domingo, 26 de abril de 2020

Abril não é neutro


No Movimento das Forças Armadas havia revolucionários e golpistas. Os primeiros seriam em maior número do que os segundos. Mas quando Marcello Caetano se rendeu no Carmo nada estava decidido. O golpe foi revolução pelos populares que logo naquele dia afluíram às ruas, pelo mar de gente que inundou o país no 1º de Maio, pelos milhares que levantaram barricadas no 28 de setembro e pelo ativismo incansável pela alfabetização, pela educação, pela saúde e pela educação. Foi essa movimentação cívica e política que forjou a constituição de 76 e que, pese embora os atropelos das revisões constitucionais, permanece até hoje.

Vem isto a propósito daqueles que nesta data gostam de evocar Abril como uma data neutra. Uma data onde uns militares fizeram uma coisa lá pela madrugada e a partir daí o pessoal passou a poder votar e expressar-se livremente. Nesses momentos, convém recordar que as revoluções são descontinuidades, é certo, mas que não se resumem ao dia em que sucedem. Estendem-se num longo processo de disputa que tendem a desembocar num novo momento refundacional. Para o caso português, os termos dessa refundação foram fixados na Constituição de 1976. Vale de pouco discutir quem ganhou e quem perdeu. Mas ganharam por certo aqueles que conseguiram incluir o repúdio desassombrado do fascismo (por oposição a transições ambígua, como o modelo espanhol) e que conseguiram tirar a Educação e a Saúde ao mercado, deles fazendo eixos fundamentais para a democracia que se pretendia construir. E mais: que todo este processo de disputa e participação democrática profundamente livre começou logo a 26 de abril de 74 e não em novembro de 75.

Quem forjou a revolução foi o povo, o verdadeiro sujeito histórico da data que se comemora. A 26 de Abril nada estava decidido. Tivéssemos ficado à mercê do golpismo do Spínola e do Jaime Neves e não seria para aqui que tínhamos caminhado. Não lhes devemos nada.

12 comentários:

Anónimo disse...

Muito bom

Anónimo disse...

Uma homenagem :

Grândola Bidda Morisca

https://www.youtube.com/watch?time_continue=2&v=9CpUyq1mMOU&feature=emb_logo

Anónimo disse...

Aqui a homenagem dos escribas do observador

https://otempodascerejas2.blogspot.com/2020/04/falsa-questao.html

Admire-se a escrita dum tal Alberto Gonçalves a falar em "enxovalho". Descendente directo dessa brigada de reumático que foi nas vésperas do 25 de Abril de 74 beijar a mão a Marcelo e a Thomaz para os redimirem do enxovalho feito a estes sujeitos

Anónimo disse...

O “confinamento social” repentina e inesperadamente passou a marcar o modo do viver quotidiano de grande número de portugueses e consequentemente motivo de notícias, de debates, de diversas análises. O “confinamento social”, ainda que a palavra social definidora da natureza do confinamento seja não poucas vezes suprimida, ocupa tal dimensão que parece ter-se tornado o grande problema do país e o maior dos dramas dos cidadãos.
Não se subestimam as perturbações que a situação provoca a vários níveis na vida, em particular nos idosos há muito confinados pela vida difícil e as políticas de estigmatização da própria velhice. De qualquer modo, convirá não esquecer que não há confinamento em geral, que os seus efeitos são diferenciados conforme a origem social que determina a qualidade das habitações e até a sua ausência, os equipamentos de lazer e de acesso à informação, isto é, a sua ligação à vida e ao mundo.

Para os que nasceram depois do 25 de Abril, para quem a liberdade é tão natural como respirar, a situação de confinamento social é uma grilheta dolorosa, mas qualquer semelhança com o confinamento e isolamento a que foram sujeitos dezenas de milhares de antifascistas presos é um absurdo, quer no plano do quotidiano quer no plano humano, desde logo porque os objectivos policiais eram abalar as convicções dos presos, a sua destruição.
Uso as palavras confinamento e isolamento porque, embora inseparáveis, as suas consequências eram diversas. As prisões eram espaços confinados mas eram-no muito mais o espaço, por vezes minúsculo, em que viviam os presos, além da quase ausência de equipamentos, da privação de acesso à informação e da permanente devassa da vida pessoal e até afectiva.

