Todavia, a cultura crítica permite a construção de um rico espaço de conteúdos e de formas de comunicar. Escapando, como Gramsci sugeria, aos territórios da cultura moderna, condicionados por interesses materiais – já denunciados pela «teoria crítica» proposta desde a década de 1920, pelos pensadores da Escola de Frankfurt –, mas fugindo igualmente aos da cultura popular, também esta manipulável.
Desculpai, temos de continuar a debater, mesmo quando tudo arde, sobretudo quando tudo arde. Outros o fizeram antes de nós.
Quando penso em muito do que está mal na esquerda brâmane, penso em intelectuais públicos do Livre como Rui Bebiano. Não é implicação, é representatividade.
De facto, tem a virtude de ser um repositório de alguns gestos que se repetem ao longo do tempo, incluindo a fuga ao debate frontal e transparente, racionalizada por uma espécie de altivez aristocrata, a da cultura acantonada na “teoria crítica”.
Ao contrário do que parece sugerir, Gramsci era, como criativo continuador dos bolcheviques, mas num contexto de intenso refluxo, um modernista, um marxista, que por isso partia dos interesses materialmente ancorados, do momento “corporativo”, para tentar chegar ao verdadeiro momento “ético-político”. Esta passagem exigente só podia, segundo ele, ser operada pelo “novo príncipe”, pelo Partido Comunista, eventualmente aliado a outros.
E Gramsci muito menos fugiu da cultura popular, pelo contrário, já que a considerava um rico e contraditório repositório dos trabalhos materiais e espirituais das classes subalternas, a ser retrabalhado e desenvolvido no quadro da laboriosa criação de uma vontade coletiva, a que chamou, precisamente, “nacional-popular”.
E ele pagou o preço mais elevado no combate ao fascismo. Mas há uma indústria académica liberal com décadas, apostada em furtar Gramsci à rica tradição leninista, casando-o, por exemplo, com a chamada Escola de Frankfurt, a que, por vezes com ligações muito suspeitas e cada vez mais investigadas, terminou em Habermas e na legitimação do genocídio colonial sionista. Essa adulteração faz com alguns à esquerda, injustamente, tenham passado a olhar para Gramsci de soslaio.
Felizmente, há intérpretes de Gramsci que resistiram até ao fim, de Carlos Nelson Coutinho, no Brasil, a Domenico Losurdo, em Itália, lutando sempre contra diluições indevidas.
Creio que é necessário sermos diretos nos debates públicos, incluindo na academia. E assertividade não é desrespeito, antes pelo contrário, já que implica, para começar, reconhecimento do outro e logo “risco” de sermos refutados e de termos de conceder e assim sucessivamente, em aprendizagem recursiva.


3 comentários:
Concordo plenamente e acrescento, na linha da crescente (embora muito escondida, pelo motivos que qualquer marxista-leninista saberá de cor) investigação acerca das ligações entre a Escola de Frankfurt, a Teoria Crítica e restantes parlapatices pós-modernas (cf. Zizek et al.), e os interesses do grande capital imperialista (que, aliás, vem no seguimento da grande crítica que Lukacs já tinha feito aos seus pais filosóficos na "Destruição da Razão"), que a questão não se põe apenas na «fuga ao debate frontal e transparente, racionalizada por uma espécie de altivez aristocrata, a da cultura acantonada na “teoria crítica”», já de si má, mas também na manutenção e reforço da difusão (sempre de forma subtil, no estilo «sempre ao lado do povo, mas nunca no meio dele») da mentalidade de classe reaccionária de ódio ao povo, tão bem espelhada pela luta contra as "mentalidades de rebanho".
Narrativa historicamente frágil e teoricamente preguiçosa. Essa suposta oposição entre Gramsci e a Escola de Frankfurt é, em grande medida, artificial. A “teoria crítica”, que nunca foi um bloco homogéneo, nasceu precisamente da tentativa de compreender por que motivo a dominação capitalista não se mantém apenas pela exploração económica, mas também por formas culturais, ideológicas e psicológicas de integração social. Se isto é fuga à realidade, então metade do próprio trabalho de Gramsci também o seria. A teoria crítica não “fugiu da cultura popular”. Pelo contrário: levou-a extremamente a sério, tentando compreender como o capitalismo avançado produz “cultura de massas” em escala industrial - cinema, rádio, música popular, publicidade - e como essas formas culturais participam na reprodução da ordem social. A questão deixa de ser uma suposta oposição entre “cultura do povo” e “cultura das elites”, mas sim o facto do próprio capitalismo passar a instituir aquilo que aparece como “cultura popular”. Quanto a Habermas, pode e deve ser criticado, mas transformar essa crítica numa genealogia conspirativa que começa na teoria frakfurtiana e termina numa legitimação do colonialismo não é análise: é retórica. A verdade é menos confortável para este tipo de narrativa. O marxismo do século XX fragmentou-se porque enfrentou derrotas históricas gigantescas: o estalinismo, a burocratização do movimento comunista, o fascismo, a integração parcial das classes trabalhadoras nas democracias capitalistas. Algum do trabalho de alguns dos “integrantes” da Escola de Frankfurt, sobretudo o de Adorno, constituiu uma tentativa - imperfeita, discutível, mas séria - de pensar essas derrotas. Reduzi-la a uma “altivez aristocrática” é intelectualmente preguiçoso. Se a proposta é mesmo “debate frontal e transparente”, então talvez o primeiro passo seja abandonar essas caricaturas.
Os (por cá) acantonados na teoria crítica não foram acusados de "fugir da realidade" antes de "fugir ao debate frontal e transparente". E, foi o "acantonado" Bebiano quem acusou Gramsci de fugir da cultura moderna e (igualmente) da cultura popular. A quem escreve um apocalíptico "derrotas históricas gigantescas", exige-se mais rigor na leitura.
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