domingo, 1 de novembro de 2026

Todos nós


Acordo cedo, uma vez mais sobressaltado, preciso de viajar, de chegar à raiz de todas as relações, ao sítio inicial-sem-final. Duplo sobressalto: há uma pulsão governamental de morte, liberal autoritária, desmemoriada, tão contrária a este dia. 

Os mortos estão dentro de nós, entre nós, vivem em nós, nos nossos, seus, termos. Hoje é um dia de memória, de cuidado, e logo de vida e da sua pulsão. Vai-se e, por uma vez, está-se: falo do cemitério, o sítio onde só se vai, dizia Saramago. 

Olho e vejo trabalhadores, uma vez mais, a espancar trabalhadores, em cada vez maior escala, e ambos enfrentando a mesma questão da habitação. 

Neste dia, há gestos que se repetem. Tenho antes de repetir o que escrevi há uma semana: 

Perante a complacência do Presidente da República, que jurou cumprir e fazer cumprir a Constituição, este Governo levou o neoliberalismo até às suas últimas consequências. Resistir-lhe é uma obrigação de qualquer pessoa honrada, tal como aconteceu com o pacote laboral. 

E este dia é sobre o princípio da habitação, toda uma resistência, princípio aonde se pode regressar sempre. Como disse Manuel António Pina: “come agora um pão primeiro/sem o sabor de palavras estrangeiras na boca”. 

Mais à frente, sempre no seu livro Como se desenha uma casa, num outro poema, diz-nos o portuense invicto: “Há em todas as coisas uma mais-que coisa/fitando-nos como se dissesse: ‘Sou eu’/algo que já não está lá ou se perdeu/antes da coisa, e essa perda é a coisa”. 

Sim, vai ser preciso acordar a casa, desenhá-la “como quem embala um remorso”. Lembramo-nos, resistimos, habitamos. Nós, com eles, todos nós, vivos.

Notai bem. Roubei a ilustração a Marta Nunes, que ilustra vivamente a morte e a vida.