Não consigo definir a poesia, mas consigo identificar um dos seus usos: fornecer definições incomparáveis, precisamente, com toda a precisão. Manuel da Fonseca definiu um domingo no fascismo; Manuel António Pina definiu uma casa; Manuel Gusmão foi ao encontro do encontro, definindo o Partido. Sim, Manuel, nome de pai.
Andava meio deprimido, meio precário, a viver num sítio meio feio, com meio partido e assim. Era domingo, estava um céu plúmbeo, fui ao Pingo Doce com culpa, andava por um corredor com o carrinho e ouço no altifalante, “autoridade e propriedade privada, dois novos livros da Fundação Francisco Manuel dos Santos”. Como é? Viver sempre também cansa, dizia o outro.
Voltei para casa rapidamente e li toda a tarde, devo ter escrito qualquer coisa por aqui, senti-me melhor. Sabia que o meu domingo não era o domingo do fascismo, longe disso. Tinha de lutar e de pensar mais e melhor na casa do povo, na soberania, estava visto. Não estava só, tinha camaradas e amigos e tudo e sem eles não há pensamento.
E o Partido estava lá, continuava a reunir, teria provas disso em breve, mesmo que não o soubesse ainda, mesmo que já o tivesse sabido e esquecido. Num dia de sol, junto ao forte de Peniche, aquando da inauguração de um museu da resistência, surgirias de repente e dirias o teu nome. Irremediável só a morte e mesmo essa...


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