quinta-feira, 20 de julho de 2017

Neoliberalismo diz-se ordoliberalismus em alemão


Vital Moreira insiste em distinguir o ordoliberalismo do neoliberalismo, acusando-me agora de superficialidade e recomendando uma entrada da wikipédia. Sem querer colocar a sabedoria das multidões em causa, creio que a entrada sobre ordoliberalismo referida não coloca em causa o que eu disse sobre este assunto – o ordoliberalismo é mesmo um ramo da frondosa árvore neoliberal desde a formação deste feixe de ideias económicas em movimento político nos anos trinta do século XX.

Aliás, eu já abordei este assunto aqui ou aqui anteriormente e não recebi nenhuma resposta. Insisto na ideia de que existem pelo menos três erros que Vital Moreira continua a cometer, tendo em conta o que se sabe sobre a história do neoliberalismo: reduz o neoliberalismo à Escola de Chicago, reduz a renovação do liberalismo, associada também a um maior reconhecimento dos mercados enquanto construção política, ao ordoliberalismo e confunde o ordoliberalismo com a totalidade da economia política alemã do pós-guerra.

Entretanto, e antes de tentar repor alguma ordem, creio que podemos avançar, sublinhando aquilo em concordamos e que de algum modo permite revelar a substância política deste debate: a integração europeia tem a sua economia política desde o início marcada pelo ordoliberalismo, que de resto influenciou a social-democracia alemã. Voltemos então à questão original, com meia dúzia de notas em modo de repetição.


Em primeiro lugar, estou cada vez mais confiante do acerto de historiadores do neoliberalismo, com sensibilidades políticas muito diferentes, e que têm sublinhado a importância do contributo ordoliberal para o neoliberalismo, com ampla evidência textual e organizativa: se considerarmos os dois grandes encontros intelectuais iniciais na formação do chamado “colectivo intelectual neoliberal”, o Colóquio Walter Lippman, realizado em 1938, em Paris, e o encontro fundador da Mont Pelerin Society, na Suíça, em 1947, sabemos que o contingente ordoliberal participa activamente nos dois, de Rustow a Eucken, passando por Roepke, sendo de resto Rustow um dos primeiros a usar o termo neoliberalismo.

Em segundo lugar, os ordoliberais partilham com os restantes neoliberais um diagnóstico comum sobre a natureza do inimigo, o que constitui um precário cimento inicial, dado que qualquer visão do mundo começa o seu movimento definindo-se pela negativa: o colectivismo de todos os partidos, as reacções desglobalizadoras em tempos de crise, contribuindo os seus membros para uma espécie de economia política dos chamados totalitarismos, ainda antes da Guerra Fria; uma economia política assimétrica, já que os socialismos e os reformismos em modo de New Deal e outras terceiras vias originais ditas intervencionistas, outros tantos caminho para a perdição, são sem dúvida os principais adversários, se atentarmos na consistência da crítica comum. No que aos fascismos diz respeito há muito mais ambiguidade e aqui e ali até saudação e colaboração.

Em terceiro lugar, é preciso notar que o neoliberalismo, como qualquer ismo, é internamente plural, sendo marcado por divergências pontuais sobre os meios de construir uma ordem de mercado e sobre a melhor forma de a justificar. Isto para já não falar dos debates metodológicos dentro e fora da economia política, num movimento transatlântico e trandisciplinar desde a origem. Este pluralismo é indissociável de uma visão do mundo ambiciosa, tal qual o socialismo. No entanto, todos partilhavam a ambição explícita, de Hayek a Friedman, passando por Eucken, de renovar o liberalismo económico, afastando-o de associações ao laissez-faire e a outros naturalismos. Os livros estão aí para serem lidos, incluindo notando a quem se agradece e quem se cita. Por exemplo, Milton Friedman num texto de 1951 reconhece que o Estado tem de ter grandes poderes para construir uma ordem de mercado explicitamente neoliberal. Hayek, que, vejam lá, até reservou o termo neoliberal para os seus camaradas alemães, faz grande parte do seu investimento intelectual depois de O Caminho para a Servidão, onde de resto já se confirma o que eu disse, na criação de uma armadura jurídico-política para a expansão de um certo tipo de capitalismo.

