O individualismo é em geral produto da sobrestimação do valor próprio e da subestimação do valor dos outros. (...) O individualista tem por vezes a ilusão de que o individualismo é uma manifestação de liberdade individual. A verdade é que, quem pense, decida e actue apenas pela sua cabeça e pela sua vontade individual acaba por ser prisioneiro das suas próprias limitações. Isolado, atrás da aparente liberdade, o indivíduo acaba por ser escravo de si próprio. (...) Ao contrário do que afirmam os defensores do individualismo, a opção pela formação de uma opinião colectiva e de uma actuação colectiva constitui uma afirmação de que o indivíduo se libertou das próprias limitações individuais. Constitui assim uma expressão da liberdade individual.
Álvaro Cunhal, O Partido com paredes de vidro, Edições Avante!, 1985, pp. 85-86
Do ódio de classe à paixão mais intensa, passando pelo trauma por enfrentar ou pelo amor mais desenfreadamente inconsciente, sob a forma de um paternalismo altivo revelado publicamente e dirigido a quem está há décadas para morrer, a verdade é que muitas pessoas ficam diferentes no engajamento com o PCP, as que interessam para melhor e as mais mediáticas quase sempre para pior, sendo algumas capazes de mentir e de insultar o seu próprio passado.
Pior, pior, é sempre a indiferença, dadas as tarefas acometidas aos comunistas.
E é como se o PCP fosse para muitos a expressão político-partidária de uma “condição póstuma” e ao mesmo tempo o baluarte com que secretamente querem contar para se defenderem dela; condição assim descrita por Marina Garcés: “um novo relato, único e linear: o da destruição irreversível das nossas condições de vida”, fazendo do presente “o tempo que resta”.
Se a experiência própria vale de alguma coisa, arrisco dizer que o trauma ex-comunista de tantos, o nó que aperta, poderia ser superado, desatado, pelo reconhecimento democrático e patriótico: “elaborar o sentido e as condições do vivível”, superar a tal condição póstuma, é tarefa coletiva, de classe, de povo. Requer ação coletiva, ou seja, organização disciplinada e logo livre e autónoma, como os comunistas portugueses nunca se cansaram de insistir e de praticar com coragem ímpar, na esteira de Cunhal. São inimitáveis, mostra a experiência, a que se adquire por comparação.
Com todas as contradições do que está vivo e resiste na mais dura relação de forças, “rude e tosco instrumento para transformar Portugal” (Manuel Gusmão), o seu centralismo democrático, parte da teoria prática marxista-leninista, revelou ser de facto a melhor forma de organização, de vontade persistente, num tempo de refluxo, desorganizado por um individualismo possessivo, por um simulacro de singularidades impotentes e aprisionadas: eu-eu-eu-eu; o partido, a enésima coisa, sou eu.
Sabendo distinguir validade e poder, os comunistas são condição necessária, mas não suficiente, para outra condição, mais humana, noutro tempo, com outro relato, com outra potência libertadora: eu-nós-nós-eu; o “educador tem ele próprio de ser educado”, como assinalou Marx.
No fundo, sabe-se isto e daí o ódio e o amor, a repulsa e o desejo. Quem nunca?


1 comentário:
A verdadeira questão para quem já a viveu, e eu já a vivi sendo que eu continuo a identificar-me como comunista, é o tratamento e a posição do PCP em relação aos que foram militantes e ou dirigentes ativos e conhecidos, porque o PCP reconhece respeita quem nunca foi militante mas tem um percurso dentro do que o PCP apelida de "democratas" mas despreza desrespeita e maltrata quem já foi militante ou dirigente e se afastou do PCP. Sendo que efetivamente existe uma enorme diferença entre por exemplo o percurso do Carlos Brito antes e depois de sair do PCP e o percurso por exemplo do Pina Moura, da Zita Seabra e outros.
As pessoas merecem respeito por aquilo que representaram e fizeram e o Carlos Brito não merecia aquele comunicado do PCP.
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