quarta-feira, 1 de julho de 2015

Amanhã: um lançamento e um debate


A partir das 18h30, no El Corte Inglês (em Lisboa), lançamento do livro O que fazer com este país, de Ricardo Paes Mamede, seguido de debate com Ana Sá Lopes, José Pacheco Pereira e Pedro Adão e Silva.


A partir das 21h30, no Fórum Lisboa, sessão pública A crise europeia à luz da Grécia, promovida pelo Infogrécia e com a participação de José Pacheco Pereira, Francisco Louçã, Hélia Correia, Manuel Alegre, Marisa Matias e Eugénio Rosa.

O euro já não é irreversível


Jacques Sapir:
"[Benoît Coeuré, membro do conselho do BCE],numa entrevista dada a um jornalista do Les Echos, admitiu pela primeira vez que uma adesão ao Euro não seria irrevogável e que, de facto, este seria reversível. É evidente que um alto responsável do BCE não fala por si. Isto constitui uma mudança radical de estratégia relativamente às declarações anteriores, e em particular às de Mario Draghi que, pelo contrário, insistiam no carácter irrevogável de uma adesão ao Euro e, portanto, consideravam que este último era irreversível. Ora, um dos argumentos avançados era a necessidade de afirmar essa irreversibilidade do Euro para garantir a sua credibilidade, para além da do BCE. A importância desta cláusula de irreversibilidade devia-se ao facto de o Euro existir sem as instituições indispensáveis a uma moeda única. Assim sendo, a sua existência reduz-se, já o dissemos neste blogue, a um sistema de câmbios fixos entre as moedas dos diferentes países membros."

Lars Syll:
"A História devia servir para aprendermos. Nos anos 30, as nossas economias não saíram da depressão enquanto a loucura daquela época - o padrão ouro - não foi mandada para o caixote do lixo da história. Esperemos que o euro se lhe junte em breve."

terça-feira, 30 de junho de 2015

Da série: Se a Grécia sair ainda ficam 18 países

«Os riscos sistémicos, em termos económicos e orçamentais, isto eles [os responsáveis europeus] conseguem meter no Excel. Agora, se se perguntar como é que avaliaram o risco político sistémico, isso não está lá na folha de Excel. Não está o impacto de tudo isto que se vai passar sobre estes alicerces, estes fundamentos. (...) Tem-se pensado pouco sobre isso, porque os acontecimentos não eram previsíveis, mas eu acho que pode ser suficiente para pôr em causa a continuação da Europa»

Nuno Morais Sarmento (Rádio Renascença)

Na verdade, não é só o «risco político sistémico» que não cabe numa folha de Excel. Os «riscos sistémicos» de natureza económica e orçamental também não são subsumíveis numa folha de cálculo, ou não fosse a Economia sempre Política. Mas reconheça-se que assinalar a primeira impossibilidade é já qualquer coisa, perante quem tenta resumir tudo a uma conta de subtrair.

Não diz-se oxi

Tudo aquilo que o Governo grego fez desde Janeiro até ao dia da convocação do referendo só tem racionalidade se o objectivo for tirar a Grécia do euro, convencendo os gregos que foram os europeus que a empurraram para fora da moeda única (…) Sim, têm sido extraordinariamente inteligentes, frios e manipuladores.

Num editorial de puro ódio, típico de quem não aprendeu nada com esta crise, Helena Garrido até acabou ontem no Negócios por inadvertidamente agigantar a liderança grega. No entanto, Garrido está errada, creio. Eles não deixam de ser políticos com p grande, mas talvez por outras razões.

Quem tenha feito um esforço, por pequeno que seja, para conhecer o Syriza e seus aliados, sabe que a maioria da sua liderança política é (era, tenhamos esperança) composta por convictos europeístas, dos da euro-keynesiana “modesta proposta”, dos do Plano Marshall para o Sul, dos da superação da austeridade com reestruturação da dívida dentro do Euro, dos de “uma outra Europa é possível”; sabe igualmente que o Syriza é composto por democratas convictos. Estes meses representaram um esforço para negociar num espírito de conciliação de princípios irreconciliáveis no quadro institucional do Euro, bastando ver a última e dolorosa proposta apresentada e rejeitada com vermelho e tudo.

Num partido onde existe uma minoria crescentemente influente, com um diagnóstico bem mais realista da economia política do Euro, justamente convicta de que a saída é a única solução, confrontada com a integração europeia realmente existente, com a sua natureza pós-democrática, feita de mil formas de corrupção da democracia, incluindo a cooptação das elites do poder, a maioria do Syriza revelou capacidade de aprendizagem, optando pela democracia quando as convicções europeístas se revelaram obstáculos a esta.

Estamos gratos pelos gestos deste fim-de-semana, misturando instinto de sobrevivência política, ou não fosse o objectivo das instituições europeias derrubar o governo, fidelidade ao povo e seriedade de propósitos.

Uma liderança assim, que aprende com os erros, que aprende com o isolamento a que foi votada, com as operações de desestabilização financeira, com a intransigência dos credores, tem toda a “racionalidade”. É extraordinariamente “inteligente”, como só podem ser as lideranças que emergem das organizações plurais e forjadas nas lutas sociais. Espero que seja “fria” e calculista e outras coisas supostamente mais quentes também. Precisamos mesmo de príncipes modernos, de partidos deste tipo. Já as “manipulações”, deixo-as para os políticos com p pequeno e para os seus ideólogos.

É que neste processo, o que estamos a ver não é uma manipulação, mas sim uma vontade geral nacional-popular sendo forjada. Creio, e é mais uma aposta num texto cheio delas, que a vitória do não no referendo é um momento importante deste processo criador do tal nós, a primeira pessoa do plural de que depende a hegemonia. Em Portugal, estamos bem mais atrasados, claro, se calhar também porque, como aventava Pacheco Pereira no sábado, a consciência nacional foi aqui mais erodida do que na Grécia. Enfim, teremos, e é a última aposta, de queimar etapas...

segunda-feira, 29 de junho de 2015

O dia em que o euro acabou


O ponto de vista dos operadores financeiros, segundo uma analista que costumo ler com atenção:

"Congelar a ELA [Assistência de Liquidez de Emergência] significa que a Grécia se deve considerar agora um país “utilizador” do euro e já não um membro de pleno direito da União Monetária. Não há uma fórmula legal para os países saírem do euro, mas parece que podem ser postos no congelador. Isto não é idêntico à situação de Chipre: aí a liquidez foi suspensa porque os seus bancos estavam insolventes. Os bancos gregos não estão insolventes (por enquanto). A declaração do BCE não faz menção à insolvência bancária: o congelamento da liquidez é uma resposta ao fracasso das negociações e à decisão do governo grego de fazer um referendo. Nestes termos, o congelamento é claramente uma decisão política. A independência do BCE foi estilhaçada.