Em quarto lugar, o conceito de “economia social de mercado” não está no ordoliberalismo relacionado com o Estado-Providência, tal como os socialistas o entendem. Economia social de mercado é a tese de que uma economia capitalista concorrencial em expansão, bem ordenada juridicamente, produz as melhores consequências sociais. Isto não dispensa alguma política social dirigida, claro, ou o reconhecimento do papel dos sindicatos, desde que bem disciplinados pela concorrência e pelo poder capitalistas. Nestes pontos, os ordo não se distinguem de forma significativa de Hayek em A Constituição da Liberdade ou de Friedman em Capitalismo e Liberdade, que aliás os têm como suas referências, bastando não cair em caricaturas sobre o que se julga saber acerca das posições neoliberais sobre o papel do Estado. O mesmo se pode dizer da sua obsessão comum com uma política económica anti-keynesiana, constrangida por regras políticas, aplicadas em modo pós-democrático por instituições que destronem a democracia na economia e para lá dela, para usar uma fórmula famosa sobre este projecto.

Em quinto lugar, sendo a economia política alemã do pós-guerra influenciada pelo ordoliberalismo, esta versão do neoliberalismo nunca teve aí o monopólio da política pública, felizmente, em particular nos anos sessenta e setenta, quando o movimento operário conseguiu conquistas relevantes, como a co-gestão. Onde os ordoliberais inscreveram desde muito cedo a sua visão pós-democrática da economia foi na integração europeia, onde os freios e contrapesos sempre foram menores, dada a sua escala e os agentes que aí operam, mas neste último ponto estamos de acordo.

Em sexto lugar, é verdade que na Alemanha as viragens sucessivas de parte da social-democracia para a direita, digamos, foram em parte influenciadas pelo ordoliberalismo. Noutros países foram mais por outras variantes do neoliberalismo. Agora, qualquer social-democrata consistente só pode dar combate ao neoliberalismo alemão, o ordoliberalismo, de matriz retintamente anti-keynesiana e anti-socialista desde sempre, e aos que procuram esvaziar por dentro o que ainda há de socialista nos partidos socialistas, até que não reste nada de nada, ou seja, até que só restem os Gerhard Schroeders, ou os Jeroen Dijsselbloem que reduziram o partido do movimento a um apêndice das direitas.

20 comentários:

João Vasconcelos-Costa disse...

Confesso, caro João Rodrigues, que sofro do mesmo mal, não ser capaz de resistir a uma bengalada na asneira, principalmente se suspeito de desonestidade intelectual. Mas, vendo bem, quem liga hoje ao pobre Vital Moreira?

Filipe Martins disse...

Fico com a ideia de que, apesar de serem uma variação do mesmo, há uma diferença entre o «ordo» e o «neo», mas sem no entanto ficar a saber qual. Vai uma ajudinha?

Jose disse...

Tanta nuance em tantos pontos é pura confusão.
Tanto anti-keynesianismo com juros negativos impressiona!
Pôpr a co-gestão como algo fora do ordo, arrepia.

Se ao menos nos dissessem o que querem fazer com o socialismo, já era uma grande ajuda.

Anónimo disse...

Faz pena como alguém é capaz de coleccionar barbaridades com a desfaçatez do sujeito das 18 e 45.

Faz-lhe confusão a conversa que não seja de caserna ou que fuja ao "senso-comum" da tropa fandanga dos homens de negócios?
Çç
Talvez tenha sido por este primarismo idiota que foi convidado pelos seus pares como perito patronal?

E depois de lhe passar a fita das nuances duvidosas e a choraminguice sobre Keynes que abomina talvez seja útil relembrar-lhe que a desonestidade argumentariva vai se par com a fuga. Em co-gestao com nuances, embora se suspeite que isso lhe faça muita confusão à cabecinha

Anónimo disse...

A dúvida do sujeito que fica confuso sobre o que fazer com o socialismo... Coitado.

Em primeiro lugar chegar lá. E depois acabar com a exploração duns poucos sobre todos os demais.

Por exemplo, uma pequena medida. Impedir e julgar quem andou a saquear os ditos fundos sociais europeus. Sejam ou não pseudoperitos ou tubarões da finança e do capital

Anónimo disse...

Há alguns anos, num filme que se tornou um clássico, Amadeus, de Milos Forman, via~se um idiota de cabeça coroada fazer uma crítica à música de Mozart:

- Tinha notas a mais

Aí em cima um tipo qualquer queixa-se que os muitos pontos lhe fazem confusão.

