terça-feira, 31 de março de 2026

Numa frase


«A escola pública, em particular, vai-se transformando quase sem ruído, mas nem por isso de forma menos profunda. E é precisamente por isso que recuso a ideia de uma escola que, aos poucos, vá desistindo daquilo que lhe dá vida no essencial: a exigência, o debate e a construção do pensamento. É neste contexto que não pode ser ignorada a secundarização de José Saramago, o único Prémio Nobel da Literatura em língua portuguesa nas escolas. O debate em torno desta decisão não se resume à defesa de um autor ou do seu valor institucional. Trata-se, acima de tudo, de defender aquilo que a escola deve ser. E Saramago representa, como poucos, essa dimensão exigente: ler o que incomoda, pensar o que inquieta, desafiar-se a ver o mundo para lá da espuma dos dias».

Daniel dos Reis Nunes, Saramago e a escola que desiste de pensar

«Se podes olhar, vê. Se puderes ver, repara». Numa frase (em duas, na verdade) - e entre muitas outras possíveis - a razão pela qual se torna incompreensível a intenção de retirar José Saramago da lista de autores de leitura obrigatória no 12º ano. Reparem, aliás, naquele que é provavelmente mais um caso de gradualismo como método de ação política: antevendo as críticas, retira-se Saramago e coloca-se, em alternativa, Mário de Carvalho (escritor e antifascista, com ligação ao PCP). Depois é só deixar cair também este último e o processo fica concluído, atingindo-se assim, em modo suave, o objetivo pretendido.

Diz o ministro Fernando Alexandre que ainda nada está decidido e que a possibilidade de José Saramago deixar de ser leitura obrigatória no 12.º ano, «é absolutamente técnica». Esquecendo-se, porém, que não é a primeira vez que tenta transfigurar questões políticas em meras questões técnicas, como sucedeu - de forma clamorosa - no embuste que inventou (e que mantém, para dissimular o seu fracasso) em torno da falta de professores.

1 comentário:

Vitor Hugo Vieira disse...

Uma vez que temos tantos escritores nacionais com prémios Nobel, é difícil fazer a gestão de quais são dados no ensino do Português, por isso acaba por fazer sentido criar um sistema de rotação, em que durante umas temporadas Saramago faz parte das leituras obrigatórias, depois troca com outros detentores de prémio Nobel, como o ________ ou a __________ .