terça-feira, 17 de março de 2026
Os amanhãs não cantam
No final de 2020, um estudo da consultora imobiliária CBRE sobre o mercado residencial português concluía que a pandemia travara a tendência de subida dos preços, prevendo quebras de transações em Lisboa e no Porto. O efeito, porém, seria efémero, com os preços da habitação e o número de transações a recuperar já em 2021 e a subir de modo expressivo em 2022 (sendo necessário recuar a 1991 para encontrar uma variação anual de idêntica grandeza).
Tal não impediu, contudo, novas previsões de estabilização de preços em 2023. Para a Confidencial Imobiliário era «evidente que num contexto de maior constrangimento do poder de compra» - em resultado da crise inflacionária gerada pela invasão da Ucrânia pela Rússia - havia «pressão para uma estabilização dos preços». Para o BPI, os preços da habitação iriam mesmo sofrer uma «correção do mercado», estimando um recuo de 1,5%. O Índice de Preços da Habitação (IPH), todavia, acabaria por revelar um aumento de 7,6% entre 2022 e 2023.
Já com mais cautela, economistas ouvidos pelo Negócios previram, em 2023, que os preços apenas desacelerassem no ano seguinte, aumentando de forma mais moderada, num valor médio a rondar os 3%. Uma estimativa que ficou muito aquém da evolução registada, com IPH a crescer 9,8% entre 2023 e 2024. Para 2025, a Standard & Poor's admitiu que os preços das casas tinham margem para continuar a subir até 2027, mas a um ritmo inferior ao de 2024. Contudo, a variação do IPH atingiria um aumento de 17,7% entre 2024 e 2025.
Alinhado com Pinto Luz - para quem «é o incentivo de mercado» que fará descer o preço das casas - coube ao também ministro Castro Almeida, em outubro passado, renovar a profissão de fé na redução dos custos com a habitação, declarando que - graças às medidas da AD - a mudança nos preços e nas rendas ia «começar a sentir-se» no final de 2026. Ou seja, ignorando desde logo que os incentivos ao mercado já adotados apenas agravaram o problema, como evidencia a aceleração do IPH, acima da média da UE, desde que o governo de direita tomou posse.
É por isso mais plausível a previsão da Fitch, que vê os preços das casas aumentar 15% em 2026, assumindo que «não haverá inversão no curto prazo». O oposto é que seria, de facto, improvável. Enquanto a atual crise continuar a ser interpretada como o resultado de uma mera falta de casas - ignorando o papel das novas procuras na formação dos preços e recusando medidas tendentes à sua regulação - não vale a pena insistir em amanhãs que cantam.
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