Trata-se de cumprir e fazer a cumprir a Constiuição. Haja renascimento.
Se não vem ao blogue, o blogue vai aos seus escritos: leia-se tudo o que Ana Cordeiro Santos escreveu sobre habitação, a começar no livro que coordenou e a acabar nos artigos que tem escrito no Le Monde diplomatique - edição portuguesa, em particular sobre os mitos liberais acerca do congelamento de rendas e sobre a nova política internacional do seu controlo, já testada e defendida por um número crescente de economistas.
Excerto de um artigo de 2020:
“O mito do congelamento das rendas, que se reporta a contratos celebrados antes de 1990, e para camadas da população específicas, é, na verdade, um argumento que visa travar a regulação do mercado de arrendamento entretanto liberalizado. Mas como muitos autores vêm argumentando, a regulação do mercado de arrendamento, no actual contexto, não se reporta ao congelamento nominal das rendas implementado no pós-guerra, num conjunto significativo de países europeus, e que fez parte da designada primeira geração do controlo de rendas.
Em Portugal, esta política remonta a 1943.
Contudo, as gerações seguintes de políticas de controlo de rendas não advogam o congelamento nominal das rendas, mas visam limitar o seu crescimento, e garantir uma maior estabilidade dos contratos para os inquilinos. O que está em causa é, pois, a definição do valor adequado para as rendas, a determinar com base num conjunto de critérios objectivos, tais como a localização, a dimensão e a idade de construção do imóvel.
Importa sublinhar que o controlo das rendas não impede que os senhorios obtenham um rendimento aceitável com o arrendamento dos seus imóveis. O que se procura evitar é a prática de valores especulativos, que limitam o acesso à habitação, e que advêm de um poder desproporcionado de mercado.”
Excerto de outro artigo, mas já do verão deste ano:
“Perante o agravamento da inacessibilidade da habitação, surgem, porém, estudos que questionam estas narrativas, incluindo em contextos tradicionalmente mais favoráveis à desregulação dos mercados, como os Estados Unidos. Em 2023, um grupo de 32 economistas de universidades de referência, entre as quais o Massachusetts Institute of Technology (MIT), Columbia e a Universidade de Massachusetts Amherst, subscreveu uma carta dirigida à administração de Joe Biden defendendo o controlo das rendas como instrumento eficaz para proteger famílias de baixos e médios rendimentos face à subida dos custos da habitação. Com base em estudos empíricos, os signatários argumentam que mercados de arrendamento pouco regulados têm contribuído para agravar a insegurança habitacional, o número de pessoas em situação de sem-abrigo, os problemas de saúde e as dificuldades económicas de milhões de inquilinos.
De acordo com estes economistas, muitas das críticas tradicionalmente dirigidas ao controlo das rendas assentam em modelos económicos excessivamente simplificados, incapazes de captar o funcionamento real dos mercados habitacionais. Sustentam, por isso, que existe hoje evidência empírica significativa que contraria uma das principais objeções a estas políticas: a ideia de que a regulação das rendas reduz substancialmente a construção de novas habitações ou a oferta de alojamento. Adicionalmente, criticam a desconsideração dos efeitos positivos da estabilização das rendas na melhoria do acesso à habitação, na fixação das populações nos seus bairros e na promoção da diversidade social e económica. Além disso, o controlo das rendas pode contribuir para moderar as pressões inflacionistas, dado o peso dos custos habitacionais nos índices de preços ao consumidor no contexto norte-americano.
Os economistas criticam também a influência de grandes proprietários e grupos de pressão ligados ao setor imobiliário, acusando-os de reproduzir argumentos e estudos desatualizados para preservar os seus interesses económicos. Em contrapartida, defendem que políticas de regulação das rendas adequadamente desenhadas podem reequilibrar a relação de poder entre proprietários e inquilinos, assegurando simultaneamente proteção aos arrendatários e níveis razoáveis de rendibilidade para os investidores.
Sublinham, ainda, que o controlo das rendas não é uma solução única ou suficiente para resolver a crise habitacional. O que defendem é uma abordagem integrada, que combine mecanismos de estabilização das rendas, reforço da proteção dos inquilinos, promoção de habitação pública e acessível, e aumento da oferta habitacional. Nesta perspetiva, o controlo das rendas surge como um instrumento relevante no quadro de uma estratégia mais ampla de política de habitação. Os autores apontam vários exemplos de experiências bem-sucedidas nos Estados Unidos, aos quais se pode juntar a recente decisão da comissão de habitação de Nova Iorque, que no passado mês de junho deliberou o congelamento das rendas por dois anos.
No contexto europeu, vários países já aplicam modelos de controlo ou regulação das rendas para proteger os inquilinos e garantir maior estabilidade residencial. É o caso da Alemanha, Áustria, Dinamarca, França, Países Baixos e Suécia, onde existem mecanismos que limitam os aumentos das rendas ou estabelecem valores de referência para determinados segmentos do mercado. Assim, longe de representar uma anomalia, a regulação das rendas integra o conjunto de instrumentos habitualmente utilizados para responder aos problemas de acessibilidade habitacional.”









































.jpeg)

