quarta-feira, 9 de março de 2011

Dividir para reinar

A era neoliberal dos últimos trinta anos constitui um recuo de enormes proporções face às aspirações de viver num mundo decente. Na generalidade das economias industrializadas - e também em Portugal -, a repartição funcional do rendimento desequilibrou-se sistematicamente em favor do capital e em detrimento do trabalho. Em termos reais e apesar dos ganhos de produtividade que se registaram entretanto, os salários encontram-se estagnados há três décadas em numerosos países, e em todo o lado cresceram menos do que os rendimentos do capital. O Estado social vai sendo progressivamente desmantelado, com a alegação da pretensa superioridade organizativa do sector privado e as pressões austeritárias a constituírem as tenazes através das quais direitos tão básicos como a saúde e a educação são entregues à lógica da mercadorização e da exclusão dos que não têm capacidade para pagar. Generaliza-se a precariedade dos vínculos laborais. Reduzem-se ou eliminam-se até mesmo os mais tímidos mecanismos redistributivos, como o rendimento social de inserção ou o abono de família.

Mas não se pode esticar a corda indefinidamente. O crescimento exponencial do crédito ao consumo, sobretudo à habitação, permitiu disfarçar a expropriação e mitigar o descontentamento durante algum tempo – mas tal como o sol não se tapa com a peneira, também a desigualdade não se resolve através do crédito. Agora, ao esgotar-se a possibilidade do recurso generalizado ao crédito enquanto mecanismo temporário de acomodação das tensões sociais, estas agudizam-se – nas ruas, nos locais de trabalho, na batalha das ideias. Aumentam a indignação e a mobilização populares e, com elas, as esperanças de um movimento generalizado de resistência à barbárie.

Ao mesmo tempo, surgem também as tentativas de deflectir a indignação e a revolta para alvos que assegurem a manutenção do status quo: os imigrantes, que supostamente estão na origem da deterioração da situação dos nacionais; os funcionários públicos, que supostamente gozam de regalias indevidas; as gerações mais velhas, que supostamente quiseram tudo e enquistaram nas posições alcançadas. Dividir para reinar: nacionais contra estrangeiros, trabalhadores do sector privado contra funcionários públicos, precariado jovem contra as gerações anteriores.

Conhecemos a estratégia e não nos deixamos enganar por ela. Jovens precários, desempregados, imigrantes, funcionários públicos ou trabalhadores em geral, a nossa luta é a mesma: contra a desigualdade, contra o abuso, por uma sociedade decente. Se temos um inimigo, são as elites medíocres que beneficiam deste estado de coisas e os ainda mais medíocres apaniguados que articulam o discurso que convém a estas. Por isso estaremos na rua no dia 12 e, depois, no dia 19. E não pararemos por aí.

(Imagem retirada de http://oblogouavida.blogspot.com/ )

9 comentários:

Jorge Martins disse...

Assino por baixo. Aliás, está na linha de um texto da minha autoria, publicado numa série de três "posts" que coloquei no blogue da APEDE (Associação de Professores e Educadores em Defesa do Ensino), em Novembro de 2010:

http://apede08.wordpress.com/2010/11/page/2/

Anónimo disse...

Estive nas manifestações do 25 de Abril e do 1º 1º de maio. Lá estarei novamente. Porque precários, hoje, somos todos.`

Andre Silva

one hundred trillion dollars disse...

A nossa luta é a mesma?

Ó pá eu luto pela manutenção dos meus previlégios ADSE progressão na carreira até aos 2500 euros

Ficar de papo pró ar sem fazer nenhum todo o Santo Dia

Chegar só às 11horas ao serviço

e às 11h 55minutos às 2ªs

Se a vossa luta é a mesma ka minha
quem é que vai trabalhar neste país?

GOD is writing in watermelons disse...

Vão com Deus para a luta

mas levem carro que deus não os traz de volta


DIZ CURSO PRÉ RESIDENCIAL-BUT I HAVE A TALENT, A BEAUTIFUL THING -OBRIGADO PELA AMIZADE
I'm nothing special, in fact I'm a bit of a bore

-BUT I HAVE A TALENT, A BEAUTIFUL THING

'Cause everyone listens when I start to sing

I'm so grateful and proud

All I want is to sing it out loud

não me ponham microfones a gravar os IPs de quem
envia massagens ao presidente

Anónimo disse...

Assistimos à falência do modelo social que afinal era apenas um modelo artificial baseado em dívida, e estes gajos falam do neoliberalismo. .. cego até morrer.

Anónimo disse...

Também assino por baixo.
Conforme tenho estado em muitas outras manifestações estarei nesta em que a luta não é só dos precários mas de todos nós os que pretendem ter um país melhor e mais solidário, em que os cidadãos tenham uma vida mais digna e se orgulhem de ser Portugueses.

linkwheel disse...

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