sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

A bazuca não é o que parece


"Bazuca", "dragon ball", "passo histórico". As metáforas superlativas para caracterizar o novo programa de quantitative easing (QE) europeu têm sido muitas, mas as certezas em relação ao seu impacto efectivo são bastante menos. É normal que assim seja: estão em causa mecanismos complexos num contexto que é ainda mais complexo. Na minha análise, o QE europeu não é exactamente o que parece. Não é uma bazuca, não tem uma escala sem precedentes e provavelmente não dará origem a uma expansão da massa monetária. Mas do ponto de vista político é um passo importante em direcção a uma solução possível para parte dos problemas da zona Euro. Vamos por partes.
O QE não é bem o que parece
À primeira vista, o novo programa de QE é uma programa não-convencional de expansão monetária, uma forma do BCE imprimir Euros a uma escala sem precedentes de modo a aumentar a oferta de moeda e actuar de forma contracíclica sobre a procura, estimulando a actividade económica na zona Euro e afastando o espectro da deflação.
Claro que não se trata de imprimir Euros literalmente, mas metaforicamente. A criação de moeda ocorre de forma escritural, através da concessão de créditos ao bancos (reservas adicionais que estes passam a deter junto do BCE) em troca de títulos da dívida pública de estados de zona Euro e de títulos de participação no BEI e em fundos como o Mecanismo de Estabilidade. Nesse sentido, o BCE propõe-se expandir a chamada base monetária, agregado monetário que é constituído pela soma das notas e moedas físicas com as reservas detidas pelos bancos junto do banco central.
E é aqui que encontramos o primeiro aspecto em que o QE não é o que parece: não é uma expansão da base monetária a uma escala sem precedentes. Os valores anunciados (€60 mil milhões por mês, €1,1 biliões no total) não representam uma mudança de paradigma ou alteração radical face à escala das expansões da base monetária da zona Euro levadas a cabo pelo BCE nos últimos anos. Em particular, a concessão de créditos de baixo custo ao sistema bancário no âmbito do programa  Long-Term Refinancing Operation, ou LTRO , em finais de 2011 e meados de 2012, correspondeu a um aumento da base monetária em cerca de 700 mil milhões de Euros em poucos meses, o que não está longe da escala do QE agora anunciado. 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Aproximações à verdade


Mais do que nunca, devemos deixar bem claro que não há meio caminho entre o confronto e a capitulação. O momento da verdade está próximo.

Stathis Kouvelakis

Um dos melhores intérpretes da ideia da teoria política enquanto pensamento da conjuntura que eu conheço nos dias de hoje é o filósofo grego Stathis Kouvelakis, Professor em Londres e membro do comité central do Syriza (da sua ala esquerda, digamos). Vale a pena ler o que escreveu numa revista, a Jacobin, que não me canso de recomendar para quem queira ter acesso a um pensamento socialista tão clássico quanto renovado (oportunamente traduzido). Para quem quiser saber muito sobre o Syriza no contexto da formação social grega, esta longa entrevista é indispensável.

Entretanto, o novo Ministro das Finanças grego é o economista heterodoxo Yanis Varoufakis, coautor da proposta pouco modesta para um relançamento euro-keynesiano da integração europeia e especialista em teoria dos jogos, uma ferramenta que até pode dar muito jeito para pensar interacções estratégicas. Por outro lado, Costas Lapavitsas, economista da Universidade de Londres e coautor de uma das melhores análises críticas do euro e dos meios de dele sair, foi eleito deputado do Syriza. A aliança com os nacionalistas democráticos de direita confirma a opção por uma atitude negocial firme, sendo, juntamente com a paragem das privatizações ou a intenção de subida do salário mínimo, uma excelente notícia. Trata-se, como afirmou Jacques Sapir, de privilegiar a luta pela recuperação da soberania, a contradicção principal da presente conjuntura histórica. A vitória e a derrota democráticas jogam-se aqui, ou seja, na conquista ou não de margem de manobra para as escolhas colectivas que fazem a diferença.

Enfim, Varoufakis pode ter o plano A, mas creio que é Lapavitsas que tem o plano B. Dado que quem manda no centro se recusará a abrir um precedente para que por todo o lado se diga podemos, é caso para dizer que também no campo dos planos, o B poderá ser o A, o último poderá ser o primeiro. Aproxima-se mesmo o momento da verdade.

Amanhã: Debate sobre decência e Salário Mínimo


«Ao Estado incumbe assegurar "o estabelecimento e a atualização do salário mínimo nacional, tendo em conta, entre outros fatores, as necessidades dos trabalhadores o aumento do custo de vida, o nível de desenvolvimento das forças produtivas, as exigências da estabilidade económica e financeira e a acumulação para o desenvolvimento" (Constituição da República Portuguesa, Artigo 59.º). A questão da redução dos salários "ultrapassa em muito a negociação anual das remunerações e torna-se cada vez mais numa questão geoeconómica". Garantir um salário adequado é um dos fatores constitutivos do Trabalho Digno (OIT) e condição para o exercício da liberdade real dos trabalhadores.» (António Casimiro Ferreira, 2012, "Salário" in Dicionário das Crises e Alternativas)

Por ocasião da publicação do 12º número do Barómetro das Crises, dedicado ao Salário Mínimo, o Centro de Estudos Sociais e o Observatório sobre Crises e Alternativas promovem uma sessão de apresentação e debate na próxima quinta-feira, 29 de Janeiro, a partir das 18h00, no CES Lisboa (Picoas Plaza, Rua do Viriato, 13E). Participam no evento João Ramos de Almeida (Observatório sobre Crises e Alternativas), que apresenta as conclusões do estudo, João Vieira Lopes (Presidente da Confederação de Comércio e Serviços de Portugal) e Pedro Lains (Investigador coordenador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa). O debate será moderado por Manuel Carvalho da Silva (CES). Apareçam.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Ricardo Paes Mamede no Prós e Contras



«Não é pôr os gregos a pagar impostos. É pôr todas as multinacionais na Europa a pagar impostos. Esta ideia de que fugir aos impostos é uma coisa dos cidadãos que recebem 350€ por mês está ao nível daquela ideia de que Portugal entrou em crise porque as pessoas andavam a comprar écrans LCD. É absurdo. Portugal não entrou em crise porque as famílias compraram écrans LCD e os gregos não têm pouca receita fiscal porque são vagabundos e fogem aos impostos. A Europa vive uma situação em que permite offshores e em que - como vimos no caso português, no caso do BES e em todos os casos de grandes empresas internacionais (nós sabemos que existem 18 empresas do PSI20 que não têm sede registada em Portugal) - as empresas declaram a sua sede na Holanda para pagarem muito menos impostos. E outras, mesmo declarando sede na Holanda, não só pagam poucos impostos na Holanda como conseguem, através de offshores, assegurar que não pagam os impostos que devem. Isso é uma responsabilidade da Grécia? As empresas alemãs fazem exactamente a mesma coisa. Há uma diferença fundamental na Alemanha, que tem que ver com o modelo de governação interna das empresas alemãs e que é um aspecto extremamente positivo: na Alemanha os conselhos de trabalhadores têm assento na administração das empresas, o que permite um muito maior controlo daquilo que é a sua actividade e a gestão interna (que leva por exemplo a que o valor bolsista de uma empresa alemã tenda a ser muito mais baixo que o valor bolsista de uma empresa equivalente americana).»

A ver na íntegra este excerto (do Sítio com vista sobre a cidade) de uma das intervenções do Ricardo Paes Mamede no programa Prós e Contras de ontem, sobre a «Grécia e a Europa», no rescaldo das eleições do passado domingo.

Amanhã, debate Le Monde Diplomatique


Tendo como referência o dossier de Janeiro do Le Monde Diplomatique (edição portuguesa), pretende-se aprofundar a reflexão e o debate em torno das questões do desemprego e da precariedade em Portugal, assinalando as suas raízes europeias e propondo pistas para sair de um paradigma fundado nos baixos salários, na desocupação involuntária e em vidas precárias. Apontando-se, acrescidamente, para um novo regime de direitos e de crescimento económico com emprego.

Participam no debate João Ramos de Almeida e Paulo Miguel Madeira (que escreveram o artigo «Desemprego português com raízes europeias», no último número do LMD) e Tiago Gillot (autor do texto «Recibos verdes e Segurança Social: lutar por um novo regime de contribuições e direitos», que integra igualmente a edição de Janeiro). O debate tem lugar no «Associativo» (Rua dos Anjos, 12F, em Lisboa), a partir das 21h30. A entrada é livre.

E se a dívida não for o problema?


A vitória do Syriza ontem abre, sem dúvida, uma nova página no contexto político europeu. Os dados estão lançados e os termos da eventual negociação com a UE bem definidos. O Syriza clama por um perdão da dívida resultante de uma conferência europeia. A probabilidade de tal acontecer é muito reduzida, dada a posição alemã. No entanto, provavelmente esse não será um grande problema no curto prazo. A Grécia já paga pouco sobre a sua dívida – 4% do seu PIB, 2,6% se considerarmos os reembolsos do BCE a que a Grécia tem direito (Portugal não).Com a actual descida das taxas de juro, ainda pagará menos. Acresce que a UE estará disponível a alongar prazos e a descer a taxa de juro ligeiramente nos empréstimos bilaterais, provavelmente substituindo-os por empréstimos do Mecanismo Europeu de Estabilidade. Tais dados apontam por isso para um serviço de dívida muito baixo no curto-prazo, dando alguma margem de manobra orçamental ao novo governo. O Syriza poderá pois deixar de lado a sua exigência, com o argumento da espera por futuras transformações políticas noutros países europeus que fortaleçam esta posição. Isto quererá dizer que a dívida passa a ser sustentável? Não. Este baixo serviço da dívida deve-se em parte à moratória sobre o pagamento de taxas de juro durante dez anos e às baixas taxas de juro praticadas nos mercados. Não é credível que este cenário se mantenha no médio e longo prazos. Qualquer pequena mudança na taxa de juro de mercado implicará um salto no custo da dívida grega, dado o seu tamanho. A dependência do financiamento da EU permitirá a esta um controlo apertado sobre os destinos gregos indefinidamente no tempo.

