quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Lição de ética


Na verdade, se me perguntar coisas da minha vida, eu podia contar muitas. Perguntou-me da clandestinidade e eu digo, sim, vivi em Portugal mais de dez anos clandestino, mas houve camaradas meus que viveram trinta anos na clandestinidade. Se me perguntar – você foi torturado na polícia? –, eu digo, sim, fui e quase até à morte, mas houve camaradas meus que morreram com a tortura. Se me perguntar – você fugiu da prisão? –, fugi, mas houve camaradas meus que fugiram duas e três vezes. Se me perguntar – você esteve muitos anos preso? –, foi dito no início que, sim, estive mais de doze anos preso, oito anos incomunicável, é verdade, mas houve camaradas meus que estiveram mais de vinte anos presos. 

Portanto se se pensa que através das referências que eu posso fazer a mim próprio como militante comunista, são pontos de referência que não sejam pontos de referência que têm de invocar necessariamente outros pontos de referência mais valiosos, que são aqueles que eu acabei de invocar, eu creio que as respostas são respostas que não é justo eu dar sem a referência que acabo de dar. 

É que nós fomos um coletivo de lutadores, em que a referência a cada qual – e eu acabo de lhe fazer uma série de referências a mim próprio, mas também em relação aos meus camaradas –, éramos um coletivo fraternal, um coletivo de combatentes que nos entreajudávamos, que vivemos uma mesma luta e, mais, em que essa aprendizagem de fraternidade se reflete em novas condições, em novas fórmulas, mas que não se perde como grande valor político e ético.

Inês Pedrosa chama-lhe uma “lição de ética pura e fundamental”. Sim, este excerto, felizmente viral, da entrevista que Álvaro Cunhal deu a Carlos Cruz na RTP, em 1991, ilustra um ponto a que já aqui ou ali aludi: há no marxismo de Cunhal uma forte dimensão ético-política, inscrita na tradição no seu melhor; uma ética das virtudes, as que se desenvolvem e apuram na prática, requerendo uma ancoragem num coletivo, aquele que é mais do que um somatório de práticas individuais.
  

3 comentários:

Anónimo disse...

E o que tem isso a ver com marxismo?
Qualquer seita pode ter ética como colectivo que é.

João Rodrigues disse...

O relativismo anónimo é uma coisa bem triste.

Fernando disse...

Sim. Álvaro Cunhal foi um grande lutador contra a ditadura. Tal como outros militantes do PCP. E foram só os militantes do PCP que sofreram essas agruras por lutarem contra a ditadura? Claro que não. Outros cidadãos portugueses, sem partido, foram perseguidos, presos e assassinados por lutarem contra a ditadura. Anónimos, alguns, a dar com um pau. Há a lamentável tendência (subjacente...) no discurso dos militantes do PCP de que só eles é que lutaram contra o fascismo. Não é verdade. Longe disso.