Sou suspeito, mas creio que a principal virtude deste artigo no Expresso, o que é logo um sinal, foi ter gerado esta resposta de Carina Castro e logo um debate necessário:
1. Achar que vivemos num terreno neutro em que as forças e os meios são comparáveis, em que a teia de valores e concepções dominantes são irrelevantes para a organização e intervenção políticas, seria de uma enorme ingenuidade além de poder conduzir a uma certa impotência e auto-flagelação;
2. Há uma esquerda cuja intervenção se faz não apenas por eleitos e “políticos profissionais”, mas através da sua imersão orgânica de forma transversal. Vivem como aqueles a quem se dirigem, não falam por procuração, não falam na segunda pessoa do singular ou do plural.
3. A semântica enforma ideias, não abdicar do rigor conceptual é também uma forma de resistência e elevação de consciência política. Os trabalhadores não são colaboradores.
4. Ao contrário do que certa caricatura possa fazer crer, não conheço intervenção de comunistas que use a propósito e despropósito conceitos clássicos. Desconheço que quando se mobiliza em torno do preço do gás de botija, se apele à consciência proletária para esse objectivo.
5. O mesmo quando se dinamiza a luta pelo centro de saúde, pela estrada degradada, ou sobre tantas outras matérias. Ainda que sempre haja bruxas, mesmo que não se acredite nelas: há quem ganhe e quem perca com as escolhas políticas. Injustiças, desigualdades, luta de classes, enfim.
6. Sim, como afirma a autora “toda a gente trabalha”, sim, somos mesmo a maioria social. Donde se infere que há um chão comum de consciência e por isso de potencial intervenção. Os mais de 3 milhões de trabalhadores que aderiram à greve geral contra o pacote laboral demonstram que o mundo se move, contra todas as evidências em contrário, e que a luta de classes se expressa nas contradições e na luta.
7. O contexto que enfrentamos tem factores e complexidades históricas, nacionais e internacionais, e não está de feição ao progresso. São tempos de resistência, mas não confundamos responsabilidades próprias com o que resulta da ofensiva.
8. Sim, há uma esquerda que sai do armário todos os dias. É com ela que contamos para transformar os dias que estão por vir.


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