sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Combater a perversão


Em boa hora, a Comissão Nacional Justiça e Paz, ligada à Igreja Católica, afirma, em comunicado, o seguinte: “As Igrejas cristãs e os seus fiéis devem tomar consciência do seu importante papel numa denúncia corajosa e num afastamento claro de tudo aquilo que perverte o valor fundamental de amor ao próximo.” 

Em nome da legítima não instrumentalização política do cristianismo, preferem não dizer um dos nomes do anticristo em Portugal, mas ele anda pelo comunicado. Pela minha parte, recupero um texto que escrevi a 7 de janeiro de 2022 para um jornal digital que já não existe, o Setenta e Quatro (infelizmente, não cuidaram de manter o site para memória futura). Alterei apenas o último parágrafo. 

Fascista é a tua única palavra, Ventura 

Ao invocar explicitamente “Deus, Pátria, Família”, André Ventura revelou ter aprendido a “Lição de Salazar”, a “Trilogia da Educação Nacional”, vertida nos cartazes do Secretariado de Propaganda Nacional do final da década de trinta do século passado. Acrescentou-lhe o trabalho, como não podia deixar de ser, se calhar até com alegria, como também se propagandeava no fascismo que existiu entre nós: o homem a trabalhar fora de casa e a mulher dentro de casa. 

A trilogia passa a tetralogia – Deus, Pátria, Família e Trabalho. Só mudam as circunstâncias históricas e não é pouco. O resto é conhecido: respeitinho, “um lugar para cada um, cada um no seu lugar”. Caso contrário, uns safanões a tempo devem ser aplicados aos recalcitrantes, que sempre os haverá. 

É claro que Ventura não tem qualquer fidelidade às quatro palavras, como a sua tradição fascista de resto nunca teve. 

Como já disse o Papa Francisco, é melhor ser-se ateu do que ir à missa e depois semear o ódio. Esta encarnação do cristianismo autêntico estava a pensar em políticos como Ventura, certamente, nos vendilhões de todos os templos e de todos os tempos. 

Afinal de contas, Francisco já tinha defendido, em 2016, o seguinte: “São os comunistas que pensam como os cristãos. Cristo falou de uma sociedade em que os pobres, os débeis e os excluídos é que decidem. Não os demagogos, os Barrabás, mas o povo, os pobres, tenham fé em Deus ou não, mas são eles que temos de ajudar a obter a igualdade e a liberdade.” 

É preciso não esquecer que o antifascismo mais consequente também entre nós teve nos comunistas e nos católicos progressistas, bem como noutros democratas, a sua espinha dorsal. Hoje, não pode ser diferente. 

As pátrias estarão sempre vulneráveis com este promotor de infernos fiscais, do capital menos fiel aos interesses dos que aqui vivem. André Ventura já demonstrou preferir a companhia da extrema-direita estrangeira à presença parlamentar na aprovação de leis de combate à corrupção. Afinal de contas, é um defensor do dos chamados vistos gold, de todas as fronteiras abertas para o capital. Ventura foi lançado por um vende-pátrias chamado Pedro Passos Coelho, não o esqueçamos. 

A maioria das famílias, as das classes trabalhadoras de todas as cores e feitios, que criam tudo o que tem valor, são sempre ameaçadas por quem quer desmantelar o Estado social de base universal, tudo aquilo que dá segurança genuína, por quem integra quadros oriundos da especulação imobiliária mais desenfreada, dos negócios mais sórdidos com o Estado securitário. 

Sabemos que a destruição do Estado social exige um Estado cada vez mais repressivo, em sociedades cada vez mais desiguais e logo cada vez mais negócios para financiadores desta forma de economia política a que Paul Samuelson, um dos mais destacados economistas convencionais do século XX, pensando nas experiências latino-americanas, chamou de “fascismo capitalista”. Não há outro, de resto: de facto, quem não quiser falar de capitalismo neoliberal, e da integração europeia que o suporta em grande parte do continente, não pode hoje falar das formas que o fascismo assume. 

O trabalho com direitos, já que as obrigações são sempre tantas, sem o qual a vida das famílias é infinitamente mais difícil, dos horários longos e baralhados à insegurança laboral, é ameaçado por quem quer sempre aumentar os direitos e a discricionariedade dos patrões mais medíocres e menos fiéis à ideia democrata-cristã da empresa como uma comunidade de e para humanos. 

No fundo, nenhuma destas palavras – Deus, Pátria, Família, Trabalho – deve ser deixada a Ventura e aos seus financiadores e ideólogos, como Jaime Nogueira Pinto, um dos que beneficia de demasiada complacência por parte de gente desmemoriada. Por serem muito inteligentes e muito cultos, os fascistas históricos não merecem menos combate, antes pelo contrário. 

Lembremos e atualizemos a lição antifascista: fascista é a única palavra que se deixa a este inimigo derrotável. Neste contexto, não se deve esquecer que a política popular passou sempre pela disputa ideológica das formas de fronteira nacional e de segurança a garantir às classes populares. 

Sem algum grau de fronteira económica, sem controlo político democrático sobre os capitais e sobre os fluxos comerciais ao nível dos Estados, não há autoridade e responsabilidade políticas democráticas; nem forma de segurança defensável, a social, a que é garantida pela provisão pública de recursos essenciais e pelo manejo de um plêiade de instrumentos de política económica hoje anulados ou furtados pela integração europeia. 

Sem a imaginação nacional e popular a funcionar para democratizar a economia, e sem os instrumentos que lhe dão tradução material, o campo fica livre para a viciosa imaginação da extrema-direita. 

Nos anos trinta, perante o ascenso dos fascismos, favorecidos pelas crises geradas pelo capitalismo liberal, a estratégia antifascista passou precisamente por um trabalho político de reinvenção progressista da escala nacional. Como disse Georgi Dimitrov, um dos ideólogos da estratégia das frentes populares definida, em 1935, pela Terceira Internacional: 

“O internacionalismo proletário deve aclimatar-se, por assim dizer, a cada passo e deitar profundas raízes no solo natal. Ao revoltar-se contra toda a vassalagem e contra toda a opressão é o único defensor da liberdade nacional e da independência do povo”. 

A melhor tradução institucional positiva foram as constituições antifascistas, em tantos países a seguir à Segunda Guerra Mundial, assentes nos valores do mundo do trabalho e do Estado social, sem os quais não podia e não pode haver democracia avançada. A nossa Constituição, a de 1976, produto de uma revolução democrática e nacional, é tributária desse movimento quase trinta depois da Constituição italiana, onde democratas-cristãos e comunistas convergiram. 

Hoje, noutras circunstâncias históricas, esmaguemos o cobarde fascista, e a restante escumalha dirigente que o acompanha, nas eleições de dia 8 de fevereiro. Sabemos que estas eleições são apenas um meio e nem sequer o mais importante: como sempre, o essencial do combate ao fascismo e às suas mentiras, bem como aos planos de exploração que vêm à boleia do seu reforço, trava-se a partir dos locais onde se cria de verdade tudo o que tem valor. Vimos isso na Greve Geral. É por isso e por muito mais que Montenegro e restantes liberais até dizer chega também são um inimigo, mais os seus mamarrachos políticos.

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