos dados disponíveis. As conclusões são diferentes: não só não se verificou uma recuperação do poder de compra para a maioria das pessoas após o choque inflacionista de 2022, como o crescimento salarial ficou aquém do que se tinha verificado no primeiro mandato de Trump (ainda que os ganhos de 2017-2020 não se devam necessariamente à política económica deste).

Por um lado, o salário mediano, que representa o que é ganho pelo trabalhador típico, praticamente estagnou desde 2021 e a maioria das pessoas perdeu poder de compra face ao período pré-inflação. Por outro lado, embora o salário por hora tenha registado um aumento considerável, o número de horas trabalhadas por semana diminuiu de forma persistente desde a pandemia. Resultado: entre 2021 e 2023, 9 em cada 10 pessoas perderam poder de compra apesar dos aumentos salariais.

A isto junta-se um problema de distribuição. O índice de preços convencional calcula-se com base num cabaz de consumo médio, mas os padrões de consumo variam muito consoante o rendimento. Os 20% mais pobres dos americanos gastam quase um terço do seu rendimento em alimentação, muito acima da média. Como a subida dos preços foi mais intensa precisamente nos bens essenciais - os que pesam mais no orçamento de quem ganha menos -, a inflação real sentida pelas famílias de rendimento mais baixo foi superior à inflação oficial, de acordo com uma análise dos dados do Instituto de Estatísticas do Trabalho dos EUA.

 

O próprio Dube regressou ao tema recentemente, reconhecendo que, se analisarmos o poder de compra dos diferentes escalões de rendimento com base na respetiva taxa de inflação, em vez de usar o indicador agregado, as conclusões alteram-se. Corrigindo para a inflação desigual por decil de rendimento, a compressão salarial entre 2019 e 2025 passa de 8,4 para 4,8 pontos percentuais. Por outras palavras, a redução da desigualdade foi bastante menor do que parecia.

E isso é apenas uma parte da história, porque há outras dimensões que escapam a esta análise. Um estudo de Evan Wasner, que analisa dados sobre compras de supermercado de cerca de 200.000 famílias nos EUA, apresenta taxas de inflação específicas para cada família (baseadas nos produtos que cada uma efetivamente compra). Conclusão: no pico da inflação pós-pandemia, menos de um quarto das famílias experienciou uma taxa de inflação próxima da oficial. A dispersão foi significativa e alargou-se precisamente nos momentos em que a inflação era mais elevada. Para os trabalhadores do decil mais baixo, quase metade viu o seu poder de compra alimentar cair entre 2019 e 2023, apesar de os dados agregados indicarem ganhos.

Finalmente, o indicador usado para medir a inflação subestima o custo de vida ao não incluir no seu cálculo as prestações do crédito à habitação ou ao consumo, o que faz com que deixe de fora uma parte importante da despesa mensal das pessoas. No caso dos EUA, até 1983, estes custos eram incluídos no cálculo, tendo sido removidos no contexto do choque de Volcker, o que mascarou o efeito que a subida agressiva dos juros tinha sobre a inflação que supostamente se destinava a combater. Um estudo publicado por Larry Summers (ex-secretário do Tesouro dos EUA) e co-autores demonstrou que, se a metodologia anterior ainda se aplicasse, a inflação teria atingido 18% no pico de 2022, em vez dos 9,1% oficialmente registados.

Para além dos dados sobre os rendimentos, os padrões de consumo confirmam a experiência desigual nos últimos anos. Desde 2023, o crescimento do consumo privado tem sido impulsionado sobretudo pelos mais ricos, de acordo com um estudo da Reserva Federal de Nova Iorque. Os autores identificam dois motivos principais: a inflação, que pesou desproporcionalmente sobre quem ganha menos, e a valorização dos ativos financeiros, que beneficiou quase exclusivamente o topo da distribuição.

