terça-feira, 26 de maio de 2026

Foto de economia política


Legenda da foto: o patrão dos patrões e os seus três colaboradores políticos de extrema-direita. Ficam só a faltar os colaboradores do governo. Toda uma sórdida forma de economia política, feita de inflação de direitos patronais e de correspondente deflação de direitos laborais. Têm de ser derrotados. Faltam oito dias para a Greve Geral.

Vibecession: a crise do custo de vida é só uma sensação?

Em Janeiro de 2021, enquanto as medidas de confinamento voltavam a apertar, a The Economist anunciava o fim de uma era de pessimismo económico. Tal como na década de 1920, quando a gripe espanhola deu lugar à era do consumo de massas, a pandemia poderia desencadear um ciclo de inovação e melhoria dos níveis de vida, de acordo com a revista. Os avanços da inteligência artificial, o investimento privado em tecnologia e software e a rapidez com que o mundo adotou o teletrabalho e o comércio eletrónico eram vistos como sinais de que a crise podia funcionar como motor de progresso e fonte de otimismo generalizado: uma espécie de novos “loucos anos vinte”.

Ultrapassada metade da década, é justo dizer que o cenário é bastante diferente. O índice de sentimento dos consumidores dos EUA caiu a pique a partir de 2022 e atingiu o valor mais baixo de sempre desde que o inquérito começou a ser realizado, primeiro em Junho de 2022, no pico da inflação, e novamente em 2026, após o início da guerra no Médio Oriente. O mais surpreendente é que este pessimismo reverte uma tendência de décadas em que a confiança dos consumidores acompanhava de forma previsível os principais indicadores económicos, como o desemprego, a inflação ou o valor das ações nos mercados financeiros. Desde a pandemia, essa relação deixou de se verificar e a generalidade das pessoas passou a estar mais pessimista do que os indicadores convencionais sugeririam.

 

Em 2022, a economista Kyla Scanlon cunhou o termo vibecession, numa combinação dos termos “vibes” (sensações) e “recession” (recessão), para descrever este aparente paradoxo: uma situação em que os indicadores apontam para um bom desempenho da economia, mas a perceção das pessoas é a de uma crise. O conceito ganhou tração e entrou no debate público no contexto das eleições norte-americanas de 2024. No New York Times, o economista Paul Krugman, vencedor do Nobel da disciplina, garantia que “todas as boas notícias económicas validam [o governo de] Biden”. Na The Economist, chegou a ler-se que os eleitores estavam a demonstrar um “pessimismo irracional”.

Uma das explicações avançadas, tanto nos EUA como na Europa, foi um fenómeno a que os economistas dão o nome de “ilusão monetária”: a tendência que as pessoas têm para avaliar o rendimento em termos nominais (o salário que aparece no recibo de vencimento) em vez de reais (o que esse número consegue efetivamente comprar, tendo em conta a evolução dos preços). A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, tocou neste ponto numa entrevista ao Financial Times, argumentando que os dados indicavam uma recuperação do poder de compra, mas que muitas pessoas não a reconhecia. O pessimismo seria, por isso, resultado de uma perceção errada. No entanto, há motivos para pensar que o problema está nos impactos desiguais da inflação, que são negligenciados pelos indicadores normalmente utilizados.

O problema é a perceção ou a distribuição?

Nos primeiros anos após a pandemia, a recuperação da economia teve características particulares. Com a reabertura da maioria das atividades a acelerar a procura das empresas por trabalhadores, o desemprego diminuiu de forma acentuada e muitos setores começaram a falar em escassez de mão-de-obra. Isso deu origem ao que o economista Arindrajit Dube classificou como a “compressão inesperada”: a redução do desemprego reduziu o poder dos empregadores e forçou-os a pagar salários mais altos nos setores onde estes eram mais baixos à partida, reduzindo a diferença entre o fundo e o topo da distribuição.

A trajetória de recuperação salarial foi mais intensa entre os escalões de rendimento mais baixo, o que contribuiu para a ideia de que a maioria das pessoas deveria estar satisfeita com o desempenho da economia. Contudo, as pistas para compreender o descontentamento começam a surgir quando se parte para uma análise mais detalhada.

O economista Servaas Storm e o cientista político Thomas Ferguson publicaram um par de artigos (aqui e aqui) em que procuram explicar o desempenho da economia norte-americana até 2024, com base numa análise exaustiva dos dados disponíveis. As conclusões são diferentes: não só não se verificou uma recuperação do poder de compra para a maioria das pessoas após o choque inflacionista de 2022, como o crescimento salarial ficou aquém do que se tinha verificado no primeiro mandato de Trump (ainda que os ganhos de 2017-2020 não se devam necessariamente à política económica deste).

Por um lado, o salário mediano, que representa o que é ganho pelo trabalhador típico, praticamente estagnou desde 2021 e a maioria das pessoas perdeu poder de compra face ao período pré-inflação. Por outro lado, embora o salário por hora tenha registado um aumento considerável, o número de horas trabalhadas por semana diminuiu de forma persistente desde a pandemia. Resultado: entre 2021 e 2023, 9 em cada 10 pessoas perderam poder de compra apesar dos aumentos salariais.

A isto junta-se um problema de distribuição. O índice de preços convencional calcula-se com base num cabaz de consumo médio, mas os padrões de consumo variam muito consoante o rendimento. Os 20% mais pobres dos americanos gastam quase um terço do seu rendimento em alimentação, muito acima da média. Como a subida dos preços foi mais intensa precisamente nos bens essenciais - os que pesam mais no orçamento de quem ganha menos -, a inflação real sentida pelas famílias de rendimento mais baixo foi superior à inflação oficial, de acordo com uma análise dos dados do Instituto de Estatísticas do Trabalho dos EUA.

 

O próprio Dube regressou ao tema recentemente, reconhecendo que, se analisarmos o poder de compra dos diferentes escalões de rendimento com base na respetiva taxa de inflação, em vez de usar o indicador agregado, as conclusões alteram-se. Corrigindo para a inflação desigual por decil de rendimento, a compressão salarial entre 2019 e 2025 passa de 8,4 para 4,8 pontos percentuais. Por outras palavras, a redução da desigualdade foi bastante menor do que parecia.

E isso é apenas uma parte da história, porque há outras dimensões que escapam a esta análise. Um estudo de Evan Wasner, que analisa dados sobre compras de supermercado de cerca de 200.000 famílias nos EUA, apresenta taxas de inflação específicas para cada família (baseadas nos produtos que cada uma efetivamente compra). Conclusão: no pico da inflação pós-pandemia, menos de um quarto das famílias experienciou uma taxa de inflação próxima da oficial. A dispersão foi significativa e alargou-se precisamente nos momentos em que a inflação era mais elevada. Para os trabalhadores do decil mais baixo, quase metade viu o seu poder de compra alimentar cair entre 2019 e 2023, apesar de os dados agregados indicarem ganhos.

