Nas últimas duas semanas, a inflação voltou a tornar-se um tema de abertura dos telejornais. Depois de um período em que deixou de estar tão presente no debate público, as notícias sobre a inflação voltaram a ganhar destaque. O motivo é a guerra mais recente: desde o final de fevereiro, os ataques aéreos dos EUA e de Israel sobre o Irão desencadearam um conflito cujo impacto já se faz sentir nas bombas de gasolina e que pode alastrar-se.
O impacto prende-se sobretudo com as consequências da guerra para os mercados energéticos. Embora o Irão seja responsável por apenas 4,5% da produção mundial de petróleo, o país controla o Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do petróleo e do gás natural comercializado a nível global. Ao impedir a passagem de navios pelo estreito, em resposta aos ataques, o Irão tem capacidade para provocar uma disrupção significativa na oferta de energia mundial.

Os impactos não demoraram a sentir-se: num mercado particularmente propenso ao pânico e à especulação, o preço do barril de petróleo (Brent), que rondava os $70 no início do ano, disparou em poucos dias e superou a barreira dos $100, tendo chegado a aproximar-se dos $120 antes de recuar parcialmente. Quanto ao gás natural, o preço de referência na Europa quase duplicou após o início do conflito, tendo subido de €30/MWh para cerca de €50/MWh. A subida foi alimentada pela decisão de suspender a produção em instalações no Catar (um dos países aos quais a União Europeia recorreu quando quis cortar as importações de combustíveis da Rússia).
Este episódio traz à memória a experiência da última crise energética, em 2022, quando a invasão da Ucrânia pela Rússia fez disparar os preços do petróleo e do gás nos mercados internacionais. Na verdade, este está longe de ser um fenómeno novo: antes disso, a última grande crise inflacionista na Europa, registada na década de 1970, também esteve ligada a choques do preço do petróleo. Como o petróleo é a principal fonte de produção de energia e a energia é um produto indispensável para alimentar a maioria das atividades económicas, um aumento do preço do petróleo repercute-se de forma significativa nos custos (e nos preços) da maioria dos produtos e serviços que consumimos.
Atualmente, o debate tem-se centrado na questão de saber se a guerra no Irão vai provocar uma crise inflacionista comparável à que atingiu as economias ocidentais após a guerra na Ucrânia. Tendo em conta a impossibilidade de prever a duração do conflito, há demasiada incerteza para fazer projeções sobre a evolução dos preços. Ainda assim, há um conjunto de lições a retirar da última crise inflacionista que ganham relevância no contexto atual, sobretudo tendo em conta que os riscos não se resumem aos conflitos militares.
Energia e não só
A subida dos preços do petróleo tem um efeito imediato sobre a carteira da maioria das pessoas. Isso acontece porque a cotação do petróleo influencia diretamente os preços dos combustíveis. Nesta semana, os preços da gasolina e do gasóleo subiram 4,3% e 11,5%, respetivamente, e receia-se que a próxima semana traga novos aumentos de preços. Ainda assim, é preciso ter em conta que os preços ainda se encontram longe do pico registado em 2022.
Nos preços do gás natural, verifica-se a mesma tendência. Embora o preço tenha aumentado de forma significativa, atingindo os €50/MWh, ainda se encontra bastante longe do pico registado em 2022, quando chegou aos €350/MWh. Javier Blas, analista da Bloomberg, nota que ao contrário de 2021-22, quando o petróleo, o gás, o carvão e a eletricidade encareceram em simultâneo e de forma acentuada, o conflito atual afeta um conjunto mais restrito de mercados e os aumentos registados (ainda) são bastante menos pronunciados. Ainda é cedo para saber se estamos perante oscilações temporárias ou uma tendência persistente de subida dos preços dos combustíveis, que será mais provável quanto mais tempo durar o conflito no Médio Oriente.
Ainda assim, além dos preços da energia, há outros impactos menos discutidos (mas não menos relevantes). É o caso dos fertilizantes: a produção dos produtos químicos usados na agricultura também está a registar uma quebra na produção face à escassez de gás natural (indispensável para a produção de amónia, o ingrediente base de muitos fertilizantes). Os preços dos fertilizantes já começaram a reagir nos mercados internacionais. Em Portugal, a dependência de importações de fertilizantes deixa o país inevitavelmente exposto à subida dos preços, com potencial repercussão nos custos agrícolas e, a prazo, nos preços dos alimentos.

