quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Para superar a melancolia de esquerda

O historiador Enzo Traverso identificou e valorizou um feixe de emoções e de sentimentos políticos, sobretudo presente no marxismo depois de 1989, que designou por “melancolia de esquerda”. Implicando uma visão da história despojada de qualquer vestígio teleológico, de qualquer crença no progresso imanente, esta melancolia não é nova e perpassa ocultamente a esquerda revolucionária. Estas emoções prevalecem em certas conjunturas históricas, marcadas pela derrota e pelo reconhecimento introspetivo de perdas mais ou menos irreparáveis, constituindo em si mesma uma tradição por resgatar. Trata -se, então, de refletir não apenas sobre a derrota do socialismo, ou sobre o lastro deixado pelo correlativo triunfo, já com décadas, da variante neoliberal de capitalismo, mas também sobre a forma como estes dois processos articulados na economia política internacional mudaram a relação entre memória, história e ação política num campo ideológico particular. 

Traverso argumenta que a melancolia de esquerda pode ser necessária para resgatar uma certa memória letalmente ameaçada do socialismo, embora se foque mais na rememoração da sua dimensão utópica do que nas suas concretizações e efeitos reais. Sem esquecer os tão enfatizados e tantas vezes descontextualizados crimes, cometidos em nome do socialismo, é preciso não obliterar os seus hoje menos enfatizados feitos e efeitos internacionais. Como Traverso de resto reconhece, os “fantasmas que perseguem a Europa hoje em dia não são os das revoluções do futuro, mas os das derrotadas revoluções do passado”.

Na sua análise, navegando entre memória e história, Traverso omite a tradição social-democrata ocidental, igualmente atravessada por um olhar melancólico sobre o passado perdido, em particular sobre os “trinta gloriosos anos” das chamadas economias mistas ocidentais, num contexto histórico marcado pela Guerra Fria. Aqui, podemos dizer que os fantasmas que perseguem a Europa, mas também os Estados Unidos da América (EUA), não são os das reformas do futuro, mas os das derrotadas ou ameaçadas reformas do passado, isto se a palavra reforma não tivesse sido capturada pelo neoliberalismo há várias décadas. A ponte entre as tradições marxista e social-democrata pode ser feita pela obra de Eric Hobsbawm. [referências omitidas]

O resto do artigo pode ser lido na Revista Estudos do Século XX, desenvolvendo alguns dos argumentos já esboçados em O neoliberalismo não é um slogan. É uma espécie de síntese do que tenho aprendido com alguns historiadores mortos e vivos, sobretudo depois de ter tido a felicidade de integrar, vai para uma dúzia de anos, o núcleo de história de uma faculdade de economia e de outras três ciências sociais, gestão, relações internacionais e sociologia. Têm-me dado liberdade para ser indisciplinado no ensino e na investigação. 

2 comentários:

Anónimo disse...

Olá João,

Obrigado pelo artigo. Seria interessante um outro, ou uma reflexão mais curta aqui no blog, sobre se a China poderá, num futuro breve, ter um papel nesta quebra da melancolia à esquerda ou não.

Abraço

João Rodrigues disse...

Obrigado pela sugestão. Vou pensar no assunto.