segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O princípio da esperança


A alguém com pouca memória pode parecer absurdo, mas eu lembro-me de ver este rabisco nas redes sociais de um importante intelectual da direita portuguesa, Nuno Garoupa, em 2015: “PS+BE+PCP=Governar para sempre?” 

Em pânico, este e outros intelectuais procuravam respostas para a crise em que a chamada geringonça punha a direita. O que fazer? Como voltar ao poder? 

A estratégia conjunta da direita acabou por dar os seus frutos. Operou-se uma reorganização com a criação de dois novos espaços onde se reagruparam os mais radicais neofascistas e ultraconservadores num lado, e os mais neoliberais noutro, fazendo ambos parte de um continuum que tem como eixo central a colagem e saudosismo à política de Passos Coelho e da troika. 

O CDS não aguentou a sangria e desde essa altura existe apenas ligado às máquinas. O PSD continua ainda a ser o partido que congrega no poder as sensibilidades de toda a direita, mas não se sabe até quando, principalmente agora que começa a sofrer com o desgaste da governação de pilhagem. 

Criar um novo partido de extrema-direita, ultrapopulista, neofascista, capaz de captar um eleitorado profundamente descontente e deixado para trás pelos anos e anos de excedente orçamental, e ao mesmo tempo, capaz de surfar a onda internacional, cada vez maior, dos neofascismos, foi uma estratégia que se mostrou absolutamente vencedora. 

E isto acontece ao mesmo tempo que a geringonça se desmorona em plena pandemia. Os partidos da esquerda tinham ficado, finalmente livres, para dar espaço ao justo descontentamento popular, mas a esquerda acabou por ficar com o pior dos dois mundos: metade do eleitorado não lhe perdoa ter persistido com a geringonça, a outra metade não lhe perdoa tê-la terminado. 

Hoje, chegámos a uma altura em que o nos parece que “PSD+CDS+IL+CH=Governar para sempre” e é isso que é trágico. 

Mas esta revisitação do que se passou desde 2015 serve apenas para relembrar que a história continua a não ter acabado. Saibamos, nós, à esquerda, analisar o momento político, o descontentamento social, as circunstâncias internacionais, e trabalhar na transformação necessária. 

Na minha opinião, a melhor notícia de ontem é, até ver, a do fim deste ciclo eleitoral infernal. Agora, é fundamental fazer trabalho político sem estar tão centrado em eleições nem candidatos e junto das pessoas. 

É preciso multiplicar os coletivos, as conversas, os eventos, as páginas nas redes sociais, as associações desportivas, as associações de moradores, a participação em sindicatos e em greves e manifestações, e também multiplicar a criatividade e a capacidade para chegar a mais pessoas e captar os seus anseios e descontentamentos. Fazer o socialismo com as nossas próprias mãos. 

comunidades inteiras no distrito de Leiria e arredores que têm dado lições nesse âmbito nas últimas semanas.

1 comentário:

TINA's Nemesis disse...

Para derrotar o fascismo era bom que se reconhecessem factos.

- A geringoça foi um fracasso, deixou imensa gente para trás, especialmente os mais novos que estão a carregar crises e mais crises;

- O António Costa usou a geringonça para salvar o Partido “Socialista”, para proveito pessoal e da sua família;

- A contra-revolução neoliberal não terminou em 2015, continuou e está cada vez mais violenta;

- O Partido “Socialista” não é esquerda;

- O consenso europeísta vai desde o BE ao Chega;

- O euroliberal Seguro vai frustrar ainda mais gente, e quem se vai aproveitar vai ser o Chega;

- Aqueles que se dizem de esquerda, na sua maioria, não querem discutir a UE nem o Euro;

- Aqueles que se dizem de esquerda, na sua maioria, acham que o maior inimigo da Europa é o Putin;

- Aqueles que se dizem de esquerda, na sua maioria, odeiam a China, o país que está a fazer os maiores progressos científicos e tecnológicos e que mais contribuiu para a redução da pobreza;

- Muitos que se dizem esquerda são belicistas;

- Aqueles que se dizem de esquerda, na sua maioria, têm um discurso abstrato e performativo sobre democracia com quase nenhuma ligação à realidade material da maioria da população.