Serão talvez demasiadas letras para a sua capacidade de entendimento?

Jose disse...

Sobre socialismo sabemos já tudo pelo das 20:57: «Em primeiro lugar chegar lá»

Desde o bolchevismo ao nacional-socialismo, sempre a mesma agenda, chegar lá!

O que fariam a seguir é um mistério já desvendado. Ditadura!

Anónimo disse...

Herr jose destrambelhou de vez.

Um slogan. Um escarro.

Entretanto onde a sua capacidade para compreender algo mais do que a mão estendida praticada no seu círculo de antanho?

Percebe-se que her Jose fique assim e fuja s todo o debate sério e analítico.

Prefere o pé de chinelo e o bolsar ideológico

Anónimo disse...

Mas será que me engano ou detecta-se entre o seu destrambelhamento o medo pelo facto do Capitalismo não ser já a vaca sagrada? Ser tao só a vaca a ser contestada pelo que representa de degradação e barbárie.

O algodão nao engana.

Anónimo disse...

O ordoliberalismo não é apenas o neiliberalismo falado em alemão. O ordoliberalismo tem componentes ideológicas que não tem nada a ver com o neoliberalismo anglo sáxonico e não resume tudo á dimensão económica. O ordolibrealismo que sofre influência ética do pietismo não é por exemplo incompatível com a presença dos trabalhadores nas administrações das empresas que ainda acontece na Alemanha enquanto que isso seria de todo impensável no quadro ideológico do neoliberalismo.

Anónimo disse...

O´ordoliberalismo é mesmo a versão do neoliberalismo utilizada na Alemanha.

Com as nuances próprias até convir ao patronato alemão

Carlos Sério disse...

mas o Vital Moreira merece algum crédito?

Jaime Santos disse...

Alguém fez notar que a interpretação de um texto ou de uma ideia diz mais sobre quem o/a interpreta do que sobre o próprio texto/ideia, o que é de algum modo uma banalidade. Também é este o caso desta brilhante peça de argumentação do João Rodrigues. Aquilo que vem ao de cima é, antes de tudo, o seu profundo anti-Liberalismo (coisa para a qual ele tem toda a legitimidade). Sucede que convém lembrar que Keynes era ele próprio um Liberal que teria provavelmente rejeitado (a acreditar na opinião do seu biógrafo Lord Skidelsky) o grau de intervencionismo que caraterizou o pós-guerra, e que ele já não viveu, e que existiu sempre um tráfico profícuo entre a Social-Democracia e o Liberalismo e que não remonta à aceitação pelos Social-Democratas de algumas das teses do ordo-liberalismo. Basta lembrar a rejeição pelo SPD da nacionalização da Economia, isto em 1959... Por isso, a sua oposição entre Socialismo de um lado e Liberalismo do outro, João Rodrigues, é no mínimo algo redutora. Mais, como bem nota, e se há muitos Liberalismos, também há muitos Socialismos, alguns profundamente antagónicos entre si, e por boas razões, não apenas pelas típicas tendências suicidárias da Esquerda. Mas, para quem o único programa económico aceitável à Esquerda é a estatização da Economia (com os resultados que se conhecem em todos os sítios onde esse programa foi aplicado, olhe para o caso mais recente da Venezuela), é natural que olhe para todos esses 'desvios' como meras traições...

Anónimo disse...

Típicas tendências suicidárias da esquerda?

Aposto que Jaime Santos está ainda a repetir as teses de Blair e de todos os seus muchachos pelo que representava Corbyn. Seria o fim do partido trabalhista e outras tretas do género.

Anónimo disse...

Mas há mais típicas tendências suicidárias da esquerda.

Sanders, que cometeu o verdadeiro suicídio de se proclamar "socialista" numa terra como os EUA.

E cuja candidatura democrata foi boicotada pelo aparelho do seu próprio partido.

Diziam as sondagens que ele estava em melhores condições do que Hillary para derrotar Trump

Depois foi o que se viu

Anónimo disse...

O tráfico entre os liberais e a social-democracia foi evidente.

Hoje podemos ver melhor o resultado de tal tráfico. E podemos ver onde está a maior parte das sociais-democracias que abandonaram a defesa dos que diziam defender. Quase que "só restam os Gerhard Schroeders, ou os Jeroen Dijsselbloem que reduziram o partido do movimento a um apêndice das direitas".

