domingo, 29 de março de 2020

Inquérito sobre o impacto da epidemia na vida dos portugueses


Promovido pelo ICS/ISCTE e com o apoio do COLABOR, está em curso um inquérito (disponível aqui) para começar a perceber os impactos da pandemia na vida dos portugueses. O objetivo do estudo é essencialmente o de contribuir para um «melhor conhecimento da situação que estamos a viver e produzir informação útil para o desenvolvimento de políticas públicas adequadas».

Contribuam, preenchendo o questionário (demora apenas alguns minutos), e partilhem junto dos vossos contactos. Quanto maior o número de respostas, e mais diversificado o perfil dos inquiridos, melhor se poderão conhecer os impactos da epidemia e, com base nessa informação, melhorar as respostas de política pública.

Covid-19 e financiamento monetário: austeritários mudam de campo (II)


Roubado aqui. Perdão, aqui. Desculpem, estou um trapalhão, aqui.

O megapacote financeiro dos EUA e as fraturas do sistema

Dois biliões de dólares (1,85 biliões de euros), ou cerca de 10% do PIB dos EUA. É esta a dimensão do Coronavirus Aid, Relief and Economic Security (CARES) Act, o pacote de estímulos à economia que resultou do acordo alcançado no Congresso entre democratas e republicanos. O acordo, terminado na madrugada desta quarta-feira, traduz-se no maior plano de estímulos orçamentais da história moderna dos EUA. Mas em que consiste exatamente?

O Economic Policy Intitute (EPI) destaca as principais medidas: 450 mil milhões de dólares destinados aos resgates a empresas, 350 mil milhões destinados ao apoio às pequenas e médias empresas, 300 mil milhões para as famílias (sendo proposto que o Estado transfira diretamente cheques de 1200 dólares por adulto e 500 dólares por criança, com o objetivo de assegurar o rendimento de todos os cidadãos e manter os níveis de consumo), 250 mil milhões para expandir o alcance do subsídio de desemprego, 100 mil milhões para reforçar os hospitais e a sua capacidade de resposta à crise de saúde pública e ainda 150 mil milhões extraordinários para os Estados e autoridades locais.

É um acordo histórico que supera o American Recovery and Reivestment Act, aprovado pelo governo de Barack Obama em 2009 e avaliado em 787 mil milhões de dólares. No entanto, o tamanho conta muito e há dúvidas sobre se este pacote será suficiente para responder à crise provocada pela pandemia. Josh Bivens, investigador do EPI, defendeu recentemente que o estímulo orçamental teria de ser de pelo menos 2,1 biliões, face à contração prevista do produto. J.W. Mason, professor de economia da City University of New York (CUNY), foi mais longe e estimou que teria de andar à volta de 3 biliões de dólares (cerca de 14% do PIB), bastante mais do que o anunciado. O desemprego, de resto, já está a disparar, tendo registado o maior aumento semanal dos últimos 50 anos.

Josh Bivens e Heidi Shierholz explicam que a estimativa feita na semana passada pressupunha que a maior parte do estímulo fosse direcionado para os trabalhadores e as famílias, o que não acontece na proposta atual. Uma das maiores fatias do bolo é a dos resgates a grandes empresas, sem garantia de manutenção de todos os postos de trabalho e do pagamento dos salários e sem que esteja previsto que o Estado adquira participação nas empresas resgatadas. Para estas empresas, é o melhor de dois mundos: socializam os prejuízos sem terem de partilhar os lucros. What a wonderful world.

Além disso, as medidas de concessão de crédito às empresas acentuam a tendência de acumulação de dívida privada nos últimos anos. Nos EUA, as empresas não financeiras viram o seu endividamento total duplicar de 3,2 biliões de dólares em 2007 para 6,6 biliões em 2019. Joseph Baines e Sandy Hager, investigadores da Kings College e da City University (Londres), estudaram esta evolução, ligando-a à gradual reorientação da atividade das empresas nas últimas décadas, em que a distribuição de dividendos aos acionistas passou a ser o foco principal.

Para as grandes empresas, que dominam os mercados onde operam, isto tem sido feito à custa das despesas de capital – as empresas canalizam boa parte da receita para a recompra das próprias ações, aumentam artificialmente o seu valor e mantêm margens de lucro elevadas. As pequenas e médias empresas, contudo, precisam das despesas de capital para se manterem competitivas, pelo que têm visto os lucros diminuir, compensando-o com o recurso a crédito. O risco de uma vaga de falências que envie ondas de choque ao resto da economia é enorme.

Robert Pollin, professor de economia e co-diretor do Political Economy Research Institute na Universidade de Amherst, lembra que “ao longo da sua presidência e até à última semana, o mantra de Trump sobre a economia era que as condições nunca tinham sido tão boas.” Para Pollin, “isto foi sempre uma observação absurda”, já que a aparência de prosperidade se devia a uma conjugação da especulação bolsista com os cortes de impostos e medidas de desregulação para o setor empresarial. O pacote de estímulos de Trump é um reflexo disso mesmo: excessivamente concentrado no resgate de Wall Street, faz pouco para encarar a profunda crise do sistema de saúde – 1/4 da população (mais de 80 milhões de pessoas) adia cuidados de saúde devido aos custos excessivos e há 45 mil mortes todos os anos por ausência de cobertura de seguro – e negligencia a crescente desigualdade de rendimentos e o combate às alterações climáticas, preferindo manter os apoios aos combustíveis fósseis. Quando são precisas mudanças, Trump oferece mais do mesmo.

O que parece certo é que os dias de crescimento económico sob o governo Republicano estão a chegar ao fim. Até há poucas semanas, quase todos garantiam que desta vez era diferente e que a exuberância dos mercados financeiros era racional, pouco antes do colapso histórico dos índices bolsistas. O vírus está a estilhaçar a ilusão de prosperidade e a pôr a nu as fragilidades do regime de acumulação.

Artigo publicado no site Esquerda.Net a 28.03.2020.

sábado, 28 de março de 2020

A propósito de "disgusting"...


... nunca se esqueçam dos seus embaixadores nacionais. De todos aqueles, que nos mais destacados lugares da nossa hierarquia política, pugnaram por ideias que - vá se lá saber como - acabaram por os beneficiar pessoal e individualmente.

Hoje o grande embaixador é... Manuel Dias Loureiro:
Há um provérbio de que gosto muito, que diz: Quando o vento sopra forte, alguns abrigam-se, outros constroem moinhos. Não há dúvida de que o vento sopra forte. Sopra forte no mundo e sopra forte em Portugal. No caso do nosso país, para não falar de outros aspectos, sopra forte nas contas públicas, que só com enorme esforço estão a ser controladas; Sopra forte no sobreendividamento das famílias, das empresas e do Estado; Sopra forte na dimensão assustadora do nosso défice corrente que, na União Europeia, só encontra paralelo na Itália do Sul e no Leste da Alemanha e que está muito acima do défice de países que não têm, de momento, qualquer hipótese de sonhar com níveis de vida desenvolvidos. Com uma enorme diferença: enquanto o Norte de Itália e o Ocidente da Alemanha sempre hão-de pagar a factura dos seus concidadãos do Sul e do Oeste, respectivamente, connosco não vai passar-se nada de semelhante; Sopra forte, para abreviar, quando temos de reconhecer - por mim, com tristeza - que não fomos capazes de aproveitar conjunturas favoráveis que, servidas com esforço próprio, estratégias correctas, sentido de inovação e de risco, poderiam ter significado progresso consistente.(...)
O Orador: - Há, por isso, uma questão que nos interpela a todos, que interpela a nossa geração: vamos querer e ser capazes de, no mais curto espaço de tempo, atingir, pelo menos, os níveis médios de desenvolvimento da União Europeia, ou não? Claro que é difícil, claro que o vento sopra forte. E nós, a geração que nós somos, vamos abrigar-nos ou vamos construir moinhos? Vamos sucumbir ao medo, acomodar-nos no "deixa andar", ou vamos ousar fazer? Cada um dará a sua resposta.
O Sr. Luís Marques Guedes (PSD): - Muito bem!
(debate sobre a proposta de Código do Trabalho, da maioria PSD/CDS, a 16/1/2003)

Força, força companheiro Vasco, perdão, companheiro Bessa

E, se Daniel Bessa viesse afirmar que “[e]m tempos de crises como esta, em que as economias colapsam, mais do que de crédito (como as empresas), os Estados precisam de dinheiro. E servem-se dos bancos centrais para o emitir”, o que diríamos nós?

Nós seremos a muralha de aço
Nós seremos a muralha de aço

Há quem queira fazer marcha atrás
Do dia a dia


Produção nacional

“A Europa vai ter de reinventar a sua organização produtiva, porque não vai poder voltar a correr o risco de ficar neste quadro de disrupção”, disse, durante António Costa na visi-ta, em Famalicão, ao Centro Tecnológico das Indústrias do Têxtil e do Vestuário (Citeve).

