Augusto Santos Silva abandonou há muito qualquer referência marxista e agora tem de redescobrir muito apressada e seletivamente a crítica ao imperialismo, sem análise sistémica, sem história, sem quase nada. Sobram atoleiros e assim. Estou a pensar no seu artigo que saiu no Público, cujo título está incompleto e deve de ser corrigido: hora de aparentemente dizer não, depois de tanto tempo a dizer sim.
Há aí misteriosos interesses e também há valores, mas que são negados pela prática do Consenso de Bruxelas-Frankfurt. O essencial começou agora, com Trump e daí a hora.
Paradoxalmente, é ainda como se vivêssemos num eterno presente, dado que o passado desaparece e o futuro aparenta ser um prolongamento dos estados de alma atuais. Um historiador chamado François Hartog apodou esta experiência do tempo de presentismo, de resto indissociável do domínio mercantil absolutamente prevalecente.
Santos Silva é historiador de formação e tem a obrigação de fazer melhor, mas não pode. Afinal de contas, estamos a falar do ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo que reconheceu como Presidente um venezuelano, saído da enésima tentativa de golpe, com mão visível de fora, já ninguém se lembra do seu nome: Guaidó, ou lá o que era. Haja história e memória, nem é preciso recuar muito.
Nem falemos da NATO, ele próprio reconhece que está emaranhado nas suas contradições. A contradição é sempre produtiva, se for real, mas neste caso não é: sob a aparência de mudança, o mesmismo. Os EUA podem fazer o que quiserem. Nesta relação de forças, a NATO está de pedra e cal.
Santos Silva tem, claro, demasiada inteligência tática para vir agora com o “Maduro é ditador”, ao contrário da sua tropa fandanga, mas agarra-se, como sempre, a uma UE inventada. A sua UE realmente existente faz há muito parte do problema do neoliberalismo, do federalismo e do militarismo, indissociáveis da subalternidade histórico-institucional em relação aos EUA, retórica oportunista à parte.
Mais Lénine, menos, muito menos, Schuman, por favor, sobretudo na análise da UE, na linha de argutos excertos do líder bolchevique, a quem nunca devemos dizer adeus, mobilizados por João Ferreira há uns tempos:
“Naturalmente, são possíveis acordos temporários entre os capitalistas e entre as potências. Neste sentido são possíveis também os Estados Unidos da Europa, como acordo dos capitalistas europeus... sobre quê? Unicamente sobre como esmagar conjuntamente o socialismo na Europa, defender conjuntamente as colónias roubadas...”
Sim, a UE, acordo capitalista sem igual forjado em Maastricht, transformando o movimento neoliberal em ordem, foi institucionalizada para proscrever qualquer avanço socialista e para fazer recuar brutalmente tudo o que tinha sido conquistado. Alimentou, pelo enfraquecimento decisivo dos freios e contrapesos institucionais ao capitalismo, o regresso do fascismo, hoje totalmente ambientado a essa escala. Qualquer aprofundamento da integração capitalista só vai gerar mais do mesmo, dado que esta não é neutra do ponto de vista de classe.
E, de resto, sabemos que vivemos numa subcolónia, com uma elite intelectualmente colonizada, incapaz de pensar para lá de um centro manifestamente imaginário, lugar de um nós sem povo. Os povos estão nos países soberanos. Voltaremos a ser um país soberano, estou certo.
Nota de rodapé. Pedro Adão e Silva, o do silêncio de meses em pleno genocídio do povo palestiniano, cita melancolicamente Obama, o da “paz”, como a fascista Corina. Obama destruiu a Líbia, transformando um Estado funcional num inferno balcanizado do tráfico humano internacional. E a política económica de Obama contribuiu para Trump. A opinião social-liberal do Público não tem memória, não tem emenda.


1 comentário:
Já me fazia falta ler um artigo assim: claro, incisivo, fundamentado e sintético. Voltando ao mesmo Lenine, estamos no momento de sempiterna pergunta: o que fazer?
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