Fonte: Bloomberg
Choques da oferta há muitos
A possível crise energética soma-se a outros choques que atingiram a economia portuguesa no início deste ano. A sucessão pouco comum de tempestades que assolou Portugal recentemente, com destaque para a depressão Kristin, acrescenta uma segunda dimensão a este quadro. Além da destruição de casas e das dificuldades para as pessoas nas regiões mais afetadas, as tempestades arrasaram estufas, pomares e olivais, destruindo colheitas de hortícolas e frutos. Várias culturas ficaram debaixo de água e, embora não se antecipe uma rutura de stocks, rapidamente se alertou para o risco de enfrentarmos preços mais altos nos supermercados, devido às necessidades de importação. As tempestades também abateram mais de 100 mil galinhas poedeiras, podendo provocar uma quebra significativa na produção de ovos.
Os danos provocados pelas tempestades são apenas o exemplo mais recente do impacto económico das alterações climáticas. Os fenómenos meteorológicos extremos - precipitação intensa, cheias ou secas prolongadas - têm-se tornado mais frequentes nos últimos tempos, com consequências diretas sobre a produção agrícola e, consequentemente, sobre os preços dos alimentos. Um estudo publicado por investigadores do Banco Central Europeu concluiu que, em 2022, as temperaturas-recorde do verão europeu aumentaram a inflação dos alimentos entre 0,43 e 0,93 pontos percentuais. Os investigadores alertam para que estes impactos se acentuem nas próximas décadas, com o aquecimento projetado para o continente a poder elevar a taxa de inflação dos alimentos até 3,2 pontos percentuais.
Um outro estudo publicado em julho do ano passado, que analisou variações de preços em 18 países entre 2022 e 2024, concluiu que “os picos de preços estiveram associados a fenómenos extremos de calor, seca ou precipitação intensa, vários dos quais tão extremos que ultrapassaram todos os precedentes históricos anteriores a 2020”. Os períodos de seca extrema contribuíram para disrupções na produção e na oferta de vegetais nos EUA, do café do Brasil ou do azeite de Itália e Espanha. Já as ondas de calor atingiram de forma severa a Índia e os grandes produtores de cacau (Gana e Costa do Marfim), ao passo que a precipitação intensa e as cheias tiveram impactos que vão desde a produção de batatas no Reino Unido à de alfaces na Austrália.
Em todos os casos, os preços dos produtos dispararam na sequência destes fenómenos. Na mesma linha, as tempestades recentes em Portugal geram riscos de aumento dos preços de vários alimentos, numa situação paralela à experiência dos preços do azeite, que dispararam em consequência dos períodos de seca intensa que assolaram o país em anos recentes.
O que aprendemos desde um Inverno passado
Embora o desfecho do conflito no Médio Oriente esteja envolto em grande incerteza, a experiência do último surto inflacionista, que começou em fevereiro de 2022, fornece-nos pistas sobre o que podemos esperar caso a crise energética se prolongue. Há pelo menos três lições a retirar: primeiro, os choques da oferta podem ser amplificados pelo poder de mercado das empresas; segundo, a política de subida das taxas de juro tem pouca utilidade para resolver as pressões inflacionistas; terceiro, a forma como medimos a inflação subestima o impacto na carteira das pessoas e, em especial, de quem ganha menos.
Começando pela primeira: durante o choque energético desencadeado em 2022, as cinco maiores petrolíferas cotadas do mundo – BP, Shell, Chevron, ExxonMobil e TotalEnergies – registaram lucros de $281 mil milhões e os dividendos distribuídos aos acionistas bateram recordes. Em Portugal, os lucros da Galp contrastaram com a crise do custo de vida que atingiu a maioria.
No artigo “Sellers’ inflation, profits and conflict: why can large firms hike prices in an emergency?”, Isabella Weber e Evan Wasner descrevem o papel das empresas no fenómeno inflacionista. Em condições normais, as empresas evitam aumentar preços de forma unilateral devido ao receio de perder clientes para vendedores que concorrem no mesmo mercado. No entanto, há períodos em que este cenário se altera. Quando um choque num período específico gera um aumento dos custos das empresas num determinado setor, se estas quiserem manter as taxas de lucro inalteradas, terão de aumentar os preços que cobram em simultâneo.
Neste contexto, como todas as empresas do mesmo setor aumentam os seus preços, nenhuma corre o risco de perder clientes para a concorrência. Além disso, o tipo de constrangimentos da oferta que se registaram nos últimos anos, amplamente noticiados pelos meios de comunicação e referidos pelas empresas, contribuem para a sensação de “legitimidade” das subidas de preços. Desta forma, estes choques acabam por aumentar de forma temporária o poder das empresas para aumentar os preços sem afastar clientes. Weber e Wasner resumem o surto inflacionista em três fases:
· Impulso: constrangimentos da oferta de matérias-primas essenciais para muitas atividades económicas dão às (grandes) empresas desses setores um poder temporário para aumentar preços;
· Propagação e amplificação: as empresas dos restantes setores procuram proteger (ou aumentar) as margens de lucro, aumentando os preços em simultâneo;
· Conflito: os trabalhadores procuram recuperar, pelo menos em parte, o poder de compra através da negociação dos salários.
