quinta-feira, 12 de março de 2026

Debater quando tudo arde


Todavia, a cultura crítica permite a construção de um rico espaço de conteúdos e de formas de comunicar. Escapando, como Gramsci sugeria, aos territórios da cultura moderna, condicionados por interesses materiais – já denunciados pela «teoria crítica» proposta desde a década de 1920, pelos pensadores da Escola de Frankfurt –, mas fugindo igualmente aos da cultura popular, também esta manipulável.


Desculpai, temos de continuar a debater, mesmo quando tudo arde, sobretudo quando tudo arde. Outros o fizeram antes de nós. Quando penso em muito do que está mal na esquerda brâmane, penso em intelectuais públicos do Livre como Rui Bebiano. Não é implicação, é representatividade. 

De facto, tem a virtude de ser um repositório de alguns gestos que se repetem ao longo do tempo, incluindo a fuga ao debate frontal e transparente, racionalizada por uma espécie de altivez aristocrata, a da cultura acantonada na “teoria crítica”. 

Ao contrário do que parece sugerir, Gramsci era, como criativo continuador dos bolcheviques, mas num contexto de intenso refluxo, um modernista, um marxista, que por isso partia dos interesses materialmente ancorados, do momento “corporativo”, para tentar chegar ao verdadeiro momento “ético-político”. Esta passagem exigente só podia, segundo ele, ser operada pelo “novo príncipe”, pelo Partido Comunista, eventualmente aliado a outros. 

E Gramsci muito menos fugiu da cultura popular, pelo contrário, já que a considerava um rico e contraditório repositório dos trabalhos materiais e espirituais das classes subalternas, a ser retrabalhado e desenvolvido no quadro da laboriosa criação de uma vontade coletiva, a que chamou, precisamente, “nacional-popular”. 

E ele pagou o preço mais elevado no combate ao fascismo. Mas há uma indústria académica liberal com décadas, apostada em furtar Gramsci à rica tradição leninista, casando-o, por exemplo, com a chamada Escola de Frankfurt, a que, por vezes com ligações muito suspeitas e cada vez mais investigadas, terminou em Habermas e na legitimação do genocídio colonial sionista. Essa adulteração faz com alguns à esquerda, injustamente, tenham passado a olhar para Gramsci de soslaio. 

Felizmente, há intérpretes de Gramsci que resistiram até ao fim, de Carlos Nelson Coutinho, no Brasil, a Domenico Losurdo, em Itália, lutando sempre contra diluições indevidas. 

Creio que é necessário sermos diretos nos debates públicos, incluindo na academia. E assertividade não é desrespeito, antes pelo contrário, já que implica, para começar, reconhecimento do outro e logo “risco” de sermos refutados e de termos de conceder e assim sucessivamente, em aprendizagem recursiva.

A guerra no Irão vai trazer de volta a inflação?

Nas últimas duas semanas, a inflação voltou a tornar-se um tema de abertura dos telejornais. Depois de um período em que deixou de estar tão presente no debate público, as notícias sobre a inflação voltaram a ganhar destaque. O motivo é a guerra mais recente: desde o final de fevereiro, os ataques aéreos dos EUA e de Israel sobre o Irão desencadearam um conflito cujo impacto já se faz sentir nas bombas de gasolina e que pode alastrar-se.

O impacto prende-se sobretudo com as consequências da guerra para os mercados energéticos. Embora o Irão seja responsável por apenas 4,5% da produção mundial de petróleo, o país controla o Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do petróleo e do gás natural comercializado a nível global. Ao impedir a passagem de navios pelo estreito, em resposta aos ataques, o Irão tem capacidade para provocar uma disrupção significativa na oferta de energia mundial.

Estreito de Ormuz. Fonte: The Guardian

Os impactos não demoraram a sentir-se: num mercado particularmente propenso ao pânico e à especulação, o preço do barril de petróleo (Brent), que rondava os $70 no início do ano, disparou em poucos dias e superou a barreira dos $100, tendo chegado a aproximar-se dos $120 antes de recuar parcialmente. Quanto ao gás natural, o preço de referência na Europa quase duplicou após o início do conflito, tendo subido de €30/MWh para cerca de €50/MWh. A subida foi alimentada pela decisão de suspender a produção em instalações no Catar (um dos países aos quais a União Europeia recorreu quando quis cortar as importações de combustíveis da Rússia).

Este episódio traz à memória a experiência da última crise energética, em 2022, quando a invasão da Ucrânia pela Rússia fez disparar os preços do petróleo e do gás nos mercados internacionais. Na verdade, este está longe de ser um fenómeno novo: antes disso, a última grande crise inflacionista na Europa, registada na década de 1970, também esteve ligada a choques do preço do petróleo. Como o petróleo é a principal fonte de produção de energia e a energia é um produto indispensável para alimentar a maioria das atividades económicas, um aumento do preço do petróleo repercute-se de forma significativa nos custos (e nos preços) da maioria dos produtos e serviços que consumimos.

Atualmente, o debate tem-se centrado na questão de saber se a guerra no Irão vai provocar uma crise inflacionista comparável à que atingiu as economias ocidentais após a guerra na Ucrânia. Tendo em conta a impossibilidade de prever a duração do conflito, há demasiada incerteza para fazer projeções sobre a evolução dos preços. Ainda assim, há um conjunto de lições a retirar da última crise inflacionista que ganham relevância no contexto atual, sobretudo tendo em conta que os riscos não se resumem aos conflitos militares.

Energia e não só

A subida dos preços do petróleo tem um efeito imediato sobre a carteira da maioria das pessoas. Isso acontece porque a cotação do petróleo influencia diretamente os preços dos combustíveis. Nesta semana, os preços da gasolina e do gasóleo subiram 4,3% e 11,5%, respetivamente, e receia-se que a próxima semana traga novos aumentos de preços. Ainda assim, é preciso ter em conta que os preços ainda se encontram longe do pico registado em 2022.

Nos preços do gás natural, verifica-se a mesma tendência. Embora o preço tenha aumentado de forma significativa, atingindo os €50/MWh, ainda se encontra bastante longe do pico registado em 2022, quando chegou aos €350/MWh. Javier Blas, analista da Bloomberg, nota que ao contrário de 2021-22, quando o petróleo, o gás, o carvão e a eletricidade encareceram em simultâneo e de forma acentuada, o conflito atual afeta um conjunto mais restrito de mercados e os aumentos registados (ainda) são bastante menos pronunciados. Ainda é cedo para saber se estamos perante oscilações temporárias ou uma tendência persistente de subida dos preços dos combustíveis, que será mais provável quanto mais tempo durar o conflito no Médio Oriente.

Ainda assim, além dos preços da energia, há outros impactos menos discutidos (mas não menos relevantes). É o caso dos fertilizantes: a produção dos produtos químicos usados na agricultura também está a registar uma quebra na produção face à escassez de gás natural (indispensável para a produção de amónia, o ingrediente base de muitos fertilizantes). Os preços dos fertilizantes já começaram a reagir nos mercados internacionais. Em Portugal, a dependência de importações de fertilizantes deixa o país inevitavelmente exposto à subida dos preços, com potencial repercussão nos custos agrícolas e, a prazo, nos preços dos alimentos.