A irrevogabilidade do euro já não é credível. Usar a restrição de liquidez para forçar um país a introduzir o controlo dos capitais equivale a suspender a sua qualidade de membro da zona euro. Por isso, a dívida soberana de outros países sob pressão passa a incorporar um prémio de risco dada a possibilidade de esses países também poderem ser suspensos. Os juros implícitos para as obrigações da periferia já subiram muito e, embora possam vir a estabilizar quando o primeiro impacto tiver passado, parece pouco provável que venham a cair para os níveis anteriores muito baixos."

O melhor que a Comissão Europeia tem para oferecer


De acordo com o The Guardian, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Junker, decidiu há momentos, de uma forma inqualificavelmente sórdida, ameaçar o povo grego: «Não devem cometer suicídio por estarem com medo da morte». Sim, o mesmo Jean-Claude Junker que dizia, há apenas cinco meses atrás: «pecámos contra a dignidade dos povos, especialmente na Grécia, em Portugal e também na Irlanda», para acrescentar - nessa altura - que era necessário «retirar lições da história e não repetir os erros». Como se vê. A falta de escrúpulos e de credibilidade desta gente é total.

Prós e Contras: O que fazer deste país?


Com a crise europeia e a Grécia em pano de fundo, o Prós e Contras de hoje pergunta: o que fazer deste país? Participam no debate Ricardo Paes Mamede, Mariana Vieira da Silva, Mário Amorim Lopes e Francisco Mendes da Silva. É a partir das 22h00 na RTP1. A não perder.

É obra, senhor professor

É obra, passar completamente ao largo das consequências económicas e sociais das políticas impostas à Grécia nos últimos cinco anos (para não ter que reconhecer o fracasso da austeridade) e definir as propostas que o governo grego foi colocando na mesa das negociações como simples «abandono da disciplina orçamental» (para punir a ideia de um referendo e sentenciar que a Grécia, por culpa própria, não pode continuar no Euro). Não chego ao ponto de qualificar este engenho argumentativo como «suprema burla». Mas um pouco mais de seriedade não lhe ficaria mal, Professor Vital.

Solidários com a Grécia, hoje em Lisboa


«Porque queremos uma Europa onde a Democracia seja efectiva, onde os governos sejam coerentes com o seu mandato eleitoral e ouçam os seus povos sobre questões decisivas, para o presente e para o futuro. Porque queremos uma Europa Solidária e não dividida entre credores e devedores, nem entre chantagistas e chantageados. Porque queremos uma Europa, e um mundo, assentes na Justiça Social e no respeito pelos Direitos Humanos, o que é incompatível com a continuação da austeridade e com a recusa da procura e da concretização de políticas alternativas.
Porque os governos europeus não podem penalizar um governo quando este pede uma semana para ouvir em referendo o seu povo. Pela coragem e dignidade do povo grego, por todos nós. É numa Europa construída pelos seus povos que queremos viver!»

Promotores: Associação José Afonso, Congresso Democrático das Alternativas, Iniciativa para uma Auditoria Cidadã à Dívida, CIDAC e ATTAC. É a partir das 18h30 no Largo Jean Monnet, em Lisboa.

Referendo grego: foi uma decisão racional?

Há uns dias, esbocei um post sobre se o referendo teria efeitos práticos e se não seria redundante face à legitimidade popular das últimas eleições, que nem um ano têm. E se o Syriza não estaria a arriscar o seu mandado popular em caso da vitória do "Sim".

Achava eu que referender a proposta do Eurogrupo era deixar tudo na mesma. E que o povo grego deveria ser chamado a pronunciar-se - sim - sobre a ideia de que o governo grego tentou defender o seu mandato popular, não encontrou flexibilidade do outro lado e que, portanto, agora, o povo deveria dizer o que fazer: aceitar a proposta comunitária ou assumir as consequências de uma recusa, incluindo a autonomia monetária.

Dois dias bastaram para perceber que esta ideia foi perfeitamente cilindrada pelos acontecimentos e pela nova vaga de pressões vindas de Bruxelas e do Eurogrupo que contaminou o ambiente, a ponto de colocar a questão como sendo um verdadeiro referendo ao euro. E, claro está, os arautos nacionais ecoaram a mensagem. E são vergonhosos os argumentos usados:

1) Então só apresentam o referendo a 2 dias do final do prazo? A resposta deveria ser feita à letra: "Então não foi o FMI e o Eurogrupo que apresentaram uma nova série de exigências a uns dias do final do prazo?". Face à convocação do referendo, não foi o Eurogrupo que decidiu recusar a extensão do prazo? Não foi o BCE que fechou a torneira aos bancos gregos provocando o corralito? Ou seja, a crítica à chantagem apenas é feita se for realizada por um dos lados. Se for o lado "bom" a fazê-la, trata-se de "negociações"...

2) Se votarem "Não", isso representa a saída do euro. Ou seja, é o próprio lado "eurogrupo" que define o que vai ser o resultado do referendo. Não pode haver consultas populares na negociação, porque senão todos fariam o mesmo. De gargalhada. Não haverá negociação após o referendo, disseram em eco. A questão do referendo está ultrapassada porque a Grécia rompeu as negociações, repetiram. E depois vem o terrorismo político: o "adeus ao euro" é igual a corralito. Raciocínio tautológico: Vejam o caso grego: fazer promessas irrealistas dá nisto, ver a própria "casa a arder". Foi isto que disse, hoje, Paulo Rangel na Antena 1, de forma suficientemente equívoca para ser uma farpa para o PS.

Só o facto de ver coisas inéditas - como o Eurogrupo divulgar a proposta que fez, alterar os seus termos horas depois, choverem novas propostas de revisão à proposta que estava sobre a mesa, que afinal já discutem a renegociação da dívida em moldes iguais aos de 2012, sentir o nervosismo dos ministros do Eurogrupo (incluindo o alemão!), ouvir a ministra portuguesa ter aquela candura ao afirmar que a situação de Portugal está tranquila... por uns meses, sem pensar que isso quer dizer que de nada serviu o acesso aos mercados e 4 anos de ajustamento terrorista, as comunicações marcadas para esta manhã dos chefes de Estados dos principais países da UE, a chamada à mesa de negociações que, afinal, se mantêm abertas, ainda - só facto de ver isto, mostra que a decisão foi a correcta.

Como dizia o João Rodrigues, pode ser o princípio de um movimento de soberania nacional. A palavra está agora onde deve estar: na decisão popular. E não em meia dúzia de pessoas, numa sala fechada.

domingo, 28 de junho de 2015

A mais ninguém



Recomeçando onde acabei, na esperança de libertação da Grécia, um processo que cabe ao povo grego encetar. Como aqui caberá ao povo português. Com mais este discurso histórico, ainda só em inglês, nestas circunstâncias de cerco pelos poderes pós-democráticos europeus, incluindo pelo BCE, Tsipras pode bem ter emergido este fim-de-semana como o líder de um processo de libertação nacional. O princípio democrático da soberania popular que Tsipras convocou ontem e hoje não se partilha, ao contrário do que dizem as ficções do europeísmo: perde-se e reconquista-se. É ao povo grego que cabe a decisão. A mais ninguém.

Que fazer com esta Europa?