Num contexto em que as taxas de sindicalização caíram para mínimos históricos e que a precariedade se generalizou, os trabalhadores têm muito menos poder para tentar proteger o seu poder de compra, ao passo que o poder das maiores empresas tem vindo a aumentar. A crescente concentração dos mercados num pequeno conjunto de grandes empresas, que facilita a coordenação (mesmo que implícita) dos aumentos de preços em contextos em que há constrangimentos na oferta, o que ajuda a explicar porque é que os lucros extraordinários se verificaram sobretudo em setores com características oligopolistas (energia, produção agro-industrial, grande distribuição, etc.).
Isso leva-nos à segunda lição: a experiência dos últimos anos sugere que, quando a inflação é gerada por este tipo de choques do lado da oferta, a política monetária tem pouca utilidade. Aumentar as taxas de juro, como aconteceu em 2022 e 2023 após o surto inflacionista, não só não resolve os problemas da oferta de matérias-primas como tende a penalizar sobretudo quem se encontra nos escalões de rendimento mais baixos (com maior peso da dívida sobre o rendimento) e a beneficiar credores e/ou detentores de ativos financeiros.
Por fim, os últimos anos também deixaram claro que os indicadores que tradicionalmente usamos para medir a inflação subestimam o impacto real sobre o custo de vida de quem ganha menos. Ao usar um cabaz que representa o padrão de consumo médio no país, o Índice de Preços no Consumidor não capta as diferenças nos padrões de consumo que variam consoante o rendimento. Assim, a inflação acaba por subestimar o peso maior que os bens essenciais (energia e alimentos) têm no orçamento das famílias de menores rendimentos. Além disso, ao não incluir custos como as prestações dos empréstimos à habitação, deixa de fora uma parte importante do custo de vida para muitas pessoas.
Independentemente do desfecho do conflito no Médio Oriente, o início de 2026 tem sido marcado por uma sobreposição de choques energéticos e alimentares que nos obriga a revisitar as principais questões que a última crise inflacionista já tinha colocado e para as quais a política económica continua sem dar resposta adequada.
O que se segue?
O cenário atual envolve riscos relevantes. Se os preços do petróleo se mantiverem elevados e se os danos provocados pelas tempestades se traduzirem numa subida do preço dos alimentos durante os próximos meses, Portugal pode enfrentar novas pressões sobre o custo de vida. E, como aconteceu nos últimos anos, os efeitos não se distribuem de forma uniforme: quem ganha menos e gasta uma percentagem maior do rendimento em bens essenciais paga um preço mais elevado.
A estratégia de combate à inflação tem de ser pensada em função das suas origens e não apenas dos seus sintomas. Propostas como a criação de stocks de reserva de bens alimentares e matérias-primas à escala internacional, que permitam aos países estabilizar a oferta e evitar oscilações excessivas dos preços, voltaram a estar em cima da mesa. Este tipo de reservas existe em vários países: além da conhecida reserva estratégica de petróleo dos EUA, países como a China ou a Índia possuem reservas de cereais (no caso chinês, existem também reservas de fertilizantes), enquanto o Japão possui reservas de arroz e a Polónia de manteiga. A constituição de reservas estratégicas permite aos países mobilizá-las em períodos de crise para estancar a escassez da oferta e mitigar o impacto sobre os preços de produtos essenciais.
No caso do petróleo, a Agência Internacional da Energia anunciou ontem a maior libertação de reservas de petróleo da sua história: 400 milhões de barris, mais do dobro dos 182 milhões libertados em 2022 após a invasão russa da Ucrânia, numa clara tentativa de conter os preços. Já em relação ao gás natural, os dados sugerem que as reservas europeias se encontram em valores bastante baixos, à semelhança do que já se tinha verificado em 2022 quando o conflito na Ucrânia gerou receios de que houvesse escassez e necessidade de racionamento.
Em todo o caso, a instabilidade recente reforça a ideia de que é necessário repensar o combate à inflação. Medidas que desincentivem práticas especulativas, como a introdução de impostos sobre lucros extraordinários, podem ajudar a impedir situações de aproveitamento por parte das grandes empresas, além de compensar os grupos mais afetados pela inflação. Além disso, acelerar a transição energética, através de investimentos nos transportes públicos e na melhoria da eficiência energética dos edifícios e da indústria, contribui para reduzir a vulnerabilidade à próxima crise energética. No caso de Portugal, além de reduzir a exposição a choques de preços, permite reduzir importações e melhorar o saldo externo. A sobreposição de choques neste início de ano é um bom pretexto para recordar que adiar respostas estruturais aumenta os custos que enfrentaremos na próxima crise.
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