A bolha da inteligência artificial ajuda a explicar este padrão: o investimento massivo e o aumento das cotações das multinacionais tecnológicas, que são responsáveis por quase toda a subida da bolsa norte-americana, beneficia essencialmente os 10% mais ricos do país, que detêm 87% das ações, enquanto os 50% mais pobres detêm apenas 1%. No outro lado do espetro, 43% das famílias no país não ganham o suficiente para conseguir suportar os custos com a habitação, alimentação, saúde e transportes, de acordo com uma análise do Brookings Institute.

O custo de vida é um problema novo?

Embora o período pós-pandémico tenha sido marcado pelo regresso da inflação a valores que já não eram observados há várias décadas, é preciso ter em conta que a crise do custo de vida tem raízes profundas e é o culminar de uma longa trajetória de estagnação dos rendimentos. Entre 1979 e 2019, a produtividade da economia norte-americana cresceu 73%, mas os salários medianos cresceram apenas 23%. No mesmo período, os rendimentos do 1% mais rico subiram 169%.

 
Fonte: Economic Policy Institute (aqui e aqui)

O mecanismo desta transformação foi a financeirização da economia. Desde a década de 1980, grande parte da atividade económica passou a girar em torno da valorização de ativos financeiros, que substituiu o investimento produtivo. A desregulação financeira e a expansão acelerada do crédito fizeram disparar o preço dos ativos (ações, obrigações, imóveis) e estabeleceram as bases para um sistema em que a extração de lucros se desligou da produção real. Acumular riqueza através da valorização de ativos passou a ser muito mais rentável do que acumulá-la através do trabalho.

Ao mesmo tempo, fatores como a queda das taxas de sindicalização, a erosão da negociação coletiva, a facilitação do recurso à contratação precária ou ao outsorcing e a globalização (com a possibilidade de deslocalização das empresas) funcionaram como instrumentos de supressão salarial. A maximização do retorno para os acionistas tornou-se o objetivo fundamental das empresas e os ganhos de produtividade foram canalizados para os dividendos e a recompra de ações, em detrimento dos salários.

Storm recupera o conceito de economia dual, formulado nos anos 50 para descrever países em desenvolvimento, e aplica-o aos EUA: de um lado, um setor dinâmico (tecnologia, finanças, serviços profissionais) com produtividade elevada e a crescer; do outro, um setor estagnante (restauração, limpeza, cuidados, retalho) com produtividade baixa que absorve os trabalhadores que saem do setor dinâmico à medida que este se automatiza. O diferencial salarial entre os dois setores passou de 35% em 1950 para quase 60% em 2015. À medida que o setor dinâmico automatiza, os trabalhadores acumulam-se no setor estagnante, onde o excesso de mão-de-obra deprime os salários e comprime ainda mais a produtividade.

Ainda assim, existe uma pressão para que os salários subam nos setores de menor produtividade, sob pena de ninguém aceitar trabalhar neles. Existe, por isso, uma tendência para que os serviços intensivos em trabalho e difíceis de automatizar se tornem mais caros, como se tem verificado em áreas como a saúde, a educação ou os cuidados. Uma consulta médica continua a exigir um médico; uma creche precisa de educadoras por cada grupo de crianças, uma universidade (ainda) não funciona sem professores. Durante grande parte do século XX, os países ocidentais lidaram com este problema socializando os seus custos, através do investimento nas creches, escolas e hospitais públicos ou da subsidiação do acesso à universidade. Nas últimas décadas, a privatização progressiva destes setores e o desinvestimento público traduziram-se numa transferência progressiva dos custos para as famílias, degradando as condições de acesso.

 

Além dos serviços de educação e saúde, o acesso à habitação também se deteriorou de forma significativa, devido ao processo de financeirização que a tornou um ativo particularmente apetecível para grandes investidores. Como estes serviços são precisamente os que mais pesam no orçamento das pessoas e aqueles em que houve maior desinvestimento do Estado nas últimas décadas, facilmente se percebe que a crise do custo de vida tem raízes mais profundas do que o choque inflacionista de 2022.

Portugal: crescimento para quem?