«Mais do que "O que Fazer com Este País", devemos questionar o que fazer com Portugal no quadro da união económica e monetária em que nos encontramos. (...) Nesta UE só conseguimos melhorar a nossa posição se assumirmos à partida uma postura negocial extremamente forte, [que deve obrigar o país] a ter um mandato claro. (...) Em Portugal vamos ter de decidir continuar com níveis de desemprego e subemprego na ordem dos 20% ou procurarmos encontrar uma saída para esta situação, mexendo nas metas orçamentais, ou na dívida pública, ou em ambas. Só um governo com um mandato claro para negociar terá força para representar o país nesta situação de conflito.»

Excertos da entrevista do Ricardo Paes Mamede à edição de ontem do Dinheiro Vivo, a propósito do seu novo livro, O que Fazer com Este País, que será lançado no próximo dia 2 de Julho, a partir das 18h30 no El Corte Inglês, em Lisboa. A apresentação inclui debate, em que participam Ana Sá Lopes (Jornalista), Pedro Adão e Silva (sociólogo e comentador) e José Pacheco Pereira (historiador e comentador).

sábado, 27 de junho de 2015

Se reconhecessem o fracasso não lhes sobraria nada

1. Quando se referiram à carta de Varoufakis, que solicitava a extensão do acordo de empréstimo com o Fundo de Estabilização Financeira, como um perigoso «cavalo de Troia», talvez os delegados alemães que participaram na reunião do Grupo de Trabalho do euro, realizada na passada quinta-feira, não tenham dado conta do alcance profundo da metáfora a que recorreram. Desconfiados de que a carta do ministro das Finanças grego poderia visar apenas a obtenção de um «financiamento de ponte», «pela porta das traseiras», os representantes do ministério das Finanças alemão, mandatados por Schäuble, decidiram exigir à Grécia «compromissos mais claros e convincentes».

2. Mas o que estava e continua a estar em causa, como assinalou o Manuel Esteves num artigo lapidar no Jornal de Negócios, é a determinação da Europa em «garantir que a Grécia prossegue o rol de políticas que foram prescritas a Portugal, Espanha, Irlanda e Chipre, entre outros», e que incluem «privatizações, flexibilização do mercado laboral, contenção de salários, desregulamentação dos mercados ou redução dos gastos do Estado com serviços públicos». Isto é, as sacrossantas reformas estruturais, essa «espécie de guia de boas práticas que qualquer governo sensato e realista deve seguir». O que obriga a que se faça tudo, mesmo tudo, para que o governo grego não consiga ser bem-sucedido.

3. A austeridade, enquanto solução para a crise, é um conto de fadas que já não convence nem uma criança de cinco anos, minimamente atenta ao mundo que a rodeia. Tal como não convencem as fábulas que se lhe associam, da «austeridade expansionista», das «gorduras do Estado Social», do «empreendedorismo» salvifico ou da «ética social na austeridade», entre outras. Essas são as fissuras que se foram formando nas muralhas do castelo e que, com o tempo, se vão tornando cada vez mais indisfarçáveis. A receita da austeridade, que infligiu um sofrimento tão atroz quanto inútil a milhões de pessoas, fracassou: na Grécia, a dívida pública passou de 133 para 175% entre 2010 e 2014 (quando a previsão inicial da troika apontava para que se atingissem os 144% em 2014); e em Portugal galopou, no mesmo período, de 93 para 129% (quando a versão inicial do memorando estimava um valor de 115% para 2014).

4. Como se torna cada vez mais evidente, a austeridade nunca serviu de facto para combater a crise, mas antes para criar o ambiente necessário à concretização da agenda ideológica que a direita neoliberal, entre nós, jamais conseguiria sufragar em eleições. Da liberalização do mercado de trabalho à destruição dos serviços públicos de saúde, educação e protecção social; das privatizações e mercantilização destes serviços ao aprofundamento da pobreza e das desigualdades como condição necessária para competir, mesmo que tal signifique um processo de subdesenvolvimento económico e de regressão civilizacional. A austeridade é apenas um meio, um instrumento necessário para prosseguir a proclamada «transformação estrutural» do país.

5. É por isso que o grego «cavalo de Troia» constitui um enorme perigo para governos como o europeu e o português, que tentam proteger e preservar um castelo já de si fissurado. Ele enuncia caminhos alternativos e decentes para a superação da crise, quebrando o status quo e ameaçando devolver aos Estados a capacidade de definir políticas de desenvolvimento económico e social, deslaçando assim os fios que a «federação» tece, «para condicionar o poder do povo». Sem a arma da dívida, do défice e da austeridade, como poderá a nossa direita conseguir chegar ao «fundo do pote»? Percebe-se bem que é aqui que radica o pânico e a histeria que se instalaram em Belém e em São Bento logo a seguir ao resultado das eleições gregas, e que tiveram continuidade no servilismo repugnante a que se prestou a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, aninhada aos pés de Schäuble em Berlim. Se reconhecerem o fracasso, tendo que abdicar da camuflagem da austeridade, não lhes sobra nada. Nem programa, nem ideologia, para vencer eleições.


Este post foi escrito em Fevereiro de 2015. Os acontecimentos do dia de hoje confirmam a ideia de que foi sempre isto que esteve em causa, desde o início das «negociações». Na transcrição do texto, apenas foram alterados os tempos verbais, no título.

A propósito da primeira entrevista do presidente do CES

Luís Filipe Pereira, um polémico ministro da Saúde dos governos de Durão Barroso e Santana Lopes, actual presidente do Conselho Económico e Social, deu uma importante entrevista em que fala da necessidade de aumentar o salário mínimo nacional (SMN).

Mas teve mais uma vez um deslize. Um pequeno grande deslize, aliás partilhado pela coligação da direita e que se baseia num falso lugar comum. Diz-se: não se pode aumentar muito o SMN, porque há micro e pequenas empresas ou sectores mão-de-obra intensivos que não suportam esse aumento...

Este tipo de afirmações é feito sem contas por detrás, sem estudos de impacto. São apenas pensamentos vagos, pobres e preguiçosos sobre o que realmente se passa em Portugal. Uma preguiça muito conveniente que tem colado muito bem com a actual política de desvalorização interna, no sentido de um empobrecimento rápido e duradouro da população.

O Observatório sobre Crises e Alternativas elaborou um documento sobre o impacto do aumento do salário mínimo com base nos valores MAIS ACTUAIS, referentes aos Quadros de Pessoal de 2012. Os Quadros de Pessoal são a base de dados mais exaustiva que existe de informação sobre pessoal ao serviço, prestada pelas próprias empresas.

A direita é mariquinhas pé-de-salsa


Como eu gostava de ter votado num referendo em 1991 sobre o Tratado de Maastricht, em 1999 sobre a adesão à moeda única, em 2008 sobre o Tratado de Lisboa, em 2011 sobre o Memorando de Entendimento, sobre o Tratado Orçamental...

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Quo vadis, Europa?

A última etapa das negociações entre o governo grego e a troika deve ter eliminado as dúvidas dos europeístas que ainda mantêm os pés na terra. A insistência na austeridade, acompanhada de “reformas estruturais” que degradam o estado de bem-estar e impedem a saída da crise, tornou evidente que as “instituições internacionais” têm uma agenda política. Trata-se de formatar as sociedades europeias, de alto a baixo, pelos princípios de um neoliberalismo fanático, o ordoliberalismo inscrito nos tratados da UE.

