sábado, 24 de janeiro de 2026

Era o davas


Violando todas as convenções sociais, Trump continua a exibir a sua única virtude, a que é epistémica, insisto: revela sem rebuço a natureza do sistema imperialista liderado pelos EUA, de que a UE faz parte. 

Macron, o “presidente dos ricos”, cheio de estilo em Davos, exprimiu por mensagem a submissão coletiva de sempre a quem manda nos EUA. Isto só agora perturba os estômagos fragilizados por dietas ideológicas euro-liberais. Temos pena. 

Há de facto uma linha de cor racista na mensagem privada de Macron, que foi tornada pública por Trump: “continuemos a bombardear os povos de pele acastanhada, já que nisso concordamos”, como traduziu Jason Hickel. Aí, os estatocídios são “grandes coisas”. Felizmente, a subimperialista França tem sido derrotada no Sahel, lembrem-se. 

Muito ruido depois, irão chegar a um acordo sobre a Gronelândia. Eles entendem-se sempre, mas sempre. Não é defeito, é feitio de ser Estado-membro da UE, ao invés de ser um Estado-nação. 

Entretanto, o discurso nacional do liberal Mark Carney, bem escalpelizado por Raquel Ribeiro, marcou Davos. Agora que o igualmente subimperialista Canadá sente a pressão dos EUA, Carney descobriu o que qualquer marxista sempre soube: que a “ordem baseada em regras” nunca passou de uma “ficção”, servindo para ofuscar uma realidade estruturalmente violenta. 


Há um efeito bumerang há muito conhecido de historiadores e de outros pensadores. Gaza é o mais recente laboratório genocida de uma terrível história do passado, presente e futuro, uma história que chegará à Europa. A distopia de Gaza apresentada em Davos, construída em cima de centenas de milhares de cadáveres, faz lembrar o método de Jacarta: ali, em sítios que são paradisíacos, estão enterrados centenas de milhares de comunistas. 

Cabe aos povos dos Estados soberanos evitar este destino trágico. Afinal de contas, os EUA foram responsáveis por cerca de 20 a 30 milhões de mortes desde 1945 e isto sem contar com os efeitos mortíferos das sanções económicas: mais de 5 milhões de mortos só na década desde 2010. 

Perante esta barbárie, muito do que é civilizado começa pela República Popular da China, até porque é um dos raros países que tem uma verdadeira autonomia em relação às Palantirs deste mundo, pugnando pela paz internacional e estando na vanguarda do combate às alterações climáticas. Há três tipos de pessoas: as que percebem isto, as que nunca perceberão isto e as que passarão a perceber isto. As terceiras são decisivas para reforçar o movimento anti-imperialista pela paz.

Sem comentários: