quinta-feira, 5 de março de 2026

António Lobo Antunes

O desenho da direita foi roubado a insónias de carvão.

Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis.

Assim termina uma breve história autobiográfica de António Lobo Antunes, sob a forma de crónica, Os pobrezinhos. Deixo-a aqui de novo, agora em singela homenagem a um notável escritor. É representativa da sua, nossa, melhor escrita sobre o fascismo, o que existiu entre nós e o que, desgraçadamente, ainda anda por aí. 

Até sempre, Lobo Antunes, homem com memória de elefante.

1 comentário:

Anónimo disse...

Sim, contra o fascismo, mas não só. Contra a ignorância, contra o capataz da senzala, contra a pequenez do espírito. Uma escrita humanista, como houve poucas, tendo como mote a nossa fragilidade perante as coisas do mundo. Retratou, como ninguém, o Portugal do Estado Novo, da revolução e da Europa, da guerra e da descolonização, do rico e do pobre, do homem e da mulher. Em prosa poética. Um luxo.