O eixo Paris-Berlim já percebeu que esta crise tem de ser aproveitada para completar o projecto de Maastricht. A eleição do Syriza na Grécia e os resultados eleitorais do Podemos em Espanha, ambos à esquerda, aliados ao crescimento eleitoral da Frente Nacional em França e à entrada no governo de alguns países do Norte da Europa de partidos da direita críticos da zona euro, a que se juntou a eleição de um presidente eurocéptico na Polónia, constituem sinais claros de que o projecto europeu corre sérios riscos. Bruxelas está com medo do futuro.

Neste contexto, foi agora publicado um relatório dos cinco presidentes da UE, “Completing Europe’s Economic and Monetary Union”. Este propõe um aprofundamento da UEM visando responder ao risco de colapso do euro, que, agravado por uma possível saída do Reino Unido da UE, poria termo à aventura da construção dos Estados Unidos da Europa por pequenos passos. O documento é muito interessante e deve ser lido com atenção. Limito-me hoje a destacar o seu quadro conceptual porque ele permite perceber melhor por que razão as reivindicações do governo grego não podem ter acolhimento na UE.

O relatório mostra-nos como o quadro mental dos dirigentes, e da tecnoestrutura da UE, interage com a realidade social através dos óculos do neoliberalismo na sua versão alemã. Nele se diz que “o euro é uma moeda bem sucedida e estável” (início da p. 4). Estável? Até parece que os bancos europeus não foram profundamente afectados, nem houve resgates de bancos com dinheiro público por causa da sua participação activa no jogo do casino global. Ao contrário do que diz o relatório, a crise europeia não foi um “choque externo”, “uma tempestade” que atingiu o euro. A Alemanha investiu no sistema financeiro mundial o dinheiro ganho com os seus enormes excedentes comerciais e dessa forma deu um importante contributo para a bolha do crédito que explodiu nos EUA e depois na periferia da zona euro. No entanto, para os 5 presidentes foi um “choque externo” que tivemos de “absorver”.

Publicado na semana em que a elite europeísta anda com o credo na boca, por medo de um Grexit, o relatório perde toda a credibilidade quando invoca o sucesso do euro. Aliás, como é possível falar de sucesso e ao mesmo tempo reconhecer que há 18 milhões de desempregados na zona euro? Será isto apenas uma contrariedade de que agora se vão ocupar? Falemos com clareza: o euro foi um desastre social, sobretudo para a periferia, e isso deveria envergonhar os nossos dirigentes políticos, não fora a sua ideologia que tudo justifica e os interesses dos poderosos que servem.

Quanto à política orçamental, continuará por muito tempo no nível nacional, sempre limitada à acumulação de excedentes nos anos bons para serem gastos nos anos maus. Está excluído um orçamento federal significativo, entendido como instrumento de promoção do pleno emprego, o que se compreende porque não há um estado democrático europeu que o legitime. Por isso reconhecem que na periferia serão precisos “anos de consolidação para recuperar”. O relatório aponta explicitamente o mercado de trabalho, via redução de salários, como o substituto da taxa de câmbio para corrigir excessos de endividamento externo e por isso defende que deve ser ainda mais flexível (“flexible economies that can react quickly to downturns”). Talvez sem salário mínimo, sem subsídio de desemprego e com pouco poder sindical, como no início do século passado.

Finalmente, um salto qualitativo com a atribuição de poderes supranacionais ao comissário responsável pela supervisão e repressão dos desequilíbrios macroeconómicos, aliás inevitáveis numa “economia social de mercado”. Enfim, não difere muito do plano que a Alemanha tinha preparado para gerir a Europa após a vitória rápida que esperava alcançar na Grande Guerra (Jean-Pierre Chevènement, 1914-2014, L’Europe Sortie de l’Histoire?).

(O meu artigo no jornal i)

O índice


INTRODUÇÃO

PARTE I – O QUE FIZERAM DESTE PAÍS

Capítulo 1. Do pelotão da frente à cauda da Europa
     O consumismo chega a Portugal
     Não sou o único a olhar o céu
     Razão, coração e muito crédito bancário
     O pântano que veio para ficar
     A grande crise mundial, a crise do euro e a austeridade

Capítulo 2. Quem são os responsáveis pelo estado a que chegámos?
     As responsabilidades pelo elevado endividamento privado
     As responsabilidades pela desaceleração da economia a partir de 2000
     As responsabilidades pela contracção da produção e do emprego desde 2008
     Culpa de todos ou responsabilidade de alguns?


PARTE II – O QUE FAREMOS COM ESTE PAÍS

Capítulo 3. Combater a pobreza e as desigualdades crónicas
     O longo caminho para a igualdade
     As desigualdades sociais como doença colectiva
     O trabalho no centro de tudo
     Estado Social para todos
     Combater as desigualdades por todos os meios

Capítulo 4. Relançar o crescimento para criar emprego
     Uma recuperação económica difícil
     Relançar a economia ou cumprir as metas orçamentais?
     Relançar a economia ou corrigir os desequilíbrios externos?
     O desafio da retoma do investimento
     Estimular a procura interna minimizando as importações

Capítulo 5. Reestruturar uma economia frágil
     Quando o que se sabe fazer vale pouco
     Conseguir fazer diferente
     Fazer melhor o que se sabe fazer
     Não há soluções micro para problemas macro

Capítulo 6. Vingar numa Europa disfuncional
     O mercado comum como finalidade
     A lógica celestial da UEM
     A UEM como problema
     Como salvar a UE de si própria
     Como salvar Portugal de uma UE disfuncional

CONCLUSÃO – O FUTURO NAS NOSSAS MÃOS

Proposta de sondagem para a Grécia

Se as sondagens feitas na Grécia dão a maioria a quem quer permanecer no euro, era bom perceber como são feitas as perguntas dessas sondagens. Porque haveria sequências de perguntas que poderiam dar a maioria de apoio à saída do Euro.

Vejamos um exemplo do que tem sido feito:
1) Acredita que a Grécia é um país europeu? Resposta convicta: Sim!!
2) Acha que a Grécia tem benefícios em ser um país membro da União Europeia? Resposta provável: Sim. 
3) Estaria disposto a alargar os poderes do Parlamento Europeu para melhor defender os pontos de vista da população? Resposta eufórica: SIM.
4) Acha que a Grécia deve permanecer na zona Euro? Resposta mais que provável: ....

Agora vejamos um outro exemplo:
1) Acha que o povo grego tem capacidade para aguentar mais medidas de austeridade? Resposta entristada: Não. 
2) Acha que será fácil absorver uma taxa tão elevada de desemprego nos próximos 5 anos? Resposta deprimida: não
3) Acha que a União Europeia tem tomado medidas racionais que invertam a situação em que a Grécia se encontra? Resposta revoltada: Não!
4) Acha que a Grécia deve permanecer na zona Euro? Resposta mais que provável....

