O outono já chegou ao Douro e desce, agora, devagar. Do outro lado, os carvalhos e o granito guardam os castanheiros (ainda a possibilidade de alguma prosperidade). Apesar do sol, comovem-me as coisas mais simples: as bolotas, os líquenes, as folhas macias desse discreto e ancestral companheiro. O chão é ainda húmido e macio. Os esquilos concordam. Ainda que desconfiados, param para observar a presença dos turistas. O harmonioso e pacífico passaporte não me garante a pertença desejada. Na corrida contra o tempo, precipitam-se pelos troncos, avitualhando, como se também eles temessem o fim dos apoios da longínqua Bruxelas. Entre o sol e a neve, o distrito vai esperando, expectante, o que se avizinha, enquanto nós, passageiros, abrimos mais uma garrafa de vinho no conforto anfitrião de Corga.
Jorge C.
Em fim-de-semana republicano prolongado, Jorge C., Isa e tambor andaram connosco pela geografia sentimental em estado impuro, incluindo uma linha ferroviária já fora do granito e do castanheiro, ali no coração do xisto, onde termina o Mediterrâneo, que é onde terminam as oliveiras, dizia Braudel. O vinho veio de Trevões, já em São João da Pesqueira, naturalmente; Bajancas é o nome de quem sabe o que anda a fazer, na escala adequada aos seus/nossos propósitos.
Entretanto, como se vê, deixaram registos escritos e fotografados. Somos mesmo seres em relação, feliz de quem tem relações fraternalmente amistosas, esperançosamente baseadas na camaradagem – e “um camarada é alguém com quem contas, com quem partilhas uma ideologia, um compromisso com princípios e objetivos para lá do que é momentâneo, numa luta que todos sabem ser longa”, como disse Jodi Dean. E isto contra todas as evidências de um sistema organizado para quebrar a camaradagem e a amizade genuínas. Mas estas resistem por todo o lado, incluindo através da repetição de gestos que se tornam de repente novidade.
Aproveitemos para nos debruçarmos muito brevemente a sobre a economia política de Penedono, sem abandonar sentimentos morais, as esferas não podem estar, não estão, assim tão separadas: estima-se que quase metade do parco valor acrescentado do concelho seja realizado pelo setor público, da Câmara Municipal, de longe o maior empregador, aos restantes serviços públicos, onde está empregue quase metade da população relevante do concelho. Sim, o setor público cria valor, facto da contabilidade nacional, não “gasta PIB”, como julgava um professor catedrático de finanças com assessor artificial.
No setor privado, segundo os dados disponíveis, trabalham pouco mais de 300 trabalhadores assalariados, num concelho com 2500 almas, com escassa escolarização, auferindo aí o mais baixo rendimento salarial de todos os municípios nacionais, cerca de 950 euros mensais, no quadro de microempresas em setores estruturalmente pouco produtivos.
Juntem as transferências da segurança social, que garantem salário indireto à população envelhecida, e têm um retrato: só o Estado, em sentido amplo, segura, e crescentemente mal, o concelho. Gera rendimento e procura para manter à tona um pequeno comércio, por exemplo. Este comércio ganha um impulso no verão quando um concelho de migrantes mais do que triplica em número de habitantes: querido mês. E, claro, há a feira medieval plausível e que atrai milhares ao concelho. São tantas as complementaridades e interdependências que os liberais ofuscam.
O resto é a venda da castanha, a formal e a informal, de longe a maior “exportação” do concelho, sem esquecer a renda fundiária, a única que existe e de que os economistas convencionais não falam, sobretudo reconhecida pelos subsídios agrícolas, para lá da castanha. São os subsídios que ainda garantem que há alguma produção nacional, que garantem que o território ainda vai sendo ocupado de forma produtiva, humana, a melhor forma de proteção e desenvolvimento do território. Poderiam ser muito mais e ser muito melhor repartidos: os grandes levam demasiado.
Os incêndios de 2025 foram devastadores, como aqui registei, mas os apoios foram rápidos, há que reconhecer, embora longe de suficientes para um concelho onde ardeu tanto, mas tanto. O castanheiro e o carvalho são mais robustos do que o pinheiro, mas mesmo assim.
Enfim, tudo o que diminua este velho Estado diminui a velha terra do Magriço, linha defensiva da construção multisecular deste povo. Estão a ver onde quero chegar com tudo isto?


Sem comentários:
Enviar um comentário