O debate sobre o os indicadores convencionais e a experiência concreta das pessoas também chegou a Portugal. No verão de 2024, uma reportagem do Expresso aludia à vibecession de características portuguesas, sublinhando o “desfasamento entre os indicadores e a perceção pública” num contexto em que “o consumo dos portugueses está a recuperar para níveis pré-pandemia [e] os salários estão novamente a ganhar a batalha à inflação”.

 
Fonte: Expresso

O caso português é especialmente merecedor de análise, uma vez que o país tem sido repetidamente apontado como um caso de sucesso económico. Há pouco mais de dois anos, Paul Krugman classificou a experiência portuguesa como “uma espécie de milagre económico”. Dois anos antes, Adam Tooze, historiador económico da Universidade de Columbia, já tinha afirmado que “Portugal era o modelo para manobrar de forma muito inteligente dentro do sistema da UE” e que “ninguém o fez como os portugueses”. No final do ano passado, a The Economist distinguiu Portugal como a “economia do ano”, o que não impediu os portugueses de continuar a referir o custo de vida como a principal preocupação nos inquéritos mais recentes.

No caso português, o desempenho da economia e a crise do custo de vida são duas faces da mesma moeda: o modelo de crescimento das últimas décadas. Desde a adesão ao euro, que desencadeou uma apreciação real da taxa de câmbio e prejudicou a competitividade da indústria, o peso da indústria foi sendo progressivamente reduzido enquanto a economia se especializou em setores de baixo valor acrescentado: primeiro a construção e o imobiliário, depois o turismo e os serviços associados. O crescimento deste tipo de setores intensivos em trabalho é determinante para os elevados níveis de emprego que o país regista atualmente, mas o emprego gerado é maioritariamente precário, sazonal e de baixos salários. Portugal também exibe características de uma economia dual, com um peso crescente do emprego no “setor estagnante” composto pelo turismo, restauração e serviços de baixa produtividade.

Além disso, a expansão do turismo levou a uma recomposição da oferta de casas para satisfazer a procura externa, através do crescimento dos hotéis e do alojamento local, que contribuíram para alargar o fosso entre os preços das casas e o rendimento dos residentes. Essa é uma conclusão a que a própria Comissão Europeia chegou no relatório Housing in the European Union, publicado recentemente, onde Portugal é destacado como “o país da UE onde o turismo teve maior impacto sobre os preços das casas”.

Tendo em conta que o indicador usado para medir a inflação não inclui as despesas com prestações, que duplicaram entre 2021 e 2024 com a subida das taxas de juro, percebe-se que dê uma ideia muito incompleta da evolução do custo de vida no país. Um estudo de economistas do FMI estimou que Portugal foi o país onde as famílias tiveram o maior aumento anual da despesa com juros após 2022, correspondendo a cerca de 1,2% do PIB. Não é possível avaliar o poder de compra de quem tem crédito à habitação sem ter em conta este custo. Como, além disso, o indicador da inflação atribui um peso muito reduzido às rendas (dada a baixa percentagem de arrendatários no país), também acaba por subestimar o custo de vida de quem arrenda a casa.

Mesmo usando este indicador, se olharmos para a inflação por escalão de rendimento, o que vemos é que o surto inflacionista de 2022 não afetou todos da mesma forma. No pico do surto, a inflação sentida pelos 20% com rendimentos mais baixos foi sobretudo determinada pela subida dos preços dos alimentos e da energia, ou seja, bens essenciais dos quais não é possível abdicar. Para os 20% com rendimentos mais elevados, a inflação teve um contributo maior de categorias como o alojamento e a restauração, que são despesas mais facilmente substituíveis ou adiáveis. O mesmo choque inflacionista produziu experiências muito distintas.

Para lá das vibes

Há uma tendência na análise económica convencional para olhar mais para a média do que para a distribuição, colocando o foco em questões como o crescimento do PIB e a evolução da inflação sem prestar atenção suficiente à forma como diferentes tipos de crescimento e diferentes preços afetam diferentes grupos. Com a desigualdade a crescer há décadas, as médias são um indicador cada vez mais incompleto. Uma economia em que os ganhos se concentram no topo e os choques de preços afetam sobretudo quem ganha menos pode crescer enquanto o custo de vida se deteriora para a maioria.

