quarta-feira, 2 de abril de 2014

Nós sabemos...

Nós sabemos e temos a obrigação de saber que a europeização da economia portuguesa está associada à sua neoliberalização. Nós sabemos e temos a obrigação de saber que o neoliberalismo está inscrito nos arranjos europeus por via dos privilégios absolutos dados à construção de mercados, à liberdade de circulação de capitais dentro da “União” e entre esta coisa e o exterior ou por via do poder do BCE, do seu mandato deflacionário e pós-democrático e da proibição do financiamento monetário dos défices orçamentais. Nós sabemos e temos a obrigação de saber que austeridade está cada vez inscrita nas regras orçamentais europeias e na abdicação de toda a soberania face à organização da absoluta dependência dos Estados perante os mercados financeiros liberalizados e isto na mais limpa das hipóteses.

Nós sabemos e temos a obrigação de saber tudo isto. E, no entanto, os europeístas continuam, através de uma inflação de analogias históricas, a prometer-nos que a coesão social e o pleno emprego, supostamente valores da União, são realizáveis nos interstícios destes arranjos europeus ou para lá deles se fizermos como se fez no New Deal ou no Plano Marshall. Rui Tavares tem sido dos mais activos e melhores neste exercício. Hoje repete-o.

Que o New Deal tenha sido realizado à escala nacional, e em ruptura inicial com instituições de um sistema internacional disfuncional, talvez não seja um detalhe. Que a projeção imperial norte-americana, traduzida na reconstrução capitalista dos seus aliados, tenha ocorrido com os soviéticos em Berlim talvez não seja mais um detalhe. Fala de um novo FMI na Europa ou de uma conferência à imagem de Bretton Woods, mas só para a questão da dívida. Qual é a potência hegemónica disponível? A Alemanha e as suas elites, as que defendem este euro a todo o custo? Não sei, mas a invocação de Bretton Woods parece-me mais apropriada para quem defenda a reconstrução de um sistema monetário europeu com taxas de câmbio fixas, mas ajustáveis, entre as moedas nacionais e com controlos de capitais, aceitando a redenominação das dívidas em moedas nacionais que seria necessária no presente contexto. No fundo, acabar com o Euro, o equivalente ao padrão-ouro, para gerir a integração. Uma revolução.

Para lá disto, nós sabemos e temos a obrigação de saber que os valores do pleno emprego e da coesão social invocados para tentar mostrar a plasticidade potencial desta integração europeia são mencionados nos Tratados, mas é para aí serem entendidos como um subproduto da integração dos mercados e das “reformas estruturais”, ou seja, da perda de direitos laborais e sociais nacionais, dadas as estruturas que enquadram à escala europeia a política económica. Estas são as hipóteses: as forças de mercado são sociais e empregam em pleno todos os que estejam disponíveis para trabalhar. Tudo o que num dia de nevoeiro contrarie minimamente essas hipóteses será realizado com ainda mais perdas de soberania nacional, com a transformação deste rectângulo numa região que viverá à custa da “bondade de estranhos”, uma espécie de Alabama, sem qualquer margem de manobra. Na melhor das hipóteses, não há nada de mobilizador.

Enfim, entre a utopia europeísta de algumas esquerdas e o projecto hayekiano de um Gaspar, nós sabemos e temos a obrigação já de saber quem triunfou, triunfa e triunfará.

5 comentários:

Anónimo disse...

Concordo com a implementação de controlos de capital.

Contudo, penso que seria mais desejável um regime de managed float que permitisse a intervenção do banco central sempre que necessário.

Também seria importante colocar o comércio exterior sob a alçada do Estado de forma a controlar as entradas e saídas de divisas do país e evitar a existência de fenómenos como a subfacturação das exportações e a sobrefacturação das importações.

Anónimo disse...

O Pessimismo é intenso....

João Vasconcelos-Costa disse...

Rui Tavares não é muito habilitado em economia. Veja-se a sua confusão, há tempos, entre desvalorizações, externa e interna, e a sua grande revalorização. Não tem mal nenhum, num cronista, mesmo num eurodeputado. Pior é quando é num dirigente (de facto) de um partido de esquerda.

João disse...

Os conceitos são lixado - com "F" grande, como diria um amigo meu.
Este de "europeísta" é dos mais manhosos (perniciosos, para quem prefira). Dizendo-me europeísta, digo-me da vocação de poder, de arco de uma qualquer governação e, pela mesma via, deixo de fora os "eurocépticos", assim uma espécie de marginais do protesto. Por cá, uma certa esquerda de sofá, ou uma certa esquerda caviar, gostam muito de usar esses dois brincos: um em cada orelha. E o capital agradece e afaga-lhes os lóbulos. Só para confirmar que os brincos estão bem presos.

R.B. NorTør disse...

Isto de se autodenominar de esquerda e direita... Pior ainda é quando assumimos que quem se manifesta de esquerda/direita tem automaticamente de assinar por baixo um dado conjunto de características.

O caso do Rui Tavares é nesse aspecto paradigmático, uma vez que é das poucas vozes de esquerda que se assume como europeísta. Se formos ver as suas propostas, são propostas que, implementadas, são de facto uma revolução. São-no porque partem das fragilidades que aprendemos nos últimos 50 anos e procuram fortalecer ferramentas que já temos. Nesse sentido é de salutar a sua voz.

Pouco me importa, e digo-o com sinceridade, que não seja muito habilitado em economia e dificilmente uso isso contra, ou a favor. Para se perceber o porquê, basta ver o que tanta gente habilitada nos tem feito. Ou mesmo os inabilitados que falam como se o fossem.

Como diz o João, os conceitos são lixados com F grande. Em parte porque nos dias que correm, para se ser europeísta, tem de se ser eurofóbo.