O verão do ano passado ficou nos registos do Instituto Português do Mar e da Atmosfera como o mais quente desde 1931. Portugal registou três ondas de calor com temperaturas pelo menos 5 °C acima da média para a época, uma onda que durou 20 dias consecutivos entre o final de julho e meados de agosto e um recorde absoluto de 46,6°C em Mora, no distrito de Évora.
O cenário mantém-se este ano: o país atravessou cinco ondas de calor entre janeiro e junho, num total de 59 dias, e a última semana voltou a ser marcada por temperaturas em torno dos 40°C. Na Europa, a atual onda de calor é a pior de que há registo. Foi batido o recorde de temperatura na Alemanha, Polónia, Eslováquia, Chéquia e Hungria e o calor anormalmente elevado também atingiu França, Bélgica e Países Baixos, onde a temperatura está associada a um excesso de mortalidade significativo.
Para lá dos impactos óbvios que as ondas de calor mais frequentes e intensas têm no dia-a-dia da maioria das pessoas, desde as casas com fraco isolamento térmico aos locais de trabalho mais expostos à temperatura ou às deslocações em transportes sem climatização, é importante olhar para as consequências económicas do aquecimento global e perceber por que razão a maioria dos economistas os tem subestimado.
O que entra na fatura das ondas de calor?
O impacto mais direto do calor extremo prende-se com o trabalho. Os períodos de temperaturas anormalmente elevadas afetam a capacidade de trabalhar nos setores mais expostos, como a agricultura, a construção e algumas atividades industriais. De acordo com um relatório da Organização Internacional do Trabalho, em 2030, estima-se que mais de 2% das horas trabalhadas sejam perdidas devido ao calor extremo, com impacto negativo na produtividade, quer porque as condições tornam o trabalho impossível, quer porque obrigam a um ritmo mais lento.
Este custo não se distribui de forma igual e atinge sobretudo os trabalhadores da agricultura e da construção (com elevada exposição ao calor e condições de trabalho mais precárias), ao passo que a quebra de produtividade em escritórios climatizados é comparativamente menor. A mesma onda de calor tem, assim, um preço muito diferente consoante o lugar que se ocupa no mundo do trabalho.
A crescente procura por ar condicionado e sistemas de arrefecimento leva-nos ao segundo impacto: o dos preços da eletricidade. Além de aumentar a procura de energia, o aumento das temperaturas também reduz a oferta, já que várias centrais de produção são forçadas a reduzir a atividade por não conseguirem garantir a refrigeração. Maior procura e constrangimentos do lado da oferta levam a aumentos de preços da eletricidade, como já se tem verificado em vários países europeus.
Para a economia como um todo, a partir de certo limiar de temperatura, os prejuízos aumentam de forma não linear. Por um lado, o calor intenso reduz a produtividade dos trabalhadores e obriga a abrandar ou interromper a atividade em alguns setores. Por outro, a maior necessidade de arrefecimento faz subir o consumo de energia, encarecendo os custos das empresas. Resultado: projeta-se que a crescente intensidade das ondas de calor provoque perdas de centenas de milhares de milhões de euros nas principais economias europeias.
Além disso, o impacto nos preços não se resume à energia. Um estudo publicado por economistas do Banco Central Europeu concluiu que a onda de calor que atingiu a Europa em 2022 levou a um aumento dos preços dos bens alimentares entre 0,43 e 0,93 pontos percentuais. Na verdade, há cada vez mais sinais de que as alterações climáticas e os eventos meteorológicos extremos - nos quais se incluem as ondas de calor - têm impacto significativo nos preços dos alimentos.
Nos últimos anos, este tipo de fenómenos esteve associado ao aumento dos preços de diversos produtos. A seca no sul da Europa fez disparar o preço do azeite; as colheitas afetadas pelo calor no Brasil e na África Ocidental empurraram para cima o custo do café e do cacau. São produtos cujo preço passou a incorporar, de forma cada vez mais visível, a instabilidade do clima nas regiões que os produzem. Como o peso dos bens alimentares no orçamento das famílias é tanto maior quanto menor é o rendimento, este é um dos canais pelos quais o custo do aquecimento recai desproporcionalmente sobre quem ganha menos.
Nada de novo debaixo do sol?