Utilizar a taxa de inflação para avaliar o poder de compra de todos os escalões de rendimento implica uma escolha sobre o que se mede e o que é excluído. Essa escolha tem consequências na determinação dos aumentos de pensões e apoios sociais, nas negociações de salários entre sindicatos e empresas e nas conclusões que se retiram sobre o grau de sucesso das políticas públicas adotadas para lidar com a inflação.

Em vez de tratar a preocupação das pessoas com o custo de vida como irracionalidade ou ilusão monetária, procurando responsabilizá-las por não “lerem corretamente” indicadores que não representam a sua experiência efetiva, o debate económico tem de ser feito com instrumentos que reflitam a heterogeneidade existente: índices de preços desagregados por nível de rendimento e relação com a habitação e maior foco na forma como os ganhos (e os custos) do crescimento são distribuídos.

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segunda-feira, 25 de maio de 2026

Antifascismo


É claro que não pode ser negada a importância que frentes antifascistas tiveram em determinados contextos históricos. No entanto, quando o antifascismo perde densidade ideológica e social, corre o risco de se tornar apenas um mecanismo defensivo do status quo. O problema de um certo «frentismo» surge quando a prioridade passa a ser apenas a construção de alianças que se desejam sempre «amplas», mas que descuram um conteúdo político e social de profunda ruptura com a ideologia dominante. Assim, a questão que se coloca é a seguinte: que tipo de antifascismo queremos? A resposta é simples: um antifascismo consequente e de ruptura.

Partindo generosamente do livro A economia política do antifascismo e outros ensaios, Manuel A. Domingos desenvolve hoje no AbrilAbril uma distinção crítica entre um antifascismo superficial e um antifascismo que vai à raiz dos problemas. A política, como Álvaro Cunhal nos ensinou, começa pela capacidade de fazer distinções, sempre com uma fé nos peitos.

domingo, 24 de maio de 2026

Da estupidez repulsiva


Paulo Coimbra tem razão, no triângulo político onde se inclui um indivíduo que sacrificou todos os valores chamado António Costa, Kaja Kallas ganha o campeonato das declarações de “uma estupidez repulsiva, mas uma estupidez em conformidade com as necessidades da ordem imperial made in USA”. 

Desde apodar a China de “cancro” até responsabilizar Cuba, em plena visita ao México, pelos resultados do cerco genocida que os EUA montaram, sem esquecer a duradoura cumplicidade ativa com Israel e com o genocídio do povo palestiniano, o liberalismo autoritário das instituições europeias, encarnado por Kallas, é de uma monstruosidade sem fim. 

O que levanta a questão, já colocada a propósito de Borrell, o da selva e do jardim: para que serve uma alta representante da UE para os negócios estrangeiros e a política de segurança? O mal está desde logo aí. A UE não é um Estado, nem pode ser, felizmente. 

A política externa é assunto de Estados. Este açambarcamento antidemocrático de competências tem de parar e tem de ser revertido, dado que só prejudica a prossecução de uma política externa decente pelos Estados realmente existentes. Na ausência desta, resta o subimperialismo, estruturalmente cúmplice em relação ao eixo EUA-Israel. Não é defeito, é feitio de todo o impulso, tão federalista quanto neoliberal e belicista, da UE.

sábado, 23 de maio de 2026

O declínio do império americano


Esta Quarta-feira, 27 de Maio, pelas 18h30m, o Grupo de Reflexão Resposta promove um webinar com Marcos Farias Ferreira, Teresa Cravo e Madalena Figueira sobre caminhos para a paz num novo mundo multipolar.

Perante o descontrolo imperial dos Estados Unidos e as atrocidades que se multiplicam sem que a sua administração sequer se dê ao trabalho de as justificar, perante a falência da NATO e a militarização da Europa, qual deve ser a resposta da Esquerda?