Mas os verdadeiros problemas que se colocam ao Syriza dizem sobretudo respeito à sua política orçamental. O seu ambicioso plano de relançamento da economia, em torno de 6% do PIB, financiado pelos fundos estruturais europeus e pelo combate à fuga ao fisco, se possível, será muito dificilmente neutro do ponto de vista orçamental. Ora, não é de todo credível que a UE esteja disposta a financiar e fechar os olhos ao agravamento do défice. A única margem de manobra tolerada é a da poupança nos juros atrás assinalada. O confronto tornar-se-á inevitável. Acresce a vontade do Syriza em parar e reverter com as famosas reformas estruturais, nomeadamente no mercado laboral, pondo em causa a "desvalorização interna" desejada pela UE. E aqui chegados, tocamos no ponto essencial dos desafios que se colocam. Com uma “valorização interna” seria possível à Grécia recuperar algum crescimento económico, mas na ausência de política industrial, comercial ou cambial (proibidas pela UE), tal valorização traduzir-se-ia num retorno aos défices externos e à dinâmica de endividamento já que a estrutura da economia seria pouco alterada.

A UE irá fornecer alguma margem de manobra ao Syriza, que poderá ser ampliada se o ataque à oligarquia grega for bem-sucedido. No entanto, ele será insuficiente para qualquer recuperação económica robusta que faça cair o desemprego. O Syriza terá pois que optar, muito rapidamente, entre a vitória de Pirro que a UE lhe oferece ou levar o confronto até às últimas consequências, saindo do euro. Não acho que qualquer dos resultados esteja escrito nas estrelas. Tudo dependerá da correlação de forças sociais interna e da capacidade da mobilização popular influenciar este governo, eleito graças a ela. O que não é opção é esperar por uma qualquer mudança externa na Europa. Ela estará mais dependente da acção do governo grego do que o contrário.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O Syriza está a falar a sério


Depois da vitória eleitoral de Domingo, o Syriza ficou obrigado a negociar um acordo de governo para viabilizar a sua política, naquilo que ela tem de mais central: a restruturação da dívida. Sem uma restruturação da dívida que imponha perdas substanciais aos credores, incluindo os credores institucionais que detêm, de longe, a maior fatia da dívida grega, qualquer discurso sobre o fim da austeridade é conversa.

Nesse sentido, temos já duas boas notícias: o acordo de governo com o Anel e a nomeação de Yanis Varoufakis como Ministro das Finanças. Sobre esta segunda notícia, a escolha parece-me incontroversa. Varoufakis tem sido um incansável e qualificado defensor da restruturação da dívida e o homem certo para conduzir o que será um processo dificílimo, do ponto de vista técnico e político.


Já a escolha do Anel como parceiro para um acordo de governo tem animado um debate esclarecedor entre a esquerda portuguesa. Não é surpreendente: este partido é conhecido por ter posições contra a imigração e os homossexuais que o colocam nos antípodas de um partido como o Syriza. A esse respeito, são relevantes duas notas: (1) a posição do Anel sobre imigração é semelhante à das grandes famílias europeias (PPE e Socialistas) e, portanto, compará-lo à Frente Nacional ou à Aurora Dourada é um exagero que só pode ter propósitos propagandísticos. (2) O acordo Syriza-Anel incidirá sobre as questões económicas e da dívida, deixando de parte qualquer compromisso sobre direitos individuais, área em que as posições são antagónicas e o Syriza tem parceiros bem mais frequentáveis. Era melhor que o Syriza tivesse tido maioria absoluta para dispensar más companhias? Era. Mas não teve.

Seria melhor o Syriza ter privilegiado outros parceiros? Quais, então? O Partido Comunista Grego aceitou reunir com o Syriza, mas apressou-se a adiantar que não faria qualquer acordo de Governo, em coerência aliás com o que já tinha feito na sequência das anteriores eleições. O Pasok defende o memorando e o "respeito pelos compromissos do Estado grego". Os compromissos com os credores, bem entendido, que com os cidadãos não há compromissos relevantes. O Partido de Papandreou não entrou no Parlamento, tal como o Dimar, reduzido à total irrelevância.

Restaria o Potami, um partido de centro, euro-entusiasta, que se tornou a esperança de vários comentadores para "moderar" o Syriza na sua relação com as instituições europeias. O Potami é um partido com o qual o Syriza tem pontos de convergência em muitas áreas e com o qual terá, com toda a probabilidade, muitas alianças pontuais. Tem um pequeno inconveniente: não é um aliado fiável para a condução de um processo de confronto com as instituições europeias sobre a questão da dívida. E esse confronto é decisivo.

Defender a restruturação dívida não é achar que era uma óptima ideia se toda a gente se pusesse de acordo sobre o assunto: Merkel, Tsipras, Juncker, Draghi, etc. Quem governar a Grécia tem de ter uma posição de força. Se essa posição depender de um acordo com quem andou a destruir a Grécia, então esse Governo não estará a negociar. Estará a pedir batatinhas. E terá o mesmo sucesso que tiveram os pedintes anteriores.

Ao contrário do Potami, o Anel mostrou-se disponível para esse confronto. O que resulta desse acordo é o que se poderia classificar como um Governo de unidade patriótica. Esse governo, se honrar o seu compromisso, terá um apoio social esmagador. E precisa dele para enfrentar dificuldades tremendas. Não sabemos se o Anel se aguentará à bronca. Sabemos, sim, que se o Syriza se amarrasse a um parceiro cuja primeira preocupação é entender-se com as instituições europeias, o Governo do Syriza não durava três meses. Nem um. Cairia na primeira chantagem, na primeira retaliação. E haverá muitas.

Estou naturalmente a excluir o cenário louco-furioso de rejeitar qualquer acordo de Governo e provocar novas eleições, exigindo uma maioria absoluta. Semelhante disparate deixaria o Syriza politicamente isolado e ainda mais distante da maioria absoluta ou mesmo… da relativa.

Naturalmente, está quase tudo por fazer. As dificuldades que o Syriza enfrentou até agora são uma brincadeira comparadas com o que agora os espera. Era bem mais fácil enfrentá-las com uma maioria absoluta. Os gregos não quiseram assim. Resta esperar que o Syriza consiga apoios sólidos no Parlamento. E saiba manter os que tem na rua.

Grécia: dia um da mudança


«A Grécia renasceu hoje. O medo falou e perdeu. Ganhou a democracia. Ganhou a esperança. A Grécia mostra hoje o caminho que pode ser de todos: deter a austeridade, renegociar a dívida, garantir a saúde, a educação, as pensões e o emprego, desenvolver.
Esse é o programa comum de recuperação da esperança. Na Grécia e também em Portugal. Este é o momento de saudar o povo grego e o partido Syriza e exprimir solidariedade. É também o momento de lembrar que entre nós há ainda um caminho longo a percorrer. Um caminho que deve ser feito de empenhamento político, participação, organização, unidade na pluralidade das forças da mudança.
É tempo de avançar por aqui para fazer renascer a esperança também em Portugal.»

José Castro Caldas (via facebook)

A incómoda vitória do Syriza

Os comentadores passam do espanto à normalidade. Da Coligação da Esquerda Radical - com muitos sublinhados no Radical - já se fala da "esperada" e "normal" vitória do Syriza na Grécia. Agora, a nova linha de raciocínio é saber como é que o Syriza vai ceder à UE e, para isso, calhou mesmo bem o Syriza não ter maioria absoluta no Parlamento, para poder "vender" ao eleitorado que a culpa da cedência não foi sua.

Mas já se explica a vitória "esperada" e "normal" porque a Grécia sofreu uma contracção do PIB de 25% em quatro anos, com um desemprego a trepar para os 25% da população activa, em que o desemprego jovem se situa em 60%. Tudo como se se pretendesse dizer que a esquerda se alimenta da desilusão e da desgraça, mas sem que se retire a conclusão de que foi todo um programa radical de austeridade que levou a essa situação sem solução à vista.

Pelo contrário. Manfred Weber, líder do grupo PPE no Parlamento Europeu a que pertence o PSD e o CDS, já veio entristar-se pelas opções do povo grego que não reconheceu o caminho traçado pelo Governo de Samaras. "É decepcionante ver que o caminho correto e honesto escolhido por Antonis Samaras para a Grécia não foi reconhecido. O caminho de reforma está a dar frutos e precisa ser continuado. Em breve tornar-se-á claro que as promessas feitas pelo Syriza ao povo grego não são nada além de mentiras eleitorais", disse. Declarações incomodadas que não se distanciam do que tem vindo a ser afirmado em Portugal.

