Chamo-lhe o método Cunhal, presente no mais importante ensaio político português do tão breve século XX que conheço: O Rumo à Vitória. Digam-me outro onde as questões democrática e colonial estejam tão bem entrelaçadas, onde a mais ampla unidade tenha sido tão frutuosamente procurada a partir da substância concreta da formação social portuguesa, sem esconder as clarificações necessárias, incluindo no que ao anti-imperialismo dizia respeito, por exemplo?
Sei bem o que eles querem hoje: em nome de uma pretensa unidade, querem garantir um aplanamento pelo social-liberalismo que nos conduziu até aqui, de Guterres a Costa e Carneiro, o que enviou cinco cartas sem resposta a Montenegro e que ameaça perder a paciência por isso.
São de um sectarismo social-liberal que os torna ignorantes. Não gosto de falar em geral. Vamos a um exemplo concreto, de um intelectual em concreto, um que nunca polemiza com nomes, mas com invenções, incluindo de Lénine, de cujo pensamento já se esqueceu, comprovadamente.
Denuncia agora Bebiano: “uma impossibilidade atávica para entender que, no mundo atual, o eixo da luta progressista, não é a luta de classes, o combate necessário contra o capitalismo e o neoliberalismo, mas o enfrentamento entre as forças da democracia, do progresso, da empatia, e quem espalha o rastilho do populismo, do medo, da violência e do autoritarismo.”
Consegue subescrever esta hipótese liberal em plena ofensiva de classe em torno do pacote laboral, à qual os trabalhadores responderam com uma Greve Geral, que, pela primeira vez em muito tempo, isolou social e politicamente as direitas.
É como se o seu idealismo o tornasse cego às realidades da ligação profunda entre o capitalismo realmente existente e os sintomas que denuncia.
Há método nisto. Há um método Rui Tavares: secundarizar a luta de classes na teoria e depois ir na prática a um piquete de greve durante o tempo que demora um direto para a televisão. Outros que organizem, atividade que não é para estes intelectuais, para isso têm os estúdios e os jornais da direita.
Reparai, entretanto, que mesmo um dos heróis de Bebiano, o historiador liberal Tony Judt, depois de passar parte da vida a atacar o marxismo francês, lá concluiu, tarde e a más horas infelizmente, que afinal era preciso denunciar em primeiro lugar algumas das taras do capitalismo e propor uma “social-democracia do medo” para lhes dar resposta.
Nem sombra de análise e proposta concretas na sua esteira encontrareis em Bebiano, dos comboios ao Estado social social, à lógica comunal de uma sociedade decente. Isto obrigaria no presente contexto a uma crítica da UE, por exemplo, um autêntico tabu.
Imaginai, porque eu não consigo, se o antifascismo histórico mais consequente tivesse deixado de colocar em cima da mesa, como temas absolutamente centrais, as questões de economia política e de política económica do país e do seu contexto internacional.


2 comentários:
É curioso que refira o pacote laboral proposto pelo governo AD, com apoio de liberachos e cheganos, contra o qual toda a esquerda é unânime (incluindo o "diz que tem qualquer coisa de centro-esquerda" PS). Não seria esta uma "bandeira" pela qual deveríamos lutar juntos?
Together we stand, divided we fall.
Claro que sim, anónimo. Esse é o ponto. Mas, para isso, temos de ter consciência da centralidade política da relação laboral, parte da mais vasta luta de classes. A minha crítica é a quem implícita ou explicitamente secundariza essa dimensão da vida material. Chame-se conflito social, se incomodar muito a formulação mais rigorosa.
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