Existe um declínio do Império Americano? As sucessivas intervenções militares não são propriamente uma novidade, mas o nível de isolamento é. Até na União Europeia, território da obediência suprema, se começa a ouvir vozes dissonantes e sinais de diversificação das relações económicas e diplomáticas. A guerra do Irão, um atoleiro para o qual Trump nem a Europa conseguiu arrastar, e do qual quer mas não consegue sair, arrisca-se a ser um ponto de ruptura no quadro de relações internacionais a que nos habituámos ao longo de décadas.

Ou então não é nada disto. Trata-se apenas de mais uma vaga de intervencionismo norte-americano e israelita, com muitos crimes, pouco sucesso e nenhumas consequências. Tudo isto discutiremos esta Quarta.

Entrada livre, sujeita a inscrição para grr.resposta@gmail.com

Combater o sectarismo


Em 2026, quando a melhor historiografia já se livrou da categoria de totalitarismo, com o fascismo de novo em ascensão, a influente deputada Eva Cruzeiro acha por bem colocar nazis e comunistas lado a lado, citando uma sobrestimada filósofa liberal de guerra fria. 

A levar a sério tal linha totalitária, os criadores dos campos de extermínio seriam iguais aos seus libertadores. E é como se Salazar e Caetano fossem iguais a Cabral e a Neto. 

Sei bem o que se pretende com esta linha tão sectária quanto desmemoriada, os sinais estão por todo o lado nos “progressistas”, um “conceito” de Rui Tavares, segundo a extraordinária ficha técnica de uma página agora criada: o PS quer ter apenas os verdes com bombas do Livre à sua “esquerda” (ou será à sua direita?). 

Felizmente, sabemos que não há antifascismo consequente sem os comunistas, até porque toda a unidade séria começa na luta laboral, incluindo nos piquetes de greve.
 

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Solidariedade


La pretendida acusación contra el General de Ejército Raúl Castro Ruz, que acaba de comunicar el Gobierno estadounidense, solo evidencia la soberbia y la frustración que le provoca a los representantes del imperio, la inquebrantable firmeza de la Revolución Cubana y la unidad y fortaleza moral de su liderazgo. 

Se trata de una acción política, sin ningún basamento jurídico, que solo busca engrosar el expediente que fabrican para justificar el desatino de una agresión militar a Cuba. 

EE.UU miente y manipula los sucesos alrededor del derribo de las avionetas de la organización narco-terrorista Hermanos al Rescate, en 1996. 

Sabe bien, porque sobran evidencias documentales, que no se actuó de manera imprudente ni se violó el derecho internacional, como sí vienen haciendo fuerzas militares estadounidenses, con sus fríamente calculadas y abiertamente publicitadas ejecuciones extrajudiciales sobre embarcaciones civiles en el Caribe y el Pacífico. 

El 24 de febrero de 1996, Cuba actuó en legítima defensa, dentro de sus aguas jurisdiccionales, tras sucesivas y peligrosas violaciones de nuestro espacio aéreo por connotados terroristas, de lo cual la administración estadounidense de turno fue alertada en más de una decena de ocasiones, pero hizo caso omiso de las advertencias y permitió las violaciones. 

 La altura ética y el sentido humanista de su obra, derriban cualquier infamia que se pretenda levantar contra el General de Ejército Raúl Castro. Como jefe guerrillero y como estadista, ganó el amor de su pueblo, a lo que se suma el respeto y la admiración de otros líderes de la región y del mundo. Esos valores son su mejor defensa y un escudo moral, frente al ridículo intento de menoscabar su talla de héroe.


O império é capaz de tudo, sempre foi. Toda a solidariedade com Cuba, sem mas, nem meios mas. Insisto: se a coligação Epstein colocar o pé em Havana, graças ao crime contra a humanidade que está a cometer, será uma catastrófica derrota para o povo cubano, para o campo anti-imperialista mundial. 

