sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Play it again, Sam


Na Economia não podemos dizer que a utilidade marginal de fornecer leite a crianças é maior do que a de um rico que degusta uma dose extra de caviar. Não é sociopata? Esta falta de moralidade é desenhada para prevenir a redistribuição. 
Samuel Bowles

Do fascista Vilfredo Pareto aos continuadores do neoliberal Lionel Robbins, sobre o qual já escrevi, a economia convencional é desenhada para favorecer a redistribuição de baixo para cima na pirâmide social, sendo a proibição de “comparações interpessoais de utilidade” uma injunção que contribui para esse propósito. 

O problema, claro, também está no utilitarismo, em geral. É a filosofia moral espontânea de correntes económicas que fraudulentamente se autodefinem como positivas, por oposição a normativas, esquecendo a lição da melhor e mais séria filosofia da ciência: factos e valores estão entrelaçados. 

Neste contexto, a abordagem das potencialidades de Amartya Sen e de Martha Nussbaum é uma boa alternativa para a avaliação social que vai à raiz dos problemas, sem relativismos. Mais tributária de Marx do que reconhecem, foi daí que parti para formular a hipótese humanista radical que não me canso de repetir: as pessoas fazem o melhor de que são capazes nas circunstâncias que são as suas e só a ação coletiva pode desenvolver capacidades e humanizar circunstâncias.

E, sim, Samuel Bowles é um sábio que fez concessões (e se calhar fomos demasiado críticos aqui ou ali), mas que tem explorado as fronteiras da ciência desde os anos 1960, tendo pago um preço ao ser expulso de Harvard. E isto apesar do seu currículo. Encontrou refúgio no Departamento de Economia da Universidade de Massachussets (Amhrest), que contribuiu para transformar numa referência de um certo pensamento económico crítico. 

Haja preferências endógenas, por exemplo, um dos meus artigos favoritos em Economia.

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