terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Saneamento intelectual básico


Isa: E explicar o que é o fascismo a um puto de 4 anos? Giro... 
Carina: Experimenta com o Barrigas e Magriços, por aqui foi perfeito por volta dessa idade. Ainda é assim que arrumamos politicamente as ideias. O Ventura é designado genericamente como Sr. Cocó. 

Conversa sobre coisas muito sérias: alguém já disse que vivemos na “fase fecal do capitalismo, uma era de merdificação generalizada”. Os Srs. Cocós aí estão, sempre promovidos pelos Srs. Muscões, os novos barrigas. 

A boa literatura infantojuvenil, a que é mesmo para todas as idades, sempre foi parte do saneamento intelectual básico. O livro de Álvaro Cunhal, Barrigas e Magriços, com magnificas ilustrações de Susana Matos, tornou-se uma referência há pouco mais de um ano, graças a Jorge C. e a Carina Castro

Estamos sempre a tempo de conhecer. Comprei-o na livraria do meu museu favorito, gratuito no ponto do utilizador, na que é a minha nova cidade de adoção: haja neorrealismo em Vila Franca de Xira. O encontro com Cunhal e com outros neorrealistas tem-me ajudado muito, entretanto. 

Graças à minha mãe, tive o privilégio de crescer alimentado por Nestum, iogurtes caseiros e Sophia de Mello Breyner, cujos livros ditos para crianças conheço de cor e salteado. Reli o tocante Contos Exemplares na semana passada, sublinhando o seu profundo catolicismo social de recorte corajosamente antifascista. Conheci este livro, mais para graúdos, graças a um professor do décimo ano que gostava de livros. 

Antes, quando cheguei ao primeiro ano do ciclo e tive mesmo grandes dificuldades de aprendizagem, a minha mãe, que era professora de português, foi reaprender matemática e tudo. Não sei o que teria sido de mim sem ela. O resto devo-o ao meu pai, aos meus amigos e camaradas, a um número incontável de professores, aos meus mestres. A ideologia do mérito é mesmo uma fraude, posso atestar por introspeção, podemos todos. 

Insisto num facto básico: dependemos da lotaria nacional, do país em que nascemos, e familiar e também por isso nascemos e crescemos com uma dívida social ou com um crédito social. A nossa luta é pela universalização das condições básicas para o florescimento humano, tentando reciprocar como podemos, quer no plano doméstico, quer na esfera pública. 

O igualitarismo que lutamos para institucionalizar também reduz o efeito brutal da sorte e do azar, bem como do acesso que conferem ou não conferem aos privilégios sociais associados à chamada propriedade privada, uma construção política passível de múltiplas alocações de direitos e de deveres. Hoje em dia, há, neste desgraçado contexto “neoproprietarista”, cada vez mais direitos e cada vez menos deveres. 

As pessoas fazem o melhor de que são capazes nas circunstâncias que são as suas: coletivamente, humanizemos circunstâncias e desenvolvamos potencialidades, repetirei até ao fim. Tudo o resto são fraudes antropológicas liberais, que desaguam no fascismo, já há muito desmontadas por investigadoras como Margaret Mead

“Um fémur partido com sinais de que está curado demonstra que alguém dedicou o seu tempo a ligar a ferida de quem caiu, a transportar essa pessoa para um sítio seguro e a acompanhá-la durante o tempo de recuperação. A civilização começa quando se ajuda alguém que está em dificuldades.” 

Sim, o tempo é de dicotomias claras: civilização contra barbárie, magriços contra barrigas, solidariedade contra egoísmo, gente comum, com pulsão de vida, contra filhos da puta, com pulsão de morte, saneamento intelectual básico contra cocó.

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