sexta-feira, 20 de março de 2026

Ler, ler, ler sempre


Se este espectáculo fosse realmente pensado para aqueles portugueses que vivem nesses bairros onde a convivência com a imigração é diária – e onde muitas vezes germina um ressentimento que não é difícil de compreender – talvez fosse necessário acrescentar mais algumas camadas à conversa. Para quem espera meses por uma consulta no centro de saúde, para quem não encontra vaga na creche para os filhos ou para quem atravessa situações de pobreza sem ver chegar apoios sociais minimamente dignos, o mal-estar não nasce do nada. E nesse caso talvez fosse preciso explicar melhor a quem serve afinal a importação de mão-de-obra imigrante, que ao mesmo tempo a intimida e a mantém num estado de permanente vulnerabilidade: para que tenha mais medo, para que aceite salários mais baixos e menos direitos, e para que, através desse mecanismo, também arraste para baixo os trabalhadores portugueses numa espiral de exploração cada vez mais generalizada. No fim de contas, uns e outros são exactamente a mesma coisa: pessoas que vivem de vender a sua força de trabalho. Se este espectáculo fosse realmente para esses, talvez tivéssemos de nos dar ao trabalho de os ouvir.

Partindo de um espetáculo teatral no CCB, o corajoso artigo de Sofia Lisboa no AbrilAbril tem tudo o que é necessário: cultura, política, cultura política, incluindo economia política, revelando sentimentos morais.

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