terça-feira, 10 de março de 2026

Antifascismo, Vital


Quem lê este blogue desde 2007 sabe que sempre polemizámos com Vital Moreira, que se tornou o melhor representante que conheço do ordoliberalismo alemão em Portugal. A polémica nasce da intensa divergência doutrinária, que não impede o apreço intelectual, incluindo pelo profundo conhecimento de história da economia política, naturalmente. 

Hoje, quero precisamente sublinhar convergências em quatro planos: 

Na política externa – o caso das Lajes configura “um patente caso de ‘frete’ político a Washington contra o interesse nacional”, sem qualquer base legal. 

Na questão constitucional original, o que só por si lhe garante um justo lugar na história nacional – “É o momento de recordar o exaltante tempo do nascimento da Constituição. Pela primeira vez na nossa história constitucional, há deputados constituintes que podem celebrar meio século de vida da sua obra!”. 

Na admiração pela corajosa vida intelectual e política no fascismo, exemplo para tempos sombrios de resistência, tão bem rememorada – “Entrei na redação da Vértice na renovação da revista promovida por Joaquim Namorado – o seu principal animador nessa época – a partir do final de 1969”. 

E na partilha de pelo menos um escritor de referência – Carlos de Oliveira. Só no final do ano passado é que visitei a sua casa, em Febres, e pude ler ali um excerto, logo na entrada, de um informativo artigo, que depois li na íntegra na Vértice, da autoria de Vital Moreira. 

Este escritor neorrealista fez das relações sociais de produção e reprodução numa certa Gândara a sua geografia sentimental, destilada num texto onde não há uma palavra a mais, reescrita até à perfeição, como se tal fosse possível. 

Foi parte da descoberta integral: A Casa na Duna – edição original de 1943, mas reescrito posteriormente, como tanto do que escreveu – tornou-se desde o ano passado um dos meus romances de eleição. A prova é que já o ofereci mais do que uma vez desde aí, incluindo a um primo-melhor-amigo e a uma amiga que vivem em Salvador da Bahia, onde a comparação com Graciliano Ramos de Vidas Secas já foi feita. 

Haja economia política, cultura, antifascista. Haja Vértice, que continua a ser bem editada pela editora Página a Página, não se desiste, nunca se desiste.

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