Finalmente, o indicador usado para medir a inflação subestima o custo de vida ao não incluir no seu cálculo as prestações do crédito à habitação ou ao consumo, o que faz com que deixe de fora uma parte importante da despesa mensal das pessoas. No caso dos EUA, até 1983, estes custos eram incluídos no cálculo, tendo sido removidos no contexto do choque de Volcker, o que mascarou o efeito que a subida agressiva dos juros tinha sobre a inflação que supostamente se destinava a combater. Um estudo publicado por Larry Summers (ex-secretário do Tesouro dos EUA) e co-autores demonstrou que, se a metodologia anterior ainda se aplicasse, a inflação teria atingido 18% no pico de 2022, em vez dos 9,1% oficialmente registados.

Para além dos dados sobre os rendimentos, os padrões de consumo confirmam a experiência desigual nos últimos anos. Desde 2023, o crescimento do consumo privado tem sido impulsionado sobretudo pelos mais ricos, de acordo com um estudo da Reserva Federal de Nova Iorque. Os autores identificam dois motivos principais: a inflação, que pesou desproporcionalmente sobre quem ganha menos, e a valorização dos ativos financeiros, que beneficiou quase exclusivamente o topo da distribuição.

A bolha da inteligência artificial ajuda a explicar este padrão: o investimento massivo e o aumento das cotações das multinacionais tecnológicas, que são responsáveis por quase toda a subida da bolsa norte-americana, beneficia essencialmente os 10% mais ricos do país, que detêm 87% das ações, enquanto os 50% mais pobres detêm apenas 1%. No outro lado do espetro, 43% das famílias no país não ganham o suficiente para conseguir suportar os custos com a habitação, alimentação, saúde e transportes, de acordo com uma análise do Brookings Institute.

O custo de vida é um problema novo?

Embora o período pós-pandémico tenha sido marcado pelo regresso da inflação a valores que já não eram observados há várias décadas, é preciso ter em conta que a crise do custo de vida tem raízes profundas e é o culminar de uma longa trajetória de estagnação dos rendimentos. Entre 1979 e 2019, a produtividade da economia norte-americana cresceu 73%, mas os salários medianos cresceram apenas 23%. No mesmo período, os rendimentos do 1% mais rico subiram 169%.

 
Fonte: Economic Policy Institute (aqui e aqui)

O mecanismo desta transformação foi a financeirização da economia. Desde a década de 1980, grande parte da atividade económica passou a girar em torno da valorização de ativos financeiros, que substituiu o investimento produtivo. A desregulação financeira e a expansão acelerada do crédito fizeram disparar o preço dos ativos (ações, obrigações, imóveis) e estabeleceram as bases para um sistema em que a extração de lucros se desligou da produção real. Acumular riqueza através da valorização de ativos passou a ser muito mais rentável do que acumulá-la através do trabalho.

Ao mesmo tempo, fatores como a queda das taxas de sindicalização, a erosão da negociação coletiva, a facilitação do recurso à contratação precária ou ao outsorcing e a globalização (com a possibilidade de deslocalização das empresas) funcionaram como instrumentos de supressão salarial. A maximização do retorno para os acionistas tornou-se o objetivo fundamental das empresas e os ganhos de produtividade foram canalizados para os dividendos e a recompra de ações, em detrimento dos salários.

Storm recupera o conceito de economia dual, formulado nos anos 50 para descrever países em desenvolvimento, e aplica-o aos EUA: de um lado, um setor dinâmico (tecnologia, finanças, serviços profissionais) com produtividade elevada e a crescer; do outro, um setor estagnante (restauração, limpeza, cuidados, retalho) com produtividade baixa que absorve os trabalhadores que saem do setor dinâmico à medida que este se automatiza. O diferencial salarial entre os dois setores passou de 35% em 1950 para quase 60% em 2015. À medida que o setor dinâmico automatiza, os trabalhadores acumulam-se no setor estagnante, onde o excesso de mão-de-obra deprime os salários e comprime ainda mais a produtividade.

Ainda assim, existe uma pressão para que os salários subam nos setores de menor produtividade, sob pena de ninguém aceitar trabalhar neles. Existe, por isso, uma tendência para que os serviços intensivos em trabalho e difíceis de automatizar se tornem mais caros, como se tem verificado em áreas como a saúde, a educação ou os cuidados. Uma consulta médica continua a exigir um médico; uma creche precisa de educadoras por cada grupo de crianças, uma universidade (ainda) não funciona sem professores. Durante grande parte do século XX, os países ocidentais lidaram com este problema socializando os seus custos, através do investimento nas creches, escolas e hospitais públicos ou da subsidiação do acesso à universidade. Nas últimas décadas, a privatização progressiva destes setores e o desinvestimento público traduziram-se numa transferência progressiva dos custos para as famílias, degradando as condições de acesso.

 

Além dos serviços de educação e saúde, o acesso à habitação também se deteriorou de forma significativa, devido ao processo de financeirização que a tornou um ativo particularmente apetecível para grandes investidores. Como estes serviços são precisamente os que mais pesam no orçamento das pessoas e aqueles em que houve maior desinvestimento do Estado nas últimas décadas, facilmente se percebe que a crise do custo de vida tem raízes mais profundas do que o choque inflacionista de 2022.

Portugal: crescimento para quem?

O debate sobre o os indicadores convencionais e a experiência concreta das pessoas também chegou a Portugal. No verão de 2024, uma reportagem do Expresso aludia à vibecession de características portuguesas, sublinhando o “desfasamento entre os indicadores e a perceção pública” num contexto em que “o consumo dos portugueses está a recuperar para níveis pré-pandemia [e] os salários estão novamente a ganhar a batalha à inflação”.

 
Fonte: Expresso

O caso português é especialmente merecedor de análise, uma vez que o país tem sido repetidamente apontado como um caso de sucesso económico. Há pouco mais de dois anos, Paul Krugman classificou a experiência portuguesa como “uma espécie de milagre económico”. Dois anos antes, Adam Tooze, historiador económico da Universidade de Columbia, já tinha afirmado que “Portugal era o modelo para manobrar de forma muito inteligente dentro do sistema da UE” e que “ninguém o fez como os portugueses”. No final do ano passado, a The Economist distinguiu Portugal como a “economia do ano”, o que não impediu os portugueses de continuar a referir o custo de vida como a principal preocupação nos inquéritos mais recentes.

No caso português, o desempenho da economia e a crise do custo de vida são duas faces da mesma moeda: o modelo de crescimento das últimas décadas. Desde a adesão ao euro, que desencadeou uma apreciação real da taxa de câmbio e prejudicou a competitividade da indústria, o peso da indústria foi sendo progressivamente reduzido enquanto a economia se especializou em setores de baixo valor acrescentado: primeiro a construção e o imobiliário, depois o turismo e os serviços associados. O crescimento deste tipo de setores intensivos em trabalho é determinante para os elevados níveis de emprego que o país regista atualmente, mas o emprego gerado é maioritariamente precário, sazonal e de baixos salários. Portugal também exibe características de uma economia dual, com um peso crescente do emprego no “setor estagnante” composto pelo turismo, restauração e serviços de baixa produtividade.