Dos cerca de onze anos passados nas cadeias do Aljube, Caxias e Peniche, nove desses anos passei-os em Peniche em regime celular de isolamento de mais de vinte horas diárias, num espaço de dois por três metros com uma janelas de vidros foscos, onde obviamente não havia televisão nem telemóvel e não poucas vezes se era privado de livros e jornais, e em que as refeições, momento de encontro dos presos do mesmo piso, decorriam em rigoroso silêncio, e o viver do dia-a-dia, segundo as normas, era a sua sujeição a vigilância constante. A isto, os carcereiros chamavam de regime normal que se se seguia ao período de interrogatórios e isolamento total, forma de tortura complementar das torturas físicas, uma forma de tortura, para muitos presos, a mais brutal e destruidora forma de tortura pelos efeitos no estado psíquico.
(Cont)

Anónimo disse...

Cada preso teve a sua experiência própria e enfrentou essa realidade de modo diferenciado. Os períodos de isolamento total, no meu caso, resumem-se a cinco meses nos “curros” do Aljube, um mês numa cela de Caxias e outro mês numa cela de Peniche, e dez dias no segredo de Caxias. Nenhuma das experiências foi igual. Falar dos meses nos “curros” do Aljube é falar de se estar num buraco de cerca de um metro por dois, sem mobilidade, na obscuridade, sem meios de escrita ou de leitura, sem relógio, sem visitas ou conhecimento do que passa no exterior e de perda da própria noção do escoar do tempo. Não era pouco perturbante o estar-se à espera de se ir para os interrogatórios ou regressar num estado lastimoso para sarar feridas em condições de isolamento.

Quando refiro as três experiências diferentes é porque não havia isolamento em geral. É que estar isolado sem escrita, sem livros, sem visitas, em celas com luz, sobretudo quando se passava pelo segredo de Caxias, as celas transformavam-se quase num paraíso. O segredo era um buraco subterrâneo, sem qualquer réstia de luz, com um minúsculo respirador, sem cama, onde não chegavam sons e as movimentações se faziam às apalpadelas. A sensação era de que se tinha sido enterrado vivo. E no entanto, porque era proibido cantar, era preciso desafiar a prepotência dos carcereiros cantando.
No peso do isolamento não era indiferente a idade e a vida familiar, sobretudo quando se era preso com a companheira e nada se sabia do que se está a passar com o outro. No meu caso, a minha companheira só soube que também estava preso dois meses e meio depois. Vencer o isolamento exigia uma grande mobilização de energias, recriar mentalmente a vida exterior, pensar que lá fora a luta continuava e era preciso mostrar que a firmeza das convicções era superior à violência policial.

O isolamento, as torturas não eram só sofrimento. Eram uma luta para vencer a polícia, uma afirmação de dignidade, de confiança nos ideais. A derrota da polícia igualmente uma fonte de alegria e de bem-estar espiritual.

O 25 de Abril pôs fim a estes tempos negros. No próximo dia 25 de Abril vou quebrar o confinamento social em que me encontro desde 18 de Março para estar presente na Assembleia da República por uma questão de dever, por respeito pela memória de tantas vidas sacrificadas, mas também porque é preciso dizer aos saudosistas do passado que não passarão.

(Domingos Abrantes in Público )

Jaime Santos disse...

Eu percebo a raiva contra Jaime Neves, mas convém não o confundir com Spínola, o primeiro conduziu um golpe contra o poder legítimo, o segundo era o comandante no terreno de uma operação bem sucedida e que pôs fim a um outro levantamento contra o mesmo poder legítimo, às ordens do Presidente da República Costa Gomes.

Devemos-lhe a ele o mesmo que devemos a Ramalho Eanes ou aos membros do grupo dos 9 ou a Mário Soares e a outros. Uma Democracia Liberal Multipartidária. Aqueles que se identificam com ela saíram vencedores, os outros perderam.

A CRP de 1976 tem naturalmente o cunho democrático que é fruto da vontade popular expressa antes de tudo nas eleições de 25 de Abril de 1975, mau grado os cercos à Constituinte e as tentativas de silenciar a imprensa livre, assim como os atentados da Extrema-Direita.

Ninguém é dono dela senão o povo no seu colectivo e ninguém teve ou tem nenhuma expécie de direito de veto sobre o que os Portugueses decidiram nas eleições subsequentes, incluindo os 'atropelos' de que fala.

A vontade da maioria, no respeito pelos direitos das minorias não é atropelo para ninguém, a não ser para aqueles que consideram que a Democracia só é boa quando as eleições dão o resultado de que eles gostam...

A.R.A disse...

Jaime Santos
A propriedade com que fala de Spínola é no mínimo enternecedora o que me leva a questionar se percebe mesmo o que o nome de jaime neves representa.

A.R.A disse...