Fonte: Bloomberg

Choques da oferta há muitos

A possível crise energética soma-se a outros choques que atingiram a economia portuguesa no início deste ano. A sucessão pouco comum de tempestades que assolou Portugal recentemente, com destaque para a depressão Kristin, acrescenta uma segunda dimensão a este quadro. Além da destruição de casas e das dificuldades para as pessoas nas regiões mais afetadas, as tempestades arrasaram estufas, pomares e olivais, destruindo colheitas de hortícolas e frutos. Várias culturas ficaram debaixo de água e, embora não se antecipe uma rutura de stocks, rapidamente se alertou para o risco de enfrentarmos preços mais altos nos supermercados, devido às necessidades de importação. As tempestades também abateram mais de 100 mil galinhas poedeiras, podendo provocar uma quebra significativa na produção de ovos.

Os danos provocados pelas tempestades são apenas o exemplo mais recente do impacto económico das alterações climáticas. Os fenómenos meteorológicos extremos - precipitação intensa, cheias ou secas prolongadas - têm-se tornado mais frequentes nos últimos tempos, com consequências diretas sobre a produção agrícola e, consequentemente, sobre os preços dos alimentos. Um estudo publicado por investigadores do Banco Central Europeu concluiu que, em 2022, as temperaturas-recorde do verão europeu aumentaram a inflação dos alimentos entre 0,43 e 0,93 pontos percentuais. Os investigadores alertam para que estes impactos se acentuem nas próximas décadas, com o aquecimento projetado para o continente a poder elevar a taxa de inflação dos alimentos até 3,2 pontos percentuais.

Fonte: BCE

Um outro estudo publicado em julho do ano passado, que analisou variações de preços em 18 países entre 2022 e 2024, concluiu que “os picos de preços estiveram associados a fenómenos extremos de calor, seca ou precipitação intensa, vários dos quais tão extremos que ultrapassaram todos os precedentes históricos anteriores a 2020”. Os períodos de seca extrema contribuíram para disrupções na produção e na oferta de vegetais nos EUA, do café do Brasil ou do azeite de Itália e Espanha. Já as ondas de calor atingiram de forma severa a Índia e os grandes produtores de cacau (Gana e Costa do Marfim), ao passo que a precipitação intensa e as cheias tiveram impactos que vão desde a produção de batatas no Reino Unido à de alfaces na Austrália.

Em todos os casos, os preços dos produtos dispararam na sequência destes fenómenos. Na mesma linha, as tempestades recentes em Portugal geram riscos de aumento dos preços de vários alimentos, numa situação paralela à experiência dos preços do azeite, que dispararam em consequência dos períodos de seca intensa que assolaram o país em anos recentes.

O que aprendemos desde um Inverno passado

Embora o desfecho do conflito no Médio Oriente esteja envolto em grande incerteza, a experiência do último surto inflacionista, que começou em fevereiro de 2022, fornece-nos pistas sobre o que podemos esperar caso a crise energética se prolongue. Há pelo menos três lições a retirar: primeiro, os choques da oferta podem ser amplificados pelo poder de mercado das empresas; segundo, a política de subida das taxas de juro tem pouca utilidade para resolver as pressões inflacionistas; terceiro, a forma como medimos a inflação subestima o impacto na carteira das pessoas e, em especial, de quem ganha menos.

Começando pela primeira: durante o choque energético desencadeado em 2022, as cinco maiores petrolíferas cotadas do mundo – BP, Shell, Chevron, ExxonMobil e TotalEnergies – registaram lucros de $281 mil milhões e os dividendos distribuídos aos acionistas bateram recordes. Em Portugal, os lucros da Galp contrastaram com a crise do custo de vida que atingiu a maioria.

No artigo “Sellers’ inflation, profits and conflict: why can large firms hike prices in an emergency?”, Isabella Weber e Evan Wasner descrevem o papel das empresas no fenómeno inflacionista. Em condições normais, as empresas evitam aumentar preços de forma unilateral devido ao receio de perder clientes para vendedores que concorrem no mesmo mercado. No entanto, há períodos em que este cenário se altera. Quando um choque num período específico gera um aumento dos custos das empresas num determinado setor, se estas quiserem manter as taxas de lucro inalteradas, terão de aumentar os preços que cobram em simultâneo.

Neste contexto, como todas as empresas do mesmo setor aumentam os seus preços, nenhuma corre o risco de perder clientes para a concorrência. Além disso, o tipo de constrangimentos da oferta que se registaram nos últimos anos, amplamente noticiados pelos meios de comunicação e referidos pelas empresas, contribuem para a sensação de “legitimidade” das subidas de preços. Desta forma, estes choques acabam por aumentar de forma temporária o poder das empresas para aumentar os preços sem afastar clientes. Weber e Wasner resumem o surto inflacionista em três fases:

· Impulso: constrangimentos da oferta de matérias-primas essenciais para muitas atividades económicas dão às (grandes) empresas desses setores um poder temporário para aumentar preços;

· Propagação e amplificação: as empresas dos restantes setores procuram proteger (ou aumentar) as margens de lucro, aumentando os preços em simultâneo;

· Conflito: os trabalhadores procuram recuperar, pelo menos em parte, o poder de compra através da negociação dos salários.

Num contexto em que as taxas de sindicalização caíram para mínimos históricos e que a precariedade se generalizou, os trabalhadores têm muito menos poder para tentar proteger o seu poder de compra, ao passo que o poder das maiores empresas tem vindo a aumentar. A crescente concentração dos mercados num pequeno conjunto de grandes empresas, que facilita a coordenação (mesmo que implícita) dos aumentos de preços em contextos em que há constrangimentos na oferta, o que ajuda a explicar porque é que os lucros extraordinários se verificaram sobretudo em setores com características oligopolistas (energia, produção agro-industrial, grande distribuição, etc.).

Isso leva-nos à segunda lição: a experiência dos últimos anos sugere que, quando a inflação é gerada por este tipo de choques do lado da oferta, a política monetária tem pouca utilidade. Aumentar as taxas de juro, como aconteceu em 2022 e 2023 após o surto inflacionista, não só não resolve os problemas da oferta de matérias-primas como tende a penalizar sobretudo quem se encontra nos escalões de rendimento mais baixos (com maior peso da dívida sobre o rendimento) e a beneficiar credores e/ou detentores de ativos financeiros.

Por fim, os últimos anos também deixaram claro que os indicadores que tradicionalmente usamos para medir a inflação subestimam o impacto real sobre o custo de vida de quem ganha menos. Ao usar um cabaz que representa o padrão de consumo médio no país, o Índice de Preços no Consumidor não capta as diferenças nos padrões de consumo que variam consoante o rendimento. Assim, a inflação acaba por subestimar o peso maior que os bens essenciais (energia e alimentos) têm no orçamento das famílias de menores rendimentos. Além disso, ao não incluir custos como as prestações dos empréstimos à habitação, deixa de fora uma parte importante do custo de vida para muitas pessoas.

Independentemente do desfecho do conflito no Médio Oriente, o início de 2026 tem sido marcado por uma sobreposição de choques energéticos e alimentares que nos obriga a revisitar as principais questões que a última crise inflacionista já tinha colocado e para as quais a política económica continua sem dar resposta adequada.

O que se segue?