Enquanto as sondagens forem a base de estudo para a tomada de decisões políticas, o bem-estar das populações ficará adiado.

Lapidar


«A suposta razão para a rejeição de uma resposta com base em impostos é que irá prejudicar o crescimento. A resposta óbvia é, estão a gozar connosco? Os mesmos que falharam redondamente, nas suas previsões, os estragos que a austeridade causou (...), estão agora a dar lições aos outros sobre crescimento?»

Paul Krugman

«Tsipras tem razão: em Portugal, a troika aceitou 'medidas equivalentes'. As instituições deveriam definir objectivos, e não ditar de que forma devem ser alcançados. (...) Todas as anteriores projecções do FMI sobre a Grécia revelaram-se um disparate. Se Lagarde rejeitar agora um acordo por causa das projecções, então isto é tudo uma brincadeira.»

Henrik Enderlein

«Já não se procura um acordo, mas conquistar uma capitulação total. Tudo leva a crer que o único objetivo seja o de provocar a queda de um governo eleito de um Estado europeu. Se assim for, isto não é uma negociação. É um golpe de Estado.»

Daniel Oliveira

Sair


Perante a perspectiva de uma mais uma ronda de austeridade deflacionária, Costas Lapavitsas, que actualmente é deputado do Syriza, escreveu ontem um artigo oportuno no The Guardian, de que traduzo rapidamente o excerto final (já agora, é útil também para certas esquerdas portuguesas que ainda queiram dizer algo de relevante neste campo daqui até Outubro, superando as performances penosas dos últimos dias e que, caso contrário, estão para ficar): 

“A verdadeira questão é a seguinte: será que o Syriza irá aceder às exigências dos credores? Será que se submeterá à chantagem? O Syriza ganhou as eleições de Janeiro de 2015 com uma estratégia que prometia acabar com a austeridade e trazer mudanças radicais à Grécia, permanecendo na Zona Euro. Acreditou que o seu forte mandato democrático o ajudaria à ser bem-sucedido nas duras negociações com os credores. A realidade provou ser bastante diferente, com os credores a usarem o quadro da Zona Euro para criar uma crise de liquidez e de financiamento que enfraqueceu o lado grego. Ao mesmo tempo, tanto os credores como as forças internas que querem continuar com a austeridade – incluindo, sobretudo, os ricos e a elite financeira – continuam de forma desavergonhada a assustar as pessoas sobre o impacto da saída da Grécia do Euro. Confrontada com o poder do dinheiro, a estratégia do Syriza está a desfazer-se.

A Grécia e o governo do Syriza confrontam-se agora com a dura realidade da Zona Euro. Para manter o país na união monetária, os credores exigem que este se submeta à chantagem e aceite políticas que conduziriam ao declínio nacional. A sociedade grega enfrentaria baixo crescimento, desemprego elevado, pobreza enraizada e emigração da sua juventude qualificada, como de resto a experiência dos últimos cinco anos demonstra.

Existe um caminho alternativo para Grécia. Este inclui sair da Zona Euro. A saída libertaria o país da moeda única, permitindo-lhe adoptar políticas que revitalizariam a economia e a sociedade. Abrir-se-ia um caminho realizável que ofereceria uma esperança renovada, mesmo que tivéssemos de enfrentar dificuldades significativas de ajustamento no período inicial.

A escolha em última instância cabe ao povo grego. Apesar de sondagens frequentemente divulgadas, supostamente indicando um forte apoio ao Euro, a realidade no terreno é de revolta e de frustração entre os trabalhadores, os pobres e uma classe média depauperada. Estes são os sectores que podem colocar o país numa trajectória de crescimento com justiça social. Neste contexto, cabe ao Syriza repensar a sua estratégia e liderar de forma renovada o povo grego. Nos próximos dias, é certa uma intervenção significativa da sua influente ala esquerda, a Plataforma de Esquerda. A Grécia necessita de um debate urgente e de uma mudança de política. O país tem a força para sobreviver e sobreviverá.”

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Exposição à Grécia

Pode não ser suficiente para derrubar bancos, mas é o suficiente para nervos em franja.

Falta uma semana


Estão tod@s convidad@s!

Viet Cong



As opções em cima da mesa

O governo grego quer alívio (“o corte de cabelo” já lá vai) da dívida, sem mexer directamente nas pensões (indirectamente é outra coisa). A Comissão Europeia (ou seja, o governo alemão) quer cortes nas pensões sem mexer na dívida. O FMI quer ou cortes nas pensões ou alívio na dívida. É aqui que se joga o actual impasse nas negociações. É também isto que explica como o FMI se transmutou de “polícia bom” em “polícia mau” em poucos dias – ainda na sexta-feira, Varoufakis citava o economista-chefe, Olivier Blanchard, na reunião de Eurogrupo. Pode parecer estranho esta recusa do FMI em “empurrar com a barriga” a situação grega, como alegremente a UE pretende fazer. Contudo, dada a importância histórica desta instituição na imposição da doxa neoliberal e o falhanço espectacular do maior resgate financeiro da sua história, os custos reputacionais de um acordo insustentável, pelas métricas do próprio do fundo, são demasiado elevados. O FMI pode não ter eleitores a quem tenha que prestar contas, o que explica a posição intransigente de muitos governos europeus quanto à dívida, mas tem muitos países devedores.

Vermelho é cor


Em cima está uma das instantaneamente famosas páginas do doloroso documento do governo grego, “corrigida” com toda a violência simbólica pelos credores. Aparentemente, é assim que se faz por lá. Para que saibam e para que não esqueçam. Estes meses têm indicado que isto é uma luta assimétrica, em que cada sinal de ultrapassagem, de apagamento, das linhas vermelhas democráticas, mesmo que inicialmente justificado em nome da necessidade de ganhar tempo, só parece reforçar a confiança dos poderes pós-democráticos. Será que no fim estes é que traçam as verdadeiras linhas vermelhas? Saberemos em breve a resposta, talvez. No Euro, creio que já temos a obrigação de a saber há muito.

É por isso que não compreendo como é que os dinamizadores das justíssimas convocatórias de solidariedade para com a Grécia, e hoje estaremos em Coimbra pelas 18h, podem achar que “cabe à mobilização impedir a expulsão da Grécia da moeda única e da União Europeia.” Desculpem, mas quem é que acha realmente que os poderes que comandam o Euro e a UE querem libertar um país desta prisão económica e monetária? O que eles querem é manter a Grécia bem presa, confirmando quem manda por aqui. Caso contrário, esta Europa com amos estaria de pernas para o ar e a sua economia política também. Eu ainda tenho esperança que os gregos se libertem...

A vermelho


2010/2011. "Não. Portugal não é a Grécia." E as taxas de juro subiram nos mercados.
2015. "Não. Portugal não é a Grécia". E as taxas de juro voltaram a subir nos mercados.


A única coisa que não entendo é por que razão terá isto acontecido agora. Sim, os níveis não são ainda comparáveis com os de 2011. Mas por que teriam subido? Quem garante que não voltem a subir até níveis incomportáveis?