Passos Coelho, hoje de manhã, quando confrontado se a vitória do Syriza não punha em causa as políticas de austeridade da Europa, respondeu: "A Europa não tem seguido políticas de austeridade ou deixa de seguir. Países dentro da Europa com desequilíbrios orçamentais muito graves - a Grécia foi o primeiro - precisam de corrigir essas situações". A Grécia - "como caso único - tem tido mais dificuldades em ultrapassar as suas circunstâncias". E sobre o "novo capítulo de políticas europeias", Passos disse que o debate "é um bocadinho desfocado: Foi o Governo português que chamou a troika". Portugueses deverão entender que "a fase em que a Grécia está, nós felizmente vencemos. Nem Portugal nem a Irlanda têm esses problemas. Nós conseguimos trazer os nossos défices para limites aceitáveis (...), temos as nossas contas externas equilibradas, temos acesso a financiamento em mercado que é decisivo". Mas que espera que a Grécia "consiga conciliar a necessidade de crescimento com o cumprimento das regras". E essa "correcção" com "o apoio da UE" trará o crescimento novamente.

Sente-se o incómodo, o nervosismo. A ponto de repetir as velhas ideias ouvidas desde 2010 que não evitaram o que aconteceu em Portugal: Portugal não é a Grécia, o problema está no Estado. Para eles, o que se passa hoje é o que se vê no gráfico em cima (com base nos valores divulgados pelo Eurostat).

Mas a realidade é bem mais triste. E até um indicador tão genérico como o valor do PIB dá a imagem da desgraça, da situação de caos social em que a Grécia caiu e que não é uma variação das taxas homólogas que ilustra o que se passa no terreno.

Olha-se para o caso português e a direita respira de alívio porque estamos longe de uma desaparição do eleitorado do PS que venha encher os caminhos da uma esquerda "Radical". Mas a nossa estagnação - porque é disse que se passa em Portugal, uma estagnação prolongada - é bem mais forte, quando se observa a evolução do PIB em volume, divulgado pelo INE.

O valor do PIB em volume está ao nível do PIB no ano da criação da moeda única, em 2000. Desde o valor mais alto em 2008, o PIB não deixou de cair e agora está tão levemente a despontar que enche de alegria o Governo e o Conselho de Finanças Públicas que antevê que as previsões oficiais se irão cumprir. Mas que situação é esta em que vivemos há década e meia?

O investimento privado está abaixo do valor de 1995! O Consumo privado está ao nível do ano de criação da moeda única, tal como o Consumo público.

E tal como se antevê pelo Tratado Orçamental, nada disto ficará por aqui e ter-se-á de fazer cortes bem mais pronunciados para permitir défices mais reduzidos e uma redução da dívida pública.



E se houve equilíbrio nas contas externas, como se vê no gráfico ao lado (em que as importações caíram), isso deveu-se sim à forte contracção de actividade. Quando se começar a consumir mais e a investir, lá voltará o défice externo comercial.
Consegue-se perceber onde vamos parar, dado que, salvaguardadas as diferenças de situação, a Grécia tem um ano de avanço em relação a Portugal...


Mas, enfim, cumprimos as metas, como diz o Governo.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Ainda um dia dirá que sempre foi favorável a que Portugal saísse do euro


(Dimas Pestana, via Câmara Corporativa)

«Pedro Passos Coelho recusou ter caído em contradição, ao comentar as críticas do líder do PS, António Costa. "Aproveitei para revisitar as declarações que tenho feito sobre esta matéria e elas são particularmente coerentes". (...) O primeiro-ministro disse esta sexta-feira, que a decisão do Banco Central Europeu (BCE) de comprar dívida pública é "bem-vinda" e que espera que ela "seja tão eficaz quanto se deseja". Trata-se de uma contradição em relação ao que afirmou em 2011, quando Cavaco Silva defendeu uma solução parecida com aquela que agora foi adoptada: seria um "péssimo sinal" se para resolver o problemas dos países indisciplinados o BCE imprimisse "mais euros", afirmou então o primeiro-ministro.»

Revista Sábado

«Em Junho de 2012, no Parlamento, em resposta ao então líder do PS António José Seguro, Passos Coelho opôs-se à compra de dívida por parte do BCE e explicava porquê. "Se o senhor deputado entende que o BCE deve actuar em mercado secundário com programas mais intensos de compra de títulos de dívida soberana dos diversos países; se é isto que o senhor deputado entende deixe-me dizer-lhe: não concordo e não preciso de pedir licença a ninguém - nem em Portugal, nem na Europa – para lhe dizer aquilo que penso. Não aceito essa visão porque em primeiro lugar não cabe ao BCE em circunstância nenhuma exercer um papel de monetização dos défices europeus".»

Rádio Renascença

«Na realidade, PPC nunca disse nada daquilo que disse, porque faz sempre o que a sua pulsão ideológica lhe dita e diz seja o que for que lhe pareça conveniente no momento. Passos Coelho é o político que "jurava" ser contra o aumento dos impostos, que antes de ser governo afirmava que o país não precisava de mais austeridade, que criticava o governo anterior porque estava a atacar o Estado social (!), que dizia (com razão!) que apertar o cinto demasiado podia matar o doente (que descaramento!), que se queixava de termos desempregados sem subsídio, que acusava o governo anterior de estar a atacar a classe média, que afirmava ser preciso defender os reformados e pensionistas. Quando estava na oposição, Passos Coelho até se pronunciava contra a alienação de participações do Estado, dizendo que isso era vender os anéis.»

Porfírio Silva, Um P.M. muuuuuito esquecido

«Alguém avise Luís Montenegro que a razão pela qual Portugal pode beneficiar das medidas ontem anunciadas pelo BCE não é a conclusão do programa de ajustamento, não são as reformas estruturais, não é o seu empenho austeritário, nem a sua submissão face aos alemães. A razão pela qual Portugal pode beneficiar do Quantitative Easing é a manutenção de um rating acima de lixo por parte da agência de rating canadiana DBRS [a única que segura Portugal neste critério de elegibilidade do BCE]. Pequeno pormenor (delicioso): este rating precede o programa de ajustamento e é anterior ao governo PSD-CDS.»

João Galamba (facebook)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Quando todos fingem que o euro pode sobreviver


Ao longo do ano de 2014 a economia da zona euro foi-se afundando na estagnação, acompanhada por uma desinflação que progressivamente se encaminhou para a deflação. Com um crescimento real anémico, o PIB tende a reduzir-se em termos nominais. Tal significa que o peso das dívidas, em percentagem do PIB, mais juros acumulados, ganha uma dinâmica alarmante e insustentável. Mario Draghi bem alertou os governos da zona euro para a necessidade de uma intervenção mais enérgica da política orçamental para relançar a economia, mas apenas obteve do presidente da Comissão um plano de investimentos construído sobre engenharia financeira. Só os europeístas lunáticos não viram que era apenas propaganda para camuflar o veto da Alemanha a qualquer política orçamental europeia pró-crescimento.

Nos últimos anos, o clamor dos protestos contra a austeridade não produziu mais que um fechar de olhos da UE à derrapagem no cumprimento dos objectivos do Tratado Orçamental, aliás uma forma de amaciar os efeitos perversos da política adoptada. Já as expectativas dos especuladores quanto ao reembolso dos seus créditos mereceu a maior atenção. Temendo o efeito bancarrota de uma deflação instalada, os "mercados" clamaram por uma intervenção do BCE (QE - Quantitative Easing) para que compre em larga escala títulos de dívida pública na posse dos bancos. Hoje quase todos os observadores qualificados assumem que esta intervenção não tem condições para salvar a zona euro [ver Richard Koo]. Em primeiro lugar, porque o aumento da liquidez na posse dos bancos não se converte automaticamente em aumento do crédito às empresas e famílias num tempo de grande incerteza. Ou seja, não se traduz num aumento de procura efectiva capaz de fazer subir os preços. Ainda assim, nas instituições da UE todos fingem que esta é a grande arma que vai travar a implosão do euro.

Em segundo lugar, os bancos não vão guardar a liquidez em depósitos no BCE porque teriam de pagar juros, em vez de receber. Também não vão ficar com ela imobilizada. Vão aplicá-la em activos de natureza diversa, o que alimentará bolhas especulativas na bolsa e no imobiliário, na Europa e noutros continentes. Temendo o afluxo em grande escala de mais euros, a Suíça e a Dinamarca já anteciparam medidas defensivas. Assim, em resultado da saída de capitais, o euro está a desvalorizar a um ritmo considerável, de que resultará o agravamento do excedente comercial da Alemanha e a agudização da guerra global de moedas já em curso. Ainda assim, a Alemanha vive na ilusão de que todos os países podem ter excedentes, assim se esforcem.

Em terceiro lugar, o clamor da opinião pública alemã e seus partidos maioritários contra a execução de um QE numa escala significativa vai gerar receios nos mercados financeiros quanto à viabilidade do euro, dados os efeitos colaterais que terá na esfera jurídica. É importante não esquecer que as decisões do Tribunal Constitucional alemão vinculam as instituições alemãs, incluindo os representantes do Bundesbank no BCE, mesmo que o Tribunal de Justiça da UE considere que o QE é compatível com os Tratados da UE. Que fique bem claro para os europeístas lunáticos: a Alemanha cumpre as normas europeias, mas apenas na medida em que são compatíveis com a sua Constituição. Na verdade, não haveria riscos para o contribuinte alemão com a compra de dívida dos países da periferia feita pelo BCE, dado que se trata do banco emissor da moeda. Ainda assim, os contribuintes alemães acreditam que um banco central pode ir à falência e boa parte das elites alemãs partilha essa ignorância, ou pelo menos finge bem.