O cenário atual envolve riscos relevantes. Se os preços do petróleo se mantiverem elevados e se os danos provocados pelas tempestades se traduzirem numa subida do preço dos alimentos durante os próximos meses, Portugal pode enfrentar novas pressões sobre o custo de vida. E, como aconteceu nos últimos anos, os efeitos não se distribuem de forma uniforme: quem ganha menos e gasta uma percentagem maior do rendimento em bens essenciais paga um preço mais elevado.

A estratégia de combate à inflação tem de ser pensada em função das suas origens e não apenas dos seus sintomas. Propostas como a criação de stocks de reserva de bens alimentares e matérias-primas à escala internacional, que permitam aos países estabilizar a oferta e evitar oscilações excessivas dos preços, voltaram a estar em cima da mesa. Este tipo de reservas existe em vários países: além da conhecida reserva estratégica de petróleo dos EUA, países como a China ou a Índia possuem reservas de cereais (no caso chinês, existem também reservas de fertilizantes), enquanto o Japão possui reservas de arroz e a Polónia de manteiga. A constituição de reservas estratégicas permite aos países mobilizá-las em períodos de crise para estancar a escassez da oferta e mitigar o impacto sobre os preços de produtos essenciais.

No caso do petróleo, a Agência Internacional da Energia anunciou ontem a maior libertação de reservas de petróleo da sua história: 400 milhões de barris, mais do dobro dos 182 milhões libertados em 2022 após a invasão russa da Ucrânia, numa clara tentativa de conter os preços. Já em relação ao gás natural, os dados sugerem que as reservas europeias se encontram em valores bastante baixos, à semelhança do que já se tinha verificado em 2022 quando o conflito na Ucrânia gerou receios de que houvesse escassez e necessidade de racionamento.

Em todo o caso, a instabilidade recente reforça a ideia de que é necessário repensar o combate à inflação. Medidas que desincentivem práticas especulativas, como a introdução de impostos sobre lucros extraordinários, podem ajudar a impedir situações de aproveitamento por parte das grandes empresas, além de compensar os grupos mais afetados pela inflação. Além disso, acelerar a transição energética, através de investimentos nos transportes públicos e na melhoria da eficiência energética dos edifícios e da indústria, contribui para reduzir a vulnerabilidade à próxima crise energética. No caso de Portugal, além de reduzir a exposição a choques de preços, permite reduzir importações e melhorar o saldo externo. A sobreposição de choques neste início de ano é um bom pretexto para recordar que adiar respostas estruturais aumenta os custos que enfrentaremos na próxima crise.

Para ler outros textos como este, pode também subscrever gratuitamente a newsletter Reverso da Moeda.


quarta-feira, 11 de março de 2026

Aprendei, opinion takers

Vós, opinion takers, não tendes a oportunidade de ir a Bruxelas aprender. Mas tendes a oportunidade de pensar a partir desta periferia e deste facto bruto de economia política: isto já não é bem um país, já não é bem uma democracia. 

E tendes ademais a oportunidade de tirar a seguinte conclusão de política económica, sem a qual a esquerda não sairá da sua rematada impotência: isto terá de voltar um dia a ser um país e para isso terá de voltar a ter uma economia mista, como a Constituição prescreve, incluindo um Banco mesmo de Portugal.

terça-feira, 10 de março de 2026

Antifascismo, Vital


Quem lê este blogue desde 2007 sabe que sempre polemizámos com Vital Moreira, que se tornou o melhor representante que conheço do ordoliberalismo alemão em Portugal. A polémica nasce da intensa divergência doutrinária, que não impede o apreço intelectual, incluindo pelo profundo conhecimento de história da economia política, naturalmente. 

Hoje, quero antes sublinhar convergências em quatro planos.

Na política externa – o caso das Lajes configura “um patente caso de ‘frete’ político a Washington contra o interesse nacional”, sem qualquer base legal. 

Na questão constitucional original, o que só por si lhe garante um justo lugar na história nacional – “É o momento de recordar o exaltante tempo do nascimento da Constituição. Pela primeira vez na nossa história constitucional, há deputados constituintes que podem celebrar meio século de vida da sua obra!”. 

Na admiração pela corajosa vida intelectual e política no fascismo, exemplo para tempos sombrios de resistência, tão bem rememorada – “Entrei na redação da Vértice na renovação da revista promovida por Joaquim Namorado – o seu principal animador nessa época – a partir do final de 1969”. 

E na partilha de pelo menos um escritor de referência – Carlos de Oliveira. Só no final do ano passado é que visitei a sua casa, em Febres, e pude ler ali um excerto, logo na entrada, de um informativo artigo, que depois li na íntegra na Vértice, da autoria de Vital Moreira. 

Este escritor neorrealista fez das relações sociais de produção e reprodução numa certa Gândara a sua geografia sentimental, destilada num texto onde não há uma palavra a mais, reescrita até à perfeição, como se tal fosse possível. 

Foi parte da descoberta integral: A Casa na Duna – edição original de 1943, mas reescrito posteriormente, como tanto do que escreveu – tornou-se desde o ano passado um dos meus romances de eleição. A prova é que já o ofereci mais do que uma vez desde aí, incluindo a um primo-melhor-amigo e a uma amiga que vivem em Salvador da Bahia, onde a comparação com Graciliano Ramos de Vidas Secas já foi feita. 

Haja economia política, cultura, antifascista. Haja Vértice, que continua a ser bem editada pela editora Página a Página, não se desiste, nunca se desiste.

segunda-feira, 9 de março de 2026

Parabéns, Adam Smith


Haja simpatia com quem cria a riqueza da nação, haja Teoria dos Sentimentos Morais
Haja “poderes produtivos do trabalho”. 
Haja clássicos da filosofia moral e da economia política contra os liberais até dizer chega, 
incluindo o imortal 
Inquérito sobre a natureza e as causas da riqueza das nações que hoje faz 250 anos. 

E ninguém diz nada por lá?


Fiquei a saber que Mark Rutte, Secretário-Geral da NATO, disse a verdade: “a NATO é uma plataforma para os Estados Unidos projetarem o seu poder no mundo”. 

Reafirmo: a única virtude de Trump e dos seus acólitos é epistémica - dizem de forma clara o que todos têm a obrigação de saber desde 1949. 

Da extrema-direita (Chega-IL) e da direita cada vez mais extremada (PSD) espera-se todo o alinhamento com o imperialismo na sua fase mais violenta, a do declínio hegemónico. São uns vira-latistas assumidos, sem um pingo de empatia, de humanidade, de nada, como se vê. 

E do extremo-centro, do PS de Carneiro, o que podemos agora esperar? A fazer fé na sua conta oficial do Twitter, nada de nada, zero. Têm uma academia sobre “pessoas e território”: da Palestina ao Irão, não há pessoas e territórios? 

De facto, hoje, nada têm a dizer sobre o mundo, para lá de umas declarações confusas e desgarradas, sem registo escrito, como convém, não vão as embaixadas dos EUA e de Israel cobrar. Para a esquerda brâmane, que se deixou otanizar, tanta verdade é igualmente uma grande maçada. 

Não nascemos ontem, mas jamais cairemos no cinismo, porque temos memória e projeto. É grande o contraste com o PSOE de Pedro Sánchez ou em relação à Guerra do Iraque, em 2003. É um PS distante, uma certa esquerda distante, de Ferro, Sampaio ou Soares, o que saiu à rua. 

