A investigação jornalística exige equipas, tempo, recursos e deslocações. Exige também jornalistas de elevada qualidade e especialistas capazes de analisar os acontecimentos com rigor. Pelo contrário, um painel de analistas exige apenas um estúdio, algumas cadeiras e convidados disponíveis para discutir a atualidade. Desta forma é possível produzir horas de emissão com custos relativamente baixos.
Concordo no fundamental com a análise de José Maurício Brás sobre os tudólogos. Introduzo um complemento de crítica da economia política: para preencher tempo e espaço de forma relativamente económica, o capitalismo televisivo e de imprensa teve de inventar a figura do tudólogo e este é necessariamente antimarxista, dado que olha para tudo e é pago para não ver “o capitalismo do crime sistémico”, para não ver a totalidade, onde estará a verdade.
Podemos ainda concretizar mais: para proferirem vulgaridades em catadupa, há tudólogos a ganhar dez ou mais vezes do que os jornalistas que fazem o trabalho duro, mas ainda assim realmente custam menos do que o jornalismo de investigação a sério, o que coletivamente tem de mobilizar recursos vastos para olhar e ver com tempo coisas importantes e necessariamente incómodas para o poder capitalista, uma maçada.
A “lógica económica” é antes a lógica do capitalismo, a lógica da economia política, com os seus vieses de classe. Os tudólogos são realmente um descanso televisivo no cabo e nos jornais, horas e horas, páginas e páginas, de úteis reacionarices em quase todos os casos, mediocridades gerais, dada a função.
Como a realidade é sempre contraditória, ainda temos por cá algum, pouco, jornalismo de investigação, imagino que cada vez mais precário. Sei lá, comparai qualquer tudólogo, e são muitas vezes “jornalistas”, com jornalistas sem aspas, como Miguel Carvalho.
Tenho dois dos seus volumosos livros, mas do último, sobre o partido fascista que ainda não voltou a ser bombista, confesso que só li uma parte por enquanto; o que li, sobre os financiadores, achei instrutivo, naturalmente em linha com excelente investigação sua publicada na Visão, de resto já mobilizada para o Le Monde diplomatique - edição portuguesa. Confirma-se que a oferta política fascista pode criar a sua própria procura, também com a ajuda pecuniária dos sórdidos Joões Bravos e do tal capitalismo televisivo e de imprensa.
Lá está, o segredo está sempre na comparação: menos tudólogos, mais jornalistas.


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