Por que não começar no país?

Aos poucos, e em estado de necessidade, começa a produzir-se cá aquilo que, alegremente e com a ajuda do Estado, foi deslocalizado, em prol de uma ideia idiota de que Portugal seria feliz sendo um país de serviços, mas em prejuízo do emprego nacional, afectando a sustentabilidade das contas externas e o investimento futuro, e privilegiando exageradamente actividades económicas que, de um momento para o outro podem se esvaziar, como aconteceu agora com o turismo.

Não há números e terá uma dimensão diminuta. E não se fez nenhum  estudo de viabilidade económica. Mas percebeu-se que, caso se queira, caso houvesse essa visão, o Estado poderia dinamizar esse esforço de produção nacional.

Até os (ultra)liberais têm direito a contar com o Estado

O problema dos (ultra)liberais que hoje vêm pedir o apoio público não é o que agora fazem. Como contribuintes têm todo o direito de esperar que o Estado aja como rede de segurança colectiva em momentos de crise.

O problema dos (ultra)liberais é que depois da crise voltarão a falar do Estado como um pária. Continuarão a tentar convencer-nos que a nossa sociedade não precisa de um serviço público de saúde robusto, nem de um sistema de educação público e universal bem organizado, nem de agências públicas dotadas de recursos suficientes e de qualidade.

Serão os primeiros a queixar-se da "carga fiscal" quando for necessário pagar os custos das medidas que hoje precisamos que o Estado tome - e que para eles serão sempre insuficientes.

O futuro não deve ser pós-nacional

Ao assistir às justas declarações de António Costa sobre mais uma provocatoriamente intrusiva posição do governo holandês, consolidei duas convicções: em primeiro lugar, a maioria dos social-democratas europeus passa a nossa desgraçada vida a pedir às relações internacionais um tipo de solidariedade que só as relações nacionais lhes podem dar; em segundo lugar, arranjos excessivamente supranacionais, conformes à expansão das forças de mercado, são uma fonte de inimizades entre os povos.

É claro que não se obtém na escala europeia aquilo que se perdeu na escala nacional. Pelo contrário, a escala da UE, em geral, e do Euro, em particular, tem sido a melhor forma de minar qualquer social-democracia digna de registo.

Quando no outro dia vi António Costa a defender, em entrevista ao Público, que os países de leste crescem mais porque não têm o constrangimento do Euro, percebi que há factos que começam a ser digeridos no topo. Temo que seja tarde demais. Isto não vai acabar espontaneamente. Mais facilmente acabará a social-democracia europeia, como aliás se vê.

Entretanto, tenho-me lembrado, vá-se lá perceber porquê, de um muito recente livro por traduzir, Why Nationalism, da autoria da filósofa política e ex-Ministra trabalhista israelita Yael Tamir.

Tamir defende que uma ideia institucionalizada de comunidade nacional continua a ser fundamental para que as relações de fraternidade recíproca com impactos redistributivos possam florescer, sendo as classes populares as que têm melhores razões para não esquecer esta hipótese, ao contrário de elites globalistas, que desprezam os laços geradores de estruturas de direitos e obrigações potencialmente mais igualitárias e legítimas.

No fundo, a pátria é o único bem para aquele que nada tem, como assinalava o socialista Jean Jaurés entre o final do século XIX e o início do século XX. Para os mais ricos, pode não ser bem assim. A social-democracia europeia esqueceu-se desta ideia fundamental entre o final do século XX e o início do século XXI. Pagou caro. Pagámos todos caro.

Hoje, temos de novo boas razões para falar disto. E reparem que defender uma variante de nacionalismo não é, como aliás argumenta Tamir, incompatível com a cooperação internacional, antes pelo contrário. Reconhece-se melhor que todos os povos têm o mesmo direito à autodeterminação institucional, a definir as suas regras nos seus territórios, um sentimento universalizável, como já se viu na longa luta contra a alternativa – o império, mesmo que liberal.

Trata-se também de reconhecer a necessidade da fronteira, já que sem ela não existe comunidade, nem responsabilização democrática, mas também a sua plasticidade, em função das prioridades colectivamente definidas. Fluxos há muitos e formas de os controlar também. Só há, por exemplo, política de acolhimento se existir fronteira, com critérios, idealmente resultantes de deliberação democrática, sobre quem entra e porquê. Por exemplo, esteve muito bem o governo desta velha nação ao decidir acolher crianças sírias, fugidas do estatocídio aí cometido, sendo desgraçadamente um dos poucos países europeus a fazê-lo.

De resto, um mundo menos globalizado – menos integração, melhor integração – é um mundo mais fácil de pilotar económica e socialmente, lição que se aprende com economistas como Keynes, o de uma razoável auto-suficiência nacional ou com o também anti-hayekiano Myrdal, social-democrata sueco que pugnou por um nacionalismo são. Um mundo com outras economias, mais centradas nacionalmente, será um mundo mais estável e plural.

Não sabemos o que vai acontecer, mas sabemos que tudo começa com boas questões, como a que Nuno Aguiar coloca na Exame: um mundo mais desglobalizado depois disto? Insisto que temos de responder afirmativamente. A história é novidade, mas também pode ser boa recorrência...

sexta-feira, 27 de março de 2020

O tempo e os contextos: as duas fases de contaminação pela Covid na UE

1. O alastrar da Covid-19 na União Europeia (UE28) não ocorreu ao mesmo tempo em todos os Estados-membros, devendo ser assinaladas duas fases distintas de contaminação. A primeira registou-se entre 24 janeiro e 4 fevereiro (12 dias), atingindo a França, a Alemanha, a Finlândia, a Itália, o Reino Unido, a Suécia, a Espanha e a Bélgica. A segunda ocorreu depois de uma sequência de 20 dias (5 a 24 de fevereiro) em que nenhum novo Estado-membro foi afetado, iniciando-se a partir de então a contaminação dos restantes, entre 25 de fevereiro e 9 de março (14 dias).


2. Este desfasamento temporal parece estar a contribuir, entre outros fatores, para um impacto distinto da epidemia nos dois grupos de países, em termos de casos confirmados e de letalidade. De facto, representando cerca de 68% da população da UE28, os Estados-membros da Fase 1 perfazem cerca de 89% dos casos confirmados e cerca de 96% do total de mortes (até 24 de março). Valores que apontam para um rácio de 52 casos confirmados por 100 mil habitantes (15 por 100 mil nos países da Fase 2) e para uma Taxa de Letalidade (percentagem de mortes no total de confirmados) a rondar os 6,4% (valor que desce para 2,0% no grupo de países que integram a segunda fase de contaminação).


3. Claro que, tendo o início do contágio ocorrido há mais tempo nos países que integram a Fase 1, é expectável que estes apresentem, no seu conjunto, indicadores de impacto mais severos a 24 de março. Contudo, se procedermos a uma comparação dos primeiros 21 dias de aceleração do ritmo de contágio nos dois casos (a comparação possível à data recente), contados a partir do momento em que se atinge o patamar dos 100 infetados (que é sensivelmente quando a dinâmica de crescimento exponencial tem início), continuamos a registar diferenças substantivas entre estes dois grupos de países da UE28.


4. Em termos de infetados, se numa fase inicial as curvas dos Estados-membros da Fase 1 e da Fase 2 são coincidentes, a partir de certo momento (13º dia) o conjunto de países afetados na fase inicial regista um crescimento exponencial mais expressivo. Mesmo quando, em termos de rácio de infetados pela população residente, os países da Fase 2 apontam para níveis de contaminação superiores (sugerindo que estes países, por se confrontarem mais tarde com a epidemia, puderam, no seu conjunto, reagir de outro modo e intensificar de forma mais atempada a realização de testes). O que terá contribuído, a par da adoção de medidas de contenção mais cedo, face aos países da Fase 1, para uma Taxa de Letalidade mais reduzida, no caso dos países que integram a Fase 2.

5. Significa isto que, muito provavelmente, o desfasamento temporal entre os dois momentos de contaminação permitiu aos países da Fase 2, no seu conjunto, registar uma curva da Covid-19 um pouco mais achatada, que favorece a capacidade de resposta dos sistemas de saúde e que, desse modo, contribui para uma menor letalidade da epidemia. Ou seja, perante a evidência trágica do potencial de contaminação e letalidade do vírus em países afetados mais cedo (Itália e Espanha), os países da segunda fase tiveram a oportunidade de reagir melhor, tanto ao nível da resposta das autoridades públicas (com a adoção mais atempada de medidas de contenção), como ao nível dos comportamentos individuais e coletivos perante a ameaça, inicialmente desconhecida e incerta nos seus impactos. Como diz o povo, e para terrível infortúnio dos países da Fase 1 mais atingidos, «candeia que vai à frente ilumina duas vezes».