O declínio moral está a passar por aqui: P sem S, sem nada, vazio despovoado. E ninguém diz nada por lá? 

domingo, 8 de março de 2026

É dia


Em articulação com as organizações políticas e sindicais de classe do proletariado dos seus respectivos países, as mulheres socialistas de todos os países devem assinalar anualmente o Dia da Mulher, com o propósito principal de obter o direito de voto. Esta reivindicação deve ser conjugada com a questão da mulher na sua totalidade, de acordo com os preceitos socialistas. O Dia da Mulher deve ter uma natureza internacional e deve ser cuidadosamente preparado.
 

Já é tradição do blogue neste dia dar a palavra à socialista alemã Luise Zietz. Em 1910, fez a proposta deste dia na conferência das mulheres socialistas da Segunda Internacional. 

Entretanto, na foto estão duas mulheres imprescindíveis, de suave aço temperado, das que pensaram sempre, organizaram sempre, até ao fim: Clara Zetkin (1857-1933) e Rosa Luxemburgo (1871-1919). Marxistas, eram parte do SPD, da Segunda Internacional, antes da Primeira Guerra Mundial. Mais teórica uma, mais prática a outra, como se houvesse distinções, teoria prática. 

Foi Clara quem presidiu à conferência de 1910. Quatro anos depois, em face da rendição do SPD ao imperialismo alemão, fizeram as ruturas que se impunham em pleno crime contra a humanidade. 

Rosa foi assassinada em Berlim pela social-democracia. Clara continuou a luta, ajudando a fundar o Partido Comunista Alemão. Presidiu ao Reichstag por um momento, era a mais velha, no fatídico ano de 1932, apelando à resistência antifascista. Teve de partir para o exílio, para Moscovo, em 1933, morrendo aí e sendo enterrada no Kremlin, o maior reconhecimento. 

Já não viu 1935, a viragem antifascista necessária para as frentes populares do VII Congresso da Terceira Internacional, muito menos viu 1945; aprende-se sempre, mesmo nos, com os, momentos mais sombrios e mais luminosos da história, com os erros e sucessos mais tremendos. 

Sim, sem marxismo, não há vitórias para a esmagadora maioria das mulheres, as da classe trabalhadora. Como argumentou detalhadamente Domenico Losurdo, a luta de classes tem três declinações: social, internacional e de género. 

O sindicalismo de classe, a CGTP, sabe isso na teoria e na prática, da Greve Geral à solidariedade internacionalista pela paz, passando pelas lutas concretas em torno dos direitos das mulheres que criam tudo o que tem valor, incluindo através da “dupla exploração”. Maria Lamas, um exemplo entre tantos, sabia isto. 

Sim, só a luta pelo socialismo emancipa, incluindo sexualmente, como argumentou com dados empíricos uma grande continuadora intelectual desta tradição imorredoura chamada Kristen Ghodsee em Por que as mulheres tem melhor sexo sob o socialismo e outros argumentos a favor da independência econômica (infelizmente só em edição brasileira, na excelente Autonomia Literária). 

Haja referências, haja dias como este, haja esperança.

sábado, 7 de março de 2026

Para compreender contradições


Para compreender estas contradições é importante compreender as circunstâncias em que este Festival existe. No caso da Berlinale, há um governo, uma política de Estado e uma União Europeia empenhados em garantir o domínio da opinião através dos múltiplos instrumentos disponíveis e há objetivos económicos que convocam poderosas forças do outro lado do Atlântico. 

Wim Wenders e companhia não são apenas anjos alienados da realidade, artistas preocupados com a arte pela arte. Eles sabem que festivais como a Berlinale fazem escolhas. No cenário atual, ninguém que estivesse corajosamente comprometido com valores e princípios muito concretos, que fosse coerente nas suas convicções, teria lugar na mesa das decisões. Os que lá se sentam sabem bem o que têm de fazer. 

Jorge C. é, a par de Raquel Ribeiro, um dos meus articulistas, crítico cultural em sentido amplo, de eleição: “compreender contradições”. O que ele escreve sobre Berlim, aplica-se, por maioria de razão, ao ainda mais mercadorizado futebol, talvez a mais influente expressão cultural. 

Aí é avassalador o contraste entre os pretensamente apolíticos Messi e Ronaldo, na realidade comprometidos com o fascismo, de um lado, e o eterno Maradona, um dos que esteve sempre comprometido com os povos, do outro. Haja escolhas dilemáticas. Já não há terceiras vias; nunca houve, na realidade.

Um jornal em forma anti-imperialista


As «gorduras do Estado» estão para a política interna como as «gorduras do direito internacional» estão para a política externa. A duplicidade de critérios assumida, a incoerência dos posicionamentos consoante os atores envolvidos, em suma, a facilidade com que os governos escolhem os princípios e as obrigações internacionais que respeitam ou violam, são também uma espécie de «corte nas gorduras» que se inflige ao direito internacional e ao multilateralismo. Como afirma Francesca Albanese em artigo nesta edição:
«Sacrificam a própria ordem jurídica internacional e aceleram o desmantelamento do direito internacional humanitário e das instituições que o garantem, no preciso momento em que a sua sobrevivência está em jogo» (ver «Resposta aos meus detratores»).

Sandra Monteiro, As gorduras do direito internacional, Le Monde diplomatique - edição portuguesa, Março de 2025.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Parabéns


Parabéns ao Partido Comunista Português pelos seus 105 anos de luta imprescindível. Tal como a poesia, qual esperança racionalizada, organizada, “resiste à quantidade de barbárie que em cada tempo insiste” (Manuel Gusmão). Em jeito de reconhecimento, republico o artigo sobre razão comunista e iluminismo radical:

Sei que vou parecer suspeito ao leitor, dado que fui candidato independente pela CDU nas últimas eleições legislativas, sentindo-me, ao mesmo tempo, muito dependente de um coletivo que me ajuda a não terminar em mim mesmo. Não sou neutro, mas procuro ser objetivo na avaliação da razão e das razões comunistas. 

Desde o início do que designam por contrarrevolução que os comunistas portugueses alertam para os efeitos redistributivos regressivos da diminuição dos direitos laborais e do correlativo aumento dos direitos patronais. Desde a adesão ao euro que os salários são a variável de ajustamento, padrão possibilitado pelo empoderamento patronal numa economia assim cada vez mais medíocre. 

Desde a adesão à CEE que os comunistas portugueses alertam para os efeitos desindustrializadores da integração de feição neoliberal desta periferia com economias estruturalmente mais capazes, ainda para mais num quadro de europeização com mecanismos de compensação manifestamente insuficientes. O chamado comércio livre nunca passou do protecionismo dos mais fortes, sabemo-lo bem desde o século XIX, graças à melhor teoria económica prática de que os comunistas nunca prescindiram.
 
Desde os anos 1980 que os comunistas portugueses alertam para os projetos descaracterizadores da nossa mais radicalmente democrática Constituição, a de 1976, com particular incidência para a revisão de 1989. De facto, Álvaro Cunhal nunca cessou de insistir: «a Constituição da República aprovada em 2 de abril de 1976 é um fiel retrato da revolução portuguesa». É o ódio à revolução democrática e nacional que tem alimentado a política revisionista da direita, com a colaboração do PS. 

