quarta-feira, 2 de março de 2011

A austeridade é necessária para Portugal sair da crise? II

Por que é que se tenta discutir os nossos problemas fingindo que é possível compreendê-los e resolvê-los sem considerar e alterar esta perversa configuração europeia?

Do regime de crescimento económico anémico, que pressiona as finanças públicas, à inserção económica dependente, que se traduz num elevado endividamento ao exterior, uma parte fundamental dos nossos problemas chama-se euro disfuncional. Trata-se de uma moeda sem governo económico com a mesma escala, capaz de instituir políticas de combate à crise e de relançamento, em especial nas suas mal apetrechadas periferias. Neste contexto europeu, e com este ou outro governo de liberal submissão aos interesses dos "nossos parceiros", estamos condenados a um definhamento socioeconómico que só agravará o problema da dívida.

Por que é que quem apoia a austeridade, nunca apoia as políticas de austeridade realmente existentes?

Portugal imita, em 2011, a Grécia e a Irlanda: a austeridade já não é a conta gotas. A torneira abriu-se e a história repete-se. Os economistas pré-keynesianos ganharam politicamente em toda a linha. O refúgio na retórica vaga da "gordura do Estado" é uma fuga à ética da responsabilidade. É evidente que nenhum espírito isento discordará do combate ao desperdício, aos grupos económicos que parasitam o Estado e fogem às suas responsabilidades fiscais ou ao cancro da economia informal. No entanto, as politicas de austeridade exigidas pelos "mercados" e pelas "estúpidas" regras dos pactos europeus implicam em todo o lado fazer cortes abruptos, injustos socialmente e contraproducentes economicamente.

Por que é que a lógica intrínseca e as consequências inevitáveis das políticas de austeridade não são enunciadas?

Estamos já em plena política à FMI, mesmo que sem uma das variáveis, a desvalorização cambial, que tornou no passado estas políticas menos destrutivas. Neste contexto, vários estudos, incluindo do próprio FMI, reconhecem que a austeridade é sempre recessiva. Os cortes nas despesas sociais e nos serviços públicos, os cortes salariais na função pública e o aumento do desemprego, que se segue à compressão da procura, aumentam o medo na economia, levando à aceitação de cortes salariais no sector privado e, com as alterações regressivas da legislação laboral associadas, a uma diminuição do poder da esmagadora maioria dos trabalhadores. Esta é a inconfessada economia política da austeridade.

O resto do meu contributo para a segunda ronda do Frente a Frente sobre austeridade pode ser lido no blogue Massa Monetária do Negócios. O contributo de Álvaro Santos Pereira também.

12 comentários:

Anónimo disse...

Porque é que dizes que "estamos condenados a um definhamento socioeconómico que só agravará o problema da dívida"?

Explica-me como se eu tivesse 6 anos. Quem está condenado? Porquê? Como? A UE está contra PT? A UE deixou de ter dinamismo económico? Estás assustado com a Estónia e tens orgulho em PT? Falta-te alguma coisa para teres uma boa vida? Será que tudo tem que ser lido catastroficamente? Consegues dormir?

Anónimo disse...

Só mais uma coisinha. Porque é que a discussão acerca da austeridade ou da falta dela (o que quer que isso queira dizer) tem que ser binária? Ou seja, porque é que tens que ser ou a favor ou contra, quando toda a gente sabe que isso é impossível? Parece que vivemos num mundo quadrado... e os políticos sabem-no bem - a oposição nem pia em relação à austeridade. Que país da treta, com comentadores de cenário à sua imagem...

Ricardo disse...

O sistema está viciado nas suas bases e toda a discussão acaba em retórica interminável,os pobres porque sofrem a austeridade obviamente estão contra,os ricos porque beneficiam do sistema dizem amen,e depois temos um mar de gente que anda a favor ou contra o vento.O edificio está construido na areia mesu amigos...

(http://www.zeitgeistportugal.org/capitulo )

Anónimo disse...

De Zé T. (em Luminária)

Dos ''mercados/BANGSTERs'' gananciosos ao ''PÃO-e-CIRCO'' desmobilizador da UNIÃO dos Cidadãos, Governos e U.E.


Com ou sem FMI+ FundoEuropeu alguns aspectos a fixar:

- Quem assina o empréstimo e o ''acordo'' é o governo +A.R. (que o valida), que toma as decisões/medidas .

- As medidas serão sempre e cada vez mais custosas, e a ''doer'' mais para uns do que para outros (sendo claro que os que nada têm, nada perdem; os que têm muito têm formas de o esconder sob esquemas ''legais'' de fuga ao fisco ou em empresas/contas offshores;
restam os pagantes, aqueles que têm alguma coisa - classe média e suas subclasses, principalmente os trabalhadores por conta de outrém, os a ''recibo verde'', os reformados, os pequenos empresários, naquela parte do negócio em que não puderem fugir ao fisco).

- Os ''mercados'' i.e. os especuladores, os ''BANGSTERS'' (gangsters e piratas financeiros), vão continuar a querer ganhar mais dinheiro e vão continuar a especular, comprar e vender, a jogar /alimentar o seu ganancioso vício sanguinário,
seja com títulos de ('tesouro' de) estados ''soberanos'', seja com 'bonds'/obrigações, seguros, moedas ( € £ $ ...), metais, petróleo, alimentos, medicamentos, guerras ... não tendo em consideração éticas, políticas, povos, estados, ...