6. É também por tudo isto que são profundamente estúpidas e de facto «repugnantes», como referiu oportunamente António Costa, as declarações do ministro das Finanças holandês Wopke Hoekstra - pelos vistos uma espécie de aprendiz de Bolsonaro europeu - que sugeriu que a Comissão Europeia «devia investigar países, como Espanha, que afirmam não ter margem orçamental para lidar com os efeitos da crise provocada pelo novo coronavírus». Quis o acaso, e só o acaso, que não calhasse ao seu país encontrar-se entre os primeiros a ser contaminados pelo vírus, podendo assim beneficiar, em tempo, da aprendizagem dramática que os primeiros países afetados tiveram que fazer. Aprendizagem pela qual deveria, para além do sentido de solidariedade, estar profundamente grato.

Sobre o novo decreto-lei relativo ao lay-off 1


Fonte: Instituto da Segurança Social

Ontem, foi publicado em Diário da República o novo diploma que vem substituir a Portaria n.º 71-A/2020.

Comece-se por uma boa notícia: apesar do lay-off ser actualmente responsabilidade do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, o financiamento desta medida não recairá sobre a Segurança Social, mas sobre o Orçamento de Estado. Resta saber quando.

Depois, há aspetos menos positivos.

Logo no seu preâmbulo, o decreto-lei anuncia que o objectivo das novas disposições “apoiar a manutenção dos postos de trabalho e mitigar situações de crise empresarial.”
Louva-se a ideia de “apoiar a manutenção”, mas o diploma assume que não se pretende manter os postos de trabalho (sobre essa questão lá voltaremos). Trata-se, sim, de uma medida que, mitigando os efeitos da crise gerada, visa apoiar as empresas. 
O Governo poderia ter feito recurso a diversas medidas de apoio às empresas. Mas optou pelo lay-off. Porquê? Segundo o  Governo porque a
“redução temporária do período normal de trabalho ou suspensão do contrato de trabalho (...) tem demonstrado ao longo da história ser um instrumento robusto para ajudar a responder à situações de crise como a que o País atravessa”.
Ora, isso não é verdade.

Como se observa no gráfico, o lay-off não tem sido o instrumento eficaz para impedir o desemprego em situações recessivas. Não só abrange um número diminuto de empresas e trabalhadores, como tem sido pouco usado em conjunturas recessivas. A figura lay-off sofreu uma quebra da sua utilização e nem impediu aquilo que se verificou: um recurso maciço ao despedimento colectivo e ao despedimento em geral.

Veja-se o caso de 2009/10.
Note-se que, mesmo em 2009, primeiro ano da crise internacional em que se fez sentir a subida do desemprego nos centros de emprego, apenas 423 empresas – existem mais 300 mil – recorreram ao lay-off, abrangendo no máximo 9788 trabalhadores. Nesse ano de 2009, o desemprego apoiado pela Segurança Social subiu de 454,5 mil para 547,5 mil (mais 92 mil trabalhadores). E em 2010, o desemprego apoiado pela Segurança Social atingiu 547,5 mil para 582,6 mil (mais 35 mil pessoas). Mas apenas recorreram ao lay-off cerca de 266 empresas, abrangendo entre 1,3 mil e 2,3 mil pessoas.

Veja-se o caso de 2011/12.
Houve 550 empresas que recorreram ao lay-off envolvendo cerca de 4 mil trabalhadores. Mas o desemprego apoiado pela Segurança Social atingiu o seu pico nesse ano. Subiu de 553,2 mil para 638,3 mil (mais 85 mil pessoas). Nunca esquecer que o desemprego em sentido lato abrangeu 1,4 milhões de pessoas!

Não, o lay-off  não tem demonstrado ao longo da história ser um instrumento robusto para ajudar a responder à situações de crise como a que o País atravessa”

E, nesse caso, o que acontecerá a seguir?

A única União na Europa é a dos mercados

“Um Ministro das Finanças alemão é um Ministro das Finanças alemão, a filiação partidária não tem qualquer papel.” 
Olaf Scholtz, Ministro das Finanças da Alemanha, SPD, aquando da sua indigitação

O verniz estalou na reunião do Conselho Europeu. A reunião do Eurogrupo anterior terminou em impasse. A reunião do Conselho reforçou-o, na medida em que as posições de parte a parte foram muito mais públicas e significativas.

Começando pelo conteúdo: as propostas em cima da mesa eram a emissão de Eurobonds versus empréstimos do Mecanismo Europeu de Estabilidade com a respectiva condicionalidade (nome eurocrata para programas de austeridade). Os termos do confronto são já de si deprimentes: de um lado, os Corona Bonds, uma resposta comum mínima e provisória, cujas vantagens em relação ao programa PEPP anunciado pelo BCE seriam sobretudo potenciais: 1) a sua futura transmutação em eurobonds permanentes ou, mais interessante e menos provável, a possibilidade de o BCE os comprar e depois apagar do balanço. Do outro, a proposta de regresso aos programas punitivos da crise anterior, acompanhada da habitual conversa dos virtuosos e dos viciosos.

Completamente fora do debate esteve a hipótese, defendida por um número crescente de economistas pela Europa fora, de responder a uma crise absolutamente extraordinária com financiamento monetário. Como aqui foi explicado, financiamento monetário significa a emissão de moeda que não tem como contrapartida a transferência de ativos para o balanço do Banco Central ou, para falar um pouco mais em português, o financiamento que não assenta na contração de uma dívida. Aparentemente, mesmo os Governos mais sensatos partiram para esta discussão dando essa hipótese como indesejável ou inviável.

O resto está nos jornais. A intransigência da Holanda e da Alemanha nesta matéria é lendária, seja na versão burgessa dos responsáveis holandeses, seja na versão mais recatada de Merkel, própria de quem sabe que manda. A versão holandesa tem a vantagem de ser mais transparente, mostrando uma mistura de racismo com orientação ideológica. Mas a versão do Ministro das Finanças alemão é igualmente eloquente. Sou um Ministro das Finanças alemão e vocês sabem o que isso quer dizer. Alemães e Holandeses sabem que já têm o que querem da Europa e agora é mexer o menos possível.


A eliminação das políticas cambiais nacionais, a limitação do papel dos Estados nas políticas orçamentais e industriais, deixaram as economias periféricas expostas para a conquista. A Alemanha e a Holanda acumulam, ano após ano, excedentes fabulosos com os quais nem sonhavam antes da União Europeia e, sobretudo do Euro. O Euro é para as economias de centro uma espécie de desvalorização cambial permanente. Ninguém ganhou mais com a integração do que estes países. E ninguém perdeu mais do que os países da periferia. O Euro não impede guerras cambiais. O Euro é uma guerra cambial. Que a periferia perde todos os dias.

Gostei sinceramente de ouvir António Costa na reacção a esta reunião e, sobretudo, às declarações do Ministro das Finanças Holandês. São só palavras, mas as palavras são importantes. Quem não se sente não é filho de boa gente, diz o povo e tem razão. E quem quiser tomar decisões corajosas para defender o país, tem de mobilizar um sentido de dignidade nacional e popular que tem andado tão por baixo. Resta a famosa questão: que fazer?

António Costa disse que o Ministro das Finanças holandês não percebeu nada do que é a União Europeia. Temo, no entanto, que Hoekstra, tal como Olaf Scholtz, perceba muito bem e saiba muito bem qual é o seu papel. Pelo contrário, António Costa fala do “espírito da União Europeia”, invocando uma visão das relações entre Estados e povos que tem muito pouco a ver com o que é esta União Europeia. Claro que António Costa pode e deve tentar mudar a União Europeia que temos. Mas sem ilusões sobre o que temos.

Para daqui a duas semanas, ficou agendada uma reunião final sobre esta matéria, mas a de hoje também era final. Os Governos alemão e holandês sabem o que têm de fazer na próxima reunião final e em todas as que se lhe seguirem: nada. A intransigência dá votos lá em casa e quanto à diplomacia, se forem espertos, aprendem com Angela Merkel, dizem menos parvoíces em público e substituem-nas por qualquer coisa como “Estamos muito empenhados em construir uma resposta solidária a esta terrível crise.” E continuam a enrolar.

O que vai então fazer António Costa e o grupo dos 9 se a intransigência alemã se mantiver? Não pode acontecer o que sempre aconteceu, que é uma de duas coisas: um compromisso assente em concessões milimétricas da Alemanha ou uma desistência sob protesto dos países que se batem por alterações mínimas. Já basta a proposta inicial ser tão fraquinha.