Num contexto em que ninguém ao mais alto nível quer enfrentar o problema da inviabilidade da moeda única, resta esperar uma resposta corajosa do povo grego à chantagem a que foi sujeito nas últimas semanas. E esperar também que o Syriza esteja à altura do desafio que lançou à Alemanha. Afinal de contas, a crise do euro é sobretudo uma crise política que dramaticamente tarda em chegar ao fim.

(O meu artigo no jornal i)

Seminário UNIPOP: Política, Austeridade e Emancipação | A metrópole em tempos de crise

«A actual crise deu nova visibilidade ao problema da pobreza. Em alternativa aos discursos paternalistas do assistencialismo social e aos discursos que propõem enquanto solução para o problema da pobreza receitas individuais como o empreendedorismo, este seminário procurará promover uma discussão que coloque a emancipação colectiva enquanto hipótese urgente nestes tempos difíceis.»

Integrado na Exposição «O tempo e o modo, para um retrato da pobreza em Portugal», promovida pelo Centro Nacional de Arte Contemporânea (e que pode ser visitada até 27 de Fevereiro no Pavilhão 31 do Hospital Júlio de Matos), o seminário da UNIPOP, «Política, Austeridade e Emancipação: A metrópole em tempos de crise» pretende discutir «os processos de privação material que as actuais políticas de austeridade têm vindo a acentuar e as práticas discursivas que identificam a pobreza a uma posição de exclusão e marginalidade», procurando nessa perspectiva explorar «possibilidades de acção emancipatória que se afirmem a partir de condições sociais menos privilegiadas».

O seminário estrutura-se em três painéis: «O comum em revolta: do pobre à multidão» (com Antonio Negri e Judith Revel); «Crítica das políticas da pobreza: do policiamento à caridade» (com Otávio Raposo, Nuno Serra e Inês Galvão); e «Do pobre enquanto sujeito da sua emancipação: associativismo e agencialidade» (com Eduardo Ascensão, António Brito Guterres e Nuno Rodrigues). No final, realiza-se uma visita à exposição, guiada pelos curadores Emília Tavares e Paulo Mendes. É amanhã, 24 de Janeiro, entre as 10h00 e as 18h00, no Auditório do Hospital Júlio de Matos, em Lisboa. A entrada é gratuita.

A estupidez e a cupidez ao comando da política


Vale a pena ler este texto de Joseph Stiglitz intitulado "A política da estupidez económica":

"Nos últimos seis anos o Ocidente acreditou que a política monetária poderia resolver tudo. Esta crise conduziu a enormes défices orçamentais e a dívidas crescentes pelo que, diz o pensamento dominante, a necessidade de desendividamento exige que a política orçamental seja posta de lado. O problema é que as taxas de juro baixas não levarão as empresas a investir se não tiverem procura para os seus produtos. Nem as taxas de juro baixas levarão as famílias a pedirem empréstimos para consumo se estiverem apreensivas quanto ao futuro (e devem estar). O que a política monetária pode fazer é criar bolhas nos preços dos activos. Mas é importante falar com clareza: a probabilidade de políticas monetárias excepcionais restaurarem a prosperidade global é nula."

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Vemo-nos cada vez mais gregos


Compromisso com o "equilíbrio orçamental", no espírito dos tratados, sendo a questão os meios para o atingir, menção à "economia social de mercado" e tudo: estes são alguns dos elementos de um artigo de Alexis Tsipras no Financial Times. E, claro, há uma referência à já famosa e nebulosa conferência europeia para resolver o problema da dívida. Mais moderado e multilateral seria impossível. O Syriza ganha, conquistando o espaço da social-democracia europeísta. Não há mal nenhum nisso, claro. Ganhar e conquistar o poder são coisas muito importantes. Há só um detalhe, que é o de saber se é possível um programa social-democrata, mesmo que diluído por décadas de derrotas, na Zona Euro. Não creio que seja. As coisas são como são feitas e não é à escala europeia que começarão a ser desfeitas e refeitas. Creio que Tsipras tenta a quadratura do círculo e creio que a direita vê bem quando fala do precedente que concessões relevantes ao Syriza criariam. Dito isto, a cooptação não é inevitável (é só um dos dois cenários que se colocam em última instância, creio). É muito importante, talvez seja mesmo o mais importante, saber se esta vitória estimulará ou não o movimento popular, gerando confiança para um movimento consciente de pressão interna que contrarie a pressão externa e não só. O futuro está em aberto. Vemo-nos cada vez mais gregos.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Amanhã, debate CDA: Deixem-nos decidir!


Promovido pelo Congresso Democrático das Alternativas, o debate «Na Grécia e na Europa: Deixem-nos decidir» tem lugar um dia depois da entrega - por uma delegação composta por Ana Drago, Helena Roseta, Henrique de Sousa, João Mineiro, João Ricardo Vasconcelos, Manuela Graça, Nuno Fonseca e Ricardo Paes Mamede - de uma Carta subscrita por 222 personalidades de diversas áreas políticas, sociais e culturais.(*)

O texto da carta, hoje entregue na Representação da Comissão Europeia em Portugal (Centro Jean Monet), é o seguinte:

«No próximo domingo, dia 25 de janeiro, realizam-se eleições na Grécia, país que vive uma gravíssima crise humanitária provocada por um programa de austeridade. O desemprego e a pobreza aumentaram para níveis insustentáveis e assiste-se ao colapso das instituições fundamentais do seu Estado Social. O programa previa uma estabilização da dívida em 2012, seguida de um decréscimo sustentado, mas a dívida pública em percentagem do PIB em 2014 estava mais de 30 pontos percentuais acima do inicialmente previsto e continua a subir.
Portugal e outros países da União Europeia também sofreram as consequências desastrosas de políticas de austeridade, que falharam em toda a Europa. No entanto, a Comissão Europeia nunca realizou um balanço crítico das políticas que impôs.
Na Grécia, como em Portugal ou em Espanha, 2015 será o ano em que esta política pode ser julgada em eleições legislativas. A democracia coloca aos cidadãos o direito e o dever de fazer escolhas livres e aos partidos políticos a missão de apresentarem programas com caminhos alternativos.
É inadmissível que, ao longo dos últimos meses, se venham multiplicando declarações de responsáveis das instituições europeias, incluindo comissários europeus, sobre o processo eleitoral na Grécia, carregadas de ameaças mais ou menos veladas, com as quais procuram condicionar as escolhas que só os gregos podem tomar.
Tais declarações violam o dever de neutralidade a que estão vinculadas todas as instituições europeias e respectivos titulares, dever esse consagrado no direito comunitário. Estas tentativas de ingerência agravam a crise de legitimidade democrática e o descrédito dessas instituições.
Nós, cidadãos portugueses e europeus abaixo-assinados, repudiamos qualquer tentativa de chantagem ou condicionamento das escolhas da democracia. Exigimos respeito pelas opções dos cidadãos gregos, como exigiremos respeito pelas nossas. Porque sem democracia não haverá saída para a crise, dizemos: Deixem-nos decidir!»

(*) Fazem parte, da lista de 222 subscritores, Ana Drago, Alexandre Alves Costa, André Freire, António Borges Coelho, António Pedro Vasconcelos, António Pinho Vargas, Boaventura Sousa Santos, Constantino Sakellarides, Daniel Oliveira, Daniel Sampaio, Eduardo Vitor Rodrigues, Eugénio Rosa, Francisco Louçã, Guadalupe Simões, Helena Roseta, Henrique de Sousa, Inês de Medeiros, Isabel do Carmo, Isabel Moreira, João Cravinho, Jorge Leite, José Castro Caldas, José Gigante, José Manuel Pureza, José Reis, José Soeiro, José Vitor Malheiros, Luís Urbano, Luísa Costa Gomes, Manuel Alegre, Manuel Carvalho da Silva, Manuel Freire, Maria Augusta Sousa, Marisa Matias, Martins Guerreiro, Mário de Carvalho, Nuno Teotónio Pereira, Octávio Teixeira, Pilar del Rio, Ricardo Paes Mamede, Rui Tavares, Sandra Monteiro, Teresa Vilaverde, Vera Mantero, Viriato Soromenho Marques e Vitorino.


É a procura

Com uma economia europeia estagnada, não me parece que haja grandes oportunidades de investimento e, portanto, o resultado desta operação [o chamado alívio quantitativo do BCE] no consumo e investimento, sem estímulos públicos orçamentais, será muito limitado. A experiência do Japão, país onde o QE foi primeiro tentado, é eloquente em relação aos efeitos limitados do programa que serviu sobretudo para manter um sistema bancário semi-falido.

Sensata declaração do Nuno Teles num artigo de Sérgio Aníbal no Público. Entretanto, para os que acham que a variável cambial não conta, vale pena ler a análise de Manuel Caldeira Cabral sobre a depreciação recente do euro e os seus efeitos na promoção da procura externa nacional. Se é assim com o euro, imaginem com moeda própria. Bom, parece que também o governo está com sorte. Sim, a esquerda que quer salvar o euro anda toda entusiasmada com os desenvolvimentos recentes na frente europeia, mas são os neoliberais que continuam a ganhar o essencial neste contexto estrutural. De facto, e na melhor das hipóteses, os estímulos do BCE e um certo alívio na frente orçamental, num contexto de tépida recuperação, servirão para facilitar ainda mais a vida aos que querem prosseguir com o processo de reformas estruturais em curso, ou seja, com a economia política da regressão. É que os que querem prosseguir com tal linha estão bem defendidos por toda a tralha política e institucional europeia.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O debate das desigualdades ainda mal chegou a Portugal

Na semana passa participei no colóquio “Desigualdades em debate 2015”, organizado pelo Observatório das Desigualdades, no ISCTE-IUL. O painel que integrei era dedicado ao livro O Capital no Século XXI, o ‘best-seller’ do economista francês Thomas Piketty, que já originou milhares de páginas de debates em revistas, jornais e blogs no mundo inteiro.

