sábado, 24 de janeiro de 2026

A página genial

É preocupante perceber que no gabinete do Primeiro-Ministro, e entre os que o aconselham, não tenha havido uma única alma a assinalar que a página Volksvargas, hoje com cerca de 14,4 mil seguidores, é uma página de sátira política. Em contrário, teria sido possível avisar Montenegro que processar o seu autor, por alegada «desinformação», é tão absurdo como processar o Inimigo Público, o Jovem Conservador de Direita (JCD), o insoniascarvao ou, para mais um exemplo em papel, as antigas Cartas ao Comendador, do Expresso. Noutros tempos, perseguiam-se cartonistas como José Vilhena. Mas eram outros tempos, certo?

Teria bastado, para quem desconhecesse a página ou tivesse dúvidas, ler as primeiras frases da publicação que suscitou a ridícula decisão do Primeiro-Ministro, com sentido de ironia e humor inequívocos: «supremo líder», «grande arquiteto dos tempos modernos», «energizado pela enorme magnitude das suas recentes conquistas» (a fazer lembrar os Monty Python). A sério, acreditam mesmo que seria este o registo escolhido por quem quisesse fazer passar por verdadeira uma mensagem falsa dirigida por Luís Montenegro a Donald Trump? Acham que somos todos parvos?


Sendo pouco crível que ninguém no gabinete do Primeiro-Ministro, ou entre os seus próximos, desconhecesse o perfil da página, ou fosse incapaz de perceber a ironia, resta uma hipótese mais plausível, mas menos benigna. A publicação em concreto deve ter parecido uma boa oportunidade para, com o devido espalhafato, intimidar e silenciar o autor. Percebe-se, claro: a página Volsksvargas é genial, destacando-se pela sua criatividade, capacidade de escrutínio político, inteligência, eficácia e alcance, com as suas publicações a atingir uma «elevada difusão pública», como se assinalou, de resto, no comunicado emitido pelo gabinete de Luís Montenegro.
No atual contexto, esta tentativa de silenciamento político, com o governo a classificar como «desinformação» uma publicação satírica - ao mesmo tempo que não mexe um dedo para travar as fake news do Chega (que concentrou 82% das visualizações de publicações falsas na primeira volta das presidenciais), não é assim tão estranha. Depois do «não é não», o governo da AD tem vindo a aproximar-se gradualmente da extrema-direita do Chega, normalizando-a tanto no discurso (imigração, por exemplo) como, pelos vistos, nas práticas. A decisão de não apoiar nenhum candidato na segunda volta das eleições presidenciais, por parte do PSD e CDS-PP, é apenas mais um passo desse percurso.
No briefing do Conselho de Ministros, o mesmo Leitão Amaro que classificou a Greve Geral de 11 de dezembro como «inexpressiva», afirmou que a referida publicação da página Volksvargas constituia não só um «ataque à instituição de primeiro-ministro», mas também à «posição internacional de Portugal». Curioso, pois ter um Primeiro-Ministro a processar, e tentar silenciar, uma página satírica, é que talvez seja prejudicial - querendo colocar as coisas nesses termos - para a instituição que representa e para a imagem internacional do país.

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