Caro Anónimo
Sabendo de antemão que este é um espaço de partilha ideias e não de nomes, pergunto se a sua História não se confunde com a do supracitado ou se o Anónimo não é o próprio Domingos Abrantes?
Cumprimentos

Anónimo disse...

Continuamos a aprender coisas com Jaime Santos

Agora é a sua admiração por aquele traste do Jaime Neves. O que unirá estes dois, JS e JN, para além do seu próprio nome?
A craveira intelectual? A "honestidade"? Algo mais sinistro?

Aquando da promoção de Jaime Neves a major-general, Vasco Lourenço, presidente da Associação 25 de Abril, em declarações ao Expresso, disse que "o curriculum militar de Jaime Neves não o justifica", considerando que a promoção só se entende se "quiserem refundir Abril, substituindo Salgueiro Maia por Jaime Neves. Estão a hostilizar e a ofender profundamente os militares de Abril e o próprio 25 de Abril"

Falta dizer a este respeito que a promoção a Major-General foi confirmada pelo 19.º Presidente da República Portuguesa, Aníbal Cavaco Silva, a 14 de Abril de 2009

JS lá sabe os amores que tem

E os amores de JS são bem compensados pela gente de que JS gosta. Vão assim logo a major-general.

Anónimo disse...

Temos assim JS a fazer pela vida. A tentar mais uma vez justificar as opções que fez e que faz

Cada vez com uma linguagem mais patibular. Mais retrograda. Mais acompanhada por uma direita que ultrapassa já a dita direita civilizada para se colar a uma extrema-direita caceteira

Um "vencedor" como se define um pouco à labrego. Fazendo lembrar precisamente o seu admirado Jaime Neves


Mas podemos ver um pouco melhor a figura desse paladino da democracia "liberal multipartidária",esse tal JN

Já sabemos o uso amoroso peculiar que JS tem pela palavra "liberal"

Mas utilizar a palavra "liberal" a propósito do troglodita do JN parece excessivo.

Jaime Neves, num jantar em sua homenagem realizado em Janeiro de 1996, declarou que « o “problema” seria resolvido “muito simplesmente com a prisão do líder do PC”, Álvaro Cunhal » ( Público , 11-1-1996). O seu estado de espírito é transparente, ao dizer que, se «havia uma manifestação realizada pelo Partido Comunista, eu recusava-me a ir com a tropa para a rua se não fosse para prender o dr. Álvaro Cunhal» (entrevista ao Semanário , 26-11-1983).

Sousa e Castro, um militar de Abril insuspeito das suas posições ideológicas fala apesar de tudo desassombradamente desta fraude:
“Jaime Neves terá passado parte da noite e madrugada de 25 de Abril num peculiar ‘Posto de Comando’, o dancing club Maxime, em Lisboa, apesar das missões que lhe tinham sido confiadas”.

Anónimo disse...

Vale a pena continuar a desmontar esse chorrilho de disparates de JS em torno da "democracia liberal multipartidária" e do cunho democrático e dos atropelos de que não fala e no respeito pelas minorias e os resultados que são bons (para ele e para Jaime Neves)

Jaime Neves cometeu em Moçambique, nomeadamente em Wiryamu Crimes Contra a Humanidade

Jaime Neves em entrevista à SIC não se coibiu de defender que Portugal devia ter continuado em Angola e Moçambique, impondo o regime colonial através da guerra entre os seus povos.

Jaime Neves mesmo em vésperas do 25 de Abril recusou a missão de tomada da DGS na António Maria Cardoso por a considerar demasiado perigosa”.

No 25 de Abril, Jaime Neves conseguiu ser o único operacional a falhar os objectivos atribuídos, deixando fugir os ministros (literalmente mijados de medo) pelo tal túnel improvisado.

Em 28 de Setembro Jaime Neves estava com Otelo e por essa altura, em jeito de “bravata”, afirmava que liquidando uns quantos fascistas resolvia a situação. Era ainda a lua de mel com Otelo…

Jaime Neves berra pela ilegalização do PC em Novembro de 1975,indo ao encontro do sonho democrático de JS

“… Jaime Neves, numa estranha manifestação de gratidão para com Eanes responder-lhe-á com o apoio indefectível a Soares Carneiro durante as Presidenciais de 1980, corroborando o coro de ataques e insultos ao seu comandante de Outono de 1975”.

Há mais, e entre esse mais, alguns pormenores que atestam o QI deste major-general de polichinelo. Mas já fede

É desta cepa que gosta o caro JS

Anónimo disse...

Caro A.R.A
Não, não sou o Domingos Abrantes. Trouxe aqui um seu testemunho notável que vale e que merece ser lido.
Cumprimentos, caro A.R.A