Além disso, a expansão do turismo levou a uma recomposição da oferta de casas para satisfazer a procura externa, através do crescimento dos hotéis e do alojamento local, que contribuíram para alargar o fosso entre os preços das casas e o rendimento dos residentes. Essa é uma conclusão a que a própria Comissão Europeia chegou no relatório Housing in the European Union, publicado recentemente, onde Portugal é destacado como “o país da UE onde o turismo teve maior impacto sobre os preços das casas”.

Tendo em conta que o indicador usado para medir a inflação não inclui as despesas com prestações, que duplicaram entre 2021 e 2024 com a subida das taxas de juro, percebe-se que dê uma ideia muito incompleta da evolução do custo de vida no país. Um estudo de economistas do FMI estimou que Portugal foi o país onde as famílias tiveram o maior aumento anual da despesa com juros após 2022, correspondendo a cerca de 1,2% do PIB. Não é possível avaliar o poder de compra de quem tem crédito à habitação sem ter em conta este custo. Como, além disso, o indicador da inflação atribui um peso muito reduzido às rendas (dada a baixa percentagem de arrendatários no país), também acaba por subestimar o custo de vida de quem arrenda a casa.

Mesmo usando este indicador, se olharmos para a inflação por escalão de rendimento, o que vemos é que o surto inflacionista de 2022 não afetou todos da mesma forma. No pico do surto, a inflação sentida pelos 20% com rendimentos mais baixos foi sobretudo determinada pela subida dos preços dos alimentos e da energia, ou seja, bens essenciais dos quais não é possível abdicar. Para os 20% com rendimentos mais elevados, a inflação teve um contributo maior de categorias como o alojamento e a restauração, que são despesas mais facilmente substituíveis ou adiáveis. O mesmo choque inflacionista produziu experiências muito distintas.

Para lá das vibes

Há uma tendência na análise económica convencional para olhar mais para a média do que para a distribuição, colocando o foco em questões como o crescimento do PIB e a evolução da inflação sem prestar atenção suficiente à forma como diferentes tipos de crescimento e diferentes preços afetam diferentes grupos. Com a desigualdade a crescer há décadas, as médias são um indicador cada vez mais incompleto. Uma economia em que os ganhos se concentram no topo e os choques de preços afetam sobretudo quem ganha menos pode crescer enquanto o custo de vida se deteriora para a maioria.

Utilizar a taxa de inflação para avaliar o poder de compra de todos os escalões de rendimento implica uma escolha sobre o que se mede e o que é excluído. Essa escolha tem consequências na determinação dos aumentos de pensões e apoios sociais, nas negociações de salários entre sindicatos e empresas e nas conclusões que se retiram sobre o grau de sucesso das políticas públicas adotadas para lidar com a inflação.

Em vez de tratar a preocupação das pessoas com o custo de vida como irracionalidade ou ilusão monetária, procurando responsabilizá-las por não “lerem corretamente” indicadores que não representam a sua experiência efetiva, o debate económico tem de ser feito com instrumentos que reflitam a heterogeneidade existente: índices de preços desagregados por nível de rendimento e relação com a habitação e maior foco na forma como os ganhos (e os custos) do crescimento são distribuídos.

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segunda-feira, 25 de maio de 2026

Antifascismo


É claro que não pode ser negada a importância que frentes antifascistas tiveram em determinados contextos históricos. No entanto, quando o antifascismo perde densidade ideológica e social, corre o risco de se tornar apenas um mecanismo defensivo do status quo. O problema de um certo «frentismo» surge quando a prioridade passa a ser apenas a construção de alianças que se desejam sempre «amplas», mas que descuram um conteúdo político e social de profunda ruptura com a ideologia dominante. Assim, a questão que se coloca é a seguinte: que tipo de antifascismo queremos? A resposta é simples: um antifascismo consequente e de ruptura.

Partindo generosamente do livro A economia política do antifascismo e outros ensaios, Manuel A. Domingos desenvolve hoje no AbrilAbril uma distinção crítica entre um antifascismo superficial e um antifascismo que vai à raiz dos problemas. A política, como Álvaro Cunhal nos ensinou, começa pela capacidade de fazer distinções, sempre com uma fé nos peitos.

domingo, 24 de maio de 2026

Da estupidez repulsiva


Paulo Coimbra tem razão, no triângulo político onde se inclui um indivíduo que sacrificou todos os valores chamado António Costa, Kaja Kallas ganha o campeonato das declarações de “uma estupidez repulsiva, mas uma estupidez em conformidade com as necessidades da ordem imperial made in USA”. 

Desde apodar a China de “cancro” até responsabilizar Cuba, em plena visita ao México, pelos resultados do cerco genocida que os EUA montaram, sem esquecer a duradoura cumplicidade ativa com Israel e com o genocídio do povo palestiniano, o liberalismo autoritário das instituições europeias, encarnado por Kallas, é de uma monstruosidade sem fim. 

O que levanta a questão, já colocada a propósito de Borrell, o da selva e do jardim: para que serve uma alta representante da UE para os negócios estrangeiros e a política de segurança? O mal está desde logo aí. A UE não é um Estado, nem pode ser, felizmente. 

A política externa é assunto de Estados. Este açambarcamento antidemocrático de competências tem de parar e tem de ser revertido, dado que só prejudica a prossecução de uma política externa decente pelos Estados realmente existentes. Na ausência desta, resta o subimperialismo, estruturalmente cúmplice em relação ao eixo EUA-Israel. Não é defeito, é feitio de todo o impulso, tão federalista quanto neoliberal e belicista, da UE.

sábado, 23 de maio de 2026

O declínio do império americano


Esta Quarta-feira, 27 de Maio, pelas 18h30m, o Grupo de Reflexão Resposta promove um webinar com Marcos Farias Ferreira, Teresa Cravo e Madalena Figueira sobre caminhos para a paz num novo mundo multipolar.

Perante o descontrolo imperial dos Estados Unidos e as atrocidades que se multiplicam sem que a sua administração sequer se dê ao trabalho de as justificar, perante a falência da NATO e a militarização da Europa, qual deve ser a resposta da Esquerda?

Existe um declínio do Império Americano? As sucessivas intervenções militares não são propriamente uma novidade, mas o nível de isolamento é. Até na União Europeia, território da obediência suprema, se começa a ouvir vozes dissonantes e sinais de diversificação das relações económicas e diplomáticas. A guerra do Irão, um atoleiro para o qual Trump nem a Europa conseguiu arrastar, e do qual quer mas não consegue sair, arrisca-se a ser um ponto de ruptura no quadro de relações internacionais a que nos habituámos ao longo de décadas.

Ou então não é nada disto. Trata-se apenas de mais uma vaga de intervencionismo norte-americano e israelita, com muitos crimes, pouco sucesso e nenhumas consequências. Tudo isto discutiremos esta Quarta.

Entrada livre, sujeita a inscrição para grr.resposta@gmail.com

Combater o sectarismo


Em 2026, quando a melhor historiografia já se livrou da categoria de totalitarismo, com o fascismo de novo em ascensão, a influente deputada Eva Cruzeiro acha por bem colocar nazis e comunistas lado a lado, citando uma sobrestimada filósofa liberal de guerra fria. 