Desde aí que os comunistas portugueses alertam para os efeitos negativos no desenvolvimento soberano, no controlo democrático da economia e, portanto, no resto da vida social, da reconstituição de grupo económicos privados em setores estruturalmente geradores de poder e de superlucros, provando-se, de resto, que aí só a propriedade pública é propriedade nacional. O país tem sido sangrado pela transferência de recursos para o exterior, sob a forma de juros, lucros e rendas, dado o controlo externo crescente de setores nacionais absolutamente estratégicos, geridos em função de negócios cada vez mais estrangeiros.  

Desde os anos 1990 que os comunistas portugueses alertam, em livros e panfletos luminosos, para os efeitos desdemocratizadores do Tratado de Maastricht e suas cada vez mais graves sequelas, incluindo o crucial euro, tendo sido os primeiros a chamar a atenção para as suas tendências estagnacionistas. De facto, os comunistas estiveram, nos anos 1990, na vanguarda da defesa de um referendo a esta mudança no regime de política económica, com consequências deletérias em todas as esferas da vida social nacional.  

Desde sempre que alertam, e fizeram-no com particular veemência durante a troika, para os efeitos recessivos das políticas de austeridade orçamental, laboral e monetária, para usar o desdobramento luminoso de Clara Mattei, historiadora da economia política, no seu livro A ordem do capital – Como os economistas inventaram a austeridade e abriram caminho ao fascismo (Temas e Debates, 2024). De facto, ainda há pouco os comunistas chamavam a atenção para os efeitos perversos da subida das taxas de juro pelo Banco Central Europeu ou para a permanente compressão do investimento público, que faz com que Portugal seja um de três países da União Europeia com os mais baixos níveis, em percentagem do PIB. O investimento público é uma variável com efeitos multiplicadores no investimento privado e logo no rendimento nacional.

Desde há alguns anos que os comunistas portugueses alertam para os efeitos perversos do desmantelamento do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e contra a ideia de que se pode agir em matéria migratória ao serviço do capital mais explorador, como se o país tivesse capacidades de acolhimento ilimitadas. Exige-se, creio, uma regulação dos fluxos migratórios por uma dupla razão: para defender quem cá está e quem quer vir para cá trabalhar, de modo que ninguém fique vulnerável perante o patronato. A dignidade do trabalho é para todos e ninguém deve estar vulnerável perante os traficantes de seres humanos.

Desde há muito que os comunistas defendem que o neoliberalismo alimenta o neofascismo, sendo este uma das expressões políticas das frações mais reacionárias do capital. Agora, basta seguir o dinheiro dos financiamentos, do Chega à IL. Os liberais até dizer chega da IL, tão ou mais perigosos ideologicamente do que o Chega, têm um Instituto +Liberdade (para explorar). Só em três anos, recebeu cerca de 500 mil euros do nono homem mais rico do país, Carlos Moreira da Silva. A credulidade económico-política, de recorte anti-iluminista, é hoje maciçamente financiada.
 
Desde há anos que os comunistas portugueses vêm alertando, brutalmente isolados no início, que a cultura imperialista da guerra só alimenta o desperdício armamentista, à custa dos Estados sociais e da vida, fazendo do anticolonialismo, do anti-imperialismo e logo do antirracismo modo de atuação, identidade. Hoje, essa luta é mais atual do que nunca: basta pensar nos compromissos que a direita, com apoio mais ou menos assumido do PS ou do Livre, tem vindo a assumir, no quadro da NATO, nesta área. O interesse nacional, o da maioria social, não passa por esta pulsão de morte.

E poderia continuar. Mas o leitor já percebeu aonde quero chegar: não há em Portugal quem tenha alertado tanto e acertado tanto, seja na academia, seja nos movimentos sociais ou em outras expressões de inteligência coletiva, para já não falar dos outros partidos. Desafio-o a comparar. 

Neste contexto, importa renovar a crença na promessa emancipatória aberta pelo melhor iluminismo. O curto e incisivo ensaio da filósofa catalã Marina Garcés – Novo Iluminismo Radical (Orfeu Negro, 2023) – é útil neste contexto. Não sendo comunista, esta filósofa combina sagazmente pessimismo da inteligência e otimismo da vontade, resgatando a promessa iluminista enquanto combate à atual «credulidade sobreinformada» e cínica. 

Indo para lá da condição pós-moderna, de um suposto presente eterno, Garcés denuncia o que apoda de «condição póstuma» gerada pela pulsão de morte de um capitalismo sem alternativa – «um novo relato, único e linear: o da destruição irreversível das nossas condições de vida», fazendo do presente «o tempo que resta». 

Garcés reabilita a promessa emancipatória contida no melhor iluminismo: «a pergunta que norteia o iluminismo não é o "até quando?" da condição póstuma, mas o "até onde?" da crítica». Num certo sentido, os alertas comunistas passam sempre por aqui: até onde vai a perda de soberania democrática ou de direitos laborais, por exemplo?

Garcés termina com um diagnóstico pertinente sobre a crise da cultura e das humanidades ditas críticas, tantas vezes perdidas numa desvalorizada denúncia das «relações entre saber e poder», demasiado despreocupadas em relação à esperança fundada na emancipação: «a sua crise está diretamente relacionada com a distância que se abriu entre o que sabemos acerca de nós e do mundo e a capacidade de o transformar».  
 
Eliminar essa distância, «elaborar o sentido e as condições do vivível», é tarefa coletiva, requerendo ação coletiva, ou seja, organização luminosa, como os comunistas portugueses nunca se cansaram de insistir e de praticar com coragem ímpar. De facto, e sem relativismos, «já não se trata de o verbo se ter feito carne, mas de a carne produzir verbos e de os verbos terem consequências na forma como vamos viver na nossa carne».

Já estou a ver uma réplica potencial do leitor a tudo isto: se os comunistas portugueses estão cada vez mais fracos eleitoralmente, o que é que esse seu iluminismo radical interessa? Interessa muito. Pode perder-se força e ainda assim ter muita razão, muitas razões. É sempre necessário distinguir validade e poder. As derrotas políticas não são por si só refutações. A política que interessa é a razão feita movimento, organização. Quem desistir da análise séria, tão objetiva quanto possível, está perdido. Quem desistir de ir de forma luminosa à raiz dos problemas está perdido. E não nos podemos perder, se queremos voltar a vencer.

Adenda. O quadro é da autoria de Rogério Ribeiro e vi-o no ano passado, numa retrospectiva no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, a que aqui aludi.

quinta-feira, 5 de março de 2026

António Lobo Antunes

O desenho da direita foi roubado a insónias de carvão.

Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis.

Assim termina uma breve história autobiográfica de António Lobo Antunes, sob a forma de crónica, Os pobrezinhos. Deixo-a aqui de novo, agora em singela homenagem a um notável escritor. É representativa da sua, nossa, melhor escrita sobre o fascismo, o que existiu entre nós e o que, desgraçadamente, ainda anda por aí. 

Até sempre, Lobo Antunes, homem com memória de elefante.

