quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O desvio


A justificação apresentada por Passos Coelho para o reforço explosivo do calvário da austeridade em 2012 assenta, segundo o primeiro-ministro, em duas circunstâncias essenciais: por um lado, no facto de se estimar uma contracção económica, para o próximo ano, «maior do que foi antecipado e uma deterioração severa das circunstâncias externas à economia portuguesa». Por outro, a constatação de que «70 por cento do défice permitido para a totalidade do ano fora já esgotado», nos seis meses que antecederam a tomada de posse do actual governo.

Sabemos bem como uma e outra coisa são duas faces da mesma moeda. A consequência inevitável de políticas económicas inviáveis, que continuam teimosamente a ser prosseguidas. Aliás, entre nós, não só prosseguidas como reforçadas, às mãos de um governo cuja devoção pela via austeritária o faz sonhar, todos os dias, em ir sempre «mais longe que a troika».

Sucede, porém, que tão fervorosa fé nos efeitos miraculosos e invisíveis da recessão não dispensa o governo - antes pelo contrário - de explicar com total rigor a natureza do desvio orçamental em que fundamenta as medidas anunciadas. Trata-se realmente de uma incapacidade para executar metade do orçamento nos primeiros seis meses do ano? E essa referida incapacidade perdurou nos três meses seguintes, já depois de o governo estar em funções? Ou trata-se de um défice essencialmente gerado pela quebra de receitas, em resultado da recessão que o governo pretende, irresponsavelmente, aprofundar? Quanto pesa, no referido desvio, o buraco financeiro da Madeira? E que parcela deve ser relacionada com os impactos orçamentais da austeridade (como os que resultam, por exemplo, do desemprego que as falências em catadupa têm gerado)?

Um sentido mínimo de seriedade e de responsabilidade obrigaria a que estes esclarecimentos tivessem sido prestados, já hoje, na comunicação do primeiro-ministro ao país. De seriedade, porque o anúncio de um ataque desta magnitude às pessoas e à economia não deveria prescindir desse esclarecimento prévio. De responsabilidade, porque seria bom que o governo evitasse comportar-se (ou assumisse claramente essa opção) como um médico que reforça com entusiasmo as doses de uma medicação errada, que apenas agrava o estado da doença.

(O video constitui uma excelente montagem de Ricardo Santos Pinto, do Aventar, sobre as «contradições» - em apenas dois anos - de um primeiro-ministro a quem, curiosamente, parece haver reservas em chamar de mentiroso).

6 comentários:

Pedro Veiga disse...

Ontem, nos vários textos jornalísticos que li, não consegui perceber qual era sequer o valor total do buraco que temos que pagar ainda este ano e nos próximos. Reina a confusão total e a única certeza que temos é que a conta tem que ser paga nem que isso implique uma recessão de mais de 5% nos próximos anos!
Quem nos meteu nisto, ao longo da governação dos últimos 15 anos, devia ser chamado à barra dos tribunais para ser devidamente punido com a pena máxima!

D., H disse...

Sinceramente, no meio de tanta pantomina e habilidade, não vale a pena esperar por qualquer esclarecimento digno desse nome. Somente para uma percentagem mínima da população (uns 0.0001%, à Seguro) existirá ainda a palavra CONFIANÇA!
O governo sabia, tão bem como nós, que a política e as receitas preconizadas acabariam por arruinar o país.

Penso que se viveu melhor antes de entrarmos no Euro. Hoje estamos pior, sobretudo porque não existe qualquer esperança, para novos, menos novos e mais velhos. Tudo isto é deprimente. A economia está de rastos (os investidores portugueses são bluff), as privatizações e as fusões vão privar ainda mais quem quer trabalhar, para aqueles que querem entrar no mercado de trabalho não se vê saída alguma (não sei como muitos vão poder pagar os empréstimos contraídos à banca, no âmbito dos estudos).

Qualquer entusiasmo só pode vir do ensejo de uma mudança radical deste estado de coisas. Parafraseando Zizek, acabou de vez o casamento do capitalismo com a democracia. Já não temos nada a perder, precisamos de uma alternativa. Mas não com gente que nunca foi confiável.

dr disse...

BASTA,chegou a hora dos portugueses chamarem à responsabilidade todos os que nos trouxeram a esta situação, chegou o momento de terminar com a benevolência para com os políticos,todos para a rua.HÁ outras soluções.

Anónimo disse...

dr, há outras soluções?
se calhar há, chama-se ditadura, e não soluciona NADA.

António Pedro Pereira disse...

Senhor Pedro Veiga:
É tempo de ser honesto intelectualmente:
O buraco de que fala é no défice, que é o resultado de a receita ser menor do que a despesa, tão só.
Depois veremos se a despesa foi excessiva ou se a receita foi minúscula, ou se houve a conjugação dos 2 factores, que foi o nosso caso nos últimos anos.
Mas o nosso problema não é só o défice, é a dívida pública cujos juros têm reflexo no défice.
Querer fazer crer que a situação em que estamos resulta apenas dos últimos 15 anos, ou é cegueira ideológica ou ignorância.
A dívida pública em 1985 era de 54,4 %, em 1995 era de 60,9 %, em 2000 era de 50,4% e actualmente é de 100% do PIB (veja os juros que isto implica, com reflexos no défice).
Portanto, o problema não é os 39,1 % que a dívida subiu de 1995 até 2011, é esses 39,1 % mais os anteriores 54,4 % (entre 1995 e 2000 até desceu, 10,5 %.
Desde 1986 os fundos da CEE serviram para encher os bolsos a alguns (despesa) e para destruir a capacidade produtiva do país (receita).
É preciso nomear todos os responsáveis, não apenas alguns deles, a sua referência aos 15 anos remete apenas para alguns.

Anónimo disse...

Mas alguém tem dúvidas que o Coelho é um aldrabão e um ladrão.?