A levar a sério tal linha totalitária, os criadores dos campos de extermínio seriam iguais aos seus libertadores. E é como se Salazar e Caetano fossem iguais a Cabral e a Neto. 

Sei bem o que se pretende com esta linha tão sectária quanto desmemoriada, os sinais estão por todo o lado nos “progressistas”, um “conceito” de Rui Tavares, segundo a extraordinária ficha técnica de uma página agora criada: o PS quer ter apenas os verdes com bombas do Livre à sua “esquerda” (ou será à sua direita?). 

Felizmente, sabemos que não há antifascismo consequente sem os comunistas, até porque toda a unidade séria começa na luta laboral, incluindo nos piquetes de greve.
 

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Solidariedade


La pretendida acusación contra el General de Ejército Raúl Castro Ruz, que acaba de comunicar el Gobierno estadounidense, solo evidencia la soberbia y la frustración que le provoca a los representantes del imperio, la inquebrantable firmeza de la Revolución Cubana y la unidad y fortaleza moral de su liderazgo. 

Se trata de una acción política, sin ningún basamento jurídico, que solo busca engrosar el expediente que fabrican para justificar el desatino de una agresión militar a Cuba. 

EE.UU miente y manipula los sucesos alrededor del derribo de las avionetas de la organización narco-terrorista Hermanos al Rescate, en 1996. 

Sabe bien, porque sobran evidencias documentales, que no se actuó de manera imprudente ni se violó el derecho internacional, como sí vienen haciendo fuerzas militares estadounidenses, con sus fríamente calculadas y abiertamente publicitadas ejecuciones extrajudiciales sobre embarcaciones civiles en el Caribe y el Pacífico. 

El 24 de febrero de 1996, Cuba actuó en legítima defensa, dentro de sus aguas jurisdiccionales, tras sucesivas y peligrosas violaciones de nuestro espacio aéreo por connotados terroristas, de lo cual la administración estadounidense de turno fue alertada en más de una decena de ocasiones, pero hizo caso omiso de las advertencias y permitió las violaciones. 

 La altura ética y el sentido humanista de su obra, derriban cualquier infamia que se pretenda levantar contra el General de Ejército Raúl Castro. Como jefe guerrillero y como estadista, ganó el amor de su pueblo, a lo que se suma el respeto y la admiración de otros líderes de la región y del mundo. Esos valores son su mejor defensa y un escudo moral, frente al ridículo intento de menoscabar su talla de héroe.


O império é capaz de tudo, sempre foi. Toda a solidariedade com Cuba, sem mas, nem meios mas. Insisto: se a coligação Epstein colocar o pé em Havana, graças ao crime contra a humanidade que está a cometer, será uma catastrófica derrota para o povo cubano, para o campo anti-imperialista mundial. 

Entretanto, por cá, há silêncios brutalmente ensurdecedores, votações reveladoras e tomadas de posição corajosas. Sabemos com quem podemos contar para o que der e vier. Sim, a política internacional é um teste, incluindo à cultura anti-imperialista.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

O mérito de Cavaco


Esta semana, Cavaco Silva foi um dos galardoados com a recém-criada Ordem Europeia do Mérito atribuída pelas instituições da UE. A avaliação do que é meritório é sempre função de uma visão do mundo institucionalizada. 

No contexto institucional da UE, faz todo o sentido este reconhecimento, dados os serviços que prestou ao neoliberalismo, à causa da dependência nacional, ao longo da vida. 

O economista político aproveitou o prémio para defender a corrida armamentista “financiada” por um “empréstimo comum”. Uma vez mais, tem “mérito”, dada a acentuação belicista do neoliberalismo, rumo a um regime com o qual não se deu mal no passado. Entretanto, há sempre dinheiro para aquilo que os poderes dominantes querem fazer. 

O que não faz nenhum sentido, o que nunca fez qualquer sentido, é o facto de muitos dos críticos de Cavaco continuarem a depositar esperança na UE, criada em Maastricht, precisamente para blindar e aprofundar esta forma de economia política. Não têm mérito.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Tradição norte-americana


Fazendo o paralelismo com o Vietname, Edward Luce do Financial Times reconheceu ontem que a agressão ao Irão se inscreve numa arreigada “tradição” norte-americana. É uma mortífera tradição, inexplicável se não atentarmos na lógica do sistema imperialista, indissociável do capitalismo realmente existente. 

Liberal, Luce não dá este último passo, mas vai mais longe do que o que passa por progressista no desmemoriado comentário nacional, ainda apostado em ver Trump como uma anomalia.

Entretanto, num dia como ontem, mas em 1890, nascia Nguyễn Sinh Cun, que viria a adotar o nome de Ho Chi Minh, comunista que liderou a luta do indómito povo vietnamita, derrotando japoneses, franceses e norte-americanos. Haja história anticolonialista, haja memória anti-imperialista.

Experiência alemã


A Alemanha está a conduzir uma experiência em todo o país para verificar se a austeridade e as reformas neoliberais realmente alimentam a ascensão da extrema direita. Até agora, os resultados confirmam o que já se sabia da literatura sobre o assunto.


É caso para acrescentar: livrai-nos de experiências alemãs que incluem, ademais, um tão perigoso quanto intenso processo de rearmamento.

terça-feira, 19 de maio de 2026

Divisão ideológica


O que têm em comum um médico peneirento da SEDES, filha das ilusões tecnocráticas no fascismo, e um nababo que sempre viveu de sinecuras garantidas por um partido e pelo capitalismo televisivo? Sim, o que têm em comum Álvaro Beleza e Sérgio Sousa Pinto? 

São neoliberais, cujo lugar na divisão ideológica do capital é claro: defender, a partir do PS, todas as iniciativas liberais até dizer chega. Agora é o pacote laboral. 

Reproduzindo as vulgaridades do pior patronato, ignoram o que se passa para lá das portas onde está escrito: “proibida a entrada a pessoas estranhas ao serviço”. Inclui-se aqui a violência dos pequenos grandes ditadores patronais, que têm uma parte da intelectualidade no bolso, através das fundações pingos doces e de outros esquemas conexos.  Graças ao pacote laboral, estes ditadores poderão intensificar os ataques às liberdades democráticas da maioria trabalhadora, limitando fortemente a ação sindical do heróico CESP, por exemplo. 

O resto é conhecido e resume-se a um propósito: justificar a intensificação da exploração. É para isso que são pagos em várias moedas – incluindo a visibilidade, o tempo de antena e o prestígio burguês –, dependendo das figuras e dos contextos. 

Por contraste intelectual e ético-político, veja-se Bruno Dias a desmontar o uso ideológico das palavras rigidez e flexibilidade por esta tropa fandanga.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Símbolo, inscrição


Símbolo nacional maior do porno-riquismo, do consumo conspícuo na era das desigualdades pornográficas, o “espaço de indulgência único” da Amorim Luxury, chamado JNcQuoi, já tem inscrição na Avenida da Liberdade, graças à Câmara Municipal de Lisboa. 

O dinheiro compra tudo nesta sociedade cada vez mais capitalista: “é o tempo da corrupção geral, da venalidade universal”, de que falava Marx. 

