quarta-feira, 4 de março de 2026
Viva Sánchez, viva Espanha
Clicando em «Ler Mais», uma tradução do discurso de hoje de Pedro Sánchez, na íntegra. Um discurso que deveria ser a voz da Europa neste momento, se esta quisesse levar a sério os tão proclamados 'valores europeus'.
Bom dia, queridos e queridas compatriotas.
Dirijo-me a todos vós para dar nota da crise que eclodiu no Médio Oriente, da posição do Governo de Espanha e das ações que estamos a levar a cabo. Como sabeis, no passado sábado os Estados Unidos e Israel atacaram o Irão, que por sua vez respondeu bombardeando de forma indiscriminada nove países da região e uma base britânica situada num Estado europeu, em Chipre. Quero antes de mais expressar a solidariedade do povo espanhol com os países ilegalmente atacados pelo regime do Irão. Desde então, as hostilidades têm continuado, ou mesmo aumentado, provocando centenas de mortes em habitações, escolas e hospitais. E também o colapso das bolsas internacionais e a interrupção do tráfego aéreo no Estreito de Ormuz, pelo qual passava, até há muito pouco tempo, cerca de 20% do total de gás e petróleo mundial. Ninguém sabe, ao certo, o que acontecerá agora. Nem sequer são claros os objetivos daqueles que lançaram o primeiro ataque. Mas temos de estar preparados, tal como dizem os responsáveis pela situação, para a possibilidade de esta ser uma guerra longa, com numerosas baixas e, portanto, com consequências graves também à escala global, em termos económicos.
A posição do Governo de Espanha face a esta conjuntura é clara e consistente. É a mesma que mantemos em relação à Ucrânia e também a Gaza. Em primeiro lugar, dizer não à quebra de um Direito Internacional que nos protege a todos, e especialmente aos mais indefesos, à população civil. Em segundo lugar, dizer não à assunção de que o mundo só consegue resolver os seus problemas com base em conflitos e bombas. E, finalmente, dizer não à repetição dos erros do passado. Em suma, a posição do Governo de Espanha resume-se a três palavras: «não à guerra».
O mundo, a Europa e Espanha já estiveram aqui. Há 23 anos, outra administração norte-americana arrastou-nos para uma guerra no Médio Oriente. Uma guerra que, em teoria, como se disse nessa altura, se destinava a eliminar as armas de destruição em massa de Saddam Hussein, levar a democracia e garantir a segurança a nível global, mas que, na realidade, vendo agora em perspetiva, produziu o efeito contrário, desencadeando a maior onda de insegurança que o nosso continente sofreu desde a queda do muro de Berlim. A guerra do Iraque gerou um aumento drástico do terrorismo jihadista, uma grave crise migratória no mediterrâneo oriental e um aumento generalizado dos preços da energia, e, portanto, também do cabaz de compras e do custo de vida. Foi esse o presente o trio dos Açores deixou aos europeus de então: um mundo mais inseguro e uma vida pior. É verdade que ainda é muito cedo para saber se a guerra com o Irão terá consequências semelhantes às do Iraque, se servirá para provocar a queda do terrível regime dos aiatolas no Irão ou para estabilizar a região.
O que sabemos, isso sim, é que desta guerra não vai resultar uma ordem mundial mais justa. Nem salários mais altos, nem melhores serviços públicos, nem um meio ambiente mais saudável. De facto, o que podemos perspetivar neste momento é uma maior incerteza económica e subidas do preço do petróleo e do gás. É por isso que estamos, em Espanha, contra este desastre, pois entendemos que os governos servem para melhorar a vida das populações, para encontrar soluções para os problemas, e não para piorar a vida das pessoas. E por isso é absolutamente inaceitável que os dirigentes que são incapazes de cumprir este objetivo usem a cortina de fumo da guerra para ocultar o seu fracasso e, nesse processo, encher os bolsos de alguns, os de sempre, os únicos que ganham quando o mundo deixa de construir hospitais para fabricar mísseis.
Neste contexto, o Governo de uma coligação progressista irá fazer o mesmo que fez em relação a outros conflitos e em crises internacionais. Em primeiro lugar, estamos a apoiar os espanhóis e as espanholas que se encontram no Médio Oriente e vamos ajudá-los a regressar ao nosso país, se for essa a sua vontade. Os Assuntos Externos e o Exército estão a trabalhar dia e noite para articular os dispositivos de evacuação. É evidente que estas operações são muito delicadas, pois o espaço aéreo da região não é seguro e pelo facto de a rede aeroportuária se encontrar gravemente afetada pelos ataques. Mas os nossos compatriotas podem ter a certeza de que vamos protegê-los e trazê-los de regresso a casa.
Em segundo lugar, o Governo espanhol está a estudar cenários e possíveis medidas para ajudar as famílias, os trabalhadores, as empresas e os trabalhadores independentes a mitigar os impactos económicos deste conflito, se necessário. Graças ao dinamismo da nossa economia e graças também à responsabilidade da política fiscal do Governo, Espanha dispõe neste momento dos recursos necessários para enfrentar, de novo, esta crise. Temos capacidade e também vontade política, e faremos isso em conjunto com os parceiros sociais, como fizemos durante a pandemia, a crise energética ou, mais recentemente, a crise tarifária.