Se a obstinação alemã se mantiver, os 9 países devem anunciar que tomarão, de forma coordenada e solidária, todas as medidas necessárias para proteger as suas populações e economias, incluindo as que eventualmente violem as normas do mercado interno e outras regras da União, suspensas ou não-suspensas e incluindo, claro, a reestruturação das dívidas que sejam ou se tornem agora insustentáveis, impondo perdas a todos os credores, incluindo os institucionais. E já agora, proteger as suas receitas fiscais do autêntico roubo organizado de outras jurisdições europeias, como por exemplo… a Holanda

Enquanto quem manda na UE sentir que pode ter sol na eira e chuva no nabal, nada mudará. Não sei se vamos a tempo mas, se formos, o tempo é agora.

Duas visões

A chantagem da CIP:
"As empresas não querem ter de recorrer ao desemprego. Mas o Governo tem de tomar consciência de que a melhor forma de evitar uma subida em flecha do desemprego é salvar as empresas neste período, mais ou menos longo, mas previsivelmente limitado" (Artigo de opinião de António Saraiva, presidente da CIP, Público, 27/3/2020).

No terreno:
"São já às dezenas e chegam de todo o país, da indústria à restauração, dos transportes ao sector social, passando pelas lojas e hotelaria. Mostram como as leis laborais estão a ser violadas todos os dias e vão antecipando a imagem de um mercado de trabalho debilitado por uma crise que não tem ainda fim à vista. À caixa de correio que o PCP criou na passada semana para receber denúncias de atentados a direitos dos trabalhadores (denuncia@pcp.pt) têm chegado dezenas de casos diariamente, alguns sobre centenas de trabalhadores da mesma empresa. “No essencial, 90% são questões laborais, seja despedimentos, não renovação de contratos, férias força- das, layoff com perda de rendimentos, mudança de local de trabalho”, descreve ao PÚBLICO João Frazão, da comissão política do comité central do PCP. A outra fatia corresponde a denúncias de especulação de preços ou sobre insuficiências nos serviços públicos como centros de saúde fechados, acrescenta." (Público, 27/3/2020)

Covid-19 e financiamento monetário: austeritários mudam de campo

O novo programa de compra de ativos, o chamado Pandemic Emergency Purchase Programme (PEPP), anunciado a 18 de Março, criado pelo BCE para financiar despesas dos países da moeda única com a pandemia exclui liminarmente a possibilidade de financiamento monetário, ou seja, a criação de moeda a partir do nada, ou melhor, a criação de moeda assente apenas na suficiente capacidade do soberano emissor para o fazer.

Cinco dias depois, Francesco Giavazzi vem defender que a zona euro, neste contexto, deve financiar-se com uma conjunta emissão obrigacionista, ou de muito longa maturidade, ou não amortizável. Ou seja, que a zona euro, para fazer face a esta pandemia, deve usar financiamento monetário.

Mas quem é, afinal, Francesco Giavazzi? É tão só um dos pais da hipótese da austeridade expansionista, hipótese que mostrou ser falsa, mas que, entretanto deu cobertura pseudo-científica às instituições europeias e a quem nelas de facto manda para, na sequência da crise de 2007/2008 e da sua declinação europeia de 2010/11, imporem aos países do sul da zona euro um programa de ‘ajustamento’ com pobres resultados e de uma dureza talvez sem precedentes.

O que dizer? Voltarei a este assunto. Por hoje, a minha conclusão é que there is a crack in everything / that's how the light gets in, ou, em português, há uma falha em tudo / é assim que a luz entra.


quinta-feira, 26 de março de 2020

Lay-off automático e... universal

Ainda se terá de esperar pelo novo diploma.

Mas ao final do Conselho de Ministros de hoje, o ministro da Economia Pedro Siza Vieira  - mais uma vez ultrapassando a ministra titular da Segurança Social  - sintetizou as alterações ao regime do lay-off que o tornam não só automático como quase universal. E tudo à custa dos dinheiros da Segurança Social

Disse o ministro: 

"Passam a ter acesso a este regime, todos os estabelecimentos ou todas as actividades que se tenham visto encerradas em função das medidas adoptadas seja por decisões das autoridades de saúde seja por força do decreto do governo que executa o Estado de Emergência decretado pelo Presidente da República."

Interpretação: Ora, o universo empresarial visado com o decreto do Estado de Emergência é claramente responsabilidade do Estado e, como tal, deve ser assumida pelo Estado e não pelo regime de lay-off, pago pelo Orçamento da Segurança Social. Espera-se que o Governo não se esqueça disso.    
"É também clarificado que, no caso de empresas que possam ter paralisado total ou parcialmente, seja em razão de uma quebra de fornecimentos, seja em razão de uma quebra de encomendas ou de reservas, possam ter direito de beneficiar imediatamente desta medida."

Interpretação: Ao que parece, deixa de ser exigido que se estabeleça qualquer relação causal entre a situação gerada pelo Covid19 e a situação das empresas. Basta que se registe uma quebra de fornecimentos, de encomendas ou de reservas (note-se a preocupação especial com o turismo) e lá vai a Segurança Social acudir. Ora, uma quebra é uma redução - pode ser uma diinuição menor - que não obriga à suspensão dos contratos de trabalho. A auto-estrada está, ao que parece, aberta para  Segurança Social financiar indirectamente as empresas. Trata-se nitidamente de um  subsídio. Este tipo de encargo deveria ser, mais uma vez, da responsabilidade do Estado.    

"Neste último caso, aquilo que se esclarece é que uma empresa que projecte que nos próximos tempos ter uma redução de mais de 40% da sua capacidade produtiva ou da sua capacidade de ocupação em função do cancelamento de encomendas ou de reservas pode imediatamente e sem outras formalidades, aceder a este benefício"

Interpretação: Mais uma razão! Ao que tudo indica, não basta que a empresa tenha sofrido realmente uma quebra de encomendas ou reservas. Baste que projecte ter uma quebra superior a 40%. E se a projecção falhar? Devolve os apoios? E quem vai conferir esse eventual erro de previsão? E qual será a empresa que não vai prever uma quebra superior a 40%? Era mais claro dizer que o Estado apoiasse todas as empresas, porque é isso que vai acontecer. Pior: vai apoiar aquelas empresas que estão melhor apetrechadas para pedir estes apoios. Ou seja, muito possivelmente aquelas que não precisam. E os apoios serão concedidos "imediatamente e sem outras formalidades" através dos dinheiros da Segurança Social. 

"Finalmente, para as empresas cujo encerramento não foi determinado administrativamente ou que não tenham ainda uma quebra das encomendas futuras, poderão também aceder a este mecanismo extraordinário se tiverem num determinado período de 30 dias uma quebra de facturação relativamente à média dos 2 meses anteriores a esse período ou do período homólogo do ano trasacto."

Interpretação: Se ainda faltassem empresas não abrangidas pelas anteriores disposições, eis que se prevê o alargamento a empresas que ainda nem sofram de quebra de encomendas ou reservas. Basta que a tenham tido "num determinado período de 30 dias" face à média dos 2 meses anteriores. Mas a que se refere esse período? Esperemos que o diploma esclareça. Mas duvida-se muito que o venha a fazer, porque as críticas à portaria em vigor surgiram por causa desse tipo de definições temporais. E o Governo quer agora escancarar os acessos sem quaisquer controlos.

Recorde-se que no periodo cavaquista, o Governo usou a Segurança Social para financiar a actividade do Estado - fosse através de apoios, de não financiamento dos encargos sociais, fosse até perdoando dívidas às empresas. No total, foram mil milhões de contos a valores de 1989. Hoje valeriam cerca de 13,5 mil milhões de euros. Algo que teria dado muito jeito para não afectar a sustentabilidade da Segurança Social.

Que um governo socialista tenha a coragem de ser diferente dos neoliberais. Que assuma os encargos extraordinários de uma época extraordinária e não patrocine um saque aos fundos da Segurança Social que supostamente devem servir para outros fins.
 

Guião para o absurdo


Sobre esta crise tem-se dito que teve a capacidade de transformar muitos políticos e economistas conservadores em keynesianos. Mas não se trata apenas disso: tornou-os num tipo muito específico de keynesianos – aqueles que rejeitam o agente representativo e a maximização intertemporal do consumo como aspetos fundacionais do pensamento económico.

Chegado o momento de crise, tornam-se frequentes os raciocínios baseados na propensão marginal ao consumo e nos efeitos multiplicadores no seio da economia. Todos estes efeitos são baseados em efeitos de rendimento de injeção/subtração de procura do circuito económico. Não nos efeitos de substituição em reação a choques no problema de maximização do consumidor.

Este é um movimento curioso, porque a macroeconomia dominante nos últimos 30 anos assume como patamar de legitimidade o facto de ser microfundada no comportamento otimizador de agentes representativos. Quem quer fazer modelação e ser respeitado tem de respeitar essa regra. Mas tudo isso colapsa quando se tem de explicar um raciocínio ou desenhar política económica: seria impossível convencer alguém explicando os mecanismos de um modelo de maximização intertemporal, porque eles soam absurdos. As limitações do instrumentalismo, enquanto guia metodológico que ignora a realidade das premissas enquanto enfatiza a capacidade de explicar factos estilizados, fica bem clara neste momento.