Entretanto, perante a complacência de um poder político subserviente, a Galp, que é o verdadeiro luxo de Amorim, bate todos os recordes de lucros: quase 1,2 mil milhões de euros, em 2025, um aumento de 20% em relação aos 961 milhões de 2024. 2026 promete ser ainda melhor. Lembro que o Estado cedeu um terço da Galp à família Amorim por 1,7 mil milhões de euros, um exemplo, entre tantos, de privatização ruinosa. Juntai-lhe a liberalização do setor...

Realmente, é como canta Sérgio Godinho: “Não me digas que não me compreendes/Quando os dias se tornam azedos/Não me digas que nunca sentiste/Uma força a crescer-te nos dedos/E uma raiva a nascer-te nos dentes/ Não me digas que não me compreendes”.

domingo, 17 de maio de 2026

Motor de desenvolvimento


A imagem foi roubada a Renata Candeias: com o seu furto de preciosos instrumentos de política económica, a prejudicial especialização a que a integração europeia nos condena foi condensada com especial poder de síntese por Tiago Oliveira.

É a ilustração da visão correta que a CGTP tem das três declinações da luta de classes, incluindo a luta pelo desenvolvimento económico soberano num país europeu cada vez mais periférico. As outras duas são a luta contra a exploração e pela igualização entre homens e mulheres.

Quanto mais força tiver a CGTP, maiores serão as hipóteses de desenvolvimento económico nacional. 

Em primeiro lugar, a CGTP contribui para uma economia com maior pressão salarial, com um mercado interno mais dinâmico, dando mais incentivos, do lado da procura e da oferta, para o investimento modernizador.

Em segundo lugar, o reforço da negociação coletiva, tão abrangente e centralizada quanto possível, contribui para resolver problemas de ação coletiva, bloqueando estratégias patronais medíocres, assentes na intensificação da exploração, ao mesmo tempo que diminui desigualdades excessivas.

Em terceiro lugar, a CGTP defende intransigentemente o Estado social assente na provisão pública, enviando a seguinte mensagem ao capital: ide trabalhar para os setores de bens transacionáveis, malandros.   

Há mais razões, claro, incluindo as ques estão relacionadas com a recuperação dos tais instrumentos de política perdidos, mas estas três chegam para início de conversa.

sábado, 16 de maio de 2026

Dia 18, debate Práxis sobre o mito da descida do valor das pensões


«As pensões do sistema público vão baixar em Portugal para 40% do salário?! É a versão alarmista que se tem espalhado pelos media e no espaço público. E é amplamente propagandeada pela direita liberal, para estimular a desconfiança, sobretudo nas gerações mais jovens, e justificar a entrada dos mercados financeiros no sistema de pensões português. Este valor é retirado, sem sentido crítico nem rigor, de um relatório da Comissão Europeia.
(…) Acontece que este relatório está em clara contradição com outras projeções e estudos da OCDE e da própria União Europeia que, quando comparam o sistema português de pensões e a sua evolução, consideram o nosso sistema como um dos mais generosos na taxa de substituição do salário pela pensão
».

Em mais uma videoconferência promovida pela Praxis, a desconstrução do mito recorrente da insustentabilidade do sistema de pensões. A sessão tem como orador convidado Vitor Junqueira, economista (foi membro da Comissão do Livro Verde da Segurança Social e diretor do Centro Nacional de Pensões), com moderação a cargo de Catarina Almeida Pereira (jornalista do Jornal de Negócios), sendo o encerramento do debate feito por Henrique Sousa (presidente da Mesa da Assembleia Geral da Práxis). A sessão é aberta a todos os interessados, mediante inscrição prévia aqui.

Tantas imagens, tantas palavras


Obrigado, João Abel Manta

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Quem nunca?


O individualismo é em geral produto da sobrestimação do valor próprio e da subestimação do valor dos outros. (...) O individualista tem por vezes a ilusão de que o individualismo é uma manifestação de liberdade individual. A verdade é que, quem pense, decida e actue apenas pela sua cabeça e pela sua vontade individual acaba por ser prisioneiro das suas próprias limitações. Isolado, atrás da aparente liberdade, o indivíduo acaba por ser escravo de si próprio. (...) Ao contrário do que afirmam os defensores do individualismo, a opção pela formação de uma opinião colectiva e de uma actuação colectiva constitui uma afirmação de que o indivíduo se libertou das próprias limitações individuais. Constitui assim uma expressão da liberdade individual. 

Álvaro Cunhal, O Partido com paredes de vidro, Edições Avante!, 1985, pp. 85-86 

No meio deste tempo tão sombrio, acalenta-me o facto de o PCP continuar a ser um objeto de repulsa-desejo tão intenso. 

Do ódio de classe à paixão mais intensa, passando pelo trauma por enfrentar ou pelo amor mais desenfreadamente inconsciente, sob a forma de um paternalismo altivo revelado publicamente e dirigido a quem está há décadas para morrer, a verdade é que muitas pessoas ficam diferentes no engajamento com o PCP, as que interessam para melhor e as mais mediáticas quase sempre para pior, sendo algumas capazes de mentir e de insultar o seu próprio passado. 

Pior, pior, é sempre a indiferença, dadas as tarefas acometidas aos comunistas. 

E é como se o PCP fosse para muitos a expressão político-partidária de uma “condição póstuma” e ao mesmo tempo o baluarte com que secretamente querem contar para se defenderem dela; condição assim descrita por Marina Garcés: “um novo relato, único e linear: o da destruição irreversível das nossas condições de vida”, fazendo do presente “o tempo que resta”. 

Se a experiência própria vale de alguma coisa, arrisco dizer que o trauma ex-comunista de tantos, o nó que aperta, poderia ser superado, desatado, pelo reconhecimento democrático e patriótico: “elaborar o sentido e as condições do vivível”, superar a tal condição póstuma, é tarefa coletiva, de classe, de povo. Requer ação coletiva, ou seja, organização disciplinada e logo livre e autónoma, como os comunistas portugueses nunca se cansaram de insistir e de praticar com coragem ímpar, na esteira de Cunhal. São inimitáveis, mostra a experiência, a que se adquire por comparação. 

Com todas as contradições do que está vivo e resiste na mais dura relação de forças, “rude e tosco instrumento para transformar Portugal” (Manuel Gusmão), o seu centralismo democrático, parte da teoria prática marxista-leninista, revelou ser de facto a melhor forma de organização, de vontade persistente, num tempo de refluxo, desorganizado por um individualismo possessivo, por um simulacro de singularidades impotentes e aprisionadas: eu-eu-eu-eu; o partido, a enésima coisa, sou eu. 

Sabendo distinguir validade e poder, os comunistas são condição necessária, mas não suficiente, para outra condição, mais humana, noutro tempo, com outro relato, com outra potência libertadora: eu-nós-nós-eu; o “educador tem ele próprio de ser educado”, como assinalou Marx. 

 No fundo, sabe-se isto e daí o ódio e o amor, a repulsa e o desejo. Quem nunca?

