domingo, 29 de março de 2026

Ir lendo a República Popular

Nunca fui à China, obviamente não falo mandarim, mas há décadas, agora já posso falar assim, que leio regularmente sobre a República Popular, francamente na sombra da URSS, atirando algum barro à muralha de vez em quando. Li Mao e Deng e nunca me arrependi. 


Aprendi imenso com O Século do Dragão, livro visionário de Henri Alleg, jornalista do L’Humanité torturado na Argélia pelas suas simpatias anticolonialistas nos anos 1950. Publicado nos anos 1990, ainda hoje é útil, tenho-o aqui ao lado todo sublinhado e anotado, conjuntamente com outro, sobre a catástrofe do fim da URSS. 

Quando fui fazer um semestre de Erasmus à Universidade Erasmus de Roterdão, em 1998, tive oportunidade de fazer uma cadeira sobre sistemas económicos em transição. O professor comentou – “Mas porque é que os portugueses se interessam tanto por estas economias?”, dado que já não era o primeiro, nem o segundo, aluno luso hipermotivado. E eu respondi: tem tido amostra politicamente enviesada, alardeando o meu interesse pelo socialismo com mercados (na altura papagueava o economista galego Ramón López Suevos e ainda hoje o faço no tema do socialismo e do mercado).  

Aprendi imenso nesta cadeira, deu-me as referências de que necessitava na altura, incluindo os livros de Alec Nove, sobre o “socialismo realizável” e de Peter Nolan sobre a ascensão da China e a queda da Rússia. Institucionalista e sinólogo, este economista de Cambridge orientaria os trabalhos de Isabella Weber e a sua tese sobre a gestão chinesa dos preços nos anos 1980, parte de uma tradição, neste caso destinada a evitar desastrosas “terapias de choque”. 


Entretanto, no quadro da teoria do sistema-mundo, foram vários os autores a trabalhar a China. Do que conheço, o pico foi atingido com Adam Smith em Pequim: origens e fundamentos do século XXI, de Giovanni Arrighi, um brilhante elogio à sábia gestão chinesa dos mercados, instituição que precede o, e que sucede ao, capitalismo, ao mesmo tempo que Smith é corretamente reinterpretado como pensador da soberania e da igualização internacional. 

Na New Left Review e na Monthly Review, duas companhias de sempre, fui seguindo os debates sobre a China. A primeira culminou com a publicação de um ensaio comparatista de grande fôlego do historiador Perry Anderson sobre as duas revoluções, a russa e a chinesa, de resto editado em livro no Brasil, incluindo a produtiva controvérsia que gerou. A segunda revista foi reconhecidamente evoluindo, dado que avançou com a tese crítica da restauração capitalista e chegou ao reconhecimento de que a China está a construir uma civilização socialista e por isso ecológica, a seu modo e não sem contradições, como tudo o que está vivo. 

Para reduzir eventuais vieses, fui lendo economistas sinólogos mais convencionais, como Barry Naughton, autor de um dos manuais de referência sobre economia chinesa nos EUA. 

Mas o pico de interesse histórico-filosófico no percurso da China devo-o a Domenico Losurdo, em livros como A luta de classes – Uma história política e filosófica: “Com o seu desenvolvimento – que continua sendo amplamente dirigido pelo poder político e que ainda hoje busca subordinar aos fins gerais a habitual caça ao lucro dos setores privados da economia – A China é o país que mais do que qualquer outro põe em discussão a divisão internacional do trabalho imposta pelo colonialismo e pelo imperialismo e que promove o fim da época colombiana, um facto de alcance histórico e progressivo”. 


No final de 2023, tive o privilégio de passar pelo Departamento de Economia da Universidade Federal da Bahia e de acompanhar mais de perto a discussão sofisticada entre economistas brasileiros sobre a China, no fundo uma discussão entre a hipótese da restauração capitalista, sob a forma do capitalismo de Estado, e a hipótese da “economia socialista planificada de mercado”, na medida em que dispõe de mecanismos de planeamento e de controlo, direto e indireto, “muito superiores” aos das economias capitalistas ocidentais, sem prescindir de forças de mercado altamente relevantes. 

Ainda mais recentemente, no quadro do crescente interesse pelo pensamento galego, reparei que há ali um bom debate, ou não tivesse o nacionalismo galego interesse em tudo que é progressista. O próximo livro que vou ler sobre esta matéria foi editado em português e tudo, parte do tal percurso de leitura: China, Ameaça ou Esperança? A realidade de uma revolução pragmática, de Xavier Garcia.

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