O problema de MEC


Miguel Esteves Cardoso (MEC) é um intelectualmente sedutor Red Tory, um conservador vermelho, dada a sua anglofilia. No século XIX seria uma espécie John Ruskin, um dos grandes críticos morais e estéticos da economia política vitoriana. Isto significa que, politicamente, é capaz do péssimo e do ótimo. 

Um exemplo do péssimo. A sua chocante posição ao serviço de Israel, de inaceitável confusão do brutal colonialismo sionista com o judaísmo. Um exemplo do ótimo. A sua defesa da massificação da escrita no livro Como Escrever (Bertrand Editora, 2024), revelando partilhar muito bem a intuição comunista: a de que a excelência só floresce na democratização de qualquer prática e na fruição o mais alargada e igualitária possível dos bens que lhe são internos. 

No fundo, é como se MEC levasse demasiado a sério Michael Oakeshott, o teórico da disposição conservadora, e só conseguisse olhar e ver o que lhe está perto, a escrita, o SNS, as relações de proximidade, as coisas simples – aprendi com ele que o pão fresco dá as melhores torradas, por exemplo; tudo descrito com sensibilidade ímpar, incluindo o imenso amontoado de mercadorias a que acede e no qual se deixa voluntariamente submergir. 

Há uma linha, uma fronteira, a partir da qual está o que se considera distante, deixando o conservador de querer olhar e ver, quando, a partir desta periferia, se imagina refastelado num sofá de um qualquer clube, numa qualquer metrópole, a defender a conversação civilizada e polida ao longo do tempo, ao mesmo tempo que, efeito da divisão do trabalho, alguém já ali ordenou: «exterminem-se todas as bestas». Agora é o Irão. 

Tenho um dos primeiros livros de MEC que li ao lado do computador, A Causa das Coisas (Assírio & Alvim, 1986). Contém, logo de entrada, um ensaio influente sobre a perniciosa alcatifa, de que muitos nos libertámos, entretanto. Não me esqueço também do semanário Independente e de todo o seu classismo, culminando nas fotografias a denunciar a meia branca de figuras públicas. Lá está, ótimo, péssimo e enganadoramente irrelevante. 

Enfim, todo este relambório, porque MEC decidiu, numa das crónicas diárias no Público, escrever sobre o «problema do marxismo». Imagino um seu fã a dizer: lá está, ele tinha razão, os marxistas são mesmo chatos, com a sua superioridade, nunca se enganam, etc. Olhe que não, olhe que não. Se não vejamos, façamos uma síntese, tentando fazer-lhe justiça. 

Basicamente, recorre a uma metáfora de vestuário: o marxismo seria um fato pesado, apropriado para algumas ocasiões, mas totalmente desadequado para levar para a praia, e os marxistas seriam gente relativamente insuportável, desatenta ao ritmo das estações e ao que é adequado a cada uma dela. E comportar-se-iam como uma qualquer elite iluminada, religiosa ou científica. 

Aceitemos por um momento a metáfora da roupa. O marxismo pode e deve ser pesado como a roupa de inverno e leve como a roupa de verão. É uma abordagem que pugna pela análise concreta da situação concreta, das relações sociais concretas, sem perder de vista as suas potencialidades transformadoras. E qualquer marxista que tenha feito nudismo confirma o que já sabia da esfera privada, que o marxismo se torna uma segunda pele em público, já que tudo se inscreve nos corpos, incluindo a classe. 

Já que estamos na praia, paremos para um exercício de memória, estar à beira-mar convida, afinal de contas: não houve uma única luta pela melhoria da sorte da classe trabalhadora no capitalismo que não tenha tido a participação decisiva de marxistas. Podemos dizer com toda a segurança que se as praias estão cheias no verão, com trabalhadores em férias, tal deve muito aos marxistas. Este exercício de memória não impede outros, o dos fracassos e derrotas do marxismo. Quem tenha crescido para a política, para a vida, depois de 1989, sabe que não há gente mais autocrítica do que os marxistas, ao contrário do que possa pensar MEC. É um dever, na realidade. 

MEC é um leitor voraz. Atrevo-me a recomendar-lhe um livro: Viver como um Marxista – Porque é que Marx é uma droga que provavelmente devíamos consumir?, do filósofo canadiano Andrew Pendakis (Edições 70, 2025). Bem sei que o subtítulo é horroroso. E há uma ou outra observação infeliz, sobretudo quando se refere à história do marxismo, mas o essencial não é isso: «não julgamos a partir de fora; condenamos uma porcaria omnipresente [a da fase fecal do capitalismo] na qual estamos cobertos dos pés à cabeça». Nada há de mais antielitista neste reconhecimento. O marxismo é tão igualitário quanto universal, é um humanismo radical. 

Partindo da rica experiência emocional e moral de se ser marxista, Pendakis define bem as coisas: «o marxismo é em parte, a experiência do trabalho no capitalismo, transformado na coerência de uma teoria crítica» e não há nada mais prático do que uma teoria versátil, incluindo para a organização, que, «no seu melhor, não é nada mais do que a racionalização da esperança». 

Sombrio e solar, pessimista e esperançoso, o marxismo imita a vida, melhora a vida. No fundo, MEC sabe isso, creio que teme tirar as implicações desse conhecimento. O problema de MEC compreende-se a um certo nível. Caso contrário, como se fosse uma contradição, não teria escolhido esta formulação para acabar: «o sol está ali para todos, mas no sistema em que só alguns têm dinheiro para um toldo e ficam com a melhor parte do areal...» 

 Sim, uma segunda pele.

Artigo publicado no AbrilAbril.

quarta-feira, 4 de março de 2026

Viva Sánchez, viva Espanha


Clicando em «Ler Mais», uma tradução do discurso de hoje de Pedro Sánchez, na íntegra. Um discurso que deveria ser a voz da Europa neste momento, se esta quisesse levar a sério os tão proclamados 'valores europeus'.

Memória e decência básicas


En definitiva, la posición del Gobierno de España se resume en cuatro palabras: no a la guerra. 

El mundo, Europa y España ya han estado aquí antes. Hace 23 años, otra administración estadounidense nos arrastró a una guerra en Oriente Medio. Una guerra que, en teoría, se dijo entonces se hacía para eliminar las armas de destrucción masiva de Saddam Hussein, llevar la democracia y garantizar la seguridad global, pero que, en realidad, visto en perspectiva, produjo el efecto contrario. Desencadenó la mayor oleada de inseguridad que ha sufrido nuestro continente desde la caída del Muro de Berlín. 

La guerra de Irak generó un aumento drástico del terrorismo yihadista, una grave crisis migratoria en el Mediterráneo oriental y un incremento generalizado de los precios de la energía y, por tanto, también de la cesta de la compra, del coste de la vida. Ese fue el regalo del trío de las Azores a los europeos de entonces. Un mundo más inseguro y una vida peor.


Absolutamente visível


É uma cena para a posteridade. O banqueiro transatlântico que é chanceler foi recebido na Casa Branca, em plena agressão ao Irão, com a qual a sempre perigosa Alemanha está comprometida. 

Trump atacou a Espanha pela sua decência básica, ordenando retaliações económicas totais e o colaboracionista Merz assentiu, declarando que a Espanha vai ser obrigada comprometer-se com a meta dos 5% do PIB para a guerra. E isto quando, na própria cimeira da NATO, a Espanha obteve uma insenção de tal obrigação, mortal para o Estado social, e que, de resto, não tem qualquer base legal, como lembrou o indispensável Arnaud Bertrand.

