Na Economia, não podemos dizer que a utilidade marginal de fornecer leite a crianças é maior do que a de um rico que degusta uma dose extra de caviar. Não é sociopata? Esta falta de moralidade é desenhada para prevenir a redistribuição.
Samuel Bowles
Do fascista Vilfredo Pareto aos continuadores do neoliberal Lionel Robbins, sobre o qual já escrevi, a economia convencional é desenhada para favorecer a redistribuição de baixo para cima na pirâmide social, sendo a proibição de “comparações interpessoais de utilidade” uma injunção que contribui para este propósito.
O problema, claro, também está no utilitarismo, em geral. É a filosofia moral espontânea de correntes económicas que fraudulentamente se autodefinem como positivas, por oposição a normativas, esquecendo a lição da melhor e mais séria filosofia da ciência: factos e valores estão entrelaçados.
Neste contexto, a abordagem das potencialidades de Amartya Sen e de Martha Nussbaum é uma boa alternativa para a avaliação social que vai à raiz dos problemas, sem relativismos. Mais tributária de Marx do que reconhecem, foi daí que parti para formular a hipótese humanista radical que não me canso de repetir: as pessoas fazem o melhor de que são capazes nas circunstâncias que são as suas e só a ação coletiva pode desenvolver capacidades e humanizar circunstâncias.
E, sim, Samuel Bowles é um sábio que fez concessões, mas, se calhar, fomos demasiado críticos aqui ou ali. Tem explorado as fronteiras da ciência desde os anos 1960, tendo pago um preço ao ser expulso de Harvard. E isto apesar do seu currículo. Encontrou refúgio no Departamento de Economia da Universidade de Massachussets (Amhrest), que contribuiu para transformar numa referência de um certo pensamento económico crítico.
Haja preferências endógenas, por exemplo, um dos meus artigos favoritos em Economia. Amartya Sen chama-lhe preferências adaptativas e há mecanismos causais que se assemelham.
A partir daqui, nem os economistas mais convencionais podem continuar a fingir que o que somos e fazemos no processo de provisão, os valores que adotamos, não são institucionalmente condicionados, sendo essas múltiplas formas de dependência passíveis de estudo pelos economistas, na esteira da tradição clássica, de Smith a Marx.
Afinal de contas, “os desejos são cada vez mais criados pelo processo pelo qual são satisfeitos”, como disse John Kenneth Galbraith. Os neoliberais, com as suas ficções, incluindo a da soberania do consumidor, detestam este realismo institucionalista original...
Nota editorial. Este texto foi sendo afinado e prolongado, já depois de ser publicado.


1 comentário:
Morreu Joana Lopes, antifascista do bglog Entre as brumas da memória, em Fevereiro de 2026 com 88 anos.
Enviar um comentário