quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Das conjugações às clarificações


Daniel Oliveira afiançou recentemente: “Para a América Latina, nada disto é novo. Mas na Europa passámos de aliados dependentes a subordinados decadentes”. 

A “Europa” e a primeira pessoa do plural nessa escala são parte do principal problema político e intelectual dos que passaram a situar-se por defeito na esquerda otanizada e europeizada em Portugal. Os EUA, como se sabe, nunca foram aliados do país, não o foram em 1949, em 1974 ou em 2025, haja história e memória. 

E não há “ameaça russa”, permanente e reveladoramente convocada, que apague este facto. Como disse o historiador Vijay Prashad: “A NATO [OTAN] não tem ameaças reais, apenas alucinações caras”. A complacência com o militarismo alimenta monstros, como temos insistido

A Europa é, entretanto, um continente, felizmente plural, que vai dos Urais até esta periferia e, no espírito de Helsínquia, terá um dia uma arquitetura de cooperação e de segurança comum, sem NATO e sem blocos. 

A UE, que tantos, tantas vezes, tentam passar por “Europa”, é uma robusta declinação institucional do sistema imperialista liderado pelos EUA, uma máquina austeritária de liberalização geradora de fascismos, até pela impotência social-democrata, já nem digo socialista, que favorece. 

O tal “nós” tem de ser primeiramente nacional-popular e tem de procurar as solidariedades internacionalistas com os outros “nós”. Os nacionalistas galegos sabem isto melhor do que tantos. Há tanto para aprender com os nossos irmãos do Norte. 

E o facto de “nada disto ser novo” para os países da América Latina (e para os da África e da Ásia e das periferias europeias...), só deve levar quem é social-democrata deste lado a pelo menos respeitar quem aí esteve e está na linha da frente da resistência ao imperialismo, de Cuba à Venezuela. Ao invés, é tudo corrido a “ditador” e está muito do assunto conveniente e liberalmente arrumado, mesmo quando chefes de Estado são raptados e tem de se exigir a sua libertação. 

Os que corajosamente pagam um preço elevadíssimo pela resistência, até por via de sanções mortíferas decretadas unilateralmente por EUA e UE – mais de cinco milhões de mortes na década até 2021 a nível mundial, estima-se na The Lancet – são demasiado incómodos para a “sabichonice do dever ser”, tão bem denunciada por Domenico Losurdo. 

Jeremy Corbyn, pelo contrário, sempre reconheceu o inimigo principal, o que define os aliados, mas, lá está, ele é um social-democrata verdadeiramente excecional, como se provou uma vez mais. 

Por cá, muitos social-democratas têm estado mais interessados, e isto inclui Daniel Oliveira, em usar as posições de poder comunicacional que lhe são conferidas para atacar de forma regular os comunistas portugueses sobre tudo e um par de botas. 

No fundo, é como se os comunistas tivessem culpa de estar sistematicamente mais certos do qualquer outro intelectual nacional, individual ou coletivo, e de ainda terem uma organização. Acerto não é sinónimo de poder, tal como poder não significa acerto. Haja distinções. 

Como se fosse uma nota de rodapé

Tem de haver reciprocidade, apesar de toda assimetria de meios, porque escasseia a paciência para a superioridade moral unitária nos termos do P sem S, nos de Seguro envergonhadamente apoiado à primeira volta. 

Afinal de contas, um eventual novo jazigo, como já se propôs, no cemitério de siglas políticas de esquerda não parece ter compradores. Haja modéstia, porque temos todos muitas razões para sermos modestos. 

A unidade política, essa, começa nos piquetes de greve e todos sabemos quem os organiza. A unidade começa nas manifestações anti-imperialistas e toda sabemos quem as organiza. 

Depois, há quem fale, mas sempre depois de outros carregarem os pianos e combaterem com coragem as sereias do “voto no mal menor, que acaba tantas vezes no arrependimento maior”, como bem disse Sofia Lisboa. E, se desgraçadamente chegarmos de novo aí, já se sabe quem ilegalizarão em primeiro lugar, quem levarão em primeiro lugar. 

Pronto, de vez em quando peco e respondo em geral às pessoas com quem estou em desacordo, mas acabo sempre por tentar corrigir, dizendo os nomes de quem assim me faz pensar, sendo que esta atitude muitas vezes não é simétrica, insisto, chegando aos extremos de um Rui Bebiano, por exemplo. 

De resto, só se pensa quando há desconforto intelectual e oposição. Às vezes, esta oposição tem de ser a quem está aparentemente mais próximo, com toda a frontalidade cordial. Até porque sem clarificações à esquerda, não há ações coletivas.

1 comentário:

Para a Posteridade e mais Além disse...

quase 6 mil milhões de nova dívida para alimentar fantasias bélicas é um novo marco