sábado, 10 de janeiro de 2026

Intervenção


Num blogue politicamente plural, partilho a minha intervenção, enquanto mandatária distrital da candidatura de António Filipe em Coimbra, no comício que teve lugar ontem, num auditório cheio do Instituto Português do Desporto e Juventude.

Boa noite, 

Vivemos um tempo politicamente exigente. 
Um tempo em que se tenta convencer o país de que não há alternativas. 
De que a desigualdade é natural. 
De que a precariedade é inevitável. 
De que a dependência externa é uma fatalidade. 
De que a autodedeterminação dos povos é uma quimera. 

Mas a história do nosso povo mostra exatamente o contrário, não estamos condenados a este sombrio presente e a um ainda mais sombrio futuro. E é por isso que a candidatura de António Filipe é necessária. 

Não por oportunismo político. 
Mas por exigência soberanista e, logo, democrática. 

A candidatura de António Filipe não é uma candidatura de circunstância. É uma candidatura de coerência e de compromisso com um país e o seu povo. Afirma algo simples, mas hoje profundamente subversivo: que o Presidente da República deve cumprir e fazer cumprir a Constituição, defender os valores de Abril e estar do lado de quem trabalha e vive do seu trabalho – e não dos interesses dominantes. 

Afirma também algo essencial: que a Presidência da República não é um lugar de silêncio confortável, nem de comentários ocasionais, selfies permanentes ou gestão de consensos anticonstitucionais. 

Num momento em que a direita concentra poder institucional e pressiona para o retrocesso em direitos sociais, esta candidatura recusa-se a ser cúmplice. É preciso tomar posição quando os direitos dos trabalhadores, os serviços públicos, a escola pública, o Serviço Nacional de Saúde e a Segurança Social são enfraquecidos. É preciso ser espaço de resistência quando a democracia é atacada. 

Aceitei ser mandatária distrital por Coimbra porque acredito profundamente nesta candidatura. Porque acredito que a democracia não se defende sozinha. Mas também porque acredito no nosso distrito. 

Coimbra é muitas coisas ao mesmo tempo. É cidade universitária, mas também é território de trabalho precário. É ciência e conhecimento, mas também é interior esquecido. É serviços, indústria, agricultura, cuidados, cultura. E é precisamente por isso que Coimbra – e o país – precisam de um Presidente da República que não fale apenas para uma parte da sociedade, mas que seja capaz de representar quem vive do seu trabalho, independentemente da profissão, da idade ou do percurso de vida. 

Aquilo que temos visto no distrito de Coimbra nesta campanha confirma isso mesmo. Os apoiantes desta candidatura são pessoas de várias idades, géneros, profissões e trajetórias. Trabalhadores da saúde, da educação, dos serviços, da indústria, da administração pública, da cultura, da ciência. Reformados e estudantes. Gente que vive realidades muito distintas, mas que partilha uma mesma recusa da resignação. 

Isto não é um detalhe. 
Isto é política no seu sentido mais profundo. 

Mostra que esta é uma candidatura ampla, inclusiva, popular. Uma candidatura que fala para quem vive do seu trabalho, para quem sente as dificuldades no dia a dia, para quem não aceita a ideia de um país adiado. Uma candidatura que convoca democratas, trabalhadores, todos os que querem um país mais justo e mais digno. 

Falo também enquanto mulher jovem e independente. Não venho da política profissional – e isso não me coloca à margem desta candidatura. Pelo contrário, aproxima-me dela. Porque esta é uma candidatura que não pertence a uma geração, nem a um percurso único. É uma candidatura aberta, plural, onde cabem diferentes idades, experiências e formas de participação política. 

No distrito de Coimbra, esta campanha tem sido feita no terreno: a divulgar o comício, a contactar a população, a falar com trabalhadores, a ouvir problemas concretos. Sem promessas vazias, sem discursos ensaiados para a televisão, sem distância. Porque é assim que se faz política séria: com contacto direto, com respeito, com escuta. 

E esta forma de estar diz muito sobre o próprio candidato. António Filipe tem feito uma campanha de proximidade, de diálogo, de presença junto de trabalhadores, associações, estudantes, movimentos sociais. Uma campanha que não se orienta por sondagens, nem por cálculos de “voto útil”, mas por convicções políticas claras e por confiança no povo português. 

Falo-vos também a partir da minha experiência pessoal. 

Sou ex-investigadora científica. Trabalhei vários anos na academia portuguesa e conheço bem a realidade de milhares de trabalhadores científicos que vivem numa situação de precariedade permanente. Sei o que significa trabalhar num sistema científico e tecnológico que precisa do nosso trabalho, mas não o reconhece como tal – e nos trata como se fôssemos descartáveis. 

Portugal continua a formar pessoas altamente qualificadas para depois as empurrar para a insegurança laboral: bolsas sucessivas, contratos a prazo, ausência de direitos, instabilidade constante. Muitas acabam por sair do país. Outras desistem da ciência, porque não têm alternativa – como foi o meu caso. 

E o país perde conhecimento, capacidade crítica e autonomia. 

Isto não é apenas um problema da ciência. 
É um problema da democracia. 

Porque quando um país investe na formação dos seus jovens e depois os obriga a emigrar ou a desistir, está a desperdiçar futuro. Está a transferir para outros países aquilo que foi construído coletivamente. E está a fragilizar a sua capacidade de decidir, de inovar e de responder às questões sociais. 

A ciência é um bem público. Tal como a escola pública, o SNS ou a segurança social. E o Presidente da República não pode ser neutro quando estes pilares são atacados. 

O mesmo vale para a política externa. Defender a Constituição é também defender a paz, o diálogo e a cooperação entre os povos. É recusar a normalização da ingerência externa e da guerra, da escalada militar e do confronto entre povos. 

Esta candidatura afirma uma visão de futuro assente na paz, na justiça social, nos direitos e na participação democrática. Por isso, esta candidatura importa. 

Porque recusa o medo. 
Porque recusa a política do mal menor que agiganta o mal maior. 
Porque confia no povo português, na sua inteligência coletiva e na sua capacidade de lutar por um país mais justo. 
Porque acredita que a democracia se fortalece quando as pessoas participam, quando escolhem por convicção e quando não abdicam dos seus princípios. 

Esta é uma candidatura que olha para o futuro com esperança ativa. Uma esperança que se constrói com direitos, com trabalho digno, com serviços públicos fortes, com cultura, com ciência e com democracia real em todas as esferas da vida. 

É essa esperança que hoje afirmamos aqui. 

E com o voto em António Filipe vamos longe. 

Viva Portugal. 

Muito obrigada.

1 comentário:

vp disse...

Muito bem. Foi uma excelente intervenção!