Na sua edição portuguesa, o livro de Piketty tem cerca de 900 páginas, repletas dados e análises relevantes. Sendo impossível sintetizar uma obra deste volume em poucas palavras sem correr o risco de simplificação excessiva, resumiria assim as mensagens principais do livro.

Em primeiro lugar, no desenvolvimento do capitalismo a evolução das desigualdades não seguiu uma trajectória linear. Se no início do século XX os países ricos eram caracterizados por níveis muito elevados de concentração dos rendimentos e da riqueza (por exemplo, 1% da população europeia ocidental detinha 50% do capital), entre o início da primeira Guerra Mundial e o segundo pós-Guerra os níveis de desigualdade reduziram-se de forma acentuada. Desde as décadas de 1970 e 1980 a desigualdade não tem parado de aumentar, mas ainda se encontra a níveis distantes do início do século passado (por exemplo, os 1% mais ricos detêm 25% do capital na Europa).

Em segundo lugar – e esta é a tese central de Piketty – é possível explicar o essencial das dinâmicas de crescimento das desigualdades (até ao início do século XX e nas décadas mais recentes) através da relação entre a taxa de rentabilidade do capital e a taxa de crescimento económico. Mais precisamente, há cinco ideias no raciocínio de Piketty que importa reter:

i) é possível mostrar teoricamente que uma ligeira diferença entre a taxa de rentabilidade do capital e a taxa de crescimento económico é suficiente para que as desigualdades se acentuem ao longo do tempo;

ii) em termos empíricos verifica-se que essa diferença foi substancial durante a maior parte do processo de desenvolvimento do capitalismo;

iii) só a ocorrência de acontecimentos dramáticos relacionados com as duas guerras mundiais do século XX (destruição física de bens de capital, revoluções, descolonizações, nacionalizações, inflação elevada, congelamento de rendas, tributação agressiva de rendimentos e património, etc.) permitiram corrigir (temporariamente) as assimetrias na repartição da riqueza e do rendimento que decorrem de i) e ii);

iv) a combinação de um baixo crescimento demográfico (que implica a desaceleração do crescimento económico) e de uma forte concorrência fiscal a nível global (que conduz ao aumento da rendibilidade dos capitais) fazem antecipar uma tendência para o aprofundamento das desigualdades no futuro; e, consequentemente,

v) são necessárias mudanças institucionais profundas para prevenir que as desigualdades no século XXI regressem aos níveis verificados no início do século XX (tornou-se famosa a proposta de Piketty de um imposto mundial sobre o capital, que exigiria um maior controlo sobre os fluxos de capitais a nível internacional).

O trabalho de Piketty tem suscitado os mais variados tipos de críticas (muitas injustas, outras nem por isso): desde a fiabilidade das fontes e do tratamento dos dados, passando pelo conceito de capital que utiliza, até à ideia subjacente de que é possível regenerar o capitalismo através da fiscalidade sobre o capital, ou ainda a escassez de análise teórica sobre os fenómenos identificados.

Aqui interessa-me menos revistar todas aquelas polémicas do que salientar dois aspectos. Primeiro, o trabalho de Piketty mostra de forma inequívoca que a tendência para o aprofundamento das desigualdades está bem presente nas nossas sociedades, pondo em risco alguns dos valores fundamentais sobre as quais assentam. Segundo, ao contrário do que sucedeu na maioria dos países ocidentais nos últimos anos, o debate sobre as desigualdades ainda é pouco mais do que uma nota de rodapé no debate público em Portugal.

Podemos culpar a dimensão da obra de Piketty, que não facilita a sua leitura e discussão alargadas (ainda que a abordagem não seja muito técnica e o estilo de escrita seja convidativo e acessível). Podemos também argumentar com a falta de dados sobre a distribuição do património em Portugal – e até mesmo a fragilidade dos dados disponíveis sobre os rendimentos. Não podemos, no entanto, deixar de registar que é precisamente num dos países mais desiguais de todo o mundo industrializado que a discussão sobre as desigualdades é mais escassa. Já vai sendo hora de acabar com este paradoxo.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Como inverter a tendência?

Na passada sexta-feira no Parlamento, durante o debate quinzenal, o primeiro-ministro afirmou algo parecido com isto:

O que o Governo fez, ao longo do programa de ajustamento, "não o fez para agradar", mas fez "o que era preciso fazer". Às vezes, é preciso ter coragem para governar sem agradar. "Não funcionamos para as corporações, mas para os portugueses". "Os nossos objectivos foram alcançados e foi por isso que o programa de ajustamento acabou". "Os valores recentes do desemprego, dos últimos dois meses, preocupam o governo, mas do ponto de vista do médio e longo prazo o que interessa é a tendência. Não estamos seguros que signifique uma inversão de tendência".

Estes "últimos dois meses" referem-se aos dados mensais do desemprego, que o INE passou a divulgar. Pela primeira vez desde o 2º trimestre de 2013, o número de desempregados cresceu. Passou de 684,2 mil em Setembro para 717,5 mil em Novembro. E a taxa de desemprego parou de descer e subiu 13,3 para 13,9%, antecipando uma subida no último trimestre de 2014.

Aceite-se então esse optimismo do primeiro-ministro relativamente aos dois últimos meses de 2014. E olhe-se então para a tendência de fundo, aquela que, "do ponto de vista de médio e longo prazo", importa olhar.

As palavras de Passos Coelho no Parlamento poderiam ser ditas por qualquer dirigente da oposição, se fossem a propósito do desemprego que começou a cair desde 2013:

"Do ponto de vista do médio e longo prazo o que interessa é a tendência. Não estamos seguros que signifique uma inversão de tendência".




"Os nossos objectivos foram alcançados e foi por isso que o programa de ajustamento acabou", disse Passos Coelho no Parlamento.

Claro que esses "objectivos" não foram os do pleno-emprego, mas as metas orçamentais. Mas isso demonstra que o pleno-emprego nunca foi o objectivo primeiro do programa de ajustamento. Mesmo quando o desemprego não parou de crescer desde 2000!


Julgou Passos Coelho – e a troika – que bastava pressionar os custos laborais e flexibilizar ainda mais as regras do Direito Laboral, para tudo desabrochar de novo?

De facto, "do ponto de vista do médio e longo prazo o que interessa é a tendência" de fundo. Porque tem a ver com artroses estruturais. E, sem um diagnóstico correcto, arriscamos a vida do paciente. Aliás, um "paciente" muito paciente, dado o elevado nível de desemprego.


Para atacar este problema de fundo, era importante que o Governo não caísse na tentação de iludir as pessoas, usando expedientes de curto prazo que tendem a jogar com a vida já fragilizada dos desempregados. E atacasse as questões de fundo, pronunciando-se sobre como vai atacar o PROBLEMA do crescimento económico. Já acertou as contas do Estado e mudou a legislação laboral. Não deu. E agora? Ou será que vai apenas prolongar a "tendência"?

Claro que vai. O Governo já anunciou aliás um novo programa de estágios, que se encontra em discussão na Concertação Social. Mas para quê discutir se o Governo tudo fará, mesmo indo contra todas as "corporações"?

Do mesmo modo, era essencial que o PS - como o partido da oposição melhor colocado para ir para o Governo - se pronunciasse sobre o que vai fazer para o país crescer economicamente e, assim, reduzir o desemprego.

Claro que, do ponto de vista táctico, é melhor que o debate político se faça apenas na campanha eleitoral: "Não queimar já todos os cartuchos", "deixar o Governo a lidar com os problemas que criou", "evitar possíveis erros de política que possam ser explorados pelo PSD e CDS", "não ir demasiado à esquerda, para não o centro à direita". Mas isso não é nada.

O problema é que o Governo – como o disse Passos Coelho no Parlamento – vê-se como tendo uma missão, mesmo que vá contra todos. E ainda tem muitos meses pela frente. O PS pode – se quiser - desarmar o risco de prolongamento da "tendência". Basta assumir como pretende reverter as políticas seguidas. E fazer política com P maiúsculo.

Ou será que o PS vai, ele também, prologar a tendência?

domingo, 18 de janeiro de 2015

Cumprir e fazer cumprir o quê?

Será que os portugueses querem continuar, através da Presidência da República, com a economia política e moral do cavaquismo depois de Cavaco? Coloco esta questão por causa de António Vitorino, aventado como um putativo candidato de “esquerda”, as aspas nunca foram tão necessárias, com possibilidades de ganhar a Presidência, segundo uma estranha sondagem recente. Quero crer que os portugueses não colocarão na Presidência mais um facilitador, mais um europeísta disposto a esvaziar o que resta da soberania democrática em troca de umas migalhas mal distribuídas do soberano pós-democrático que está em Bruxelas-Frankfurt. Em relação a Vitorino, e por agora, limito-me a recomendar a leitura do último livro de Gustavo Sampaio, “Os Facilitadores”, sobre a economia política dos grandes escritórios de advogados, onde aparece com destaque.