Quanto a Keines.

Impressiona que perante a qualidade dum texto como o de João Rodrigues , JS opte por se limitar a um acenar com Keibes. Para dizer que teria PROVAVELMENTE rejeitado (a acreditar na OPINIÃO do SEU BIÓGRAFO Lord Skidelsky) o grau de intervencionismo que caraterizou o pós-guerra, e que ele já NÃO VIVEU.

Parece que estamos ao nível das coscuvilhes pseudo-literárias.

Quanto ao "Keynes ser ele próprio um Liberal" . Mais uma vez se alerta para a necessidade de se ter cuidado com as leituras demasiado apressadas que se fazem. O jogo de espelhos tem sido sistematicamente denunciado aqui por JR. Keines era membro do Partido Liberal Britânico e definia-se como tal.Mas nada disso tem peso significativo na classificação de seu pensamento político.

Há muitas e muitas páginas em que se discute esta afirmação surpreendentemente tão taxativa de JS. O avolumar de teses conflituantes mostram precisamente que a questão não está encerrada ao jeito de Jaime Santos.

Por exemplo Michael Heilperin observa com sarcasmo: "Se [Keynes] era liberal, então era do tipo singular, daquele cujas recomendações práticas constantemente promoviam o coletivismo"

Anónimo disse...

Mas ainda mais surpreendente é a afirmação de JS sobre JR, "para quem o único programa económico aceitável à Esquerda é a estatização da Economia".

Podia-se dizer muita coisa sobre esta afirmação. Mas francamente "bocas" deste teor não merecem mais do que o desprezo que se deve conceder à mentira imbecil e idiota.

Seguido do desafio para demonstrar o que diz.

Sob pena de ser acusado de aldrabão e mentiroso

Anónimo disse...

Claro que a impotência no debate teórico e as aldrabices que polvilham o discurso de JS só podem mesmo ir parar aonde desemboca todo o discurso de JS quando se vê nestas alhadas:

À Venezuela. (Estranha-se como não tenha falado na Coreia do Norte).
Ora para este peditório já dissemos que já foi tudo dado.

Nem a Venezuela que nos querem impingir, JS e a imprensa, é a verdadeira Venezuela. Nem esta alguma vez foi a "estatizada" Venezuela.

Pelo que , pedindo desculpa a JS , se agradecia que se voltasse ao debate, abandonando assim esse nervoso miudinho que só encontra sossego montado num país da América do Sul.

(embora, ao lado, na Republica da Bolívia , a dívida externa pública seja 21% do PIB e onde o processo de desdolarização da economia tem sido levado mais longe).

Pelo que voltamos à "estatização da economia"...
Será que com essa absurda generalização, JS o que quer é defender as privatizações que tramaram o país e que deram origem a fortes e fartas e chorudas riquezas de meia dúzia de escroques nacionais e internacionais?

Anónimo disse...

Gostaria de protestar contra os comentários insultuosos que não ajudam em nada a esclarecer o que se debate. Infelizmente Portugal está cheio de policias ideológicos que pretendem resolver tudo à "bastonada".

Anónimo disse...

Contra os polícias ideológicos e contra os polícias dos polícias ideológicos.
Mas o que está certo é mesmo discutir tudo de forma aberta e sem complexos. Como o faz João Rodrigues que desmonta aqui (com uma enorme classe) os argumentos de Vital Moreira, apesar de ser certo que Vital Moreira não merece qualquer crédito como diz o nosso perspicaz amigo Carlos Sério.
Mas o que se há-de fazer? O debate é fundamental para se aquilatar das diferentes posições e este Blog é uma janela aberta, assumidamente alternativa ao discurso clássico do poder económico dominante.
Pelo que é melhor levar com alguns comentários mais calorosos do que censurar comentários como o fazem as nossas televisões e jornais.
Quanto a bastonada ainda não vi por aqui,ao contrário do que se passa lá fora, como a que ocorreu no complexo da Mesquita de al-Aqsa, na Cidade Velha de Jerusalém, onde as forças israelitas reprimiram com enorme violência os protestos contra as novas medidas de segurança. Pelo menos três palestinianos foram mortos.
E por aqui nem bastonadas nem gangues. Aleluia Irmãos