A política externa do capital financeiro é absolutamente visível, o imperialismo é absolutamente visível, a submissão estrutural da UE é absolutamente visível. 

terça-feira, 3 de março de 2026

Haja iniciativa anti-imperialista


Memorável

 

Com toda a justiça, voltou a circular pelas redes sociais um vídeo com uma memorável intervenção do imortal Tony Benn no parlamento britânico, quando se discutia um bombardeamento ao Iraque, em 1998: “será que as mães árabes, iraquianas, não choram quando os seus filhos morrem?” 

Benn nunca se vendeu ao neoliberalismo, nunca se rendeu ao imperialismo, nunca aceitou a terceira via. Atrás de si, está Corbyn, continuador da melhor tradição da economia moral do socialismo britânico. 

Benn, relembro, foi sempre eurocético, porque foi sempre democrata, defensor dos poderes do parlamento, da soberania popular. E como não? Olhai para Bruxelas, para o capitalismo neoliberal sem fim, para a desdemocratização sem fim, para a decadência moral sem fim.

segunda-feira, 2 de março de 2026

Medo do cuquedo


O Partido Socialista permanece em silêncio perante mais um crime contra a humanidade perpetrado pelo imperialismo, desta vez no Irão. Isto significa cumplicidade com a antipatriótica política governamental. Que diferença em relação a 2003, ao Iraque. Confirma-se que agora de tudo têm medo, incluindo do cuquedo.

Debater sempre


Amanhã, dia 3 de março, pelas 18h, na eborense Sociedade Operária de Instrução e Recreio Joaquim António de Aguiar, vou estar a debater este dossiê muito informativo com Manuel Gouveia, sendo moderados por André Carmo. Aparecei. Defenderei que as privatizações foram, para usar linguagem técnica, uma roubalheira.

Instrução


Defende e institui a economia liberal que mata, como se não houvesse alternativa (havia e há); a dos cortes selvagens no Estado social, no salário direto e indireto, a da redução dos direitos laborais correlativa do aumento dos direitos patronais, a do desemprego no dobro do máximo histórico antes do euro, a de centenas de milhares de compatriotas compelidos a emigrar, a das ruinosas privatizações, a do ataque ao mínimo de decência, incluindo ao salário mínimo. 

Defende tudo o que te torna num vende-pátrias, incluindo através da convergência com fascistas, gente sem um pingo de amor ao país, tudo em linha com o atual Governo, de resto. 

Se o fizeres, garanto-te que um jornal liberal como o Público te coloca na capa, antecipando propostas para “desbloquear a economia” que se repetirão, quer nas suas intenções, quer nos seus efeitos de classe.

domingo, 1 de março de 2026

Não somos cúmplices

 

A agressão militar ao Irão é parte do plano mais vasto do imperialismo norte-americano de tentar impor, pela via da força, o seu domínio hegemónico sobre o Médio Oriente – região com vastos recursos energéticos –, assim como no plano mundial, como evidencia a sua agressão à Venezuela e o incremento do bloqueio que impõe contra Cuba.

Era para escrever mais do que as duas frases de ontem, mas a tomada de posição dos comunistas portugueses poupa-me trabalho. Jamais faria melhor. Vale a pena ler na íntegra. É o partido português com uma visão marxista consistente das relações internacionais, na tradição leninista, como não podia deixar de ser.

Entretanto, vale a pena ver o vídeo acima, onde Carina Castro denuncia a vassalagem do Governo português nas Lajes e não só, ainda antes de mais este crime imperialista contra a humanidade, desta feita contra o Irão.

Por falar em vassalagem, o que dizer da reação de António Costa em Bruxelas, condenando o agredido, em linha com a UE realmente existente? Ficará na história da infâmia, tal como já ficou no genocídio do povo palestiniano. 

E não, nós não somos cúmplices destes vassalos. E por isso nunca devemos ter vergonha de ser portugueses. É que há sempre um país que resiste, há sempre um país que diz não.

Como se fosse uma nota de rodapé

Creio que compreendo cada vez melhor Lénine a partir de 1914, perante a monstruosa rendição à guerra imperialista de quase tudo o que andava pela segunda internacional. Lembrai-vos que a ala direita da social-democracia, a de Eduard Bernstein e companhia, era assumidamente colonialista logo na viragem do século XIX para o século XX. A história rima, de facto.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Crime


Mais um crime contra a humanidade perpetrado pelo imperialismo. Nunca a luta anti-imperialista pela paz foi tão difícil e tão importante.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Luta, esperança


Haja esperança verde-vermelha


“Aos meus clientes, peço desculpas, mas acho que terei de cancelar o serviço agendado, pois vou para o parlamento”: assim falou de madrugada uma canalizadora socialista chamada Hannah Spencer. 

Spencer venceu de forma retumbante uma eleição intercalar numa circunscrição na zona de Manchester: os trabalhistas perderam 25 pontos percentuais num lugar antes considerado seguro e os verdes ganharam 27 pontos percentuais. Esta mudança teve o apoio da restante esquerda, incluindo de Corbyn, derrotando assim a tralha “trabalhista” e fascista. 

Ao contrário de tantos no continente, os verdes de Zac Polanski não têm bombas, nem sionismo, nem “contas certas” à la UE, sempre erradas para a maioria social. Ele já revelou saber de macroeconomia real, da keynesiana: um Estado não é uma família, já que a sua política económica deve existir para servir as famílias trabalhadoras. 

Há sempre dinheiro, o constrangimento não é financeiro, mas sim de recursos reais, como já assinalou, na esteira da melhor tradição económica britânica. 

Diz que veio para substituir o trabalhismo. Lembro-me da declaração de Starmer no congresso termidoriano de um partido agora moribundo: “Se não gostam, se não gostam das mudanças que fizemos, digo que a porta está aberta e podem ir embora”. 

Pior do que o trabalhismo de Starmer é difícil: continuador de Blair-Mandelson, os maiores triunfos de Thatcher, apoiante do genocídio sionista, moralmente corrompido, belicista e austeritário até à medula, abrindo caminho ao fascismo. Uma tragédia. Por cá, temos direito à farsa de Carneiro e companhia.

Mas esta elite sórdida pode ser travada por gente comum, de classe trabalhadora, organizada, com as ideias organizadas. Haja esperança verde-vermelha.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Homenagear Vítor Dias


Homenagear Vítor Dias é, por exemplo, lembrar o arguto observador da comunicação social, escrevendo para jornais durante décadas – não me esqueço da necessariamente breve colaboração com o Público, por exemplo. A esperança de vida dos comunistas nesta imprensa sempre foi reduzida, vá lá perceber-se porquê.

Enfrentou tantas vezes as câmaras de televisão, e em tempos bem complexos, não me esqueço do início da década de 1990, quando comecei a prestar atenção, a declarar-me comunista, mais ou menos com a idade do meu filho. E ele escreveu tantos comunicados políticos e tinham tal estilo, da forma ao conteúdo, tudo tão bem burilado. Tentei aprender, tentando imitar. 

Dias sempre denunciou todos os tipos de discriminações de classe, destinadas a impedir a comunicação comunista. 