Imagine-se alguém que apenas tivesse estudado por livros de referência de macroeconomia para mestrado/doutoramentona maioria das instituições, como o livro de David Romer ou outro semelhante. Ou que teria a dizer sobre as medidas de resposta a esta crise? Pensemos só num pequeno exemplo.

Num modelo em que um agente representativo maximiza o seu consumo ao longo da vida, não há nenhum incentivo para alterar o seu padrão de consumo se considerar que está perante o um choque temporário como o que estamos a ultrapassar. Se o mercado de crédito for completo, não existindo restrições de liquidez, e um corte temporário no rendimento será compensado com recurso a crédito durante o período do choque, sem que isso afete a sua escolha de consumo a longo-prazo.

De igual modo, sem restrições de liquidez, qualquer transferência do Estado para os cidadãos não terá a capacidade de estimular o consumo privado no presente: como os consumidores maximizam o consumo ao longo da sua vida, o perfeito cálculo do futuro leva-os a saber que as transferências no presente serão compensadas por maiores taxas de imposto no futuro (num contexto em que a economia não está em pleno emprego tal não tem que ocorrer, mas o modelo assume que não existe desemprego involuntário).

A única forma de transferências para as famílias financiadas pelo Estado terem impacto no consumo presente passa por assumir que parte dos agentes têm restrições de liquidez. Ou seja, que não têm acesso ao crédito em momento de corte temporário de rendimento. O que, na realidade, são a maioria dos agentes. Quem é que pode, ou quer, contrair um crédito pessoal num momento de crise?

Imagine-se que este economista crente no agente representativo era convidado a comentar as respostas de política económica para enfrentar esta crise. O que poderia ele dizer? Algo como: “Devemos esperar uma subida pronunciada do crédito pessoal durante este período. O Estado deve assegurar que os bancos garantem liquidez à maioria dos agentes, o que prevenirá a sua necessidade de intervenção. A disponibilidade de crédito torna ineficaz e desnecessária as transferências socais do Estado. Mais disponibilidade de crédito ao consumo poupará recursos a todos nós”.

O verdadeiro guião para o absurdo.

Pode argumentar-se que eu não estou a ser honesto intelectualmente: na verdade, ninguém está a defender esta posição e, mesmo os economistas que ensinam e fazem modelação sustentada nestas proposições, reconhecem que não podem transpor a realidade estilizada dos seus modelos para analisarem uma crise real. Mas isso conduz-nos a uma outra questão: que sentido faz que uma área de conhecimento insista em basear os seus modelos em proposições que não têm adesão na realidade e em que os choques e às reações de política económica se propagam por mecanismos implausíveis? E que sentido faz que, quando têm de analisar crises reais, recorram aos mecanismos de quadros teóricos (como o multiplicador keynesiano) que tão ferozmente combatem no seio da sua disciplina? Pensemos sobre isso.

Loucura?

Estava o governo preocupado com o "emprego, emprego, emprego", a tentar criar um mecanismo de apoio às empresas e aos empregos, através de um mais que discutível layoff simplificado - mas com algumas garantias que impedissem o aproveitamento por parte das empresas (portaria nº71-A/2020 e as suas alterações)... e, de repente, tudo mudou.

Face a pressões do patronato, o ministro da Economia - que se saiba não tutela o Ministério do Trabalho e Segurança Social - anuncia que foi decidido executar-se um ... layoff automático!

Segundo o Público:
Empresas podem requerer layoff a partir de sexta-feira
Marta Moitinho Oliveira
O ministro da Economia diz que “a partir de amanhã”, ou seja, sexta-feira, estará disponível no site da Segurança Social um formulário para as empresas pedirem o acesso ao layoff simplificado. Pedro Siza Vieira, que falava na conferência de imprensa que se seguiu ao Conselho de Ministros, adiantou que o pedido é “automático”, bastando para isso a entrega desse requerimento dizendo a situação em que se insere (ou seja, o motivo pelo qual fecha), quais os trabalhadores que ficam em redução de horário e quais os que ficam com o contrato suspenso, não havendo necessidade de outros documentos, além da declaração do contabilista. O governante acrescentou que a Segurança Social pode depois pedir mais elementos. O apoio é dado “a partir da data em que o pedido é solicitado”. Siza Vieira disse ainda que está previsto que os reembolsos da Segurança Social sejam feitos “numa data certa” ainda a definir para que as empresas possam programar a tesouraria.
(Se não viu um post posterior, leia aqui as declarações do ministro da Economia à saída do Conselho de Ministros).

Este é o risco de se perder as rédeas do cavalo. E quem paga, nesta conjuntura, vai ser a Segurança Social, mesmo que as empresas tenham recursos suficientes para pagar aos seus trabalhadores. Portanto, a portaria estipula condições, mas a Segurança Social - aquela que tanto se gosta de dizer que está em ruptura - vai pagar mal seja apresentado o pedido de apoio.

Mais valia que o Estado assumisse esse custo e desembolsasse um subsídio às empresas nessa situação. Porque, daqui de fora, parece um saque aos dinheiros da Segurança Social.

Espera-se, ao menos, que haja uma cláusula que estipule que, caso se prove que a empresa possuía recursos suficientes, o pedido será considerado como tentativa de fraude e punível de acordo com a lei.

Para lá dos gritinhos


É muito giro ver gente de esquerda por aí aos gritinhos de entusiasmo: “Ah, agora até os liberais reconhecem a importância do Estado!” São gritinhos profundamente idiotas. Não há nenhum liberal que defenda que o mundo se organiza sem Estado e sem governo. Isso é, quando muito, um anarquista, não um liberal. Um liberal defende um Estado limitado e com funções específicas, e uma delas é certamente o dever de enfrentar com firmeza o combate a uma crise como esta.

Não sei quem à esquerda andou por aí aos gritinhos de entusiasmo. Quem lê o Público já ouviu certamente os gritinhos profundamente idiotas de João Miguel Tavares: gritinhos de apoio à austeridade, que degradou os serviços públicos universais de que todos agora reconhecidamente dependem; gritinhos de apoio ao Estado, certamente, mas a um Estado que desregulamenta, liberaliza e privatiza, a um Estado que transfere “com firmeza” recursos de baixo para cima da pirâmide social e de dentro para fora do país; gritinhos de apoio a uma entidade que, na realidade, já não é bem um Estado, dados os constrangimentos supranacionais, de resto tão bem teorizados pelo neoliberais ao longo da sua globalista história.

É claro, quase trivialmente claro, que para lá da ideologia da mão invisível ou da ordem espontânea, a economia política liberal e neoliberal nunca prescindiu de um Estado selectivamente forte na teoria e na prática, de Adam Smith a Milton Friedman, passando por Friedrich Hayek.

A minha fórmula preferida nesta tradição é mesmo a de Hayek, que dá para muito: “é o carácter e não o volume da actividade estatal que é importante”, visto que “uma economia de mercado funcional pressupõe certas actividades por parte do Estado”, havendo mesmo muitas outras que pode tolerar, informa-nos-nos de forma detalha em A Constituição da Liberdade. No fundo, é aceitável tudo o que reforce os direitos capitalistas. Smith pelo menos reconhecia os perigos da especulação ou da subordinação laboral e imperial.

Já agora, Milton Friedman discutia, em 1951, “o neoliberalismo e as suas perspectivas”, num texto que encabeça uma colectânea coordenada pelo seu mais importante e apologético biógrafo. Numa intervenção típica deste movimento, Friedman valoriza aí a luta das ideias e rejeita associações ao laissez-faire no combate ao “colectivismo”, reconhecendo que uma ordem concorrencial de mercado requer múltiplas instituições públicas de suporte que a garantam e que corrijam as suas eventuais falhas, mas através de políticas conformes ao seu desenvolvimento de novos mercados. Em suma, reconhece que “o neoliberal está disposto a dar ao Estado grandes poderes e responsabilidades”. Foram realmente grandes os poderes no Chile de Pinochet, por exemplo.

A questão na história do capitalismo realmente existente nunca é intervir ou não intervir, mas sim em nome de que interesses e de que valores é que se intervém. Na periferia, um liberal ameaçado pode facilmente transformar-se num fascista, enquanto que no centro pode até transformar-se num social-democrata. Tudo o resto são mesmo gritinhos idiotas.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Nas traseiras da caserna

Quando se exorta um povo a partir para a guerra, é de desconfiar. Em geral, precisam da carne de todos para uma guerra já decidida à sua revelia.

A guerra é a coisa mais horrível que existe. E no caminho, transfere-se o poder para uma unidade de comando. Evocar que a "democacia não foi suspensa" é já meio caminho para o fazer. Por alguma razão, nenhum país até agora o fez nestes moldes, e tudo foi a despropósito.