É claro que Guterres, com outro percurso pós-governamental, não é politicamente muito melhor: enquanto Primeiro-Ministro, limitou-se a continuar e até a consolidar a economia política e moral do cavaquismo, com poucas notas de rodapé dissonantes, sendo responsável, entre outras, por maciças e desastrosas privatizações e sobretudo pela confirmação da catastrófica adesão ao euro, com uma das mais equivocadas e reveladoras profissões de fé: “Euro, tu és o euro e sobre este euro edificaremos a União Europeia”. Lembram-se?

No entanto, não creio que o panorama esteja limitado a estes dois putativos candidatos. Não estamos assim tão mal. Felizmente, à esquerda, podem existir candidatos populares, dos tais imprescindíveis, da luta pela educação para todos ou pelos direitos dos trabalhadores, e que não deixarão certamente de pugnar pela realização do artigo 1º da nossa Constituição: “Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária.”

Tu não és Charlie, Zé Manel. Tu és um pândego

«Custa-me assistir ao processo de achincalhamento daquela instituição [ICS] que um grupo radical tem conduzido, com as cumplicidades mais variadas. (...) A forma de actuação do grupo que provocou esta situação [ensaio sobre grafittis na Análise Social] distancia-se radicalmente das regras da Academia – que são as regras da Análise Social – e, também, da regras da decência. A sua agenda é outra: é uma agenda política. (...) A provocação não foi obra de brincalhões ou ingénuos – a provocação teve uma motivação ideológica, que os próprios assumiram no comunicado que escreveram depois da revista ter sido suspensa. (...) A Academia não tem, não pode ter, um programa “contra o grande capital” – ou contra os sindicatos, ou contra os pobres. Não está em causa o que pensam os académicos, que são cidadãos de pleno direito, está sim em causa que não podem transformar órgãos de produção e reflexão científica em panfletos ideológicos melhor ou pior disfarçados

José Manuel Fernandes, Chantagem moral e cobardia intelectual (13 de Novembro de 2014)

«As balas hoje disparadas na redacção do Charlie Hebdo foram balas disparadas contra todos os jornalistas, contra todos os que defendem a liberdade de expressão, contra todos os que apenas desejam viver numa sociedade aberta, tolerante e plural. A tragédia não é só do Charlie Hebdo, nem só dos parisienses ou dos franceses. É do jornalismo mundial. É de todos os homens livres. (...) Amanhã muitos pensarão duas vezes antes de escreverem, de filmarem, de reportarem. E depois de amanhã até pode acontecer que surjam mais leis anti-blasfémia, que mais gente veja na crítica a certas práticas dos islamistas uma condenável "islamofobia".»

José Manuel Fernandes, Hoje somos todos Charlie Hebdo (7 de Janeiro de 2015)

Duplicidade de critérios à parte, parece-me que o Zé Neves é que tem razão, quando assinala no facebook que «é bom ver jornalistas e comentadores como José Manuel Fernandes (...) defenderem o direito à liberdade de expressão [quando] ainda há dois meses tive que os aturar a elogiar um acto de censura». Tal como importa fazer justiça às palavras exactas proferidas por José Manuel Fernandes (essa referência de proa, no mundo académico, sobre o que é e não é ciência). Ele disse hoje «somos» todos Charlie, não disse que ontem o «éramos» nem garantiu que amanhã o «seríamos».

sábado, 17 de janeiro de 2015

Imprimir dinheiro e distribuí-lo: simples de mais para ser verdade?

Se toda a gente tivesse emprego, todas as máquinas estivessem a trabalhar 24 horas por dia e os campos cultivados, havendo mais dinheiro, o preço das coisas produzidas aumentaria porque não seria possível produzir mais coisas, logo, criar mais dinheiro seria estúpido e prejudicial. Mas, numa crise económica há muitas pessoas e máquinas paradas, há campos por cultivar porque não há procura, e não há procura porque as pessoas não têm dinheiro. E há muita pobreza e fome. Neste caso, imprimir dinheiro e distribuí-lo bem, ajuda.

Manuel Carvalho da Silva, Jornal de Notícias

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Um Robin dos Bosques ao contrário: a direita, o fisco e as famílias



«Se há coisa que esta reforma fiscal garante é que um filho de um rico vale mais do que o filho de um pobre. Olhemos para a política de natalidade desta maioria, que começou em 2011. É a emigração, o aumento do desemprego, o corte dos salários, o aumento do horário de trabalho, o corte dos feriados, a diminuição dos direitos laborais, a dificuldade do acesso à saúde, a degradação do acesso à educação... Tudo isto, senhora deputada, afecta as famílias portuguesas.
(...) O CDS e o PSD degradaram objectivamente a vida das famílias portuguesas nestes três anos e não é com pequenas migalhas, que são sobretudo para as famílias de mais altos rendimentos, que vão corrigir o mal que fizeram. (...) O que é que o CDS diz às mais de 30 mil famílias que perderam acesso ao Rendimento Social de Inserção? O que é que o CDS diz às mais de 40 mil crianças que perderam o acesso ao RSI? (...) Diz que vai continuar a piorar a vida dessas famílias. Porque neste orçamento dizem que vão cortar mais 100 milhões de euros em prestações sociais, que vão afectar sobretudo crianças e famílias.
(...) Quando nós olhamos para o IRS, senhora deputada, há mais de 50% de portugueses que não pagam IRS. E portanto uma política de natalidade centrada no IRS logo à cabeça exclui 50% das famílias. E dos 50% dos portugueses que pagam IRS, o que o CDS lhe tem a dizer é: nós apoiaremos tanto mais quanto mais dinheiro tiverem.»

Da intervenção de João Galamba na Assembleia da República, na quarta-feira passada, em resposta à declaração política do CDS/PP sobre a reforma do IRS e o apoio à família (via Câmara Corporativa).

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

A beneficiária, o facebook e a técnica do RSI

Em Novembro de 2014 a Segurança Social cessou o RSI a uma mulher residente em Abrantes, aparentemente por esta ter colocado um comentário no facebook, dando conta de que estava prestes a viajar para a Suíça (e ao qual associou a foto de uma rapariga sentada em cima de malas). Esse comentário era a forma irónica que encontrou para informar os amigos de que iria ser submetida a uma segunda intervenção cirúrgica, na sequência de um acidente de viação ocorrido em Junho de 2014. Maria Conceição, com 39 anos de idade e dois filhos a cargo, não aufere assim desde Dezembro qualquer apoio social, tendo recebido até então um subsídio mensal de 285€. Repito: 285€ de RSI por mês, concedidos a uma mulher desempregada, com dois filhos a cargo.

A beneficiária tinha como «amiga», naquela rede social, a técnica de RSI que acompanha o seu processo e que terá desencadeado, na sequência do comentário publicado no facebook, os procedimentos relativos ao corte do apoio, comunicado pela Segurança Social a 14 de Novembro e fundamentado na primeira alínea do artigo 22.º («ausência do país»). Indignada, Maria Conceição protestou junto dos serviços, garantindo que não só não saíra do país como não o poderia fazer, dado o seu estado de saúde (a segunda operação visou, justamente, a remoção dos parafusos aplicados na primeira intervenção cirúrgica a uma perna): «vivo em casa dos meus pais, tenho dois filhos menores, fiquei sem trabalho devido ao acidente, e agora a Segurança Social tira-me os 285 euros de Rendimento Social de Inserção (RSI) por causa de uma brincadeira no facebook. É uma injustiça muito grande.»

Vale a pena pensar este caso, aparentemente insólito e excepcional, para lá da perplexidade e surpresa que suscita. Ele diz muito mais do que se possa pensar sobre o padrão e a transformação progressiva das formas de apoio e de acompanhamento técnico no âmbito da aplicação do RSI. Como o Paulo Pedroso já sublinhou por diversas vezes, o espírito inicial da medida (então designada por Rendimento Mínimo Garantido), procurava associar uma prestação pecuniária a um programa de inserção, no qual os serviços assumiam o papel de parceiros activos dessa mesma inserção, numa lógica de verdadeira «cooperação colaborativa» entre técnicos e beneficiários.

A filosofia do RMG confrontou-se, logo de início, com uma cultura de intervenção social ainda muito marcada pela caridade e pelo assistencialismo (e portanto pouco receptiva à ideia da cooperação mútua entre técnicos e beneficiários na construção de percursos de autonomia e emancipação), bem como com a dificuldade, por parte do Estado, para promover «as medidas de inserção a que se comprometeu no texto e no espírito da legislação». Mais tarde, com a conversão do RMG em RSI, a vertente relativa à responsabilidade dos serviços nos processos de inserção seria progressivamente esbatida (ou mesmo anulada), reforçando-se o papel de «polícia dos "incumpridores" e "castigador" dos fraudulentos, na sua maior parte imaginários». Na letra da lei e sobretudo na prática dos técnicos, a lógica de fiscalização e perseguição foi assim substituindo a lógica de acompanhamento social dos indivíduos e das famílias, tendo em vista a sua inserção.

E se juntarmos a isto a burocratização kafkiana do RSI, sobretudo nos últimos anos, a redução progressiva do número de técnicos e o aumento do rácio de processos por técnico, percebemos como o RSI se encontra hoje nos antípodas daquele que era o seu propósito inicial. E passamos a interpretar de outro modo o caso, aparentemente exótico e singular, de Maria Conceição. De facto, ele revela a ausência, por parte da técnica do RSI, de um acompanhamento substantivo e informado da situação de saúde e familiar de Maria Conceição. Sentada no seu facebook, a assistente social mostra-se mais preocupada em controlar, fiscalizar e reprimir a beneficiária do que em estabelecer com ela uma relação de proximidade, construtiva, qualificada e de conhecimento, como é suposto que aconteça. A ponto de não tratar sequer de confirmar junto de Maria Conceição (se necessário fosse), que aquele comentário do facebook era tão só uma forma bem-humorada de encarar a intervenção cirúrgica a que iria ser submetida.