E há sempre quem tenha o topete de racionalizar, dizendo que os comunistas portugueses não sabem comunicar. Geralmente são pessoas, diz-me a experiência entretanto ganha, cujo salário relativamente chorudo na comunicação social depende de proferirem dislates destes.
   

Vítor Dias


Faleceu o imprescindível Vítor Dias. Os comunistas portugueses, os democratas, estão de luto. 

Este blogue curva-se perante a memória de um antifascista de sempre e envia sentidas condolências à família, amigos e camaradas. 

Tivemos, por exemplo, o privilégio de contar com ele na apresentação, em Lisboa, do livro coletivo que assinalou uma década do blogue.

Para mim, Vítor Dias é sobretudo a escrita política de referência durante anos de aprendizagem, ou seja, sempre, fosse com assinatura no Avante!, fosse nos milhares de comunicados que escreveu, fosse no blogue O tempo das cerejas

Mas foi mais, muito mais. Até sempre, Vítor Dias.

Adenda

Um amigo partilhou esta observação arguta, sensível:  “Fico com a imagem de uma pessoa extremamente amável, simples e discreta (um diamante que se fazia passar, pelo modo de estar na vida, pela mais normal das pedras)”.

Faleceu Vítor Dias, nota do PCP com a informação da biografia política mais relevante.
   

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Factos e valores


Não acreditais no que deu origem a esta resposta, que aqui fica para memória futura. Está de resto em linha com uma entrevista recente ao Público e com tantas outras intervenções do mesmo calibre. 

Para celebrar os cinco anos do stink-tank “mais liberdade” (para explorar e expropriar), Pedro Santa Clara da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa escreveu um artigo, em coautoria, onde afirma que não é possível ser-se economista, socialista e honesto. 

É um trilema que só existe nas cabeças desta gente, ao contrário dos trilemas económicos que nos ajudam a pensar, da macroeconomia à economia política internacional. 

Respondeu-se ao insulto com factos: em três anos receberam meio milhão de euros do nono mais rico do país para escrever alarvidades destas. Como disse um incrédulo Tiago Santos: “Suspeitas? Está literalmente nos relatórios de contas do -liberdade”. 

E acrescentou-se: basta pensar, um só exemplo entre tantos da história do pensamento económico, no insuspeito “Nobel” Kenneth Arrow, o do refinamento matemático do equilíbrio geral e da eficiência, e no seu argumento “cauteloso” a favor do socialismo. Arrow inscrevia-se de forma moderada na tradição primeiramente avançada por Oskar Lange no debate do cálculo económico em socialismo na década de 1930. Tratava-se da defesa de um socialismo que mimetizaria melhor do que o capitalismo as propriedades de eficiência dos mercados idealizados teoricamente.

Estamos em plena economia neoclássica. Podemos melhorar e ir para a economia keynesiana ou marxista ou, muito apropriado na atual conjuntura histórica, para um cruzamento das duas, em defesa de uma realista economia mista para efeitos antifascistas, começando por garantir as bases materiais da subordinação do poder económico ao poder político democrático. A economia nunca é neutra, como Arrow bem sabia, como sabe qualquer pessoa honesta com luzes. 

Na realidade, este blogue só faz sentido se começar por servir para denunciar esta elite mandonista e vira-latista, nada habituada ao escrutínio. Podem ter capital de sobra, do económico e do que diz ser social, mas falta-lhes cultura económica e razão ético-política. 

E, claro, “wokismo” é uma palavra tão feia, mas tão reveladora da assustadora incultura de extrema-direita que atravessa os quadros liberais até dizer chega. O país está a pagar um preço elevado pela sua influência alimentada a dinheiro. O povo não merece tantas iniciativas liberais com décadas.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

O problema de MEC


Miguel Esteves Cardoso é um intelectualmente sedutor Red Tory, dada a sua anglofilia. Politicamente, já foi capaz do péssimo e do ótimo. Havia tanto para dizer sobre a sua última crónica, mas não temos tempo. Arranjarei tempo para tentar escrever um artigo no AbrilAbril de resposta. 

Por agora, em registo de ocorrências, escreverei apenas mais três frases. Em primeiro lugar, muito menos gente iria à praia se não fosse pelos marxistas e suas lutas. Em segundo lugar, e ao contrário de MEC, nunca conheci gente que se autocriticasse tanto como os marxistas. Em terceiro lugar, o marxismo pode ser pesado como a roupa de inverno e leve como a de verão...

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Imortal, claro


“E se há um camarada à tua espera, não faltes ao encontro e sê constante”, assim cantava José Afonso em Tinha uma sala mal iluminada, música do álbum de 1978 Enquanto há força. Já ali o pessimismo da inteligência assomava: “A velha história ainda mal começa. Agora está voltando ao que era dantes”. É uma das minhas canções favoritas do Zeca. São tantas.

Lembro-me de onde estava quando soube da triste notícia do falecimento do que terá sido o maior cantor português de todos os tempos, se esta ideia comparatista não fosse tão contrária ao seu espírito: ia com a minha mãe de autocarro para Viseu, ela tinha comprado o jornal na estação de camionetas de Coimbra e ficou subitamente muito triste. 

Trinta e nove anos depois, já agora, a estação é a mesma e é uma das expressões vergonhosas do subinvestimento público, ainda agora lá te deixei e pude constatar isso, uma vez mais.

Foi a 23 de fevereiro de 1987, há 39 anos. Ele é imortal, claro.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Sejamos solares


Com ironia, Sérgio Godinho chegou a dizer que “só neste país é que se diz só neste país”. Quando ouço insultos racistas na televisão penso, pensamos: em que país é que nos estamos a transformar? Mas depois corrigimos, corrijo: isto não é o país. Esta afirmação é meio diagnóstico e total desejo. 

Fico sempre muito incomodado com quem, sendo de esquerda, generaliza a partir destas amostras, acabando a exibir um mortífero pessimismo antropológico, típico de todos os elitismos, em relação aos nossos compatriotas. Esquecem que o racismo tem origem em cima, numa oferta política com um propósito de classe, servindo para dividir a classe trabalhadora. 

Entretanto, penso nos antifascistas em circunstâncias infinitamente mais difíceis do que as nossas, penso em Maria Lamas, por exemplo: olhar e ver as mulheres do seu país, com realismo e esperança.

Penso que precisamos de luz, de fazermos um esforço, contra todas as evidências em contrário, para sermos solares no que fazemos e escrevemos e ensinamos e filmamos e pintamos e tudo. Precisamos de queridos meses de agosto, de mil e uma noites, de esperança, de um povo que se atira ao mar no inverno, de artistas corajosos como Miguel Gomes, um dos que tomou posição em Berlim contra o genocídio do povo palestiniano. Ele vem-me sempre à cabeça quando estou nestes preparos antinocebo

E que contraste com um cinema cada vez mais reacionário. Felizmente, também temos a obra e o exemplo de João Canijo, ele que fez da tantas vezes desprezada peregrinação a Fátima um gesto/gesta tão humano, que falou da aprendizagem do amor com mulheres extraordinárias de tão comuns que eram, tanta falta faz quem filmou mulheres com garra como ele, a começar por Rita Blanco.

Sim, isto está tudo ligado, é uma das virtudes do antifascismo, enquanto gesto cultural e logo político: dá-nos a ver as ligações.