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Da política monetária

A fazer fé na imprensa financeira, a queda anunciada do desprezível Starmer está a agitar os “mercados”, “assustados” com a possibilidade de uma ligeira viragem à esquerda, contribuindo para a subida da taxa de juro dos títulos de dívida pública no mercado secundário, alcançando o valor mais elevado dos últimos anos. Cheira a golpismo monetário, uma vez mais, lembrando o que Paulo Coimbra aqui escreveu noutro contexto político britânico.

Convém assim relembrar que a chantagem dos mercados só é eficaz se o Banco de Inglaterra primar pela inação, que é nesta matéria uma forma de ação. Num país endividado na sua própria moeda, como é o caso do Reino Unido, o Banco Central tem instrumentos para controlar as taxas de juro em todas as maturidades. A independência dos bancos centrais é uma fraude, para a qual os trabalhistas contribuíram, não há neutralidade numa área onde inevitavelmente se cruzam poder político e confiança social.

Portugal está preparado para a nova era de choques de preços?

Nos últimos meses, a guerra no Médio Oriente reacendeu o debate sobre a inflação. Os mercados energéticos reagiram de imediato, os preços do petróleo têm registado enormes oscilações e as economias europeias já registam alguma pressão sobre os preços. É a segunda vez em poucos anos que isso acontece: desde a pandemia e, sobretudo, o início da guerra na Ucrânia em 2022, os choques de preços multiplicaram-se e a inflação tornou-se um dos temas centrais na vida da maioria das pessoas.

A guerra voltou a tornar visíveis as ramificações da economia mundial e a forma como as perturbações numa região se transmitem de forma rápida ao longo das cadeias de produção. O aumento do preço do petróleo torna a gasolina e o gasóleo mais caros e acaba por afetar todos os produtos que dependem do transporte - desde alimentos a produtos industriais -, pressionando especialmente setores como a agricultura, altamente dependentes de combustível para os tratores. É por isso que, historicamente, picos do preço do petróleo costumam estar associados a subidas dos custos dos alimentos.

 
Fonte: FRED

Além disso, há impactos menos visíveis que vão muito para lá do mercado energético. As disrupções não afetam apenas a produção de combustíveis fósseis, mas também de uma série de produtos derivados a partir destes. Os constrangimentos na produção de plásticos, derivados do petróleo, podem aumentar os custos dos produtos embalados no supermercado. Já o gás natural é uma matéria-prima essencial na produção de fertilizantes como a amónia e a ureia, o que significa que tem impacto nos custos de produção dos alimentos. Mais: o gás natural está frequentemente associado à extração de hélio, um recurso crítico para o fabrico de semicondutores e para equipamentos médicos como as máquinas de ressonância magnética. A disrupção da produção de combustíveis fósseis provoca um efeito dominó ao longo das cadeias de valor e afeta não apenas os preços que pagamos pela energia, mas também pelos alimentos, produtos embalados ou aparelhos eletrónicos.

 
Matérias-primas críticas que passam no Estreito de Ormuz. Fonte: Center on Global Energy Policy

Quatro anos depois do surto inflacionista que se seguiu à pandemia, a economia mundial confronta-se com um novo choque energético e de cadeias de abastecimento de grandes dimensões. Depois de várias décadas em que a inflação se manteve estável e baixa nas economias ocidentais, a sucessão deste tipo de choques nos últimos anos sugere que a economia mundial está a entrar numa era em que a instabilidade se torna a norma. Nesse contexto, é importante perceber o que mudou, que consequências é que essas mudanças implicam e qual a posição da economia portuguesa.

Porque é que já não nos lembrávamos da inflação?

Durante quase quarenta anos, a inflação deixou de ser um problema nas economias ocidentais. Depois do pico registado na década de 1970, com dois choques petrolíferos (1973 e 1979) que fizeram disparar os preços, a inflação foi contida e os países europeus entraram num longo período de relativa estabilidade a que os economistas dão o nome de "Grande Moderação", a ponto de muitos terem começado a assumir que o problema estava essencialmente resolvido.

 

Que fatores é que estiveram na origem da Grande Moderação? A resposta mais comum nos manuais de Economia atribui o mérito à política monetária. Desde a década de 1980, os bancos centrais tornaram-se independentes do poder político, adotaram um mandato principal - assegurar a estabilidade de preços - e definiram metas explícitas para a taxa de inflação. A interpretação convencional diz-nos que a chave para o sucesso dos bancos centrais esteve na credibilidade deste compromisso. Se trabalhadores e empresas acreditam que a inflação se manterá estável, as negociações salariais e as decisões de preços acabam por incorporar essa expectativa e evitam-se pressões de ambos os lados.

O momento fundador desta narrativa foi o choque de Volcker, como ficou conhecida a subida agressiva das taxas de juro pelo então presidente da Reserva Federal norte-americana (Paul Volcker) no início dos anos 1980. Com uma inflação que atingia dois dígitos, Volcker aumentou as taxas de juro para níveis sem precedentes, o investimento caiu, o desempregou disparou e a economia americana entrou em recessão, tendo a inflação acabado por ceder. A principal ilação retirada foi a de que a credibilidade dos bancos centrais - por outras palavras, a disposição para impor custos reais à economia em nome da estabilidade de preços - era a chave para manter a inflação sob controlo. No entanto, alguns estudos empíricos (aqui, aqui ou aqui) têm colocado em causa esta perspetiva. A relação entre independência dos bancos centrais e estabilidade de preços não é robusta: quando se alarga o conjunto de países analisados ou se ajusta a metodologia, a correlação entre as duas variáveis enfraquece ou desaparece.

Isso obriga-nos a olhar para outros fatores. Durante o mesmo período em que os bancos centrais ganhavam independência, a economia mundial passou por um conjunto de transformações estruturais que reduziram drasticamente os custos de produção das empresas. A globalização significou acesso a matérias-primas e mão-de-obra a preços mais baixos. A China integrou-se na economia global, tornando-se a fábrica do mundo e inundando os mercados ocidentais com produtos baratos. Ao mesmo tempo, a queda das taxas de sindicalização, o enfraquecimento da negociação coletiva e a precarização do trabalho reduziram o poder negocial dos trabalhadores e comprimiram os salários. A Grande Moderação foi em grande medida o produto de condições estruturais que parecem estar agora a inverter-se.

A pandemia e a guerra na Ucrânia representaram uma reversão das condições que tinham mantido a inflação baixa durante décadas. Uma economia dependente de cadeias de abastecimento a funcionar em fluxo contínuo foi confrontada com ruturas e estrangulamentos que provocaram escassez e fizeram disparar os custos de produção. A evidência empírica aponta nesta direção, tanto nos EUA como na Zona Euro: os constrangimentos da oferta, e em particular o choque energético provocado pela guerra na Ucrânia, explicam boa parte da subida dos preços registada em 2022 e 2023, enquanto o papel da procura e dos salários foi pouco significativo.

Uma nova era de choques

Há motivos para crer que os choques inflacionistas não são eventos isolados, uma vez que as condições que os tornavam pouco frequentes estão a mudar. Há duas forças em particular que apontam para um futuro em que perturbações da oferta e choques de preços se tornam uma característica estrutural das economias: o crescimento de tensões geopolíticas e a intensificação das alterações climáticas.