As ondas de calor são a face mais visível de um fenómeno mais vasto. O aquecimento global traduz-se também em secas mais prolongadas, chuvas mais intensas e cheias mais frequentes que afetam a economia. Apesar dos custos até aqui descritos serem facilmente observáveis, a verdade é que têm sido frequentemente negligenciados na análise económica. Durante décadas, a avaliação económica das alterações climáticas foi dominada por modelos que procuram quantificar o custo do aquecimento global em termos de perdas de PIB. O mais influente foi desenvolvido pelo economista William Nordhaus, que recebeu o equivalente ao Nobel da Economia em 2018. Nordhaus foi o primeiro economista a tentar quantificar o custo do aquecimento global, tendo construído o modelo DICE (Dynamic Integrated Climate-Economy model), que se tornou a referência dos manuais que ensinam economia do clima.
Neste modelo, o efeito de um clima mais quente é medido como uma perda percentual de PIB e segue-se a lógica das análises custo-benefício, com o objetivo de encontrar o nível ótimo de redução de emissões: aquele em que o custo de reduzir emissões, medido como o crescimento de que se abdica para conter as emissões de carbono, iguala o benefício de evitar danos futuros. Nordhaus concluiu que o ponto de adaptação ótima seria um aquecimento de cerca de 3°C. De acordo com o modelo, os danos associados a este aumento da temperatura média do planeta seriam geríveis e uma redução gradual das emissões seria o suficiente para os conter.
Neste contexto, as emissões são tratadas como uma externalidade negativa, um custo que quem polui impõe a terceiros sem o pagar, e a solução que daí decorre é conhecida: um preço para o carbono que corrija a falha de mercado. Foi este raciocínio que valeu a Nordhaus o reconhecimento da disciplina e um lugar central na forma como o IPCC e os governos passaram a pensar o problema. No entanto, as suas conclusões assentam em pressupostos que não resistem a um escrutínio sério.
Primeiro, Nordhaus excluiu 87% da economia americana de qualquer impacto climático, com o argumento de que essas atividades decorrem em "ambientes cuidadosamente controlados". Por outras palavras, tudo o que acontece dentro de portas estaria a salvo. A lista do que ficou de fora inclui a indústria transformadora, a construção, os transportes, o comércio, a banca, os seguros e os serviços públicos. A ideia de que a indústria e os serviços estão a salvo por decorrerem em ambientes climatizados ignora que dependem por inteiro de cadeias de abastecimento, de energia e de matérias-primas que não decorrem dentro de portas.
Não faltam exemplos recentes que mostram como este pressuposto é irrealista. Em 2023, a Autoeuropa foi obrigada a parar a produção durante semanas apesar da fábrica de Palmela se encontrar intacta, visto que um fornecedor esloveno essencial ao fabrico dos motores tinha sido devastado pelas cheias que atingiram a Eslovénia nesse verão. Já este ano, a depressão Kristin que atingiu o país afetou a maioria das empresas na região centro do país. Além das indústrias de moldes, vidro, cerâmica e plásticos, duas fábricas de peças para automóveis ficaram completamente destruídas, ao ponto de ameaçarem parar uma linha da Porsche na Alemanha. Ou seja, não só os eventos meteorológicos extremos afetam a maioria das atividades económicas, quer estas ocorram dentro ou fora de portas, como podem afetar indústrias em locais que não foram atingidos por estes, devido às ramificações das cadeias de produção.
Depois, para estimar o efeito do aquecimento sobre o PIB, Nordhaus e os economistas que o seguiram observaram como varia hoje o rendimento entre regiões com temperaturas diferentes e assumiram que essa relação no espaço se aplica igualmente ao longo do tempo. Só que a causa da variação no espaço nada tem a ver com a causa da variação no tempo. As diferenças atuais de riqueza entre regiões com temperaturas mais altas e mais baixas dizem-nos muito pouco sobre o que acontece quando se retém na atmosfera energia suficiente para aquecer o planeta inteiro.
