sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Suave?


Vítor Gaspar usa o termo “crise sistémica” no OE, mas isso não significa que os problemas deste euro, que estão na origem da perpetuação da crise iniciada num sistema financeiro disfuncional, sejam minimamente identificados. Será que a crise foi o produto de um “sistema” de indisciplina financeira das periferias, um problema de “dívida soberana” excessiva que colocou Portugal no seu “centro”? Parece: “A evolução recente demonstra que no contexto da União Económica e Monetária, problemas orçamentais e financeiros nos países membros, mesmo de pequena dimensão, têm um potencial de contágio significativo a nível internacional.”

Portugal pode então causar problemas e já sabemos que este governo não quer incomodar o capital financeiro, nacional e internacional, que originou a crise. O governo quer somente obedecer à politica dos credores porque isso serve a sua agenda ideológica de destruição do Estado social, do mundo do trabalho ainda organizado. De forma só aparentemente pacóvia prefere assim apresentar a sua política de intenso empobrecimento desigual como um exemplo para a Europa, um “exemplo da possibilidade de ajustamento bem-sucedido na área do euro.” Isto é uma impossibilidade, claro, porque o euro, na ausência reformas profundas, não tem mecanismos de ajustamento que garantam a sua viabilidade, a nossa viabilidade dentro dele.

Quais as razões apresentadas pelo governo para esta economia sacrificial? Uma frase: “falhar as metas que temos pela frente não é uma opção, dadas as consequências devastadoras que teria para a nossa economia.” É difícil imaginar consequências económicas mais devastadoras do que as que serão engendradas por um OE que assenta numa hipótese irrealista neste contexto depressivo: não vamos falhar as metas orçamentais fixadas.

É caso para perguntar: será que o reconhecido efeito de contágio que a nossa inevitável reestruturação da dívida causará, tanto mais intenso quanto mais precoce, não deveria ser desde já uma arma negocial do país, e, já agora, das restantes periferias na mesma situação, para assim obter outras condições financeiras, uma reconfiguração do euro, e também contribuindo para que outro OE fosse apresentado, um OE menos assimétrico nos seus efeitos, mas sobretudo um OE que assumisse que a consolidação das finanças públicas só pode realisticamente ser consequência do crescimento e que este só resultará do dinamismo da procura interna e externa? Claro que sim, mas para isso teríamos de ter um governo com outras prioridades ideológicas, com outros interesses.

É evidente que a proposta de reestruturação da dívida por iniciativa dos países devedores que recusam ser esmagados, envolvendo prazos, juros e montantes, é uma opção que acarreta riscos, acentuando tensões eventualmente produtivas e acelerando uma clarificação urgente e para a qual temos de estar preparados: renovada integração ou desagregação.

2 comentários:

Ana Paula Fitas disse...

Caro João Rodrigues,
Fiz link... e agradeço.
Um abraço.

D., H disse...

Muito bem!
Renovada integração ou desagregação. Essa tem que ser a alternativa dos países periféricos. Os periféricos até podiam construir a “sua” Europa, ficando “amigos para sempre” dos vizinhos do Norte.