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Pude assim escrever um artigo de memórias presentes para o AbrilAbril sem ser contaminado pelo genérico e pela voz-off cativantes, pelas memórias de protagonistas centrais, pela riqueza das imagens de arquivo; estava tudo muito bem burilado.
O Portugal de 1986 é um país muito mais distante do que o imaginava, como se não tivesse reparado na transformação geral ocorrida, como se esta fosse uma segunda pele, simultaneamente comum e única.
Um dos primeiros planos mostra uma criança a engraxar sapatos, com um cigarro na boca. Sim, nem todos andávamos livres pelas ruas (“nunca universalizes a tua situação, João”; Pedro, ouves o eco do teu avô?).
Enfim, senti melancolia de esquerda, confirmando a grandeza de Álvaro Cunhal ou de Salgado Zenha ou de Ângelo Veloso. Fixei a expressão facial cética de Domingos Abrantes no último plano do seu franco depoimento.
E constata-se que há vencedores que sabem que perderam. É a forma que tenho de tentar colocar a única crítica em nota de rodapé: realmente, não lembra ao diabo acabar um notável documentário com Barreto/77, vulgo António Barreto, uma mediocridade reacionária, também responsável pelo estado a que isto chegou e que agora se lamenta, alimentando a impotência democrática.
No fim, é isto que tenho a dizer: obrigado, Ivan Nunes e Paulo Pena.


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