Além disso, Nordhaus optou por descrever a relação entre temperatura e os danos provocados através de uma função que não admite descontinuidades ou pontos onde a relação se quebra. No entanto, a investigação sobre alterações climáticas aponta para a existência de pontos de inflexão: limiares a partir dos quais o sistema muda de estado de forma abrupta e por vezes irreversível, como o degelo do Ártico ou o colapso da floresta da Amazónia. Os modelos subestimam os riscos porque assumem que os ecossistemas são substituíveis e porque não captam os efeitos irreversíveis associados aos pontos de inflexão. Se a floresta da Amazónia ou os recifes de coral desaparecerem, não existe nenhuma tecnologia que permita substituir os serviços que estes ecossistemas prestam (desde a regulação hídrica à proteção costeira). Modelos que assumem o contrário produzem projeções de danos que dificilmente se podem considerar realistas.
Voltando às previsões do modelo: Nordhaus concluiu que o ponto de adaptação ótima seria um aquecimento de cerca de 3°C, que, segundo o modelo, produziria danos geríveis com uma redução gradual das emissões. O problema é que, de acordo com o amplo consenso científico existente, este nível de aquecimento do planeta estaria associado a ondas de calor sem precedentes nos trópicos, à inundação de cidades costeiras e a riscos sérios para a produção de alimentos.
Se o modelo subestima os danos, também subestima a dimensão da resposta necessária para os evitar. Ao tratar o aquecimento global como uma falha de mercado, a implicação que se retira é que basta definir um preço para as emissões de carbono e deixar que o mercado se ajuste. No entanto, apesar dos mercados de carbono terem sido adotados por boa parte dos países nas últimas décadas, o preço continua a ser, em geral, demasiado baixo para desincentivar as emissões e cumprir as metas do Acordo de Paris.
A dependência dos combustíveis fósseis não se explica apenas pelos preços, mas sobretudo pela forma como estão organizados os sistemas de energia, de transporte, de produção industrial e de alimentação. Um sinal de preço pode produzir alterações marginais nesses sistemas, mas não é suficiente para promover as transformações necessárias. Confiar apenas no mecanismo do preço tende a produzir aquilo a que os economistas Daniela Gabor e Benjamin Braun chamam terapia de choque do carbono: deixar que a energia cara elimine as atividades que dela dependem, com o custo de destruir capacidade produtiva e emprego sem uma transição socialmente justa.
O que fazer numa economia sobreaquecida?
Durante quase quarenta anos, entre a década de 1980 e a pandemia da COVID-19 em 2020, as economias ocidentais viveram um período de inflação baixa e estável a que os economistas deram o nome de Grande Moderação. Essa estabilidade assentou num conjunto de condições estruturais que hoje parecem estar a reverter-se, entre as quais a dimensão ambiental: os fenómenos meteorológicos extremos eram suficientemente raros para não perturbarem de forma sistemática a produção agrícola e industrial e, com isso, os preços dos produtos.
No entanto, as alterações climáticas colocam em causa as condições estruturais que estiveram na base da Grande Moderação. Numa era em que ondas de calor, secas e cheias se tornam mais frequentes, a economia passa a enfrentar constrangimentos persistentes do lado da oferta e deixa de se poder contar com a disponibilidade permanente de recursos. O economista Jo Michell, que se tem debruçado sobre a macroeconomia no fim da “era da abundância”, defende que estas mudanças obrigam a repensar de raiz a política macroeconómica para aprender a lidar com maior instabilidade da oferta.
Gerir a procura através da política monetária dos bancos centrais, que descem ou sobem as taxas de juro consoante pretendem estimular ou arrefecer a economia, tem muito pouca utilidade neste cenário. A subida dos juros não repõe as colheitas perdidas ou as fábricas e infraestruturas destruídas por eventos meteorológicos extremos. Uma seca que destrói um terreno agrícola faz subir o preço dos alimentos independentemente do que acontece à taxa de juro.
Se os choques climáticos vieram para ficar, é necessário planear a economia para lidar com estes de forma socialmente justa. A curto prazo, há instrumentos disponíveis para limitar o impacto distributivo dos choques de preços climáticos: constituir reservas estratégicas de matérias-primas alimentares para evitar oscilações da oferta, além de regular preços e/ou margens em bens essenciais. A médio prazo, o caminho passa pela redução das vulnerabilidades estruturais através de investimento público em adaptação: reabilitação energética de edifícios, eletrificação dos transportes ou melhoria da eficiência na irrigação dos terrenos. Embora nenhuma medida isolada seja suficiente para resolver o problema do aquecimento global, a combinação destas ajuda a mitigar os seus efeitos e a distribuir os custos.
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