sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

«Jornalismo» de mercado de que «o mercado» não precisa

«Convivendo apenas com 'decisores', convertendo-se numa sociedade de corte e de dinheiro, transformando-se em máquina de propaganda do pensamento de mercado, o jornalismo encerrou-se numa classe e numa casta». Esta observação do jornalista francês Serge Halimi, retirado de um livro com um sugestivo título - Os Novos Cães de Guarda - aplica-se na perfeição a um certo número de 'jornalistas económicos', apostados em circular entre os corredores do poder económico, dos jornais e da televisão. O paradoxo é que o mercado precisa de informação fidedigna, que só jornais de referência com autonomia podem fornecer, e de jornalistas que escapem à simples lógica dos incentivos pecuniários. O jornalismo tem elementos de bem público. É altura dos jornalistas económicos a sério dizerem o que pensam sobre isto. Não será possível alguma auto-regulação?

2 comentários:

Joe disse...

Giorgio Agamben diz que os jornalistas fazem o papel antes reservados aos de anjos como administradores da glória de Deus. Economia é uma noção primareimamente usada por teólogos medievais acerca da problemática da santíssima trindade.

Eu sugeria que, se antes se perguntava se deus intervia directamente ou não no mundo dos homens (por intermédio de anjos...), hoje devemo-nos perguntar se é possível intervir no mercado (por intermédio de jornalistas e política) estando o mercado no lugar de deus primitivo que castiga e beneficia de forma abitrária.

www.borntobewilde.com

José Cristian disse...

Caro João, concordo com o que foi dito. Mas, quando você coloca que "o paradoxo é que o mercado precisa de informação fidedigna" esquece que há jornalistas formadores de opinião e há jornalistas divulgadores de opinião. Cada um "presta" seu serviço a quem lhe paga. De qualquer forma, discutir o jornalismo econômico é uma coisa salutar e no Brasil está em discussão, porém com pouca divulgação, ação da Comissão de Valores Mobiliários para frear o ímpeto dos jornalistas-analistas que fazem as vezes de promotores de fundos e empresas. A questão ficará na velha batalha: isso é censura? No jornalismo rasteiro sempre que se tenta orientar alguma medida para coibir excessos, o assunto cai na velha discussão sobre liberdade de imprensa.