A guerra que Marcelo Rebelo de Sousa convocou não é uma guerra. Se fosse, Marcelo Rebelo de Sousa nunca deveria ser considerado aliado porque sempre esteve contra um reforço do Serviço Nacional  de Saúde. Mas não deixa de ser uma tentativa de transferência do poder, para quem define quinzenalmente o Estado de Emergência - Marcelo Rebelo de Sousa.

Mais grave - e mais patético - é quando a transferência de poder se faz por razões diferentes das evocadas. A declaração do Presidente refere cinco razões, mas a essencial evoca. a necessidade de  "medidas mais drásticas" que as adoptadas pelo Governo.
Primeira – Antecipação e reforço da solidariedade entre poderes públicos e deles com o Povo. Outros países, que começaram, mais cedo do que nós, a sofrer a pandemia, ensaiaram os passos graduais e só agora chegaram a decisões mais drásticas, que exigem maior adesão dos povos e maior solidariedade dos órgãos do poder. Nós, que começamos mais tarde, devemos aprender com os outros e poupar etapas, mesmo se parecendo que pecamos por excesso e não por defeito.
Mas nem Marcelo Rebelo de Sousa as definiu, nem a sua prática desde o início da crise mostram esse interesse por "decisões mais drásticas". Pelo contrário. As razões de Marcelo Rebelo de Sousa são fracas, mal definidas e inconsistentes face à prática quotidiana do Presidente da República.

Marcelo Rebelo de Sousa só se mostrou publicamente interessado pela epidemia quando já morriam milhares em todo o mundo, mesmo às nossas portas. E mesmo assim teve dias. Esteve calado durante a quarentena - obrigatória pela sua prática leviana - e, durante esse período, foi insultado pela extrema-direita de ser medroso. Quando pôde, Marcelo Rebelo de Sousa vestiu a farda, calçou as botas e, carregando a bazuka, assinou o decreto de Estado de Emergência, acolhendo atrás de si todos aqueles que gostariam de reverter maioria de esquerda no Parlamento.

A longa cronologia que segue não é exaustiva e, ainda assim, é demasiado longa. Ninguém a lerá. Foi feita apenas a partir das notícias do jornal Público e na página oficial da Presidência. Vai de Fevereiro até 8/3 (quando o PR esteve em  quarentena).

Rebobine-se o filme e veja-se como o PR tratou displicente e ligeiramente o assunto que hoje é dramático. Faça-se contas aos dias de incumbação do vírus e julgue-se os comportamentos perigosos de Marcelo Rebelo de Sousa. Pior: a forma como Marcelo Rebelo de Sousa preencheu os seus dias contrasta escandalosamente com a linguagem bélica agora usada.

Se isto é uma guerra, Marcelo Rebelo de Sousa esteve - até ao últimos dos dias - nas traseiras da caserna a jogar cartas e a beber cerveja. E agora quer ser general.

Simétrica, uma ova

Parem de dizer e escrever que "esta crise é simétrica". Raramente uma crise, qualquer que seja a sua origem, produz efeitos equivalentes nos diferentes países. Desta vez não é diferente.

Desde logo, há sectores mais afectados do que outros e as estruturas produtivas dos países diferem muito. Por exemplo, os países onde o peso do turismo é maior e/ou que são mais dependentes do exterior para a produção de equipamentos médios e bens essenciais, tenderão a ser muito mais afectados do que os restantes.

Da mesma forma, os custos de financiamento tendem a aumentar mais para os países que, por diferentes motivos, são considerados como sendo mais arriscados para os investidores.

Como em qualquer crise, vamos ter efeitos muito diferentes entre os países da UE - e é por isso que vai se tão difícil encontrar uma solução consensual.

Em defesa do alívio quantitativo para o povo

Como outros neste blogue, tenho defendido o financiamento monetário à economia. Aqui, por exemplo, defendi uma medida específica de financiamento monetário, a injeção de dinheiro diretamente no bolso das pessoas, por assim dizer, ou alívio quantitativo para o povo (people’s quantitative easing), como outros preferem.


Muitas vezes para desqualificar esta política monetária, há também quem a designe de dinheiro atirado de um helicóptero (helicopter money), relevando assim a associação com Milton Friedman, o conhecido monetarista a quem a paternidade desta última expressão é geralmente atribuída.

Acerca deste assunto, duas notas.

Primeiro, as ideias a quem as produziu. A proposta política de dar diretamente dinheiro às famílias foi primeiramente formulada por Silvio Gesell em 1906 como explica Keynes no capítulo 23 da Teoria Geral.

Vale a pena ler com atenção porque, entre outras razões, a enunciação da proposta aborda também os mecanismos propostos por Gesell para lidar com a possibilidade de a injeção monetária ser aforrada, ao invés de gasta, possibilidade sempre assinalada pelos detratores desta abordagem no seu afã de mostrar que a mesma não funciona. Pelos vistos, lê-se menos Keynes do que se apregoa.

Segundo, as ideias como elas são. É verdade que Friedman apoia a ideia de atirar dinheiro às pessoas de um helicóptero? Não, não é. Esta é uma ideia progressista e Friedman é o decano das políticas monetaristas.

Dito isto, é verdade que, hipóteses delirantes (como, entre outras, a da oferta monetária exógena) e uma escrita tortuosa e obscura (que, esconde uma agenda política regressiva sob um foguetório de desnecessária formalização matemática), tornam difícil discernir qual é, de facto, a posição de Friedman acerca deste assunto.

Ainda assim, meu ver, não pode haver dúvidas. Como pode alguém, que afirma que uma “política razoavelmente próxima do ótimo provavelmente seria manter constante a quantidade absoluta de dinheiro” (página 46), advogar que se dê dinheiro, criado do nada, às pessoas? Como também explica uma das destacadas vozes da Teoria Monetária Moderna, William Mitchell, não pode.

Em suma, a ideia do helicopter money, na sua forma de dinheiro dado diretamente às pessoas, não é – originalmente - de Friedman que, de resto, não a defende e, pelo contrário, se lhe opõe.

No presente contexto histórico de uma adversidade económica potencial praticamente sem rival na História, quando a economia pode entrar em colapso, porque os rendimentos de quem trabalha, pura e simplesmente, se eclipsam, chamemos-lhe o que quisermos. Esta é uma boa ideia.

Não precisamos de dívida, mas de financiamento. Financiamento para as famílias e para os Estados: é tão simples que a mente bloqueia. Até os economistas convencionais começam a percebê-lo. Cada vez em maior número.

A UE no seu melhor. Uma vez mais

"Ao mesmo tempo que, nos Estados Unidos, o Congresso se prepara para aprovar um plano de estímulo económico equivalente a quase 10% do PIB norte-americano, na zona euro mantém-se as dificuldades em acertar uma resposta comum poderosa", lê-se hoje no Público.

Não são só os reduzidos montantes que estão em causa. É a natureza da resposta. Nos EUA aprovou-se um plano vasto, que inclui entregar dinheiro directamente às pessoas, a par dos apoios às empresas e ao reforço das despesas como sistema de saúde - tudo apoiado por uma intervenção directa do banco central. Deste lado do Atlântico, o Eurogrupo não conseguiu sequer o básico, que seria acordar sobre a utilização de um instrumento que já foi criado há vários anos (o Mecanismo de Estabilidade Europeu).

Para piorar as coisas, nada é dito sobre o que acontecerá no futuro ao países que hoje já têm dívidas públicas elevadas e que terão de as aumentar ainda mais para combater os efeitos do covid-19. Se assim continuar, qualquer governo razoável irá conter as suas despesas (apesar da urgência) e qualquer investidor racional irá hesitar em emprestar dinheiro aos países em causa. Ou seja, a queda da actividade económica será maior do que deveria ser, os custos de financiamento serão maiores do que poderiam ser e teremos pela frente uma década de austeridade reforçada.

A UE no seu melhor. Uma vez mais.

[Um à-parte: algumas das palmas que se batem às janelas todas as noites deveriam ir para os jornalistas Sérgio Aníbal do Público e João Silvestre do Expresso, que têm feito um trabalho notável no acompanhamento dos temas económicos relacionados com a crise do covid-19.]

As pessoas não são bonecos que funcionam a pilhas

Na edição do passado sábado, o Expresso ouviu dez economistas sobre o impacto da pandemia do coronavírus nas contas de 2020. Daniel Bessa, um dos economistas ouvidos pelo semanário, defende a páginas tantas que «agora não vale a pena estimular o consumo porque os consumidores não saem à rua. A única solução é acudir à tesouraria das empresas para que elas ainda cá estejam quando o vírus passar». Uma resposta que é todo um programa.

