Com ironia, Sérgio Godinho chegou a dizer que “só neste país é que se diz só neste país”. Quando ouço insultos racistas na televisão penso, pensamos: em que país é que nos estamos a transformar? Mas depois corrigimos, corrijo: isto não é o país. Esta afirmação é meio diagnóstico e total desejo.
Fico sempre muito incomodado com quem, sendo de esquerda, generaliza a partir destas amostras, acabando a exibir um mortífero pessimismo antropológico, típico de todos os elitismos, em relação aos nossos compatriotas. Esquecem que o racismo tem origem em cima, numa oferta política com um propósito de classe, servindo para dividir a classe trabalhadora.
Entretanto, penso nos antifascistas em circunstâncias infinitamente mais difíceis do que as nossas, penso em Maria Lamas, por exemplo: olhar e ver as mulheres do seu país, com realismo e esperança.
Penso que precisamos de luz, de fazermos um esforço, contra todas as evidências em contrário, para sermos solares no que fazemos e escrevemos e ensinamos e filmamos e pintamos e tudo. Precisamos de queridos meses de agosto, de mil e uma noites, de esperança, de um povo que se atira ao mar no inverno, de artistas corajosos como Miguel Gomes, um dos que tomou posição em Berlim contra o genocídio do povo palestiniano. Ele vem-me sempre à cabeça quando estou nestes preparos antinocebo.
E que contraste com um cinema cada vez mais reacionário. Felizmente, também temos a obra e o exemplo de João Canijo, ele que fez da tantas vezes desprezada peregrinação a Fátima um gesto/gesta tão humano, que falou da aprendizagem do amor com mulheres extraordinárias de tão comuns que eram, tanta falta faz quem filmou mulheres com garra como ele, a começar por Rita Blanco.
Sim, isto está tudo ligado, é uma das virtudes do antifascismo, enquanto gesto cultural e logo político: dá-nos a ver as ligações.

Sem comentários:
Enviar um comentário