Mas se assim é, não era suposto o Memorando de Entendimento ter-nos salvado de tamanha ira dos mercados, a ponto de cairmos outra vez na bancarrota? Não tinha o Memorando robustecido a economia para que tudo não voltasse a acontecer? Não foi por isso que se tomaram todas as medidas para fortalecer a nossa competitividade? Não foi isso que se "desvalorizou" internamente, se empobreceu milhões de pessoas, e levou à destruição de centenas de milhares de postos de trabalho, a ponto de termos regressado à velha emigração, desta vez dos mais qualificados?

Para que foi tudo o que fizeram e estão fazer?

Os mercados provaram que, afinal, nada do que foi exposto no Memorando e nas suas sucessivas versões era essencial ao refinanciamento da economia. O problema era - e é - outro.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Avisos


«A coligação PSD-CDS vai apresentando, aos poucos, o seu programa de governo para os próximos quatro anos através dos actuais ministros. A ministra das Finanças já disse, preto no branco, que a sustentabilidade da Segurança Social pode passar (o "pode" é o engodo) por mais cortes nas pensões de reforma. Hoje o ministro da saúde disse que o acréscimo de despesa do Serviço Nacional de Saúde pode passar por uma aumento de impostos. Esperam-se mais declarações de outros ministros nos próximos meses

Tomás Vasques, E depois não digam que não foram avisados (facebook)

terça-feira, 23 de junho de 2015

A metáfora falhada de Maria Luís Albuquerque


Numa vaga alusão ao mito de Sísifo, Maria Luís Albuquerque referiu-se recentemente à dívida como um «pedregulho» que Portugal tem às costas e que será necessário carregar ainda por muito mais tempo. Para quem achava, como a ministra das Finanças, que a dívida não tinha aumentado durante o mandato da actual maioria, mas sim «aparecido» (qual «senhora vestida de luz» em cima de uma azinheira), dar finalmente conta dessa enorme massa telúrica, que fermentou nos últimos anos à frente dos nossos olhos, é já - há que o reconhecer - um avanço.

Vale a pena lembrar a forma como o pedregulho ganhou volume, ao longo dos últimos anos. No início da crise financeira (2007/08), a dívida soberana portuguesa rondava os 72% do PIB, atingindo em 2010, com os impactos na economia e no resgate da banca, cerca de 96% do PIB. Quando a maioria de direita chega ao poder, determinada a aplicar o Memorando de Entendimento e a «ir além da troika», a dívida pública continuou a aumentar, passando de 111% do PIB em 2011 para atingir, no final de 2014, o patamar dos 130%. Isto é, uma diferença de cerca de quinze pontos percentuais acima do valor previsto pela troika para esse mesmo ano, e que resulta de uma evolução negativa das duas parcelas de cálculo: o aumento da dívida em valores absolutos (de cerca de 196 mil milhões de euros em 2011 para 226 mil milhões em 2014) e a queda do produto, em resultado das políticas de austeridade.

E por isso o que é espantoso é que Maria Luís Albuquerque considere que para que o pedregulho comece «a pesar menos» seja fundamental dar continuidade à receita que, justamente, o foi tornando cada vez mais denso e insustentável. O que há de Sísifo na metáfora falhada da ministra das Finanças não é uma pedra a subir e a descer, incessantemente, uma montanha. São as promessas recorrentes, e sempre incumpridas, de que «não é preciso mais austeridade». Bastará aliás reeleger este governo para o confirmar uma vez mais.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Quem tem medo do euro mau?

Francisco Louçã, no Público de hoje, assinala a desgraçada tendência em curso na esquerda: “Quase toda a esquerda está a recuar perante a crise grega. Os que defendiam um acordo internacional para a mutualização da dívida dão a causa por perdida, os que esperavam os sensatos eurobonds desistiram e ainda há espectaculares renúncias à luta pela reestruturação da dívida. A esquerda tem medo. Percebeu agora que o Tratado Orçamental não tem margem para evitar a austeridade e que a única solução estrutural para reestruturar a dívida é emitir moeda própria e reorganizar a economia dependente. Percebeu também que o protectorado é uma regra europeia e não se dispõe a enfrentá-la, sente que o caminho é demasiadamente difícil e que não sabe percorrê-lo.”

A questão, como tenho insistido, é mesmo a de saber de que é que têm medo e de que é que temos medo? Se há coisa que a Grécia revela espectacularmente, qualquer que seja o desenlace das chamadas negociações, é a verdadeira natureza da UE, em geral, e da Zona Euro, em particular, e o que estão condenados a fazer todos os que aceitam os seus termos: respectivamente, o mais poderoso mecanismo imperialista de conformação com o neoliberalismo e a austeridade permanente, dos superávites orçamentais aos cortes, com atrofiamento das forças produtivas, em especial das nações periféricas, e retrocesso nas relações sociais que aí estruturam a provisão de bens e de serviços. O europeísmo, ou seja, a crença de que a escala da UE é o espaço privilegiado de acção política destrói as esquerdas europeias.

Entretanto, na boa lógica das preferências políticas endógenas, o espaço político desloca-se cada vez mais para a direita, sendo que o pior é que muitos já nem parecem saber onde estão. A maioria da esquerda opta por apelar a vagos sentimentos humanitários ou à razoabilidade das elites, multiplicando analogias históricas deslocadas para não ter de encarar as tarefas que tem pela frente, em linha com as experiências nacionalistas, antimperialistas e populares bem-sucedidas de outras latitudes. Perante esta demissão, alguém pode espantar-se que as direitas ganhem?

Porque devemos apoiar a Grécia


«Vilipendiado e atacado, tanto por políticos como pelos media, o «crime» do Syriza é representar os direitos e a dignidade do povo grego, em vez dos interesses financeiros e empresariais que, normalmente, põem e dispõem das instâncias de decisão política europeias. É por isso que o Syriza mantém a popularidade, e é também por isso que as instituições europeias estão tão furiosas. (...) A Grécia tem sido vítima de um dos exemplos mais brutais de austeridade dos últimos tempos. (...) Depois de 1945, aprendemos que só se pode ressuscitar um país com uma combinação de anulação das dívidas e crescimento. Foi assim que a Alemanha pode recuperar da guerra, graças às políticas racionais de países como a Grécia. Mas os atuais líderes europeus estão determinados em humilhar e derrotar um governo que está a colocar em causa todo o credo das políticas económicas contemporâneas. Que deus nos livre de a Grécia demonstrar que, afinal, existe mesmo uma alternativa. (...) A Grécia é esperança. É uma oportunidade das que só acontece uma vez em cada geração. Não a deixemos passar.»

Tradução de Mariana Avelãs do artigo de Nick Dearden, no Global Justice Now. Realiza-se hoje uma concentração em Lisboa, de apoio à Grécia, pelo fim da austeridade e pela mudança na Europa. É no Largo Camões, a partir das 19h00. Apareçam.

domingo, 21 de junho de 2015

Das excepções e do colaboracionismo


«Num espaço tão integrado como é este da zona do euro, com uma moeda única, com um banco central único e com uma única política cambial há regras que não podem deixar de ser respeitadas, não podem ser abertas exceções para nenhum país e a Grécia tem de facto que convencer-se, e é provável que depois destes meses de negociações e contactos com a troika e negociações com países, esteja já mais consciente da realidade que não pode, de facto, ignorar.» (Cavaco Silva).

