quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

A moeda é política


Sou muito parcial em relação aos amigos, mas procuro ser objetivo: Paulo Coimbra é a pessoa com mais cultura de teoria monetária moderna que conheço. Leia-se ou releia-se, por exemplo: “prejuízos dos bancos centrais são lucros da banca privada”. 

No seu encalço, adiciono a seguinte nota de economia política internacional, neste contexto de ataque trumpiano ao Presidente da Reserva Federal, sob pretexto de uma renovação da sede que furou o orçamento. 

“Trump deve ser levado a sério, mas não literalmente”, como sempre se disse. Por trás de tudo o que faz esta administração está, em termos internacionais, a questão da rivalidade dita estratégica com a China, numa linha que já vem de Obama-Biden. 

Ora, os chineses sempre mantiveram uma firme articulação entre as finanças públicas e o banco central, com a política monetária a ser subordinada às opções mais gerais de política económica. Nunca houve na China ficções de “independência” do banco central, nem pode haver em qualquer processo de transformação estrutural, no quadro de uma economia mista, incluindo a que garante aí a crucial descarbonização acelerada. 

Para o processo militarista e imperialista de travagem da ascensão pacífica da China, movido a controlo de recursos e a capitalismo fóssil, os EUA têm de mobilizar tudo, imitando os chineses nos meios da política económica, garantindo a subordinação da política monetária à política orçamental. 

De resto, os EUA têm crescido graças aos défices orçamentais persistentes, estimulando orçamentalmente a economia, ao contrário dos países da UE. O keynesianismo militar e para ricos vem de Reagan. O resto são as habituais bolhas neoliberais, as que resultam de um quadro liberal, favorável às míopes forças da concorrência financeira, as que acabam na fraude generalizada, no crime sistémico, na crise assimétrica.

Entretanto, a distinção é de alguns meios e de todos os fins e daí o apoio que todos os progressistas devem dar à República Popular, que está na linha frente da redução das desigualdades internacionais e no combate às alterações climáticas, ao mesmo tempo que sempre limitou a financeirização da sua economia. 

Face aos economistas social-liberais, os que engoliram um manual neoclássico de economia monetária, onde a fraude começa no multiplicador monetário, como assinalou Tiago Santos, sublinha-se: a “independência” dos bancos centrais sempre foi perigosa, dando aparências de neutralidade a uma política neoliberal de produção e distribuição, aliás responsável por este declínio da UE. 

O patético abaixo-assinado de onze bancos centrais, com o BCE à cabeça, em apoio à Reserva Federal, é só um sinal do ocaso de uma certa elite transatlântica neoliberal, a que abriu caminho aos Trumps desta desgraçada vida.

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