Em terceiro lugar, vamos colaborar, como sempre fizemos, com todos os países da região que defendem a paz e o cumprimento do direito internacional, que são as duas faces de uma mesma moeda. Apoiando-os com os recursos diplomáticos e também materiais que se justifiquem. Vamos trabalhar com os nossos aliados europeus numa resposta coordenada e que possa ser verdadeiramente eficaz. E continuaremos a trabalhar para alcançar uma paz justa e duradoura na Ucrânia e na Palestina, dois lugares que não merecem ser esquecidos.
Por último, o Governo vai continuar a exigir o fim das hostilidades e uma resolução diplomática desta guerra. Quero deixar isto claro, porque sim, porque a palavra certa é exigir. Porque a Espanha é membro pleno da União Europeia, da NATO e da comunidade internacional. E porque esta crise também nos afeta, aos europeus e, consequentemente, aos espanhóis, devemos exigir uma solução aos Estados Unidos, ao Irão e a Israel, para que parem antes que seja tarde demais. Já o disse em muitas ocasiões e repito-o agora: não se pode responder a uma ilegalidade com outra, porque foi assim que começaram os grandes desastres da humanidade. Recordemos, antes do início da Primeira Guerra Mundial, em agosto de 1914, que alguém perguntou ao então Chanceler da Alemanha como tinha a Primeira Guerra Mundial começado. Ao que ele respondeu, com um encolher de ombros, "Quem me dera saber".
Muitas vezes as grandes guerras eclodem pelo concatenar de respostas que saem do controle por erros de cálculo, falhas técnicas ou acontecimentos imprevistos. E, portanto, devemos aprender com a História e não podemos jogar à roleta russa com o destino de milhões de pessoas. As potências envolvidas neste conflito devem cessar imediatamente as hostilidades e apostar no diálogo e na diplomacia.
E os demais, devemos atuar em coerência, defendendo agora os mesmos valores que defendemos quando falamos da Ucrânia, de Gaza, da Venezuela ou da Gronelândia. Porque a pergunta não é se estamos a favor dos aiatolas. Ninguém está. Desde logo, não está o povo espanhol e, claro, o Governo de Espanha. A pergunta é, pelo contrário, se estamos do lado da legalidade internacional e, portanto, da paz. Os cidadãos espanhóis sempre repudiaram a ditadura de Saddam Hussein no Iraque, mas não apoiaram a guerra do Iraque porque a consideravam ilegal, injusta e incapaz de oferecer uma solução real para quase todos os problemas que era suposto resolver.
Do mesmo modo, nós repudiamos o regime do Irão, que reprime e mata de forma vil os seus cidadãos, e em particular as mulheres. Mas ao mesmo tempo rejeitamos este conflito e pedimos uma solução diplomática e política. Alguns vão acusar-nos de ser ingénuos, mas o que é ingénuo é pensar que a solução passa pela violência. Ingénuo é acreditar que as democracias ou o respeito entre as nações emerge das ruínas. Ou pensar que o seguidismo cego e servil é uma forma de liderar. Pelo contrário, eu creio que esta nossa posição não é de nenhum modo ingénua, é coerente. E, portanto, não vamos ser cúmplices de algo que é mau para o mundo e que contraria os nossos valores e os nossos interesses, tolhidos pelo medo das represálias de alguém. Porque nós temos uma confiança absoluta na força económica, institucional, e também diria moral, do nosso país. Porque é em momentos como este que nos sentimos mais orgulhosos que nunca de ser espanhóis.
Estamos conscientes das dificuldades, mas também sabemos que o futuro não está escrito, que a espiral de violência que muitos já dão por certa é absolutamente evitável e que a humanidade ainda pode deixar para trás este fundamentalismo dos aiatolas e a miséria da guerra. Alguns dirão que estamos sozinhos nesta esperança. Mas isso também não é verdade. O Governo da Espanha está ao lado daqueles com quem tem de estar. Está com os valores que os nossos pais e avós consagraram na nossa Constituição. A Espanha está ao lado dos princípios fundadores da União Europeia. Está ao lado da Carta das Nações Unidas. Está ao lado do Direito Internacional e, portanto, da paz e da coexistência pacífica entre os países. E estamos também, além disso, ao lado de muitos outros governos que pensam como nós e de milhões de cidadãos e cidadãs em toda a Europa, na América do Norte e no Médio Oriente, que pedem que o amanhã não traga consigo mais guerra e mais incerteza, mas sim mais paz e mais prosperidade. Porque a guerra apenas beneficia alguns, e a paz beneficia-nos a todos. Muito obrigado.
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2 comentários:
Odeio o regime iraniano (e odeio o imperialismo americano). Mas começar por «antes de mais expressar a solidariedade do povo espanhol com os países ilegalmente atacados pelo regime do Irão», depois de se reconhecer que Israel e os EUA atacaram primeiro, é ver o mundo ao contrário. Há várias afirmações que poderia subscrever e distingo a posição do governo espanhol dos lambe-cus (passe a expressão, que está no limite do tolerável, mas que neste caso se justifica) que desempenham essa função noutros países europeus, incluindo o nosso, mas só por mal menor poderia apoiar quem começa assim. A minha primeira solidariedade vai para o povo iraniano barbaramente agredido pela mais poderosa potência da terra.
O Irão atacou países que albergavam bases americanas e por isso se puseram a jeito.
Um pais que é barbaramente agredido tem o direito de atacar bases do agressor.
A primeira solidariedade tem de ser para um país cobardemente atacado enquanto estava a negociar. O que quer que pensemos do seu regime.
Quem recebeu bases americanas sabia que isto podia acontecer.
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