É verdade, Flávio Gonçalves: “António Avelãs Nunes tem uma vasta obra, mas é um intelectual praticamente ausente do espaço público”. Entre os seus primeiros livros e alguns dos seus últimos, medeiam exatamente 52 anos de trabalho.
A razão para ausência é simples e expõe-se em três passos: permaneceu marxista, denuncia o “capitalismo do crime sistémico” e considera fundadamente que a alternativa ao socialismo é a barbárie.
É autor de uma obra que cresceu desde a jubilação, mostrando que todas as idades são produtivas, sobretudo quando se leva a sério a injunção do Padre António Vieira (de memória): “que o entendam os que não sabem, que tenham muito que entender os que sabem”.
Acabou de sair um livro de textos, escritos por outros ao longo do tempo, sobre a sua vida e obra – Retratos escritos de António Avelãs Nunes. Tenho a honra de participar, com um artigo que escrevi para a Vértice. Destaco a presença aí de intelectuais brasileiros de nomeada, de Celso Furtado a José Paulo Netto.
Entretanto, aposto que Avelãs Nunes sabe melhor do que eu o que teria de pensar e de escrever para ter uma forte presença no espaço mediático que passa por espaço público. Ser-lhe-ia demasiado fácil, no entanto, alinhar pela sabedoria convencional, ele que sempre a estudou.
Como disse memoravelmente Carmo Afonso: “A desdramatização daquilo que é dramático é uma modalidade nacional. Escrever deve servir para o contrário: dramatizar problemas para que outros sintam a energia que é precisa para os resolver”.
É de facto necessário dramatizar e ligar problemas, expondo um quadro geral, para que todos tenhamos a energia e a argúcia para ir dando os toques de política nos sítios que podem eventualmente ter impactos sistémicos.
Assim, um intelectual honestamente comprometido que se preze, que tome partido, não anda cá pelas facilidades, mas sim pela descoberta e sobretudo pela socialização das verdades simples, a que estão cada dia mais prenhes de implicações revolucionárias.
Como se fosse uma nota de rodapé
Em conjunto com o texto anterior sobre Vital Moreira, pretendo singelamente homenagear dois intelectuais públicos da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, professores catedráticos jubilados, com quem tenho aprendido.
Vêm de longe, com percursos intelectuais e políticos convergentes, incluindo na Vértice no tempo do fascismo e na revolução democrática e nacional, e divergentes a partir de certa altura, na contra-revolução neoliberal, como lhe chamou e bem Avelãs Nunes. Cada um à sua maneira, continuam a trabalhar afincadamente.


Sem comentários:
Enviar um comentário