Única voz no espectro partidário português a pronunciar-se sobre o estrangulamento assassino dos EUA sobre Cuba. [PCP] Bem. Espero que este silêncio seja tão condenado e criticado quanto outros.
André Saramago é professor de Relações Internacionais (RI) e é um estudioso sério, mantendo exemplarmente as esferas separadas, mas ligadas, porque somos sempre a mesma pessoa na vida académica e na vida cívica. Sim, sou parcial em relação aos amigos, mas procuro ser objetivo, procuro comparar.
Se a economia convencional opera como se estivesse fora do tempo e do espaço, as RI convencionais parece que operam por cá como se tivéssemos de estar eternamente amarrados à década de 1990 e a um espaço político confinado, que vai sempre de Washington a Bruxelas, cidades centrais na esgotada imaginação da elite periférica.
Tive, entretanto, a felicidade de apresentar um dos seus livros em 2024, infelizmente ainda por traduzir. Lá está, ler e aprender é ganhar tempo. Fui recuperar notas tiradas para a ocasião.
Trata-se de uma defesa da inevitabilidade das grandes narrativas, orientações para compreender o sistema internacional, contra a sua diluição pós-moderna. Esta é filha da hegemonia incontestada e até invisibilizada da grande narrativa imperial, Made in USA, dos terríveis anos 1980 em diante.
É retrospetivamente impressionante como tanta tralha pseudo-crítica se acumulou nas ciências sociais e humanas, tomando o aparente quietismo desta hegemonia por garantido. Aprender também é saber largar ideias.
O ponto de partida de André Saramago é a teoria crítica de orientação cosmopolítica, herdeira de certas luzes. O seu ponto de chegada é o iluminismo radicalmente internacionalista, partindo da reinterpretação corajosa da obra de Domenico Losurdo, um marxista criativo, contra modismos desmobilizadores. É um trabalho de síntese criativa, da melhor erudição; leve, como deve ser tudo o que é cuidadosamente pensado.
De resto, a teoria crítica tem de ser educada pela prática, pelo “duro teste do desenvolvimento” (Deng), pelas dores de parto de um mundo multipolar, de que a China, em cuja defesa me lancei na altura, dadas as notas que tirei, é o mais luminoso sinal nestes tempos tão sombrios. A China, que me lembre, não é mencionada, o livro é mesmo de teoria, mas é como se conseguisse destilar a prática emergente.
Este é de facto um tempo onde monstruosos perigos coexistem com emancipadoras potencialidades, cujo poder se calhar subestimamos, e isto para prolongar uma formulação com pergaminhos numa certa tradição. Este livro ajuda a pensar teoricamente e não há outra forma de pensar.


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