Talvez Daniel Bessa não tenha ainda percebido que não se trata propriamente de «estimular o consumo» (embora também isso seja importante, como a estupidez da austeridade, de que Bessa foi entusiasta, demonstrou). Trata-se de constatar que, mesmo não saindo à rua (e reduzindo por isso despesas com transportes ou vestuário, por exemplo), as pessoas precisam de se continuar a alimentar e de assegurar encargos com a renda ou a prestação da casa, a par dos consumos domésticos de eletricidade, água e gás. Ou seja, que é preciso garantir que as famílias não têm uma quebra de rendimento que comprometa a sua subsistência nos próximos tempos.


Poderia admitir-se, é verdade, que quando Daniel Bessa diz que «a única solução é acudir à tesouraria das empresas», está a pensar nos salários dos trabalhadores e na necessidade de evitar despedimentos. Contudo, não só não o diz (e era fundamental que o dissesse) como seria estranha, nesse caso, tamanha repulsa pelo apoio às famílias (que, nas circunstâncias em que nos encontramos, Bessa chama de «estímulo ao consumo»). O objetivo parece ser apenas, de facto, o de fazer com que as empresas «ainda cá estejam quando o vírus passar». Como se as pessoas fossem uma espécie de bonecos a pilhas, que se podem desligar por uns tempos.

terça-feira, 24 de março de 2020

Estado ou Segurança Social?

Ontem na entrevista que deu à TVI, o primeiro-ministro referiu que o lay-off custará mensalmente "cerca de mil milhões de euros ao Estado".

O lay-off é, por definição umas das medidas de apoio às empresas e ao emprego que é - erradamente - uma das incumbências da Segurança Social. A Segurança Social paga grande parte dos salários dos trabalhadores envolvidos. E, portanto, esse custo é, directamente, suportado pela Segurança Social. Mas não deveria ser. A própria desagregação da taxa social única (TSU) que integra o peso de cada eventualidade que a TSU cobre - não prevê os encargos com este tipo de apoios.

A Segurança Social é um sistema de protecção dos trabalhadores que os protege ao longo da sua vida, desde o nascimento até à morte. E sendo este layoff resultado de uma pandemia que se pode transformar numa recessão, mais razões há para que esse custo seja pago por todos os portugueses. Até porque evitar uma recessão é vantagem, de todos os portugueses e não apenas dos trabalhadores. E portanto, não deverão ser só os trabalhadores a pagá-lo.

Foi essa a intenção de António Costa ao dizer que esse encargo era do Estado (e não da Segurança Social)? Quis António Costa apenas referir-se ao Estado no sentido genérico referindo-se às instâncias públicas? Confundiu Estado com Sector Público Administrativo - que inclui a Administração Central (formalmente designado por Estado) e a Segurança Social?

Não se sabe, mas o seu esclarecimento é da máxima utilidade.

Não há alternativa: somos todos socialistas. Quando a coisa aperta.

Nos EUA, quando a administração Trump informou o congresso que estava a considerar o reembolso dos hospitais pelo tratamento de cidadãos dos EUA infetados com o vírus e sem seguro de saúde, os Republicanos, que sempre se opuseram à presença do Estado na saúde, vieram prontamente esclarecer que, obviamente, a sua posição não era assim tão absoluta. “Isto pode ser considerado medicina socializada”, defendeu Ted Yoho, um senador republicano da Flórida, “[m]as em face de um surto, de uma pandemia, quais são as tuas opções?”.

E a Uber? O que nos diz essa empresa farol do empreendedorismo escravocrata, que até agora fazia tudo ao seu alcance para não reconhecer a relação de trabalho com os seus condutores, esquivando-se, assim, ao pagamento de contribuições e outras regalias sociais? Parece que agora já pensam que, face à pandemia, essa invenção do horrível socialismo, que dá pelo nome de baixa médica paga, pode não ser má ideia.

Tudo isto, acima, pode ser lido no pasquim revolucionário por excelência, senhoras e senhores, The New York Times.


No Reino Unido, com os herdeiros de Margaret Thatcher no poder, a falência iminente do sistema privatizado de transportes obriga o governo à sua nacionalização. “É temporário” dizem-nos. E nós acreditamos. Sem a devida resposta popular, as empresas falidas oportunamente regressarão limpas de prejuízos ao setor privado. 


Em Portugal, o Observador* – isso mesmo, o Observador – diz ter um “Plano para a Comunicação Social enfrentar as consequências da pandemia”, mas, numa leitura na diagonal, podemos rapidamente concluir que não é plano coisa nenhuma mas, tão só, e apenas, a exigência razoavelmente malcriada de um subsídiozito.

O “jornal” explica-nos candidamente que “não é favorável, como princípio, a quaisquer apoios do Estado específicos para as empresas em geral e em particular para as da Comunicação Social” –, mas que decorre de uma emergência criada pelo quase desaparecimento do mercado de publicidade.”

Adivinhem de quem é a culpa? Das “autoridades”, do Estado, obviamente. De quem mais poderia ser? “Esta quebra, aliás, resulta das medidas tomadas pelas autoridades para suspender ou limitar a actividade económica com vista a conter a epidemia”.

Mas a coerência está lá toda, claro, o mercado resolve tudo, somos contra a intervenção pública em todas as circunstâncias, exceto quando o aperto nos bate à porta, ou melhor, à carteira. É preciso ter topete.

De facto, quando a coisa aperta, não há alternativa, somos todos socialistas. Depois da crise, se não o impedirmos, voltamos ao mesmo: socialismo só para os ricos.

* Desculpem, por favor, mas não coloco o link. Os tempos impõem contenção sanitária.

A crise existencial da direita económica portuguesa


No programa Choque de Ideias da RTP3, Fernando Alexandre defendeu ser essencial  a compra de dívida pública dos estados da zona euro por parte do BCE neste momento. E eu concordo.

No entanto, quando confrontado com o facto de essa ser uma medida há muito exigida pelo campo da esquerda como resolução para a anterior crise da zona euro, mostrou-se visivelmente agastado e soltou de rajada dois argumentos para salvaguardar a sua coerência em relação ao passado:

1) Que essa compra pelo Banco Central trará inflação. "Não há almoços grátis".

2) Que este mecanismo não seria apropriado para resolver a crise de 2010 sem recurso à austeridade, porque "desta vez é totalmente diferente".

Para estas afirmações só há um antídoto: perguntar porquê até à exaustão.

Como já defendi aqui, não há nenhum motivo razoável para esperar que uma inflação descontrolada suceda  nem para considerar que igual solução não teria evitado o sofrimento social da austeridade em 2011.

O que estamos a assistir é a um conjunto de economistas num ato de contorcionismo argumentativo, perante o dilema entre defenderem o que acham certo e, ao mesmo tempo, manterem a coerência face à  sua posição de inevitabilidade da austeridade na crise passada.

Todo o apoio é bem-vindo neste momento. Mas, pela seriedade no debate, não deixemos passar isto em branco.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Há coisas que não se compreendem...


Confesso que não compreendo os economistas de esquerda que apelam à instituição de eurobonds, sobretudo porque conhecem a economia política da integração: qualquer mecanismo de mutualização do risco deste tipo será acompanhado pelo reforço da condicionalidade política supranacional e logo pós-democrática. Teríamos ainda mais comissários a falar inglês com sotaque no Ministério das Finanças, metendo o bedelho em tudo. Em relações internacionais, nesta zona, nem um snack é grátis. 

Entretanto, enquanto o constrangimento do euro não vai para um dos caixotes do lixo, fazendo companhia às regras orçamentais e das ajudas de Estado, as euro-obrigações não oferecem vantagem óbvia em relação ao programa mínimo de um Banco Central, mesmo que seja o BCE: intervir no mercado secundário, comprando títulos, garantindo taxas de juro duradouramente baixas para os títulos de tesouro nacionais, sendo que o Banco que ainda não é de Portugal devolve ao Estado português, sob a forma de dividendos, o que este paga em juros. Obviamente, ainda ficamos sob a chantagem do BCE, mas pelo menos não temos reforço do mando supranacional que já existe.

Para lá deste programa mínimo, os Estados poderiam ter acesso ao mercado primário, comprando-lhes o BCE diretamente os títulos, complementando ou substituindo-se aos bancos como fazedor de mercado, assumindo de forma ainda mais clara que as condições de financiamento são determinadas politicamente. Na zona euro, isto equivale monetariamente a um unicórnio.

Finalmente, o Banco Central poderia fazer o que a Reserva Federal está prestes a fazer e optar pelo financiamento monetário, neste caso creditando as contas das famílias. E quem diz as famílias, poderia dizer também os Tesouros nacionais. É tão simples que a mente bloqueia, como dizia o grande John Kenneth Galbraith. E o financiamento monetário tem a vantagem de não deixar lastro de dívida. Seria uma operação excepcional para tempos excepcionais.