Em termos geopolíticos, os últimos anos têm sido marcados por uma fragmentação da ordem económica internacional que emergiu após a Segunda Guerra Mundial. A crescente rivalidade entre os EUA e a China tem levado os primeiros a apostar numa guerra comercial como forma de travar (ou pelo menos conter) o seu declínio económico, revertendo décadas de integração. Os conflitos em regiões que concentram parte importante das reservas de matérias-primas essenciais, do Médio Oriente à Gronelândia, têm de ser entendidos neste contexto. A concentração geográfica de recursos como o petróleo, o gás, os semicondutores ou os minerais essenciais para a transição energética permite aos países usá-los como arma de pressão. Neste cenário, a volatilidade dos mercados de energia e de matérias-primas parece ter vindo para ficar.

O início de 2026 é um bom exemplo. A guerra no Médio Oriente interrompeu o fornecimento de gás natural proveniente do Golfo Pérsico, afetando a produção de fertilizantes como a ureia e a amónia, essenciais para a agricultura. Com 30% da produção mundial de ureia temporariamente fora do mercado, os preços dos fertilizantes dispararam cerca de 40% em poucos meses. Em países como a Tailândia, as Filipinas e o Bangladesh, agricultores que estão a entrar em época de sementeira enfrentam custos de produção que tornam o cultivo economicamente inviável e muitos estão a abdicar de produzir ou a reduzir a área cultivada, o que terá impacto na oferta de alimentos como o arroz.

Se olharmos para os indicadores sobre as cadeias de abastecimento, encontramos um padrão semelhante ao que se verificou após o início da guerra na Ucrânia. O índice da Reserva Federal de Nova Iorque que mede a pressão sobre as cadeias de abastecimento globais registou em abril o valor mais elevado desde julho de 2022, ao passo que o índice do Banco Mundial que acompanha o transporte de contentores se aproximou dos valores da pandemia, com as transportadoras a começar a repercutir os custos de energia e a incerteza nas tarifas que cobram às empresas.

 
Fonte do gráfico: Bloomberg, com base em dados da New York Fed

Além disso, as alterações climáticas estão a tornar-se uma fonte recorrente de subidas de preços dos alimentos. As culturas agrícolas são muito sensíveis às condições meteorológicas e fenómenos como ondas de calor mais prolongadas, períodos de seca severa ou chuvas intensas fora de época põem em risco a produção. Nos últimos anos, os preços do azeite dispararam em consequência de secas prolongadas em Espanha, Itália e Portugal. O cacau atingiu máximos históricos depois de ondas de calor devastarem as colheitas na Costa do Marfim e no Gana, os dois maiores produtores mundiais. Um estudo de investigadores do Banco Central Europeu concluiu que, em 2022, as temperaturas-recorde do verão europeu aumentaram a inflação dos alimentos entre 0,43 e 0,93 pontos percentuais e que este impacto tenderá a agravar-se nas próximas décadas com o aquecimento projetado para o continente.

Há ainda um fator de amplificação adicional. Quando os custos de produção sobem, as empresas aumentam os preços que cobram em simultâneo, o que significa que nenhuma corre o risco de perder clientes para a concorrência. A crescente concentração dos mercados num pequeno conjunto de grandes empresas facilita a coordenação implícita dos aumentos de preços em contextos em que há constrangimentos da oferta, o que ajuda a explicar porque é que os lucros extraordinários se verificam sobretudo em setores que funcionam como oligopólios: energia, produção agro-industrial, grande distribuição, etc.

Uma economia organizada em torno de fluxos contínuos de produtos entre países é vulnerável a choques que ocorram em qualquer ponto da cadeia. A experiência dos últimos anos é ilustrativa: desde o levantamento desigual dos confinamentos após a pandemia, que atrasaram a produção de componentes necessários para responder à procura, à escalada de conflitos militares, que interditam rotas marítimas e impedem o transporte, passando por cheias e secas severas que afetam a produção agrícola, os efeitos em cascata têm-se feito sentir um pouco por todo o mundo. Numa era de maior instabilidade geopolítica e de intensificação das alterações climáticas, estas cadeias tornam-se mais frágeis e os preços que pagamos no supermercado refletem-no.

Quão exposto está Portugal?

A economia portuguesa reúne várias características que a tornam particularmente exposta a uma era de choques de preços recorrentes. A primeira é a mais evidente: Portugal é um importador líquido de energia e, embora tenha feito progressos na expansão das energias renováveis (que representam cerca de 80% da produção elétrica), a dependência de petróleo importado continua a ser elevada nos transportes e em vários setores industriais. Quando os preços do petróleo disparam, Portugal paga mais pela energia que importa e vê a sua balança comercial deteriorar-se.

No setor elétrico, o país beneficia de uma posição relativamente favorável. À semelhança de Espanha, Portugal é dos países europeus menos exposto ao impacto dos preços do gás na eletricidade. O peso crescente das renováveis funciona como um amortecedor em períodos de volatilidade dos combustíveis fósseis, e o mecanismo ibérico de desacoplamento entre o preço do gás e o preço da eletricidade, aplicado durante o choque de 2022, contribuiu para reduzir as faturas em Portugal e Espanha face ao resto da Europa. Ainda assim, isso não cobre os transportes, onde a gasolina e o gasóleo representam ainda quase toda a energia consumida, nem protege os setores industriais que dependem diretamente dos combustíveis.

A segunda vulnerabilidade tem a ver com a agricultura. Portugal encontra-se dependente da importação dos fertilizantes usados na produção agrícola (produzidos a partir de gás natural). Quando os preços do gás sobem, como aconteceu em 2022 e como está a acontecer novamente, os custos de produção agrícola aumentam e o impacto repercute-se nos preços dos alimentos. E isso liga-se com a terceira vulnerabilidade: as alterações climáticas. Enquanto parte do sul da Europa, Portugal é um dos países europeus mais expostos às consequências do aquecimento global, que se traduzem num aumento da frequência e intensidade das secas, ondas de calor, incêndios e precipitação intensa.

Algumas associações de produtores têm alertado para os impactos que as tempestades que atingiram o país no início deste ano tiveram na produção agrícola, devido ao excesso de precipitação e humidade, à perda de área cultivada e aos danos nas infraestruturas, que implicam riscos de quebras na produção de bens como os cereais ou os citrinos. Com o bloqueio do estreito de Ormuz que se seguiu, a subida dos custos com fertilizantes também tem sido referida como um problema para a atividade agrícola.

O que fazer quando os choques se tornam a norma?

Desde a ascensão da independência dos bancos centrais, a resposta a um pico de inflação foi sempre a mesma: subir as taxas de juro, travar a procura e esperar que as pressões sobre os preços cedessem. Esta estratégia foi desenhada para um tipo específico de inflação, que resulta de uma economia sobreaquecida, com um excesso de procura que se deveria a políticas expansionistas ou ao crescimento demasiado acelerado dos salários. No entanto, quando a inflação resulta de choques da oferta como os que se têm multiplicado nos últimos anos, subir a política monetária não tem nenhum efeito óbvio. Subir as taxas de juro não ajuda a reabrir uma rota marítima ou a recuperar colheitas destruídas por cheias ou secas.