Quantos minutos de telejornal vale alguém que é morto por terroristas?

No mesmo dia [do ataque ao Charlie Hebdo], 37 jovens foram mortos no Iémen num atentado bombista. No verão passado, a invasão israelita causou a morte de 2000 palestinianos, dos quais cerca de 1500 civis e 500 crianças. No México, desde 2000, foram assassinados 102 jornalistas por defenderem a liberdade de imprensa e, em Novembro de 2014, 43 jovens, em Ayotzinapa. Certamente que a diferença na nossa reação não pode estar baseada na ideia de que a vida de europeus brancos, de cultura cristã, vale mais que a vida de não europeus ou de europeus de outras cores e de culturas assentes noutras religiões. Será então porque estes últimos estão mais longe de nós ou conhecemo-los pior? Será porque os grande media e os líderes políticos do Ocidente trivializam o sofrimento causado a esses outros, quando não os demonizam ao ponto de nos fazerem pensar que eles não merecem outra coisa?

Boaventura Sousa Santos, no Público

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Os privados são mais eficientes


A definição de Eficiência da wikipedia ensina-nos que "Eficiência refere-se à relação entre os resultados obtidos e os recursos empregados." As licenciaturas de economia ensinam-nos que os privados são mais eficientes. Portanto, a fazer fé na wikipedia e na academia, os privados são quem consegue melhores resultados com os mesmos recursos, ou os mesmos resultados com menos recursos, ou melhores resultados com menos recursos.

Afinal é simples a economia. Mas imaginemos que chega um ladrão de bicicletas e pergunta se os resultados (e os recursos) pretendidos de uma empresa pública e de uma empresa privada são os mesmos. E se são comparáveis. Aí entramos num debate interessantíssimo, que podemos empreender pensando na inserção de uma empresa como a PT no contexto de uma economia como a portuguesa.

A esquerda passa a vida a falar sobre o sectores estratégicos, mas o que quer isso dizer? Uma das formas de definir o que é um sector estratégico é avaliar o seu impacto no resto da economia. O sector das comunicações fornece serviços a um conjunto de consumidores finais e empresas que tem crescido e vai continuar a crescer. Isso quer dizer que o preço e a qualidade dos serviços de uma empresa como a PT são um factor de competitividade (ou falta dela) de muitas outras empresas e sectores inteiros da economia. Os preços da PT afetam os preços de muitas outras empresas. A qualidade dos serviços da PT afeta a qualidade dos serviços ou produtos de muitas outras empresas. É por isso (e por outras coisas) que a PT é uma empresa estratégica.

Antes da sua privatização, a PT era uma empresa altamente lucrativa, mas, para além disso, era um pólo de investigação e inovação e um factor de modernização da economia portuguesa. Muitas destas actividades repercutiam-se negativamente nos resultados da empresa, pelo menos no curto prazo. E o seu contributo para o país, embora indiscutivelmente importante, é difícil de medir ou comparar. É isso, aliás, que permite que muitos dos méritos da actividade da PT nesse período sejam atribuídos à liberalização do sector das comunicações, apresentado como o caso de sucesso das privatizações portuguesas.

Por outro lado, desde a sua privatização, a empresa distribuiu montantes recorde em dividendos aos seus accionistas. Desde 2000, a PT distribuiu aos seus accionistas mais de 800 milhões de euros por ano, em média. Mais de 70% dos quais para fora do país (sim, isso é relevante). No total, cerca de 130% do seu próprio valor accionista. Quando avaliada através do indicador preferido dos liberais, RoE (Return on equity), a privatização da PT e a sua vida privada, que neste momento se afigura curta, só podem ser descritos como um sucesso formidável. Numa lógica completamente diferente da que poderíamos utilizar para o seu papel enquanto empresa pública, como é bom de ver.

Este processo de descapitalização acelerada, somado a alguns negócios, tão ruinosos como pouco claros, terá como desfecho, qual cereja em cima do bolo, a venda a um fundo abutre, para desmembramento e venda à peça. Assim, num período relativamente curto, uma empresa pública sólida, capitalizada, inovadora, será reduzida a escombros, depois de ter sido previamente drenada, no que só pode ser qualificado como vampirismo financeiro.

Deste Governo não se poderá, obviamente, esperar qualquer iniciativa a este nível. Da regulação, sempre invocada nos processos de privatização como a garantia eterna do interesse público, é melhor nem falar. Tudo isto se passou e continua a passar no livre funcionamento dos mercados, perante a placidez de governo e reguladores. Com um certo tipo de "eficiência", em que "os mercados" são, de facto, imbatíveis. Para o interesse público, será uma tragédia, mas isso já não cabe no conceito de eficiência, tal como ele continua a ser ensinado.

Esta história serve, no entanto, para ensinar a quem não tenha aprendido com o sector financeiro, a EDP, a Galp, etc., uma coisa muito simples. Se um país quer ter uma estratégia de desenvolvimento económico, tem de ter instrumentos para essa estratégia. Para isso, precisa de ter empresas públicas, pelo menos dominantes, em todos os sectores decisivos para essa estratégia. E quando digo "ter", quero dizer ser dono e controlar. O resto são boas intenções, conversa ou corrupção.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Entre a política económica e a economia política

Se eu tivesse de escolher dois artigos já clássicos de economia muito úteis para os tempos actuais, escolheria o artigo de Irving Fisher, de 1933, sobre a interacção perversa entre a dívida e a deflação como segredo de todas as depressões, ou no presente caso de todas as estagnações, e o artigo de Michal Kalecki, de 1943, sobre a economia política do pleno emprego. Nos últimos anos temo-los referido várias vezes. O primeiro por causa do espectro da deflação em Portugal e não só. O segundo para explicar as bases sociais da deflacionária política de austeridade.

Ambrose Evans-Prichard mobiliza agora Fisher para analisar a forma como a Europa do Sul foi “traída” por uma política deflacionária contrária aos seus interesses, numa “União” sem instrumentos monetários e orçamentais adequados às circunstâncias e sem perspectivas de os vir a ter por razões que um marxista como Kalecki compreenderia bem: o euro era uma utopia monetária e só sobrevive como distopia tecnocrática autoritária.

Basicamente na mesma linha, embora num tom menos caustico e, apesar de tudo, mais esperançoso, Wolfgang Munchau leva também a sério a deflação, que se alimenta da crise de procura e que está vinculada ao perigo da “estagnação secular”, e avança com uma sugestão que remete implicitamente para Kalecki: para lá de uma política monetária bem mais activa, os governos europeus deveriam aproveitar os ataques terroristas em França para dar um impulso orçamental por via do investimento em segurança, usando isso como pretexto para atenuar as regras orçamentais em vigor.

No seu artigo sobre a economia política da política económica, Kalecki tinha alertado para o facto de os capitalistas tendencialmente não apreciarem a política económica de estímulo público centrada no combate ao desemprego em contextos democráticos, dada a força que as classes trabalhadoras assim podem conquistar, desafiando a autoridade patronal. Parte daí para explicar a política económica de estímulo no quadro do fascismo, no quadro de uma economia de guerra.

No actual contexto de esvaziamento da democracia na escala onde esta pôde florescer, a ascensão do Estado penal securitário, que de resto é indissociável do neoliberalismo, estimula sempre uma certa economia, políticamente pouco recomendável.

Amanhã (no ISCTE): desigualdades em debate



A economia para as crianças

Nunca um convite para falar em público sobre economia me deixou tão inquieto como este. Esta semana irei participar no “Encontro com o Cientista”, no Pavilhão do Conhecimento em Lisboa, a convite do programa Escola Ciência Viva. Trata-se tão só de explicar o que faz um investigador em ciência económica a uma audiência de crianças da escola primária.

Seria fácil para quem acreditasse que a Economia consiste num conjunto de relações mais ou menos abstractas – uma curva da procura para lá outra da oferta para cá, um sistema de equações simultâneas, maximiza-se a utilidade e a função de lucro e já está. Seria só simplificar a intuição matemática e a coisa estava feita.

Para quem, como eu, entende que não há leis universais em Economia, que os processos económicos dependem crucialmente de contextos institucionais concretos em tempos e espaços bem-definidos, que as regras formais e informais que estruturam aqueles processos são tanto causa como consequência do comportamento dos actores económicos, que tais regras nem sempre são facilmente observáveis e que é preciso analisá-las cruzando métodos, e que sem fazer isso a ciência económica se reduz a um exercício fútil – o desafio fica um pouco mais difícil.

Como se não bastasse, resolvi pesquisar o que os psicólogos do desenvolvimento andaram a estudar sobre a apropriação de conceitos económicos por parte de crianças de diferentes idades. Os resultados são fascinantes.

Tipicamente, aos 4-5 anos as crianças não têm nenhuma ideia de onde vem o dinheiro, pensam que o preço dos bens depende das suas características (nomeadamente as físicas – dimensão, proporção, etc.), não percebem de todo a ideia de lucro e são incapazes de aceitar que quem empresta dinheiro possa cobrar juros em troca.

