terça-feira, 18 de outubro de 2011

Gaspar no casino (I)

Na entrevista de ontem, o ministro das finanças Vítor Gaspar fez-me lembrar um jogador de casino. Daqueles jogadores que, em desespero de causa, sentem um impulso súbito, uma espécie de intuição, um feeling. Começando a suspeitar que há qualquer coisa de errado nas perdas que foi somando (ao distribuir metodicamente, por várias jogadas, as fichas de que dispunha e dando assim conta que foi ficando cada vez com menos), decide subitamente apostar tudo, de uma só vez, no mesmo número de sempre. Confiando, portanto, que esse golpe de asa lhe trará o resultado mágico que ambiciona. Esperando que ventos de sorte o bafejem.

Foi estranho assistir ao desvanecer daquela imagem de técnico exímio das finanças, de robot que sabe com milimétrica precisão como se conserta o maquinismo das contas públicas, de conhecedor infalível das leis universais que regem as despesas e as receitas, os superavits e os défices. Do mago a quem o futuro não consegue escapar. E ver surgir, em seu lugar, a sombra das incertezas quanto à evolução do ambiente económico internacional e a manifesta incapacidade para garantir - desta vez - que o aumento sanguinário e injusto dos sacrifícios resolve em definitivo os problemas. Nada que demova o ministro, porém, de continuar a apostar tudo (e tudo de uma vez) no número que tem falhado. A frieza da razão (não a da acção, que essa continua, ainda mais gélida e implacável), dá agora lugar a um exercício de fé. Aquela fé que emerge no desespero: se acreditarmos com muita força conseguimos, se confiarmos cegamente o milagre acontece, mesmo quando se acumulam os sinais de impossibilidade.

Estamos pois em plena governação de jogador de casino. Fixem os números que o Nuno Teles aqui registou para a posteridade. E mais estes, que poderão ser premonitórios. Na verdade, as opções do governo assemelham-se mais a um outro famoso jogo de roleta, mas com a diferença de a arma dispor de cinco balas e apenas um orifício vazio. Vai ser preciso muita, mesmo muita fé.

8 comentários:

Anónimo disse...

Portugal fez all in com J2.

já fomos...

luis coelho disse...

Não vi o debate por aversão a tantas medidas que apenas vão destruindo os portugueses e Portugal

Em vez de criarem riqueza e movimento de capitais parece que apenas se preocupam em reduzi-lo a nada.

Quando nada houver oferecem a preços de saldo o nosso país aos estrangeiros deixando-nos na escravatura.

antónio m p disse...

"Repare que..." o ministro não pode dizer outra coisa. "A sua pergunta tem inteira justificação" mas "repare que" vivemos um "tempo de incertezas" e é "preciso tomar decisões" - resolvam ou não os problemas, numa coisa elas estão certas: é que preservam o paradigma, digo o sistema, digo o capitalismo.

Elemento Absorvido disse...

Pareceu-me que não foi feita uma única pergunta sobre a taxação do capital. Como a questão não é colocada, não existe. É a ditadura do pensamento único. Assim, aqueles que pagam nem consideram possível que os que deram início à crise sejam responsabilizados. Pelo contrário, devem ser ajudados.

D., H disse...

Estamos cá para ver, se a queda também ascenderá a esse valor “mágico” dos 5.5% do PIB, para onde caminha a Grécia.
Portugal não é a Grécia, diz a Troika e os apaniguados quando lhes convém. Mas é facto que as receitas para Portugal são as mesmas.
Penso que o mago das Finanças sabe muito bem para onde caminhamos, a exemplo da Grécia: recessão brutal, ataque aos serviços e servidores públicos, preparação das privatizações (com ajustes directos?) a preços de saldo, e só depois, já tudo de rastos, o perdão parcial da dívida. É esta a missão confiada ao ministro.

Penso que ninguém que trabalha está minimamente mobilizado para esta “economia de guerra”, para este esforço de Sisifo. A satisfação de alguns relativamente ao ataque aos servidores públicos tem muito a ver com a mentalidade comezinha e do nivelamento por baixo. Como escreveu André Freire, ontem no Público, sobre a “inveja idealizada”: “sabemos que a estrutura qualificações da população activa é muito baixa e que é no sector público que se concentram as maiores qualificações (professores, médicos, juízes, magistrados, investigadores, profissões científicas e técnicas)”.
É difícil ter motivação para uma tal “economia de guerra”. A guerra tem que ser outra, com uma alternativa que dê esperança, nem que seja para escolhermos “ o nosso próprio empobrecimento”.

zebra disse...

ele avisou, não foi?
http://videos.sapo.pt/SI471HK4vGMcvZ8tisFD

Anónimo disse...

Pois, pode ser um jogador de casino, mas o dinheiro não é o deles (é deles).

Bottleup disse...

Concordo plenamente com a maioria dos comentários que aqui li. Eu, costumo jogar poker online e adorava ter uma banca de apostas inesgotável como parece ter o Sr. Vítor Gaspar :)

Grande Abraço