- Os ''mercados/bangsters'' são piores que vampiros, sem pátria nem lei ... e fazem sangue, sangue, sangue, dor, dor, dor, ... enquanto ninguém se LHES OPÔR com força suficiente.

- E é aqui que verdadeiramente se deve atacar (pois os ''remendos''/pensos'' dos PEC, austeridades e empréstimos, não curam a ferida e levam-na à gangrena !!), mas para isso é necessário muita força/vontade política, é necessária Diplomacia e UNIÃO, especialmente daqueles que mais são atingidos pela ''crise'' dos ''Bangsters/mercados'' e pela Injustiça.

- União no Mundo (ONU, CS, OCM, ...) e/ou nos grandes blocos regionais OCDE, União Europeia, G20, G8, ...

- União nos países/estados da UE, principalmente os mais atingidos da 'Eurolândia' e os que o irão ser a seguir: GIPS + Itália, Bélgica,...+ Bálticos, Leste, ...

- União dentro de cada país (em torno de partidos/ movimentos/ sindicatos/ associações cívicas, independentes, eleitores...) que exijam políticas e medidas que favoreçam o Emprego e a Comunidade, que combatam os ''mercados/Bangsters'', os ''offshores'' e a fugas ao Fisco, a Fraude, a Corrupção, o Nepotismo e a falta de Transparência, ... e a Injustiça.

- União dos cidadãos em torno das grandes questões político-económicas, rejeitando quem os quer anestesiar com ''pão-e-circo'', com tricas, com técnicas esquemas particularismos/ preciosismos que levam à desmobilização e à desunião.

Pedro Veiga disse...

Os "mercados" são hoje considerados como autênticos deuses. Por isso cabe perguntar: quem são os "mercados"? Por que razão estamos hoje aparentemente mais dependentes dos "mercados" do que há 20 ou 30 anos atrás? Por que razão os países europeus possuem equipas de políticos dirigentes sem poder suficiente para mudar o rumo das nossas economias?
Provavelmente somos hoje governados mais pelos interesses das multinacionais do que pelas equipas de governos democraticamente eleitas. Assim se compreende o fraco papel dos nossos políticos na contribuição para a resolução dos problemas económicos de um país, ou mesmo, de uma região do globo.
Perante este cenário penso que as nossas democracias estão em perigo. Estão ameaçadas de morte. Se as dificuldades económicas conduzirem muitos países à bancarrota e ao desemprego galopante facilmente um louco totalitário poderá tomar conta disto. E aí a história se repetirá.
Será que esta cambada de políticos que nós elegemos não está atenta aos sintomas de desequilíbrio social que são já tão evidentes nos países periféricos? De facto, já estamos com alguma "insuficiência cardíaca" na democracia e estes sinais de “insuficiência” deveriam ser bem interpretados…

Franguska Rafaliska disse...

implicam em todo o lado fazer cortes abruptos, injustos socialmente e contraproducentes economicamente.

Não necessariamente

cortar em medicamentos desnecessários e em exames de rotina não são injustos para ninguém excepto para algum desemprego induzido na índustria dos exames e na venda de equipamento médico

e secundáriamente na índústria dos brindes

curiosamente o nimed (nimesulide) e o ibufreno
e tantos outros princípios activos de consumo regular em caixas cujas sobras enchem os caixotes de lixo

se podiam cortar nas comparticipações com melhoria no nível de vida dos consumistas

Franguska Rafaliska disse...

e há tanto onde se pode cortar

desde messes de oficiais transformadas em clubes de reformados com o desaparecimento e redução das unidades tácticas
a....fraudes nos fornecimentos de autarquias com incrementos de 30 e 100%

Será que tudo tem que ser lido catastroficamente? Pois.....
basta passarem a comer menos do estado e com mais qualidade

Anónimo disse...

Ou então simplesmente podemos ler este texto como advocacia primária de um governo europeu subordinado às incapacidades da periferia. Em que é que isto é melhor que um governo subordinado às capacidades do centro? Não há favorecimento em ambos os casos?

Essa mania de procurar culpados externos envieza qualquer análise séria das coisas.
Luís

rui fonseca disse...

Mas que pergunta!

A austeridade não é necessária para sair da crise.

A austeridade é necessária para reduzir o crescimento da dívida.

A redução do crescimento da dívida é necessária porque as dívidas não crescem até ao céu.

Elementar, caro João Rodrigues.

الرجل ذبح بعضهم البعض ولكن الخيول باهظة الثمن disse...

e para começar a amortizar a dívida?


disso nem se fala

pode ser que um meteorito resolva o problema

daqui a 50 anos poucos são os que estão por cá

é a lógica da 1ªres púbica

Anónimo disse...

O franguska e o Rui Fonseca dão um bom contributo. Não há um enorme desperdício no nosso estado? É tudo redistribuição de riqueza... Santa ingenuidade... A comissão para o imaterial também. O que faria se fosse para diagnosticar o património material do estado.


Jorge Rocha

linkwheel disse...

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