Entretanto, por cá, há silêncios brutalmente ensurdecedores, votações reveladoras e tomadas de posição corajosas. Sabemos com quem podemos contar para o que der e vier. Sim, a política internacional é um teste, incluindo à cultura anti-imperialista.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

O mérito de Cavaco


Esta semana, Cavaco Silva foi um dos galardoados com a recém-criada Ordem Europeia do Mérito atribuída pelas instituições da UE. A avaliação do que é meritório é sempre função de uma visão do mundo institucionalizada. 

No contexto institucional da UE, faz todo o sentido este reconhecimento, dados os serviços que prestou ao neoliberalismo, à causa da dependência nacional, ao longo da vida. 

O economista político aproveitou o prémio para defender a corrida armamentista “financiada” por um “empréstimo comum”. Uma vez mais, tem “mérito”, dada a acentuação belicista do neoliberalismo, rumo a um regime com o qual não se deu mal no passado. Entretanto, há sempre dinheiro para aquilo que os poderes dominantes querem fazer. 

O que não faz nenhum sentido, o que nunca fez qualquer sentido, é o facto de muitos dos críticos de Cavaco continuarem a depositar esperança na UE, criada em Maastricht, precisamente para blindar e aprofundar esta forma de economia política. Não têm mérito.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Tradição norte-americana


Fazendo o paralelismo com o Vietname, Edward Luce do Financial Times reconheceu ontem que a agressão ao Irão se inscreve numa arreigada “tradição” norte-americana. É uma mortífera tradição, inexplicável se não atentarmos na lógica do sistema imperialista, indissociável do capitalismo realmente existente. 

Liberal, Luce não dá este último passo, mas vai mais longe do que o que passa por progressista no desmemoriado comentário nacional, ainda apostado em ver Trump como uma anomalia.

Entretanto, num dia como ontem, mas em 1890, nascia Nguyễn Sinh Cun, que viria a adotar o nome de Ho Chi Minh, comunista que liderou a luta do indómito povo vietnamita, derrotando japoneses, franceses e norte-americanos. Haja história anticolonialista, haja memória anti-imperialista.

Experiência alemã


A Alemanha está a conduzir uma experiência em todo o país para verificar se a austeridade e as reformas neoliberais realmente alimentam a ascensão da extrema direita. Até agora, os resultados confirmam o que já se sabia da literatura sobre o assunto.


É caso para acrescentar: livrai-nos de experiências alemãs que incluem, ademais, um tão perigoso quanto intenso processo de rearmamento.

terça-feira, 19 de maio de 2026

Divisão ideológica


O que têm em comum um médico peneirento da SEDES, filha das ilusões tecnocráticas no fascismo, e um nababo que sempre viveu de sinecuras garantidas por um partido e pelo capitalismo televisivo? Sim, o que têm em comum Álvaro Beleza e Sérgio Sousa Pinto? 

São neoliberais, cujo lugar na divisão ideológica do capital é claro: defender, a partir do PS, todas as iniciativas liberais até dizer chega. Agora é o pacote laboral. 

Reproduzindo as vulgaridades do pior patronato, ignoram o que se passa para lá das portas onde está escrito: “proibida a entrada a pessoas estranhas ao serviço”. Inclui-se aqui a violência dos pequenos grandes ditadores patronais, que têm uma parte da intelectualidade no bolso, através das fundações pingos doces e de outros esquemas conexos.  Graças ao pacote laboral, estes ditadores poderão intensificar os ataques às liberdades democráticas da maioria trabalhadora, limitando fortemente a ação sindical do heróico CESP, por exemplo. 

O resto é conhecido e resume-se a um propósito: justificar a intensificação da exploração. É para isso que são pagos em várias moedas – incluindo a visibilidade, o tempo de antena e o prestígio burguês –, dependendo das figuras e dos contextos. 

Por contraste intelectual e ético-político, veja-se Bruno Dias a desmontar o uso ideológico das palavras rigidez e flexibilidade por esta tropa fandanga.