Estou convencido que a elite alemã preferiria acabar com o euro, antes de dar almoços, lanches e jantares grátis aos povos a sul. E também por isso os povos terão de colocar fim a esta distopia económica e monetária mais cedo do que tarde.

Nada supera um Banco Central na dependência do governo nacional. É tudo mais simples, rápido e democrático.

Despedimentos

Continuamos à espera que Marcelo Rebelo de Sousa reitere o que disse o Papa Francisco sobre os despedimentos:
"Uma empresa que despesa para se salvar não é uma solução. Neste momento, mais do que despedir, há que acolher e sentir que há uma sociedade solidária".

Guia para o atual debate económico e político


Vivemos tempos de convulsão. No espaço de poucas semanas, algumas das nossas maiores certezas foram desfeitas. A minha geração, que vivia com a expetativa de só ter a temer os acidentes ou as traições do próprio corpo, que para a maioria chegariam lá pelos 80 anos, sob a forma de uma doença coronária ou de uma qualquer forma de cancro, está hoje em isolamento por causa de um vírus. O mundo ocidental, que tinha a soberba de achar que o patamar de condições sanitárias que atingira o colocava a salvo destas crises, está hoje paralisado por causa de uma doença infeciosa. Aquilo que pensávamos só poder conhecer por relato histórico ou ficcional acontece hoje à nossa porta.

No debate económico associado à crise, reina também a maior confusão. Os termos da discussão dos últimos anos esfumaram-se em escassos dias. Conceitos como a emissão monetária em mercado primário ou o helicóptero monetário são atirados para o debate público, sem que a maioria da população tenha capacidade de os entender. Como naquelas comédias de sábado à tarde, em que um rapaz acorda e constata que é uma rapariga ou uma jovem de 16 acorda com 40 anos, economistas conservadores vêm apelar a propostas de ação do BCE que só se ouviriam nos círculos da esquerda à esquerda do centro até há duas semanas. Académicos respeitados, que fizeram uma parte importante do seu percurso a declarar a virtude da independência dos bancos centrais como antídoto para os impulsos destruidores do Estado para a economia, vêm agora a terreiro propor o fim da independência dos bancos centrais como única solução para enfrentar aquela que se prevê ser uma das mais violentas recessões do último século.

O texto que se segue é uma modesta tentativa de mapear os atuais termos do debate e contribuir para o esclarecimento de conceitos que hoje se encontram no espaço público mas que não se encontram ao alcance da maioria da população sem formação em economia. Formar juízo crítico e não estar à mercê da opinião dos “especialistas” é um importante exercício democrático em tempos como o que atravessamos.

A crise já está a mudar as regras do jogo


Nos últimos dias têm-se multiplicado os pacotes financeiros apresentados pelos governos para fazer face à crise que atravessamos, que ameaça tornar-se uma profunda recessão. Um dos aspetos comuns é o estabelecimento de linhas de crédito e diferimentos fiscais para as empresas afetadas pelo surto, uma medida que tem importância por garantir liquidez imediata a setores que de outra forma ficariam estrangulados. O problema é que o endividamento no setor empresarial já era grande antes da crise e este apoio não compensa os custos que se prevêem dado que o período de distanciamento social (e consequente redução das encomendas e da procura) ainda agora começou e pode ser longo.

Gabriel Zucman e Emmanuel Saez, dois economistas que se têm destacado no trabalho com Thomas Piketty para estudar a evolução das desigualdades de rendimento e riqueza, propõem outro caminho: que os governos atuem como “pagadores de último recurso” e cubram os custos reportados pelas empresas que têm de interromper a atividade, permitindo que mantenham os trabalhadores. A ideia é acertada, mas tem o problema de parecer sugerir que a segurança social se substitua às empresas e garanta o rendimento dos trabalhadores, o que pode ser incomportável se for feito com base em endividamento.

Na revista Project Syndicate, Pavlina Tcherneva pergunta-se “O que faria Roosevelt?” nesta situação. Face à ameaça de despedimentos em massa, aumento do desemprego – a OIT estima que se possam perder 25 milhões de empregos em todo o mundo – e consequente espiral recessiva, a resposta é clara: os governos devem intervir e mobilizar os recursos necessários para combater a pandemia, garantir que a maioria das pessoas possa trabalhar a partir de casa e que os restantes têm condições de saúde no trabalho reforçadas, assegurar os rendimentos de todos (incluindo trabalhadores independentes e precários), assegurar o acesso à habitação e diminuir custos domésticos para as famílias (água, luz, gás, internet, etc.).

É também preciso saber qual a dimensão dos estímulos orçamentais necessários. Hoje em dia, até entre economistas do FMI se reconhece o efeito multiplicador da despesa pública em tempos de crise: isto significa que, por cada euro investido pelo Estado, o PIB aumenta mais do que um euro. J.W. Mason, professor de economia da City University of New York (CUNY), estima que, para os Estados Unidos e face à contração prevista do produto, este valor ande à volta de 3 biliões de dólares (cerca de 14% do PIB), bastante mais do que o anunciado até agora por Trump. Josh Bivens, do Economic Policy Institute, defende que o estímulo tem de ser de pelo menos 2,1 biliões. Os números impressionam e revelam a dimensão da crise.

Isto dá-nos uma ideia do montante do estímulo orçamental necessário para responder à pandemia. Na Alemanha, Espanha, Itália e França os governos têm adotado medidas musculadas. Por cá, as medidas anunciadas pelo governo até agora são tímidas – os apoios às empresas representam pouco mais de 4% do PIB – e a ausência de resposta aos despedimentos e violações do código do trabalho que já estão a ocorrer é preocupante. Exigir como contrapartida dos apoios públicos às empresas que não despeçam trabalhadores é o mínimo nesta fase. Mas noutros países, como Itália, já se proibiram todos os despedimentos.

Outro aspeto importante a ter em conta é que muitas grandes empresas que agora requerem resgates do Estado passaram os últimos anos a gastar boa parte dos lucros em “buybacks” de ações para remunerar os acionistas e os gestores (que dependem do desempenho da empresa), em vez de os reinvestirem ou aumentarem os salários. Na American Airlines, por exemplo, o enriquecimento foi de tal ordem que o diretor-executivo, Doug Parker, chegou a afirmar: “Acho que nunca mais vamos perder dinheiro”. Três anos depois, face à hipótese de falência, a empresa pode vir a estender a mão ao Estado. Outras empresas, como a EasyJet, planeiam manter a distribuição de dividendos mesmo recorrendo ao dinheiro público. Há quem defenda que uma das condições do resgate seja travar estas práticas.

E como é que se financiam os estímulos orçamentais? A questão costuma ser levantada sempre que se fala em aumentar a despesa, e a resposta vai-se tornando evidente: os governos podem financiar a despesa pública através do banco central, algo a que se tem chamado “dinheiro de helicóptero”. No caso de Portugal e da zona euro, isto teria de passar pela atuação coordenada dos países com envolvimento do BCE; a Reserva Federal (nos EUA) ou o Banco de Inglaterra podem fazê-lo diretamente. A ideia é que os bancos centrais podem recorrer à impressão de moeda para financiar o investimento dos países ou mesmo a transferência de dinheiro para as pessoas (já foi aprovada em Hong Kong e Singapura e está a ser considerada nos EUA). O receio de que faria disparar a inflação parece ter diminuído após a experiência da última década, na qual os bancos centrais injetaram vários milhares de milhões no sistema financeiro sem que a inflação tenha aumentado significativamente.

O recente anúncio da Comissão Europeia, que suspendeu pela primeira vez as regras orçamentais que impõem limites à despesa pública, é um passo na direção certa. No entanto, o pacote financeiro da UE continua a ser manifestamente insuficiente (37 mil milhões, ou 0,26% do PIB da EU-27, vindos de fundos que já existiam), o Eurogrupo não foi capaz de um único contributo que se veja e ainda não se admite a única hipótese sensata: que o BCE financie a despesa e investimento dos Estados através da impressão de moeda. Além disso, o problema da redução da dívida mantém-se devido às metas do Tratado Orçamental – quando o vírus for considerado contido, os países que aumentaram a despesa terão acumulado ainda mais dívida pública e estarão sujeitos à pressão da Comissão. A crise que se afigura na zona euro pode tornar-se pior do que a de 2010-12. Se a resposta se ficar pela concessão de crédito às empresas e aos países em dificuldades, os problemas do endividamento voltarão para os perseguir depois da pandemia - no Financial Times, Wolfgang Munchau escreve que a Europa precisa de liquidez, não de dívida.

O que parece certo é que a crise que enfrentamos é inédita e as respostas também terão de o ser. A discussão na última semana tem sido reveladora disso mesmo – aos discursos marcantes juntam-se planos de proporções históricas e, de repente, tudo o que nos garantiam ser impossível ou demasiado radical começa a tornar-se aceitável. Depois de contida a pandemia, talvez seja bom não esquecermos essa lição.