«As declarações do senhor presidente da república são inaceitáveis. O senhor presidente da República diz uma coisa que não é verdadeira, que na Europa não há excepções. Se quiserem, no próximo programa eu trago uma longa lista de excepções, dos países mais poderosos e mais importantes (a França, a Alemanha), em relação aos défices e outras medidas, que nunca aceitaram discutir em conjunto com os outros. (...) Não é verdade que não haja excepções. Excepções aliás que nós também tivemos para nós. Porque o memorando inicial tem pouco a ver com o memorando final.»

José Pacheco Pereira (Quadratura do Círculo)

«As medidas que mais fizeram descer os juros europeus, a compra de dívida dos Estados pelo BCE e o Quantitive Easing, valem para todos os países menos para a Grécia. Como é que Cavaco e Maria Luís Abuquerque podem dizer, assim, que não são aceitáveis excepções para a Grécia?»

Pedro Sales (facebook)

«As compras de dívida pública pelo Banco Central Europeu continuam a provocar uma descida acentuada dos juros das obrigações dos países da zona euro, com exceção da Grécia. A Grécia foi excluída pelo BCE do programa de compra de dívida pública em curso, pelo menos até final de Agosto

Jorge Nascimento Rodrigues (Expresso, Março de 2015)

sábado, 20 de junho de 2015

Solidários com a Grécia


«Em funções há cinco meses, o governo da Grécia tem procurado consensualizar na União Europeia uma renegociação da dívida e um caminho alternativo à austeridade.
Desde o primeiro dia, as instituições europeias e o FMI mantêm total intransigência e desafiam o mandato democrático do povo grego, procurando impor novos cortes nas pensões, entre outras medidas recessivas. O garrote financeiro agrava a situação económica e social na Grécia e serve de chantagem política contra todos os povos da União.
Vivemos a hora decisiva em que cabe à mobilização impedir a expulsão da Grécia da moeda única e daUnião Europeia. Só a democracia dos povos da Europa pode evitar a punição de um país inteiro pela recusa de mais austeridade e miséria.»

Segunda-feira, 22 de Junho, concentração de solidariedade com a Grécia no Largo Camões, em Lisboa, a partir das 19h00. Entretanto, já está disponível em português, palavra por palavra, proposta a proposta, a intervenção de Yanis Varoufakis na última reunião do Eurogrupo. É de leitura obrigatória para quem queira perceber o que verdadeiramente está em causa neste momento histórico para a Europa.

Promotores: Ana Gaspar, António Eduardo Pinto Pereira, Carlos Trindade, Fernando Rosas, Henrique Sousa, Joana Lopes, José Castro Caldas, José Gusmão, Luís Branco, Luísa Teotónio Pereira, Mariana Avelãs, Paulo Ralha, Tiago Gillot, Vítor Sarmento.

Os Tratados mudam-se com rupturas.


O sistema monetário internacional do padrão-ouro acabou em 1931, no dia em que o Reino Unido abandonou o compromisso com a convertibilidade a uma taxa fixa. Seguiram-no outros países e o resultado está à vista na figura que o Alexandre Abreu publicou num magnífico texto do ano passado. Comparem a trajectória da crise nos países que saíram do sistema (desvalorização da moeda - linha cinzenta) versus a dos que mantiveram a austeridade (desvalorização interna - linha amarela). Hoje, apesar dos estabilizadores automáticos (subsídios de desemprego e outros) e de se tratar do conjunto da zona euro e não apenas da periferia (linha vermelha), percebe-se bem que esta crise já demorou demasiado tempo. Oxalá a Grécia tome a dianteira e nos ajude a romper com este projecto anti-democrático.

Para mudar a Europa, é preciso romper com os Tratados da UE. Os que querem mudar por dentro, devagar, com a diplomacia convencional para não ofender ninguém, desempenham o papel do "polícia bom" neste processo de tortura e submissão dos povos europeus ao totalitarismo ordoliberal. Neste sentido, o economista italiano Sergio Cesaratto apela à esquerda europeia para que assuma a estratégia da ruptura (aqui). Onde está escrito 'Grécia' podia estar 'Portugal':

A união monetária europeia constituiu uma armadilha tanto para a Grécia como para a Itália, embora com diferentes caminhos. De facto, os dois países estão em diferentes estádios do desenvolvimento capitalista.
Para a burguesia italiana, tratava-se de finalmente livrar-se do poder dos sindicatos impondo ao trabalho uma disciplina germânica. O modelo monetário e económico europeu abriu essa oportunidade já que foi construído sobre a ideia de políticas de deflação competitiva. A burguesia grega viu o euro como o caminho fácil para atrair o capital estrangeiro de forma a financiar a despesa privada e pública, e as importações, o que permitia manter o consenso eleitoral.
(...)
A alternativa, tanto para a Grécia como para a Itália, teria sido uma estratégia de desenvolvimento nacional independente, com uma estratégia industrial liderada pelo Estado (a que a UE se opõe) acompanhada de uma taxa de câmbio competitiva.
O que veio a seguir é bem conhecido. Como era de esperar, as políticas de austeridade falharam a recuperação do desenvolvimento sustentado, produzindo desindustrialização e miséria. O projecto europeu tornou-se cada vez mais um projecto reaccionário, sendo a Europa federal e progressista uma quimera (sempre foi) que apenas umas quantas pessoas loucas ainda têm a coragem de defender.
(...)
Dado que uma unificação política europeia mais profunda, democrática e progressista, está fora de alcance, devemos lutar por uma dissolução pacífica e justa da presente união monetária e económica e substituí-la por um novo quadro institucional. Este seria baseado na cooperação económica, monetária e financeira, mas também permitiria a cada país a liberdade de prosseguir a estratégia de crescimento democrático que melhor sirva o seu estádio de desenvolvimento.
Percebemos que uma dissolução, pacífica e sem dor, da actual união económica e monetária europeia não é uma tarefa fácil. Ainda assim, devemos lutar para que a actual situação se torne insustentável tendo em vista acelerar a transição para um novo estádio de cooperação na Europa mais democrático e socialmente comprometido.

Memória (VI)



«Quando o senhor deputado nos diz aqui que o Estado é um mau gestor deve estar a falar de si próprio. Porque o senhor deputado foi administrador da CP não se negou. Não disse, quando lhe foi feito o convite, "eu não creio que o Estado seja um bom gestor e portanto acredito na iniciativa privada". Não, o senhor sentou-se nas reuniões do Conselho de Administração e recebeu o ordenado. E portanto quando o senhor diz que o Estado é mau gestor está aqui a truncar a mensagem. Não é o Estado, a entidade pública que representa a soberania popular, que é mau gestor. São os senhores, têm nome, é o senhor. (...) São os senhores, que aceitam lugares no Estado, recebem o ordenado, sentam-se à mesa da administração, destroem o serviço público e a seguir - em cima da desgraça que fizeram - vêm dizer que o Estado é mau gestor.»

sexta-feira, 19 de junho de 2015

O sucesso recente da Maioria


Sobre o debate de hoje no Parlamento e sobre os sucessos recentes do ajustamento económico levado a cabo por esta Maioria. Em cada 4 desempregados que o deixaram de ser em Portugal a partir de 2013, apenas um encontrou emprego em Portugal - e sabe-se lá em que condições (estágios? mal remunerado?). Os restantes passaram a inactivos ou a activos noutro país.

