Para lá de comunistas, social-democratas, católicos progressistas ou ecologistas a sério, o antifascismo pode e deve integrar liberais, tendo a vantagem de gerar uma cisão nesta tradição e de resgatar uma parte: a que compreendeu que a defesa das liberdades igualmente partilháveis e universalizáveis pressupõe um combate sem quartel ao antidemocrático capitalismo liberal, incluindo ao seu imperialismo de comércio “livre”.
Outra parte do liberalismo, como aconteceu no passado, bandear-se-á para o fascismo, depois de ser cúmplice objetiva: iniciativas liberais até dizer chega, no fundo. Hoje, o negacionismo climático é parte desse caldo. Pudera: o seu enfrentamento exige planeamento, confiança social e autoridade pública legítima e robustecida por instrumentos de política que nos faltam, bem como uma desconfiança em relação à chamada “tirania das pequenas decisões” mercantis, a que nos conduziu à maior falha dos mercados da história.
A parte que é pelas liberdades políticas e pela salvação da comunidade acima de tudo terá de acabar, se for consequente na esteira de John Maynard Keynes, por tornar-se “socialista liberal”, fórmula com um certo pedigree filosófico. Tem sido escrutinada por historiadores políticos e por economistas, enquanto historiadores da economia política, competentes, resolvendo puzzles importantes, mas criando outros, como toda a boa investigação que está por traduzir.
Como se fosse uma nota de rodapé
James Crotty (1940-2023), cujo último livro – Keynes Against Capitalism:
His Economic Case For Liberal Socialism – recomendo fortemente, foi um notável professor do Departamento de Economia da Universidade de Massachussets (Amherst), cruzando Marx, Keynes e Minsky para compreender macroeconomia do capitalismo realmente existente e os modos de o transformar.
O seu ponto de partida neste livro é mesmo uma definição de Keynes acerca do seu socialismo liberal: “quero dizer um sistema em que podemos agir como uma comunidade organizada com propósitos comuns”.
A relativamente jovem Isabella Weber, entre outras, continua aí corajosamente a tradição económica crítica, como se vê no debate sobre o necessário controlo de preços sistemicamente relevantes.
É uma das que dá luta à sabedoria económica convencional absolutamente imprestável, mas com o poder que é lhe é dado pelo dinheiro concentrado e pelo entrincheiramento no topo da profissão. Validade não é sinónimo de poder, feliz ou infelizmente. Está a escrever um livro sobre a economia antifascista.


Sem comentários:
Enviar um comentário