Os economistas Daniela Gabor e Benjamin Braun distinguem três caminhos possíveis para os governos face aos atuais choques energéticos. O primeiro é o que chamam "terapia de choque do carbono": deixar que os preços elevados dos combustíveis fósseis façam o seu trabalho, eliminando as atividades dependentes de energia barata e forçando uma reconversão acelerada. O segundo é o caminho do "derisking": usar os instrumentos do Estado e o dinheiro público para reduzir riscos para o setor privado, através de subsídios, garantias e incentivos fiscais, na esperança de atrair investimento privado para a transição verde. O terceiro, mais transformador, é o que designam como "Estado verde forte": investimento público direto, planeamento, direcionamento do crédito para atividades estratégicas e controlos de preços quando necessário.

A Alemanha é dada como exemplo dos custos da terapia de choque do carbono. Depois da invasão russa da Ucrânia em 2022, a Alemanha aplicou uma medida de regulação dos preços do gás para as famílias e as pequenas empresas, mas não interveio para proteger a indústria intensiva em energia, com o argumento de que os preços altos disciplinariam as empresas a promover a transição para fontes de energia limpas ou a fechar portas. O resultado foi sobretudo o segundo: a economia alemã entrou em estagnação e, no final de 2024, a produção industrial intensiva em energia estava ainda 20% abaixo dos níveis anteriores à guerra.

Os países da periferia do sul da União Europeia - Portugal, Espanha, Itália e Grécia - foram menos atingidos pelo choque energético de 2022 em termos de impacto sobre o PIB, precisamente porque têm menos indústria intensiva em energia. Isso ajuda a explicar o melhor desempenho relativo destas economias nos últimos anos, que culminou com a distinção de Portugal como a “economia do ano” para a revista britânica The Economist. No entanto, trata-se do reflexo de uma base industrial mais fraca, com menor capacidade tecnológica nos setores que vão ser decisivos para a transição verde.

Na verdade, as economias do sul europeu não estão numa posição estruturalmente vantajosa: além da baixa capacidade tecnológica em tecnologias verdes, exibem níveis reduzidos de apoios públicos à transição e atraso na adoção de renováveis fora do setor elétrico. Com uma política industrial europeia assente em regras de auxílios de Estado que favorecem os países menos endividados (leia-se, a Alemanha, que sozinha alocou mais de 90 mil milhões de euros em apoios estatais verdes entre 2021 e 2023), os países da periferia terão tendência a perder a corrida.

A resposta à nova era de choques de preços enfrenta vários desafios. Como reduzir a dependência de combustíveis fósseis ou fertilizantes importados? Como acelerar a eletrificação dos transportes sem assentar apenas em incentivos à compra de carros elétricos por classes médias/altas? Como evitar a transferência de rendimento para o topo que ocorre com os lucros extraordinários e a distribuição de dividendos das grandes empresas em contextos de crise?

Sem planeamento público, deixar que o mercado aplique a “terapia de choque do carbono” resulta em destruição de capacidade produtiva e desindustrialização. A transição energética requer a construção de um Estado verde com capacidade real de intervenção, desde o investimento direto através de empresas públicas à constituição de reservas de matérias-primas críticas. Há exemplos que mostram que é possível fazê-lo a uma escala nacional comparável com a nossa. Na Suíça, o Estado definiu regras para um conjunto de empresas privadas que tem de manter stocks de bens essenciais (alimentos, fertilizantes, medicamentos e combustíveis) equivalentes a dois a quatro meses de consumo. A Finlândia mantém reservas de cereais para cobrir as necessidades alimentares durante nove meses e a Polónia mobilizou recentemente as suas reservas de manteiga durante a crise. Este tipo de reservas permite estabilizar a oferta e os preços dos produtos e proteger a soberania alimentar dos países.

No curto prazo, a experiência dos últimos anos mostra que há instrumentos que funcionam, como desacoplar o preço da eletricidade do gás quando este dispara, regular temporariamente preços e/ou margens em bens essenciais e tributar os lucros extraordinários para redistribuir os custos da crise (mais desenvolvidos aqui). A médio prazo, o caminho passa por reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados, o que implica investimento público para expandir a capacidade de produção de renováveis, constituir reservas de matérias-primas essenciais e orientar a eletrificação dos transportes e da economia. O custo do investimento necessário para a transição energética é inferior ao custo económico de uma crise energética como a de 2022. O preço mais elevado é o da inação.

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quarta-feira, 13 de maio de 2026

Um jornal para respostas coletivas


Perante o aprofundamento da crise climática, as companhias de seguros privadas procuram que os Estados lhes criem condições para lucrar com as catástrofes (...) Acontece que o Estado democrático não foi criado para ser um mediador de seguros privados. E as populações, desde logo as mais afetadas pelas catástrofes climáticas (mas não só), sabem bem que a solidariedade, ou o direito a ter proteção social e a viver em segurança, não se confundem com garantir bons negócios aos privados.Na noite da apresentação do PTRR, as televisões logo se encheram de comentadores que explicaram aos cidadãos que o governo está a pedir-lhes que, contratando um seguro, façam poupanças «em tempos em que tudo está bem» para que possam estar protegidos «quando as coisas correrem mal». 

Nenhuma consideração das obrigações do Estado na prevenção e mitigação das alterações climáticas; nenhuma exigência de políticas públicas que protejam o bem público, não o interesse privado. E, sobretudo, uma total incompreensão de como, para a grande maioria da população, a ideia de que será agora preciso acrescentar novas poupanças às poupanças que já há muito não se conseguia fazer é algo, não só impossível, como ofensivo. Na verdade, o problema não é individual — e a resposta democrática terá de ser coletiva.

Sandra Monteiro, Um Estado mediador de seguros?, Le monde diplomatique - edição portuguesa, maio de 2026.

Cruz


Aquando da pandemia, pensou-se que o sórdido negócio dos covidários turísticos, também conhecidos por cruzeiros, levaria um rombo eventualmente fatal. Tratou-se de uma ilusão, de várias: as coisas não tendem a melhorar espontaneamente depois da catástrofe, pelo contrário. 

No capitalismo, esta festa continuou e cada dia mais intensa, incluindo iates cada dia maiores para milionários cada dia com mais milhões, e continuará até haver sujeito político que a trave. 

Entretanto, os custos sociais são pagos pela comunidade e dentro dela pelos mais pobres, claro: dos efeitos da poluição intensa até à super-exploração laboral, passando pela difusão de vírus, como se vê uma vez mais, agora com o hantavírus. Diz que não é tão contagioso. Era o que mais nos faltava.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Tempos reais


Como se não fosse nada, o editorial do Financial Times de ontem diz que a China tem reservas contracícilicas de bens essenciais e controlos de preços, o que ajuda a absorver os choques num contexto em que a República Popular é melhor vista pela maioria do mundo do que os EUA. 

Só falta dizerem que a propriedade pública de grande parte da banca ajuda a China a dirigir o crédito para os setores em que a política industrial aposta ou que os controlos de capitais são barreiras às crises financeiras...

Haja número