E quando se compara com a totalidade do período de ajustamento económico, verifica-se que a recuperação do emprego está tão longe do que éramos.



Um enorme sucesso, como se vê...

E o interessnte é que a retoma do emprego se faz a partir de uma inversão da política económica seguida pelos cânones apregoados no início do mandato. Mais consumo, menos poupança, a retoma do desequilíbrio externo, um apaziguamento da austeridade. Por que dirá Passos Coelho tanto mal do radicalismo grego? 

Leituras

«O nosso mandato político é o de encontrar um compromisso viável e honrado. Será assim tão difícil consegui-lo? Nós achamos que não. Há uns dias atrás, Olivier Blanchard, economista-chefe do FMI publicou um artigo intitulado "Grécia: um acordo credível vai exigir decisões difíceis a ambas as partes". Ele tem razão, as três palavras-chave são "de ambos os lados". E o Dr. Blanchard acrescentou: "no cerne das negociações está uma questão simples: quanto ajustamento tem que ser feito pela Grécia e quanto tem que ser feito pelos credores oficiais?". Que a Grécia necessita de um ajustamento não há dúvida. Mas a questão não é, contudo, a de quanto ajustamento precisa a Grécia de fazer, mas sim que tipo de ajustamento. Se "ajustamento" quer dizer consolidação orçamental, cortes nos salários e nas pensões e aumento de impostos, torna-se evidente que nós já fizemos mais do que qualquer outro país em tempo de paz: o défice orçamental estrutural, ou ajustado ao ciclo, gerou um excedente de 20%, à conta de um "recorde mundial de contracção" do sector público; os salários caíram 37%; as pensões foram reduzidas acima dos 48%; o emprego público diminuiu em torno dos 30%; o consumo foi reduzido em cerca de 33%; e inclusive o défice crónico corrente do país caiu em 16%. Ninguém pode dizer que a Grécia não se ajustou às suas novas circunstâncias, depois de 2008. O que podemos dizer é que o gigantesco ajustamento, necessário ou não, gerou mais problemas do que aqueles que resolveu.»

Yanis Varoufakis, Greece’s Proposals to End the Crisis: My intervention at today’s Eurogroup

«Desde o início do que erradamente se chamou "programa de ajustamento" (o correto seria programa de abalroamento), a Grécia passou do bipartidarismo pró-europeu a um governo de extrema-esquerda a bater o pé a Bruxelas, viu contrair o PIB em 25%, o desemprego manter-se em níveis obscenos, um novo batalhão de excluídos sociais, as previsões de crescimento económico falhadas pela troika, a social-democracia em extinção. (...) Nestes cinco anos de intervenção financeira, todos os responsáveis políticos gregos (o correto será até irresponsáveis) foram avaliados e sentenciados. Mas nestes mesmos cinco anos nenhuma avaliação consequente foi feita aos autores dos programas de assistência, às "reformas" impostas em calendários contrários a qualquer espírito reformista, julgados os seus méritos, aplicabilidade e resultados. Tsipras tem razão quando pede escrutínio ao FMI, porque há uma dimensão geopolítica nesta crise: sem nos darmos conta, assistimos ao declínio da UE na Europa. Um grexit mostraria que a integração europeia deixou de ser irreversível, que não é possível manter o sentido de convergência em padrões de governação e desenvolvimento entre os seus membros. Que Bruxelas é incapaz de influenciar positivamente um pequeno membro com economia frágil. Que há margem para outras Grécias.»

Bernardo Pires de Lima, Parabéns a todos

«O que hoje se está a passar com a Grécia é uma coisa inadmissível, de dictat, de política autoritária, de completa falta de sentido de solidariedade, de mecanismos de autoridade que não estão previstos em nenhum tratado, de esmagamento. Absolutamente indiferentes em relação ao que os gregos possam vir a sofrer. (...) Vamos admitir que o governo do Syriza cai e que a seguir perde eleições. E a seguir vem um governo próximo das actuais posições europeias. Eu tenho a certeza absoluta que a dureza com que a Grécia termina nesse momento. E que serão concedidas a esse governo colaboracionista - como muitos outros governos europeus - coisas que são negadas neste momento a este governo do Syriza. Não tenho dúvida nenhuma que a questão de fundo é uma questão política. Não tem que ver com nenhuma avaliação do que os gregos fizeram com os seus programas de ajustamento. Tanto mais que se querem colocar alguém no pelourinho sobre a situação na Grécia, deviam começar pelo governo anterior, que é o governo amigo de Passos Coelho, da senhora Merkel... Que é realmente - apesar dos sucessivos resgates e do corte da dívida - quem levou a Grécia à situação em que ela se encontra. (...) A actual nomenclatura europeia - quer a burocrática, quer a política - não suporta que as soluções que apresentaram como únicas, que "não havia alternativa" (a TINA, "There Is No Alternative"), possam ser contestadas, ainda por cima por um governo com forte legitimidade popular.»

José Pacheco Pereira (Quadratura do Círculo)

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Desinformação militante ou preguiça jornalística?


O Público ontem esmerou-se. Não só deu à estampa um editorial confrangedor, em que se papagueia de forma acéfala o discurso oficial em torno dos números do desemprego (como o João Ramos de Almeida aqui oportunamente assinalou), como decide colocar nas «gordas» da primeira página (sobre a tensão negocial entre a Grécia e as «instituições»), um título que parece ter saído directamente da capa do Correio da Manhã ou de um escrito do Camilo Lourenço.

Segundo o jornal Público, na sua edição de ontem, uma Grécia irresponsável teria exasperado esse monumento à sensatez e ao sentido de equilíbrio que é a Europa dos nossos dias, restando assim a improvável hipótese de que um «milagre» salve a situação. Para percebermos a seguir, ao ler a notícia propriamente dita, que a expressão «milagre» fora utilizada pelo primeiro-ministro finlandês, Juha Sipila («a situação é difícil e o calendário apertado. Pode-se dizer que é preciso um milagre para ter o assunto resolvido na próxima semana»), sem que essa referência seja feita no destaque de primeira página.

Nada de novo portanto, se pensarmos na prevalência das campanhas mediáticas de desinformação militante (ou, admitindo hipóteses mais benignas, na persistência da preguiça jornalística e dos «hábitos de pensamento»). Para o Diário Económico, por exemplo, as coisas são igualmente simples: uma Grécia irresponsável continua a penalizar as pobres praças financeiras da Europa, essas mártires dos desmandos da política e da democracia (pelo que o plano das «instituições» para «resolver» a questão grega não é, obviamente, para aqui chamado).