Aos 7-8 anos têm consciência de que o dinheiro vem do trabalho (se os pais trabalharem), mas continuam a pensar que o preço das coisas depende da sua função ou utilidade prática (jamais um colar pode custar mais que um canivete suíço), que juros e lucros não fazem sentido, e são essencialmente desprovidos de pensamento estratégico ou de ganância nas relações com os outros. As trocas entre crianças são frequentes nestas idades, mas são motivadas por factores muito diversos (puro gozo, desenvolvimento de laços de amizade, desejo de possuir ou descartar objectos).

Lá para os 10-12 anos ainda não pensam na relação entre oferta e procura quando tentam explicar o preço das coisas – nesta fase acreditam que os preços são determinados pela quantidade de trabalho ou de materiais incorporados num objecto. Começam a perceber a ideia de lucro, mas aceitam mais facilmente que haja lucros baseados no que se produz do no que se troca. Só então começam a aceitar a noção de juros sobre os empréstimos, mas durante algum tempo continuarão a achar que os juros passivos (i.e., que os bancos pagam sobre os depósitos) devem ser maiores do que os juros activos (i.e., que os bancos cobram pelos empréstimos) - só muito mais tarde conseguem compreender a noção de lucro bancário.

O mais interessante de tudo é a forma como as crianças se comportam na famosa experiência do bem-público. Nesta experiência testa-se a disponibilidade de um conjunto de indivíduos para contribuir de forma anónima para um bem comum de que todos beneficiam. Entre os adultos, tipicamente, a partir de certo momento há alguém que, à sombra do anonimato, deixa de contribuir o que era esperado, desencadeando uma sucessão de respostas no mesmo sentido, resultando na falência do bem-público. Entre as crianças, por contraste, a coesão social tende a manter-se para benefício de todos.

Estes resultados fazem-me pensar que, se calhar, há tanto para aprender com as crianças sobre economia como para ensinar-lhes.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

China, expoente do capitalismo



A história recente da economia chinesa é uma síntese, no tempo e no espaço, da história do capitalismo.

Num artigo famoso publicado em 2011, o economista malaio-britânico Danny Quah procurou identificar a localização do "centro de gravidade" da economia mundial e a forma como este tem vindo a deslocar-se ao longo do tempo. Trata-se de um problema simples de enunciar mas ao qual, devido a uma série de dificuldades metodológicas, é mais difícil dar resposta.
Os leitores mais interessados pelo tema podem obter informação mais detalhada seguindo o link em cima, mas em termos resumidos os passos seguidos por Quah foram os seguintes: primeiro, criou uma grelha constituida por um conjunto de 700 pontos na superfície do globo. Depois, associou a cada um desses pontos a parte do PIB mundial correspondente à região centrada nesse ponto. Em seguida, procedeu à soma ponderada das coordenadas (tridimensionais) desses 700 pontos, utilizando a parte respectiva do PIB mundial como ponderador. O resultado foi um ponto único (o "centro de gravidade"), localizado no interior do planeta, relativamente mais próximo dos pontos à superfície onde se concentra uma maior proporção da actividade económica mundial. Finalmente, projectou esse centro de gravidade tridimensional na superfície terrestre de modo a torná-lo mais inteligível, utilizando para o efeito uma projecção bidimensional cilíndrica da superfície do globo.
O resultado que obteve pode ser consultado na figura 2 do artigo indicado em cima - ou directamente  aqui. Tal como estimado desta forma, o centro de gravidade da economia mundial em 1980 encontrava-se no meio do Atlântico, nas proximidades da Madeira e dos Açores - não devido ao excepcional dinamismo económicos destes últimos, claro está, mas devido à concentração desproporcional da actividade económica mundial nos EUA e Europa. Em 2010, porém, esse mesmo centro de gravidade encontrava-se já no Mediterrâneo Oriental. E em 2050, no final do período de extrapolação, prevê-se que venha a situar-se em pleno coração da Ásia. Esta figura é, com certeza, uma das representações mais sintéticas e intuitivas de uma das principais dinâmicas que têm caracterizado a economia mundial no final do século XX e no século XXI: a ascensão da Ásia Oriental à liderança económica do planeta.

domingo, 11 de janeiro de 2015

O nevoeiro da guerra

Num documentário genial de Errol Morris - The Fog of War - todo assente numa conversa com Frank McNamara, o próprio conta que o que permitiu esvaziar a crise dos mísseis de Cuba em 1961, foi conhecer como o inimigo soviético pensava. E ir ao seu encontro. Algo que falhou no Vietname, levando ao descalabro de 2 milhões de mortes vietnamitas sem julgamento e umas dezenas de milhar no lado norte-americano. E mesmo assim, perdendo a guerra. "Vimos a guerra vietnamita como um elemento da Guerra Fria, quando era uma guerra civil. E enganámo-nos", conta ele no filme. A mensagem é óbvia: há que aprender com os erros, para não cometer as mesmas falhas que resultam em mortes desnecessárias.

De repente, as trincheiras abrem-se, mais uma vez, aos nossos pés. E perguntamo-nos: "Mas porquê? Eu não fiz mal a ninguém..."
Tudo parece um ataque endoidecido, de um inimigo "externo".

Um comando ataca um jornal humorista em Paris e, sem qualquer julgamento, mata 12 pessoas e fere gravemente 10 outras. O brutal assassinato, coordenado com outro comando que mata sem julgamento uma polícia e faz uma tomada de reféns num supermercado judeu em Paris, mobiliza a policia e as forças armadas. Passadas horas, as forças da ordem intervêm. Resultado: a morte sem julgamento dos 3 comandos, de 4 reféns, ficando outros 4 em estado crítico.

Justificação:
"Estamos em guerra, estamos a ser atacados". E é verdade.

Justificação: Os comandos responderiam: "Estamos em guerra, estamos a ser atacados". E é verdade. Há muito tempo. E recapitulariam o filme das intervenções ocidentais no Médio Oriente, durante muitas décadas. Até poderiam começar apenas no século XX...

...com a criação do Estado de Israel em 1948;
com o desalojamento das populações locais e com multidões de refugiados para os países vizinhos;

com a desestabilização da Pérsia, através de um golpe de Estado financiado pelas companhias petrolíferas internacionais, colocando no poder um Xá ocidentalizado e moderno - mesmo para as mulheres. Tudo após uma política de nacionalização de recursos naturais, lançado em nome de uma política de desenvolvimento da região. Algo que influenciou a revolução islâmica em 1978 até aos nossos dias. Um golpe replicado pela intervenção militar no Iraque em 2003, sob o pretexto do ataque a Nova Iorque e da existência nunca provada de armas de destruição maciça;

com a desastabilização do Líbano, com intervenção militar por diversas vezes de forças dos países ocidentais (1958 e 1982, por exemplo), invasão israelita do sul, ficando claro o apoio a milícias de direita que, quando o seu líder foi assassinado, foram os autores dos massacres de Damour, de Sabra e Shatila, e culminando com um bombardeamento em 1984, que antecedeu a retirada ocidental e a expulsão dos palenstinos. O Líbano continuou a ser desestabilizado já no século XXI;

com as interferências no Egipto desde que quis desenvolver uma política de desenvolvimento, sem o apoio ocidental (que lhe retirara apoio à construção da barragem do Assuão), o que levou à nacionalização do Canal do Suez em 1956  e posterior intervenção militar britânica e francesa, enquanto Israel ocupava os montes Sinai;

com o financiamento ocidental a radicais islâmicos para combater soviéticos no Afeganistão, para depois perder o controlo do uso dessas armas e do seu poderio regional;

replicado esta estratégia pragmática na Síria, para combater o regime tido como peão do Irão, em nome do direito universal à democracia, em apoio a uma rebelião popular;
na faixa de Gaza
terminando com o apoio ocidental a Israel na ocupação de zonas palestinas, através da sua política de progressivos colonatos e de muros, fomentado sentimentos de impotência e frustração nas populações palestinas, de asfixia regional, sem que o Ocidente reconheça o seu Estado nas Nações Unidas;
e mais recentemente culminando com a morte sem julgamento na faixa de Gaza de mais 3 mil pessoas, nomeadamente por bombardeamento aéreo, justificado com o argumento de serem escudos humanos de forças terroristas que atacavam Israel e legitimado pelo Ocidente como legítima defesa.



O radicalismo só pode gerar radicalismo. E a guerra é algo atroz. Mata-se sem julgamento, sem necessidade de reintroduzir a pena de morte, como reivindicou Marie Le Pen, após o caso Charlie Hebdo.

Mas todas as mortes são crimes à luz dos direitos universais. Já nem falo do direito de expressão, mas do direito à Vida. Todos são crimes: o que varia é a punição ou a ausência de punição dos seus autores e dos seus autores morais, muitas vezes em nome apenas da geoestratégia ou de interesses "vitais" de alguns países.

A guerra é atroz, mas está a acontecer. Não se pode mais fechar os olhos. Não podemos enfiar a cabeça na areia e gritar que estamos em guerra com um inimigo "externo".

Conhecer o pensamento, as frustrações, as humilhações dos inimigos do Ocidente é uma tarefa essencial para desarmar este conflito, todo este radicalismo que dura há décadas em guerra no Médio Oriente e que, só nos últimos 15 anos, tem começado a aflorar o nosso lado do planeta. E que, se não se arrepiar caminho rapidamente, vai continuar e aprofundar-se. Muita gente vai morrer. No nevoeiro da guerra, apenas se mata.

E nisto, nesta guerra, estamos todos envolvidos, porque elegemos quem define as NOSSAS políticas externas.