segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A verdade amarga



Paul Krugman no NYT:
(...)
Pensem em países como o Reino Unido, Japão e os EUA que têm grandes dívidas e défices e, no entanto, continuam a pedir emprestado a baixas taxas de juro. Qual é o seu segredo? A resposta, em parte, reside no facto de terem moeda própria e de os investidores financeiros saberem que, num aperto, estes países podem financiar os seus défices criando mais moeda. Se o Banco Central Europeu garantisse da mesma forma as dívidas europeias a crise seria muitíssimo aliviada.

Isso não causaria inflação? Provavelmente não … a criação de moeda numa economia deprimida não é inflacionista. Mais ainda, na realidade a Europa precisa de uma inflação um pouco mais alta. Uma taxa de inflação demasiado baixa condenaria a Europa do sul a anos de deflação esmagadora, na prática garantindo desemprego elevado por muito tempo e uma cadeia de falências.

Mas, segundo nos dizem, este tipo de política é inaceitável. O estatuto que criou o Banco Central Europeu supostamente proíbe este tipo de manobra, embora não custe a crer que alguns advogados inteligentes arranjariam uma forma de contornar isso. O problema de fundo é que o euro foi desenhado para combater a última guerra. É uma Linha Maginot feita para impedir a repetição dos anos setenta, o que é pior que inútil quando o verdadeiro perigo está na repetição dos anos trinta.

E, como disse, este desenrolar dos acontecimentos é trágico.

A história da Europa do pós-guerra é profundamente instrutiva. Sobre as ruínas da guerra, os Europeus construíram um sistema de paz e democracia, e ao mesmo tempo construíram sociedades que, embora imperfeitas – e há alguma que não o seja? – são possivelmente as mais decentes da história humana.

Contudo, esta conquista está ameaçada porque a elite europeia, na sua arrogância, trancou o Continente num sistema monetário que recriou o espartilho do padrão-ouro e este – tal como o padrão-ouro nos anos trinta – tornou-se uma armadilha mortal.

Pode ser que os líderes europeus acabem por apresentar um plano de resgate verdadeiramente credível. Desejo isso, mas não acredito nisso.

A verdade amarga é que, cada vez mais, o sistema do euro parece estar condenado. E a verdade ainda mais amarga é que, tendo em conta a forma como este sistema se tem comportado, a Europa poderia melhorar a sua situação se ele acabasse o mais depressa possível.

7 comentários:

falaferreira disse...

Discordo da análise... ou melhor, falta um elemento. Pagar a dívida com emissão de moeda é desvalorizar a moeda e a dívida. Obviamente, perdia o credor: os bancos alemães e franceses. Ou estou errado?

Paulo Pereira disse...

Muito bom artigo.

O valor câmbio de uma moeda em relação às outras tem a ver a longo com o deficit corrente / comercial entre cada um dos países, e no curto prazo da diferenças das taxas de juro .

Um país com moeda própria deve emitir divida nessa moeda e não em moedas externas.

Fusível Ativo disse...

O projeto Europa é uma coisa muito vaga. Quando se juntam países numa tentativa de interesses económicos comuns, é normal que saia alguém prejudicado.

Só não percebo é porque é que os países do sul da Europa, os quais têm ligações com vários países com economias emergentes, não se juntam e fazem coligações fora da Europa, nomeadamente na América do sul.

Anónimo disse...

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CN disse...

Inflação RU = 5.2% e EUA 3.9%. As taxas das Bonds a 10 anos estão tão baixas (juros reais negativos de +/-2%) pelo efeito de refúgio.

Fernando B. disse...

Toca a preparar a papelada para sair do €uro... Como dizia o outro, só por nos terem deixado entrar na moeda unica, deviamos ter desconfiado da cabeça daquela gente. Agora?!

SFF disse...

"O problema de fundo é que o euro foi desenhado para combater a última guerra. É uma Linha Maginot feita para impedir a repetição dos anos setenta, o que é pior que inútil quando o verdadeiro perigo está na repetição dos anos trinta"
Já me foi explicado várias vezes acerca dos problemas dos anos 30, mas em relação aos anos 70 tenho um vazio enorme. Afinal, eu adoraria ter uma ideia mínima acerca dos problemas económicos dessa altura.