Isa: E explicar o que é o fascismo a um puto de 4 anos? Giro...
Carina: Experimenta com o Barrigas e Magriços, por aqui foi perfeito por volta dessa idade. Ainda é assim que arrumamos politicamente as ideias. O Ventura é designado genericamente como Sr. Cocó.
Conversa sobre coisas muito sérias: alguém já disse que vivemos na “fase fecal do capitalismo, uma era de merdificação generalizada”. Os Srs. Cocós aí estão, sempre promovidos pelos Srs. Muscões, os novos barrigas.
A boa literatura infantojuvenil, a que é mesmo para todas as idades, sempre foi parte do saneamento intelectual básico. O livro de Álvaro Cunhal, Barrigas e Magriços, com magnificas ilustrações de Susana Matos, tornou-se uma referência há pouco mais de um ano, graças a Jorge C. e a Carina Castro.
Estamos sempre a tempo de conhecer. Comprei-o na livraria do meu museu favorito, gratuito no ponto do utilizador, na que é a minha nova cidade de adoção: haja neorrealismo em Vila Franca de Xira. O encontro com Cunhal e com outros neorrealistas tem-me ajudado muito, entretanto.
Graças à minha mãe, tive o privilégio de crescer alimentado por Nestum, iogurtes caseiros e Sophia de Mello Breyner, cujos livros ditos para crianças conheço de cor e salteado. Reli o tocante Contos Exemplares na semana passada, sublinhando o seu profundo catolicismo social de recorte corajosamente antifascista. Conheci este livro, mais para graúdos, graças a um professor do décimo ano que gostava de livros.
Antes, quando cheguei ao primeiro ano do ciclo e tive mesmo grandes dificuldades de aprendizagem, a minha mãe, que era professora de português, foi reaprender matemática e tudo. Não sei o que teria sido de mim sem ela. O resto devo-o ao meu pai, aos meus amigos e camaradas, a um número incontável de professores, aos meus mestres. A ideologia do mérito é mesmo uma fraude, posso atestar por introspeção, podemos todos.
Insisto num facto básico: dependemos da lotaria nacional, do país em que nascemos, e familiar e também por isso nascemos e crescemos com uma dívida social ou com um crédito social. A nossa luta é pela universalização das condições básicas para o florescimento humano, tentando reciprocar como podemos, quer no plano doméstico, quer na esfera pública.
O igualitarismo que lutamos para institucionalizar também reduz o efeito brutal da sorte e do azar, bem como do acesso que conferem ou não conferem aos privilégios sociais associados à chamada propriedade privada, uma construção política passível de múltiplas alocações de direitos e de deveres. Hoje em dia, há, neste desgraçado contexto “neoproprietarista”, cada vez mais direitos e cada vez menos deveres.
As pessoas fazem o melhor de que são capazes nas circunstâncias que são as suas: coletivamente, humanizemos circunstâncias e desenvolvamos potencialidades, repetirei até ao fim. Tudo o resto são fraudes antropológicas liberais, que desaguam no fascismo, já há muito desmontadas por investigadoras como Margaret Mead:
“Um fémur partido com sinais de que está curado demonstra que alguém dedicou o seu tempo a ligar a ferida de quem caiu, a transportar essa pessoa para um sítio seguro e a acompanhá-la durante o tempo de recuperação. A civilização começa quando se ajuda alguém que está em dificuldades.”
Sim, o tempo é de dicotomias claras: civilização contra barbárie, magriços contra barrigas, solidariedade contra egoísmo, gente comum, com pulsão de vida, contra filhos da puta, com pulsão de morte, saneamento intelectual básico contra cocó.


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